--A D. Maria, coitada... Eu te digo, é uma excellente velha, recebida em

toda a parte, mas pobre, e faz d'estes favores... Ás vezes mesmo em casa

d'ella.

--Leva caro por esses serviços? perguntou tranquillamente Craft, que em

todo aquelle caso procurava instruir-se.

--Não, coitada, disse o Ega. Dão-se-lhe de vez em quando cinco libras.

O criado entrava com uma travessa de camarões, os tres em silencio

accommodaram-se á meza.

Depois do jantar recolheram ao Ramalhete. Ega ía lá dormir, receiando,

com os nervos tão excitados, a solidão da villa Balzac. Partiram, de

charutos accesos, n'uma caleche descoberta, sob a noite estrellada e

doce.

Felizmente não estava ninguem no Ramalhete; Ega, cançado, poude

retirar-se logo para o seu quarto, um aposento d'hospedes no segundo

andar, onde havia um bello leito antigo de pau preto. Ahi, apenas o

criado o deixou, Ega approximou-se do tremó onde ardiam as luzes, e

tirou do pescoço, de sob a camiza, um medalhão de ouro. Tinha dentro uma

photographia de Rachel:--e a sua intenção agora era queimal-a, deitar ao

balde das agoas sujas as cinzas d'aquella paixão. Mas, ao abrir o

medalhão, a face bonita, banhada n'um sorriso, sob o vidro oval, pareceu

olhar para elle com uma tristeza no velludo das pupillas languidas... A

photographia mostrava apenas a cabeça, com uma abertura de decote no

começo do vestido: e as recordações de Ega alargaram aquelle decote uma

vez mais, revendo o collo, o extraordinario setim da pelle, o

signalsinho sobre o seio esquerdo... O sabor dos seus beijos passou-lhe

de novo nos labios, sentiu n'alma outra vez como o ecco dos suspiros

cançados que ella soltara nos seus braços. E ella ia-se embora, _nunca

mais_ a veria! Esta desolada amargura do _nunca mais_ revolveu-o todo--e

com a face enterrada no travesseiro, o pobre demagogo, o grande

phraseador soluçou muito tempo no segredo da noite.

Toda essa semana foi dolorosa para o Ega. Logo ao outro dia Damaso

apparecera no Ramalhete, e por elle ouviram os rumores de Lisboa. Já se

sabia no Gremio, no Chiado, por toda a parte, que elle fôra expulso da

casa dos Cohens. O urso, a pastora do Tyrol, testemunhas do episodio,

tinham-n'o badallado com enthusiasmo. Dizia-se mesmo que o Cohen lhe

dera um pontapé. Os amigos da casa, esses, sobretudo o Alencar, prégavam

com fervor a innocencia da sr.^a D. Rachel. O Alencar contava

publicamente que o Ega, provinciano inexperiente e leão de Celorico,

tendo tomado por evidencias de paixão os sorrisos de amabilidade de uma

senhora que recebe,--escrevera á sr.^a D. Rachel uma carta quasi

obscena, que ella, coitadinha, toda em lagrimas, viera mostrar ao

marido.

--Então dão-me para baixo, hein, Damaso? murmurou Ega que, no gabinete

de Carlos, embrulhado n'uma velha ulster, e encolhido n'uma poltrona,

escutava estas cousas com um ar cançado e doente.

Damaso confessou que na sociedade lhe davam para baixo.

Ah, elle sabia-o bem! tinha antipathias em Lisboa. Ninguem lhe perdoara

ainda a pelissa. A sua verve, toda em sarcasmos, offendia. E era

desagradavel para muita gente que um homem, com esse espirito tão

perigoso de ferro em braza, tivesse uma mãe rica, e fosse independente.

