Á entrada para o hyppodromo, abertura escalavrada n'um muro de

quintarola, o phaeton teve de parar atráz do dog-cart do homem

gordo--que não podia tambem avançar porque a porta estava tomada pela

caleche de praça, onde um dos sujeitos de flor ao peito berrava

furiosamente com um policia. Queria que se fosse chamar o sr. Savedra! O

sr. Savedra, que era do Jockey-Club, tinha-lhe dito que elle podia

entrar sem pagar a carruagem! Ainda lh'o disséra na vespera, na botica

do Azevedo! Queria que se fosse chamar o sr. Savedra! O policia

bracejava, enfiado. E o cavalleiro, tirando as luvas, ia abrir a

portinhola, esmurrar o homem--quando, trotando na sua grande horsa, um

municipal de punho alçado correu, gritou, injuriou o cavalleiro gordo,

fez rodar para óra a caleche. Outro municipal entrometteu-se,

brutalmente. Duas senhoras, agarrando os vestidos, fugiram para um

portal, espavoridas. E atravez do reboliço, da poeira, sentia-se

adiante, melancolicamente, um realejo tocando a _Traviata_.

O phaeton entrou--atraz do dog-cart, onde o homem gordo, a estoirar de

furia, voltava ainda para traz a face escarlate, jurando dar parte do

municipal:

--Tudo isto está arranjado com decencia, murmurou Craft.

Diante d'elles, o hyppodromo elevava-se suavemente em colina, parecendo,

depois da poeirada quente da calçada e das cruas reverberações da cal,

mais fresco, mais vasto, com a sua relva já um pouco crestada pelo sol

de junho, e uma ou outra papoula vermelhejando aqui e além. Uma aragem

larga e repousante chegava vagarosamente do rio.

No centro, como perdido no largo espaço verde, negrejava, no brilho do

sol, um magote apertado de gente, com algumas carruagens pelo meio,

d'onde sobresahiam tons claros de sombrinhas, o faiscar d'um vidro de

lanterna, ou um casaco branco de cocheiro. Para além, dos dois lados da

tribuna real forrada de um baetão vermelho de mesa de Repartição,

erguiam-se as duas tribunas publicas, com o feitio de traves mal

pregadas, como palanques d'arraial. A da esquerda vasia, por pintar,

mostrava á luz as fendas do taboado. Na da direita, bezuntada por fóra

d'azul claro, havia uma fila de senhoras quasi todas de escuro

encostadas ao rebordo, outras espalhadas pelos primeiros degraus; e o

resto das bancadas permanecia deserto e desconsolado, d'um tom alvadio

de madeira, que abafava as côres alegres dos raros vestidos de verão.

Por vezes a briza lenta agitava no alto dos dois mastros o azul das

bandeirolas. Um grande silencio caía do ceu faiscante.

Em volta do recinto da tribuna, fechado por um tapume de madeira, havia

mais soldados de infanteria, com as bayonetas lampejando ao sol. E no

homem triste que estava á entrada, recebendo os bilhetes, mettido dentro

d'um enorme collete branco, reteso de gomma, e que lhe chegava até aos

joelhos--Carlos reconheceu o servente do seu laboratorio.

Apenas tinham dado alguns passos encontraram Taveira á porta do buffete

onde se estivera reconfortando com uma cerveja. Tinha um molho de cravos

amarellos ao peito, polainas brancas,--e queria animar as corridas. Já

vira a _Mist_, a egoa de Clifford, e decidira apostar pela _Mist_. Que

cabeça d'animal, meninos, que finura de pernas!...

--Palavra que me enthusiasmou! E está decidido, um dia não são dias, é

necessario animar isto! Aposto trez mil réis. Quer você Craft?

--Pois sim, talvez, depois... Vamos primeiro vêr o aspecto geral.

No recinto em declive, entre a tribuna e a pista, havia só homens, a

gente do Gremio, das Secretarias e da Casa Havaneza; a maior parte á

vontade, com jaquetões claros, e de chapéo côco; outros mais em estylo,

de sobrecasaca e binoculo a tiracollo, pareciam embaraçados e quasi

arrependidos do seu chic. Fallava-se baixo, com passos lentos pela

relva, entre leves fumaraças de cigarro. Aqui e além um cavalheiro,

parado, de mãos atraz das costas, pasmava languidamente para as

senhoras. Ao lado de Carlos dois brazileiros queixavam-se do preço dos

bilhetes, achando aquillo «uma semsaboria de rachar.»

Defronte a pista estava deserta, com a relva pisada, guardada por

soldados: e junto á corda, do outro lado, apinhava-se o magote de gente,

com as carruagens pelo meio, sem um rumor, n'uma pasmaceira tristonha,

sob o peso do sol de junho. Um rapazote, com uma voz dolente, apregoava

agua fresca. Lá ao fundo o largo Tejo faiscava, todo azul, tão azul como

o ceu, n'uma pulverisação fina de luz.

O visconde de Darque, com o seu ar placido de gentleman louro que começa

a engordar, veio apertar a mão a Carlos e a Craft. E mal elles lhe

fallaram dos seus cavallos (_Rabbino_, o favorito, e o outro potro)

encolheu os hombros, cerrou os olhos, como um homem que se sacrifica.

Então, que diabo, os rapazes tinham querido!... Mas elle, realmente, não

podia apresentar um cavallo decente, com as suas côres, senão d'ahi a

quatro annos. De resto não apurava cavallos para aquella melancolia de

Belem, não imaginassem os amigos que elle era tão patriota: o seu fim

era ir a Hespanha, bater os cavallos de Caldillo...

--Emfim, vamos a vêr... Dê você cá lume. Isto está um horror. E depois,

que diabo, para corridas é necessario cocottes e Champagne. Com esta

gente seria, e agua fresca, não vae!

N'esse momento um dos commissarios das corridas, um rapagão sem barba,

vermelho como uma papoula, a pingar de suor sob o chapéo branco deitado

para a nuca, veio arrebatar o Darque, «que era muito preciso, lá na

pesagem, para uma duvidasinha.»

--Eu sou o diccionario, dizia o Darque, tornando a encolher os hombros

resignadamente. De vez em quando vem um d'estes senhores do Jockey-Club,

e folheia-me... Veja você, Maia, em que estado eu fico depois das

corridas! Ha-de ser necessario encadernar-me de novo...

E lá foi, rindo da sua pilheria--empurrado para diante pelo commissario,

que lhe dava palmadas familiares nas costas, e lhe chamava _catita_.

--Vamos nós vêr as mulheres, disse Carlos.

Seguiram devagar ao comprido da tribuna. Debruçadas no rebordo, n'uma

fila muda, olhando vagamente, como d'uma janella em dia de procissão,

estavam ali todas as senhoras que vêem no high-life dos jornaes, as dos

camarotes de S. Carlos, as das terças-feiras dos Gouvarinhos. A maior

parte tinha vestidos serios de missa. Aqui e além um d'esses grandes

chapéos emplumados á Gainsborough, que então se começavam a usar,

carregava d'uma sombra maior o tom trigueiro d'uma carinha miuda. E na

luz franca da tarde, no grande ar da collina descoberta, as pelles

appareciam murchas, gastas, molles, com um baço de pó de arroz.

Carlos cumprimentou as duas irmãs do Taveira, magrinhas, loirinhas,

ambas correctamente vestidas de xadrezinho: depois a viscondessa

d'Alvim, nedia e branca, com o corpete negro reluzente de vidrilhos,

tendo ao lado a sua terna inseparavel, a Joaninha Villar, cada vez mais

cheia, com um quebranto cada vez mais doce nos olhos pestanudos. Adiante

eram as Pedrosos, as banqueiras, de côres claras, interessando-se pelas

corridas, uma de programma na mão, a outra de pé e de binoculo estudando

a pista. Ao lado, conversando com Steinbroken, a condessa de Soutal,

desarranjada, com um ar de ter lama nas saias. N'uma bancada isolada, em

silencio, Villaça com duas damas de preto.