Depois, no sabbado seguinte, Carlos, ao voltar do jantar dos

Gouvarinhos--que fôra excellente--contou-lhe a conversa que tivera com a

sr.^a condessa. A condessa fallara-lhe muito livremente, como um homem,

d'aquelle desastre do Ega. Tinha-se affligido muito, não só pela Rachel,

coitada, de quem era amiga, mas pelo Ega, que ella apreciava tanto, tão

interessante, tão brilhante, e que sahia de tudo aquillo enxovalhado! O

Cohen dizia a todos (dissera-o ao Gouvarinho) que ameaçára o Ega de

pontapés, por elle ter escripto a sua mulher uma carta immunda. Os que

não sabiam nada, como o Gouvarinho, acreditavam, apertavam as mãos na

cabeça; e os que sabiam, os que havia seis mezes sorriam da intimidade

do Ega com os Cohens, affectavam tambem acreditar, cerravam os punhos de

indignação. O Ega era odiado. E a pequena Lisboa, que vive entre o

Gremio e a casa Havaneza, folgava em «enterrar» o Ega.

Ega, com effeito, sentia-se «enterrado». E n'essa noite declarou a

Carlos que decidira recolher-se á quinta da mãe, passar lá um anno a

acabar as _Memorias d'um Atomo_, e reapparecer em Lisboa com o seu livro

publicado, triumphando sobre a cidade, esmagando os mediocres. Carlos

não perturbou esta radiante illusão.

Mas quando Ega, antes de partir, foí a recapitular os seus negocios de

casa, de dinheiro, encontrou-se diante de cousas abominaveis. Devia a

todo o mundo, desde o estofador até ao padeiro; tinha tres letras a

vencer; aquellas dividas, se as deixasse, soltas e ladrando,

juntar-se-iam, na tagarallice publica, ao caso dos Cohens--e elle seria,

além do amante ameaçado de pontapés, o pelintra perseguido pelos

credores! Que havia de fazer, senão valer-se de Carlos? Carlos, para

regular tudo, emprestou-lhe dois contos de réis.

Depois, tendo despedido os criados da Villa Balzac, surgiram-lhe outras

complicações. A mãe do pagem veiu d'ahi a dias ao Ramalhete, muito

insolente, gritando que o filho lhe desapparecera! E era exacto: o

famoso pagem, pervertido pela cozinheira, sumira-se com ella para as

viellas da Mouraria, a começar ahi uma divertida carreira de _faia_.

Ega recusou-se a attender ás reclamações da matrona. Que diabo tinha

elle com essas torpezas?

Então o amante da creatura interveiu, ameaçadoramente, Era um policia,

um esteio da ordem: e deu a entender que lhe seria facil provar como na

Villa Balzac se passavam «cousas contra a natureza», e que o pagem não

era só para servir á meza... Nauseado até á morte, Ega pacteou com a

intrugice, largou cinco libras ao policia. Quando n'essa noite, uma

noite triste d'agoa, Carlos e Craft o acompanharam a Santa Apolonia,

elle disse-lhes na carruagem estas palavras, triste resumo d'um amor

romantico:

--Sinto-me como se a alma me tivesse cahido a uma latrina! Preciso um

banho por dentro!

Affonso da Maia ao saber este desastre do Ega, tinha dito a Carlos, com

tristeza:

--Má estreia, filho, pessima estreia!

E n'essa noite, depois de voltar de Santa Apolonia, Carlos pensava

n'estas palavras, dizia tambem comsigo:--Pessima estreia!... E nem só a

estreia do Ega era pessima; tambem a sua. E talvez, por pensar n'isso,

as palavras do avô tinham tido aquella tristeza. Pessimas estreias!

Havia seis mezes que o Ega chegara de Celorico, embrulhado na sua grande

pellissa, preparado a deslumbrar Lisboa com as _Memorias d'um Atomo_, a

dominal-a com a influencia de uma Revista, a ser uma luz, uma força, mil

outras cousas... E agora, cheio de dividas e cheio de ridiculo, lá

voltava para Celorico, escorraçado. Pessima estreia! Elle, por seu lado,

desembarcara em Lisboa, com idéas collossaes de trabalho, armado como um

luctador: era o consultorio, o laboratorio, um livro iniciador, mil

cousas fortes... E, que tinha feito? Dois artigos de jornal, uma duzia

de receitas, e esse melancolico capitulo da _Medicina entre os Gregos_.

Pessima estreia!