A condessa de Gouvarinho ainda não viera. E não estava tambem aquella

que os olhos de Carlos procuravam, inquietamente e sem esperança.

--É um canteirinho de camelias meladas, disse o Taveira, repetindo um

dito do Ega.

Carlos, no entanto, fôra fallar á sua velha amiga D. Maria da Cunha que,

havia momentos, o chamava com o olhar, com o leque, com o seu sorriso de

bôa mamã. Era a unica senhora que ousara descer do retiro ajanellado da

tribuna, e vir sentar-se em baixo, entre os homens: mas, como ella

disse, não aturara a séca de estar lá em cima perfilada, á espera da

passagem do Senhor dos Passos. E, bella ainda sob os seus cabellos já

grisalhos, só ella parecia divertir-se alli, muito á vontade, com os pés

pousados na travessa d'uma cadeira, o binoculo no regaço, cumprimentada

a cada instante, tratando os rapazes por _meninos_... Tinha comsigo uma

parenta que apresentou a Carlos, uma senhora hespanhola, que seria

bonita se não fossem as olheiras negras, cavadas até ao meio da face.

Apenas Carlos se sentou ao pé d'ella, D. Maria perguntou-lhe logo por

esse aventureiro do Ega. Esse aventureiro, disse Carlos, estava em

Celorico compondo uma comedia para se vingar de Lisboa, chamada o

_Lodaçal_...

--Entra o Cohen? perguntou ella, rindo.

--Entramos todos, sr.^a D. Maria. Todos nós somos lodaçal...

N'esse momento, por traz do recinto, rompia, com um taran-tan-tan

mollengão de tambores e pratos, o hymno da Carta, a que se misturou uma

voz de official e o bater de coronhas. E, entre dourados de dragonas,

El-rei appareceu na tribuna, sorrindo, de quinzena de velludo, e chapéo

branco. Aqui e além, raros sujeitos cumprimentaram, muito de leve: a

senhora hespanhola, essa, tomou o oculo do regaço de D. Maria, e de pé,

muito descançadamente, poz-se a examinar o rei. D. Maria achava ridicula

a musica, dando ás corridas um ar de arraial... Além d'isso, que tolice,

o hymno, como n'um dia de parada!

--E este hymno, então, que é medonho, dizia Carlos. A sr.^a D. Maria não

sabe a definição do Ega, e a sua theoria dos hymnos? Maravilhosa!

--Aquelle Ega! dizia ella sorrindo, já encantada.

--O Ega diz que o hymno é a definição pela musica do caracter d'um povo.

Tal é o compasso do hymno nacional, diz elle, tal é o movimento moral da

nação. Agora veja a sr.^a D. Maria os differentes hymnos, segundo o Ega.

A _Marselheza_ avança com uma espada núa. O _God save the queen_

adianta-se, arrastando um manto real...

--E o hymno da Carta?

--O hymno da Carta ginga, de rabona.

E D. Maria ria ainda, quando a hespanhola, sentando-se e repousando-lhe

tranquillamente o binoculo no regaço, murmurou:

--Tiene cara de buena persona.

--Quem, o rei? exclamaram a um tempo D. Maria e Carlos. Excellente!

No entanto uma sineta tocava, perdida no ar. E no quadro indicador

subiram os numeros dos dois cavallos que corriam o primeiro premio dos

_Productos_. Eram o n.^o 1 e o n.^o 4. D. Maria Telles quiz-lhe saber os

nomes, com o appetite de apostar e ganhar cinco tostões a Carlos. E como

Carlos se erguia para arranjar um programma:

--Deixe estar o menino, disse ella, tocando-lhe no braço. Ahi vem o

nosso Alencar, com o programma... Olhe para aquillo! Veja se ainda hoje

os ha por ahi com aquelle ar de sentimento e de poesia...