Não, a vida não lhe parecia promettedora, n'esse instante, passeiando na

sala de bilhar com as mãos nos bolsos, emquanto ao lado os amigos

conversavam, e fóra uivava o sudoeste. Pobre Ega, que infeliz elle iria,

encolhido ao canto do seu wagon!.. Mas os outros, ali, não estavam mais

alegres. Craft e o Marquez tinham começado uma conversa sobre a vida,

soturna e desconsoladora. De que servia viver, dizia Craft, não se sendo

um Livingstone ou um Bismark? E o Marquez, com um ar philosophico,

achava que o mundo se ia tornando estupido. Depois chegou o Taveira com

a historia horrivel d'um collega d'elle, cujo filho cahira pela escada,

se despedaçara, no momento em que a mulher estava a morrer d'uma

pleurisia. Cruges resmungou o quer que fosse sobre suicidio. As palavras

arrastavam-se, melancolicas. Instinctivamente, Carlos, de vez em quando,

ia despertar as lampadas.

Mas tudo lhe pareceu resplandecer, quando d'ahi a instantes Damaso

chegou, e lhe disse que o Castro Gomes estava incommodado, e de cama.

--Naturalmente, accrescentou o Damaso, mandam-te chamar, por teres já

visto a pequena...

Carlos ao outro dia não sahiu de casa, esperando um recado, faiscando

d'impaciencia. Nenhum recado veiu. E, duas tardes depois, ao descer para

o Aterro--o primeiro encontro que teve, ás Janellas Verdes, foi o Castro

Gomes, de caleche descoberta, com a mulher ao lado, e a cadellinha no

collo.

Ella passou, sem o vêr. E logo ali Carlos decidiu findar aquella

tortura, pedir muito simplesmente ao Damaso que o apresentasse ao Castro

Gomes, antes d'elle partir para o Brazil... Não podia mais, precisava

ouvir a voz d'ella, vêr o que os seus olhos diziam quando eram

interrogados de perto.

Mas toda essa semana achou-se, constantemente, sem saber como, na

companhia dos Gouvarinhos. Começou por encontrar o conde, que lhe travou

do braço, arrastou-o á rua de S. Marçal, installou-o n'uma poltrona, no

seu escriptorio, e leu-lhe um artigo que destinava ao _Jornal do

Commercio_ sobre a situação dos partidos em Portugal: depois convidou-o

a jantar. Na tarde seguinte elles tinham uma partida de _croquet_.

Carlos foi. E, a uma janella, aberta sobre o jardim, teve um momento de

intimidade com a condessa, contou-lhe, rindo, como os cabellos d'ella o

tinham encantado, a primeira vez que a vira. N'essa noite, ella fallou

d'um livro de Tennyson, que não lera; Carlos offereceu-lh'o, foi-lh'o

levar ao outro dia, de manhã. Encontrou-a só, toda vestida de branco: e

riam, baixavam já a voz, as duas cadeias estavam mais juntas--quando o

escudeiro annunciou a sr.^a D. Maria da Cunha. Era uma cousa tão

extraordinaria, a D. Maria da Cunha áquella hora! Carlos, de resto,

gostava muito da D. Maria da Cunha, uma velha engraçada, toda bondade,

cheia de sympathia por todos os peccados--e ella mesma muito peccadora

quando era a linda Cunha. D. Maria era muito falladora, parecia ter que

dizer em particular á condessa; e Carlos deixou-as, promettendo voltar

uma d'essas tardes tomar chá, e fallar de Tennyson.

Na tarde em que elle se vestia para lá ir, Damaso appareceu-lhe no

quarto, a dar-lhe uma novidade que o enchia de desgosto e de «ferro». O

telhudo do Castro Gomes mudára de idéa, já não ia ao Brazil! Ficava ali,

no Central, até ao meiado do verão! De sorte que estava tudo

estragado...

Carlos pensou logo em fallar da sua apresentação ao Castro Gomes. Mas,

como em Cintra, sem saber porquê, veiu-lhe uma repugnancia de a conhecer

por meio do Damaso. E foi-se vestindo em silencio.