Com um fato novo de cheviote claro que o remoçava, de luvas gris-perle,

o seu bilhete de pezagem na botoeira, o poeta vinha-se abanando com o

programma, e já de longe sorrindo á sua boa amiga D. Maria. Quando

chegou junto d'ella, descoberto, bem penteado n'esse dia, com um lustre

d'oleo na grenha, levou-lhe a mão aos labios, fidalgamente.

D. Maria fôra uma das suas lindas contemporaneas. Tinham dançado muita

ardente mazurka nos salões de Arroios. Ella tratava-o por _tu_. Elle

dizia sempre _boa amiga_, e _querida Maria_.

--Deixa vêr os nomes d'esses cavallos, Alencar... Senta-t'ahi, anda,

faze companhia.

Elle puchou uma cadeira, rindo do interesse que ella tomava pelas

corridas. E elle que a conhecera sempre uma enthusiasta de toiros!...

Pois os nomes dos cavallos eram _Jupiter_ e _Escossez_...

--Nenhum d'esses nomes me agrada, não aposto. E então que te parece tudo

isto, Alencar?... A nossa Lisboa vae-se sahindo da concha...

Alencar, pousando o chapéo sobre uma cadeira, e passando a mão pela sua

vasta fronte de bardo, confessou que aquillo tinha realmente um certo ar

de elegancia, um perfume de côrte... Depois, lá em baixo, aquelle

maravilhoso Tejo... Sem fallar na importancia do apuramento das raças

cavallares...

--Pois não é verdade, meu Carlos? Tu que entendes superiormente d'isso,

que és um mestre em todos os _sports_, sabes bem que o apuramento...

--Sim, com effeito, o apuramento, muito importante...--disse Carlos,

vagamente, erguendo-se a olhar outra vez á tribuna.

Eram quasi tres horas, e agora, de certo, _ella_ já não vinha: e a

condessa de Gouvarinho não apparecia tambem... Começava a invadil-o uma

grande lassitude. Respondendo, com um leve movimento de cabeça, ao

sorriso doce que lhe dava da tribuna a Joaninha Villar, pensava em

voltar para o Ramalhete, acabar tranquillamente a tarde dentro do seu

robe-de-chambre, com um livro, longe de todo aquelle tédio.

No entanto, ainda entravam senhoras. A menina Sá Videira, filha do rico

negociante de sapatos d'ourello, passou pelo braço do irmão, abonecada,

com o arsinho petulante e enojado de tudo, fallando alto inglez. Depois

foi a ministra da Baviera, a baroneza de Craben, enorme, empavoada, com

uma face macissa de matrona romana, a pelle cheia de manchas côr de

tomate, a estalar dentro d'um vestido de gorgorão azul com riscas

brancas: e atraz o barão, pequenino, amavel, aos pulinhos, com um grande

chapéo de palha.

D. Maria da Cunha erguera-se para lhes fallar: e durante um momento

ouviu-se, como um glou-glou grosso de perú, a voz da baroneza achando

_que c'était charmant, c'était très beau_. O barão, aos pulinhos, aos

risinhos, _trouvait ça ravissant_. E o Alencar, diante d'aquelles

estrangeiros que o não tinham saudado, apurava a sua attitude de grande

homem nacional, retorcendo a ponta dos bigodes, alçando mais a fronte

núa.

Quando elles seguiram para a tribuna, e a boa D. Maria se tornou a

sentar, o poeta, indignado, declarou que abominava allemães! O ar de

sobranceria com que aquella ministra, com feitio de barrica deixando

sahir o cebo por todas as costuras do vestido, o olhára, a elle! Ora, a

insolente baleia!

D. Maria sorria, olhando com sympathia o poeta. E voltando-se de repente

para a senhora hespanhola:

--Concha, deja-me presentar-te D. Thomaz de Alencar, nuestro gran poeta

lyrico...

N'esse momento, algum dos rapazes mais amadores, dos que traziam

binoculos a tiracollo, apressaram o passo para a corda da pista. Dois

cavallos passavam n'um galope sereno, quasi juntos, sob as vergastadas

estonteadas de dois jockeys de grande bigode. Uma voz erguendo-se disse

que tinha ganhado _Escossez_. Outros affirmavam que fôra _Jupiter_. E no

silencio que se fez, de lassidão e de desapontamento, ondeou mais viva

no ar, lançada pelos flautins da banda, a valsa de _madame Angot_.

Alguns sujeitos tinham-se conservado de costas para a pista, fumando,

olhando a tribuna--onde as senhoras continuavam debruçadas no parapeito,

á espera do Senhor dos Passos. Ao lado de Carlos, um cavalheiro resumiu

as impressões, dizendo que tudo _aquillo era uma intrujice_.

E quando Carlos se ergueu para ir procurar o Damaso, Alencar, muito

animado com a hespanhola, fallava de Sevilha, de malagueñas e do coração

d'Espronceda.

O desejo de Carlos agora era achar Damazo, saber porque falhara a visita

aos Olivaes--e depois ir-se embora para o Ramalhete, esconder aquella

melancolia que o enevoava, estranha e pueril, misturada de

irritabilidade, fazendo-lhe detestar as vozes que lhe fallavam, os

rantatans da musica, até a belleza calma da tarde... Mas ao dobrar a

esquina da tribuna, topou com Craft, que o deteve, o apresentou a um

rapaz loiro e forte com quem estava fallando alegremente. Era o famoso

Clifford, o grande sportman de Cordova. Em redor sujeitos tinham parado,

embasbacados para aquelle inglez legendario em Lisboa, dono de cavallos

de corridas, amigo do rei d'Hespanha, homem de todos os _chics_. Elle,

muito á vontade, um pouco _poseur_, com um simples veston de flanella

azul como no campo, ria alto com o Craft do tempo em que tinham estado

no collegio de Rugby. Depois pareceu-lhe reconhecer Carlos, amavelmente.

Não se tinham encontrado havia quasi um anno, em Madrid, n'um jantar, em

casa de Pancho Calderon? E assim era. O aperto de mão que repetiram foi

mais intimo--e Craft quiz que fossem regar aquella flor d'amisade com

uma garrafa de mau Champagne. Em roda crescera a pasmaceira.

O buffete estava installado debaixo da tribuna, sob o taboado nú, sem

sobrado, sem um ornato, sem uma flor. Ao fundo corria uma prateleira de

taberna com garrafas e pratos de bolos. E, no balcão tosco, dois

criados, estonteados e sujos, achatavam á pressa as fatias de sandwiches

com as mãos humidas da espuma da cerveja.

Quando Carlos e os seus amigos entraram, havia junto d'um dos barrotes

que especavam os degraus da tribuna, n'um grupo animado, com copos de

champagne na mão, o marquez, o visconde de Darque, o Taveira, um rapaz

pallido de barba preta, que tinha debaixo do braço enrolada a bandeira

vermelha de _Starter_, e o commissario imberbe, com o chapéo branco cada

vez mais atirado para a nuca, a face mais esbrazeada, o collarinho já

molle de suor. Era elle que offerecia o champagne; e apenas viu entrar

Clifford, rompeu para elle, de taça no ar, fez tremer as vigas, soltando

o seu vozeirão:

--Á saude do amigo Clifford! o primeiro sportman da península, e rapaz

cá dos nossos!... Hip hip, hurrah!