Damaso no entanto maldizia a sua _chance_:

--E eu que tinha mulher, eu que a tinha, se houvesse occasião. Mas que

diabo queres tu, assim?...

Queixou-se então do Castro Gomes. Em resumo, era um telhudo. E a vida

d'aquelle homem era mysteriosa... Que diabo estava elle a fazer em

Lisboa? Ali havia difficuldades de dinheiro... E elles não se davam bem.

Na vespera houvera de certo questão. Quando elle entrara, ella estava

com os olhos vermelhos, e enfiada; e elle, nervoso, a passeiar pela

sala, a retorcer a barba... Ambos contrafeitos, uma palavra cada quarto

d'hora...

--Sabes tu? exclamou elle. Tenho minha vontade de os mandar á fava.

Queixou-se tambem d'ella. Era sobretudo muito desegual. Ora bom modo,

ora regelada; e, ás vezes, elle dizia qualquer cousa muito natural,

d'estas cousas de conversa de sociedade, e ella punha-se a rir. Era de

encavacar, hein? Emfim, gente muito exquisita.

--Onde vaes tu? disse elle, com um suspiro de aborrecimento, vendo

Carlos pôr o chapeu.

Ia tomar chá com a Gouvarinho.

--Pois olha, vou comtigo... Estou d'uma secca!

Carlos hesitou um instante, terminou por dizer:

--Vem, fazes-me até favor...

A tarde estava lindissima, Carlos ia no dog-cart.

--Ha que tempos que não damos assim um passeio juntos, disse Damaso.

--Tu andas lá mettido com estrangeiros!...

Damaso deu outro suspiro, e não tornou a dizer mais nada. Depois, á

porta dos Gouvarinhos, quando soube que a sr.^a condessa recebia,

resolveu subitamente não entrar. Não, não entrava. Estava muito

estupido, incapaz de achar uma palavra...

--Ah, e outra cousa que me lembrou agora, exclamou elle, demorando ainda

Carlos diante do portão. O Castro Gomes, hontem, perguntou-me o que te

havia de mandar pela visita á pequena... Eu disse que tu tinhas ido lá

por favor, como meu amigo. E elle disse que te havia de vir deixar um

bilhete... Naturalmente vens a conhecel-os.

Não era, pois, necessario que Damaso o apresentasse!

--Apparece á noite, Damasosinho, vai lá jantar ámanhã! exclamou Carlos,

subitamente radiante, dando um ardente aperto de mão ao seu amigo.

Quando entrou na sala, um escudeiro acabava de servir chá. A sala,

forrada d'um papel severo, verde e ouro, com retratos de familia em

caixilhos pesados, abria por duas varandas sobre a folhagem do jardim.

Em cima das mezas havia cestos de flôres. No sophá, duas senhoras de

chapeu, ambas de preto, conversavam, com a chavena na mão. A condessa,

ao estender os dedos a Carlos, ficara tão côr de rosa--como a seda

acolchoada da cadeira em que estava recostada, ao pé d'um velador de pau

santo. Notou logo, sorrindo, o ar radiante de Carlos. Que lhe tinha

acontecido de bom? Carlos sorriu tambem, disse que não era possivel

entrar ali com outro ar. Depois perguntou pelo conde...

O conde ainda não apparecera, detido de certo na camara dos pares, onde

se discutia o projecto sobre a Reforma da Instrucção Publica.

Uma das senhoras de preto fazia votos para que se alliviassem os

estudos. As pobres creanças succumbiam verdadeiramente á quantidade

exaggerada de materias, de cousas a decorar: o d'ella, o Joãosinho,

andava tão pallido e tão desfigurado, que ella ás vezes tinha vontade de

o deixar ficar ignorante de todo. A outra senhora pousou a chavena sobre

um console ao lado, e passando sobre os labios a renda do lenço,

queixou-se sobretudo dos examinadores. Era um escandalo as exigencias,

as difficuldades que punham, só para poder deitar RR... Ao pequeno

d'ella tinham feito as perguntas mais estupidas, as mais reles; assim,

por exemplo, o que era o sabão, porque lavava o sabão?...