Os copos ergueram-se, n'um clamor d'hurrahs, onde destacou, vibrante e

enthusiasta, a voz do _starter_. Clifford agradecia, risonho, tirando

lentamente as luvas--em quanto o marquez, puxando Carlos pelo braço para

o lado, lhe apresentava rapidamente o commissario, seu primo D. Pedro

Vargas.

--Muito gosto em conhecer...

--Qual historias! Eu é que fazia furor! exclamou o commissario. Cá a

rapaziada do sport deve-se conhecer toda... Porque isto cá é a

confraria, e todo o resto é chinfrinada!

E immediatamente arrebatou o copo ao ar, berrou com um impeto que lhe

trazia mais sangue á face:

--Á saude de Carlos da Maia, o primeiro elegante cá da patria! a melhor

mão de redea... Hip, hip, hurrah...

--Hip, hip, hip... Hurrah!

E foi ainda a voz do starter que deu o _hurrah_ mais vibrante e mais

enthusiasta.

Um empregado assomou á porta do buffete, e chamou o sr. commissario. O

Vargas atirou uma libra para o balcão, abalou, gritando já de fóra, com

o olho acceso:

--Isto vae-se animando, rapazes! Caramba! É carregar no liquido! E você,

oh lá de baixo, o patrão, sô Manuel, mande vir esse gelo... Está a gente

aqui a tomar a bebida quente... Despache um proprio, vá você, rebente!

Irra!

No entanto em quanto se desarrolhava o champagne de Craft, Carlos tinha

convidado Clifford a jantar n'essa noite no Ramalhete. O outro acceitou,

molhando os labios no copo, achando excellente que se continuasse a

tradição de jantarem juntos, sempre que se encontravam.

--Olá! o general por aqui! exclamou Craft.

Os outros voltaram-se. Era o Sequeira, com a face como um pimentão,

entalado n'uma sobrecasaca curta que o fazia mais atarracado, de chapeu

branco sobre o olho, e grande chicote debaixo do braço.

Acceitou um copo de Champagne, e teve muito prazer em conhecer o sr.

Clifford...

--E que me diz você a esta semsaboria? exclamou elle logo, voltando-se

para Carlos.

Em quanto a si estava contente, pulava... Aquella corrida insipida, sem

cavallos, sem jockeys, com meia duzia de pessoas a bocejar em roda,

dava-lhe a certeza que eram talvez as ultimas, e que o _Jockey-Club_

rebentava... E ainda bem! Via-se a gente livre d'um divertimento que não

estava nos habitos do paiz. Corridas era para se apostar. Tinha-se

apostado? Não, então historias!... Em Inglaterra e em França, sim! Ahi

eram um jogo como a roletta, ou como o monte... Até havia banqueiros,

que eram os _bookmakers_... Então já viam!

E como o marquez, pousando o copo, e querendo calmar o general, fallava

do apuramento das raças, e da remonta,--o outro ergueu os hombros, com

indignação:

--Que me está você a cantar! Quer você dizer que se apura a raça para a

remonta da cavallaria?... Ora vá lá montar o exercito com cavallos de

corridas!... Em serviço o que se quer não é o cavallo que corra mais, é

o cavallo que aguente mais... O resto é uma historia... Cavallos de

corridas são phenomenos! São como o boi com duas cabeças... Então

historias!... Em França até lhe dão Champagne, homem!... Então veja lá!

E a cada phrase, sacudia os hombros, furiosamente. Depois, d'um trago,

esvasiou o seu copo de Champagne, repetiu que tinha muito prazer em

conhecer o sr. Clifford, rodou sobre os tacões, sahiu, bufando,

entalando mais debaixo do braço o chicote--que tremia na ponta como

avido de vergastar alguem.

Craft sorria, batia no hombro de Clifford.

--Veja você! cá nós, velhos portuguezes, não gostamos de novidades, e de

_sports_... Somos pelo toiro...

--Com razão, dizia o outro, serio e aprumando-se sobre o collarinho.

Ainda ha dias me contava na Granja, o Rei de Hespanha...