A outra senhora e a condessa apertaram as mãos contra o peito,

consternadas. E Carlos, muito amavel, concordou que era uma abominação.

O marido d'ella--continuava a dama de preto--ficara tão desesperado que,

encontrando o examinador no Chiado, o ameaçou de lhe dar bengaladas. Uma

imprudencia, de certo; mas, emfim, o homem fôra malvado!... Não havia

verdadeiramente senão uma cousa digna de se estudar, eram as linguas.

Parecia insensato que se torturasse uma creança com botanica,

astronomia, physica... Para que? Cousas inuteis na sociedade. Assim, o

pequeno d'ella, agora, tinha lições de chimica... Que absurdo! Era o que

o pae dizia--para que, se elle o não queria para boticario?

Depois d'um silencio, as duas senhoras ergueram-se ao mesmo tempo; e

houve um murmurio de beijos, um frou-frou de sedas.

Carlos ficou só com a sr.^a condessa, que reoccupara a sua cadeira côr

de rosa.

Immediatamente ella perguntou pelo Ega.

--Coitado, lá está para Celorico.

Ella protestou, com um lindo riso, contra aquella phrase tão feia «lá

está para Celorico» Não, não queria... Coitado do Ega! Merecia uma

melhor oração funebre. Celorico era horrível para um fim de romance...

--De certo, exclamou Carlos, rindo tambem, era mais bello dizer-se: _lá

está para Jerusalem!_

N'esse momento o criado annunciou um nome, e appareceu o amigo Telles da

Gama, um intimo da casa. Quando soube que o conde devia estar ainda

batalhando sobre a Reforma da Instrucção, levou as mãos á cabeça como

lamentando um tão feio desperdicio de tempo, e não se quiz demorar. Não,

nem mesmo o excellente chá da sr.^a condessa o tentava. A verdade era

que estava tão abandonado da graça de Deus, perdera de tal modo o

sentimento das cousas bellas, que entrara, não para vêr a sr.^a

condessa--mas simplesmente fallar ao conde. Então ella teve um bonito ar

de princeza offendida, perguntou a Carlos se uma tão rude sinceridade de

montanhez não fazia saudades das maneiras polidas do antigo regimen. E

Telles da Gama, gingando de leve, declarava-se democrata, homem da

natureza, com um riso que lhe mostrava dentes magnificos. Depois, ao

sair, dando um _shake-hands_ ao amigo Maia, quiz saber quando o principe

de S.^t Olavia lhe dava emfim a honra de vir jantar com elle. A sr.^a

condessa indignou-se. Não, era realmente de mais! Fazer convites, na sua

sala, diante d'ella,--um homem que fallava tanto da sua cozinheira

allemã, e nem sequer lhe offerecera jámais um prato de chou-crôute!

Telles da Gama, rindo sempre e gingando, jurou que andava a arranjar a

sua sala de jantar para dar á sr.^a condessa uma festa, que havia de

ficar nos annaes do reino! Agora com o Maia era differente: jantavam

ambos na cozinha, com os pratos sobre os joelhos. E abalou, gingando

sempre, rindo ainda da porta, mostrando os dentes magnificos.

--Muito alegre, este Gama, não é verdade? disse a condessa.

--Muito alegre, disse Carlos.

Então a condessa olhou o relogio. Eram cinco e meia, áquella hora ella

já não recebia: podiam, emfim, conversar um momento, em boa camaradagem.

E, o que houve, foi um silencio lento, em que os olhos de ambos se

encontraram. Depois Carlos perguntou por Charlie, o seu lindo doente.

Não estava bem, com uma ligeira tosse apanhada no passeio da Estrella.

Ah, aquella creança nunca deixava de lhe dar o cuidado! Ficou callada,

com o olhar esquecido no tapete, movendo languidamente o leque: tinha

n'essa tarde uma toilette exaggerada, d'um tom de folha de outono

amarellada, d'uma seda grossa, que ao menor movimento fazia um ruge-ruge

de folhas seccas.

--Que lindo tempo tem feito! exclamou ella de repente, como acordando.