De repente, fóra, houve um reboliço, e vozes sobresaltadas gritando

_ordem_! Uma senhora, que atravessava com um pequenito, fugiu para

dentro do buffete, enfiada. Um policia passou, correndo.

Era uma desordem!

Carlos e os outros, sahindo á pressa, viram ao pé da tribuna real um

magote de homens--onde bracejava o Vargas. Do largo da pesagem, os

rapazes corriam com curiosidade, já excitados, apinhando-se, alçando-se

em bicos de pés; do recinto das carruagens acudiam outros, saltando as

cordas da pista, apesar dos repellões dos policias:--e agora era uma

massa tumultuosa de chapéos altos, de fatos claros, empurrando-se contra

as escadas da tribuna real, onde um ajudante d'el-rei, reluzente de

agulhetas e em cabello, olhava tranquillamente.

E Carlos, furando, poude emfim avistar no meio do montão um dos sujeitos

que correra no premio dos Productos, o que montava _Jupiter_, ainda de

botas, com um paletot alvadio por cima da jaqueta de jockey, furioso,

perdido, injuriando o juiz das corridas, o Mendonça, que arregalava os

olhos, aturdido e sem uma palavra. Os amigos do jockey puxavam-n'o,

queriam que elle fizesse um protesto. Mas elle batia o pé, tremulo,

livido, gritando que não se importava nada com protestos! Perdera a

corrida por uma pouca vergonha! O protesto alli era um arrocho! Porque o

que havia n'aquelle hyppodromo era compadrice e ladroeira!

Individuos, mais serios, indignaram-se com esta brutalidade.

--Fóra! Fóra!

Alguns tomavam o partido do jockey; já aos lados outras questões

surgiam, desabridas. Um sujeito vestido de cinzento berrava que o

Mendonça decidira pelo Pinheiro, que montava _Escossez_, por ser intimo

d'elle; outro cavalheiro, de binoculo a tiracollo, achava aquella

insinuação infame; e os dois, frente a frente, com os punhos fechados,

tratavam-se furiosamente de _pulhas_.

E, todo este tempo, um homem baixote, de grandes collarinhos de

pintinhas, procurava romper, erguia os braços, exclamava, n'uma voz

supplicante e rouca:

--Por quem são, meus senhores... Um momento... Eu tenho experiencia...

Eu tenho experiencia!

De repente o vozeirão do Vargas dominou tudo, como um urro de toiro.

Diante do jockey, sem chapéo, com a face a estoirar de sangue,

gritava-lhe que era indigno de estar alli, entre gente decente! Quando

um gentleman duvida do juiz da corrida, faz um protesto! Mas vir dizer

que ha ladrões, era só d'um canalha e d'um fadista, como elle, que nunca

devia ter pertencido ao Jockey-Club!--O outro, agarrado pelos amigos,

esticando o pescoço magro como para lhe morder, atirou-lhe um nome sujo.

Então o Vargas, com um encontrão para os lados, abriu espaço, repuxou as

mangas, berrou:

--Repita lá isso! repita lá isso!

E immediatamente aquella massa de gente oscillou, embateu contra o

taboado da tribuna real, remoinhou em tumulto, com vozes de _ordem_ e

_morra_, chapéos pelo ar, baques surdos de murros.

Por entre o alarido vibravam, furiosamente, os apitos da policia;

senhoras, com as saias apanhadas, fugiam atravez da pista, procurando

espavoridamente as carruagens;--e um sopro grosseiro de desordem relles

passava sobre o hyppodromo, desmanchando a linha postiça de civilisação

e a attitude forçada de decoro...

Carlos achou-se ao pé do marquez, que exclamava, pallido:

--Isto é incrivel, isto é incrivel!...

Carlos, pelo contrario, achava pittoresco.

--Qual pittoresco, homem! É uma vergonha, com todos esses estrangeiros!

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 23 / 53 段