--Lindo! disse Carlos. Eu estive ha dias em Cintra, e não imagina... Era

d'uma belleza de idyllio.

E immediatamente arrependeu-se, quiz-se mal por ter fallado da sua ida a

Cintra, n'aquella sala.

Mas a condessa mal o escutára. Tinha-se erguido, fallando de algumas

canções que essa manhã recebera de Inglaterra, as novidades frescas da

_season_. Depois, sentou-se ao piano, correu os dedos no teclado,

perguntou a Carlos se conhecia aquella melodia--_The pale star_. Não,

Carlos não conhecia. Mas todas essas canções inglezas se parecem, sempre

do mesmo tom dolente, romanesco, e muito _miss_. E trata-se sempre d'um

parque melancolico, um regato lento, um beijo sob os castanheiros...

Então a condessa leu alto a letra da _Pale star_. E era a mesma cousa,

uma estrellinha de amor palpitando no crepusculo, um lago pallido, um

timido beijo sob as arvores...

--É sempre o mesmo, disse Carlos, e é sempre delicioso.

Mas a condessa atirou o papel para o lado, achando aquillo estupido.

Começou a remexer entre os papeis de musica, nervosa, e com um olhar que

escurecia. Para quebrar o silencio, Carlos gabou-lhe as suas lindas

flores.

--Ah, vou-lhe dar uma rosa! exclamou ella logo, deixando as musicas.

Mas, a flôr que ella lhe queria dar estava no _boudoir_, ao lado. Carlos

seguiu a sua grande cauda, onde corria um reflexo dourado de folhagem de

outono batida do sol. Era um gabinete forrado de azul, com um bonito

tremó do seculo XVIII, e sobre um forte pedestal de carvalho, o busto em

barro do conde, na sua expressão de orador, a fronte erguida, a gravata

desmanchada, o labio fremente...

A condessa escolheu um botão com duas folhas, e ella mesmo lhe veiu

florir a sobrecasaca. Carlos sentia o seu aroma de verbena, o calor que

subia do seu seio arfando com força. E ella não acabava de prender a

flôr, com os dedos tremulos, lentos, que pareciam collar-se, deixar-se

adormecer sobre o panno...

--_Voila!_ murmurou emfim, muito baixo. Ahi está o meu bello cavalleiro

da Rosa Vermelha... E agora, não me agradeça!

Insensivelmente, irresistivelmente, Carlos achou-se com os labios nos

labios d'ella. A seda do vestido roçava-lhe, com um fino ruge-ruge entre

os braços;--e ella pendia para traz a cabeça, branca como uma cera, com

as palpebras docemente cerradas. Elle deu um passo, tendo-a assim

enlaçada, e como morta; o seu joelho encontrou um sophá baixo, que rolou

e fugiu. Com a cauda de seda enrolada nos pés, Carlos seguiu,

tropeçando, o largo sophá, que rolou, fugiu ainda, até que esbarrou

contra o pedestal onde o sr. conde erguia a fronte inspirada. E um longo

suspiro morreu, n'um rumor de saias amarrotadas.

D'ahi a um momento estavam ambos de pé: Carlos, junto do busto, coçando

a barba, com o ar embaraçado, e já vagamente arrependido: ella, diante

do tremó Luiz XV, compondo, com os dedos tremulos, o frisado do cabello.

De repente, na antecamara, ouviu-se a voz do conde. Ella, bruscamente,

voltou-se, correu a Carlos, e, com os longos dedos cobertos de

pedrarias, agarrou-lhe o rosto, atirou-lhe dois beijos faiscantes ao

cabello e aos olhos. Depois, sentou-se largamente no sophá--e estava

fallando de Cintra, rindo alto, quando o conde entrou, seguido de um

velho calvo, que se vinha a assoar a um enorme lenço de seda da India.

Ao vêr Carlos no _boudoir_, o conde teve uma bella surpreza, esteve-lhe

apertando as mãos muito tempo, com calor, assegurando-lhe que ainda

n'essa manhã, na camara, se lembrara d'elle...

--Então, por que vieram tão tarde? exclamou a condessa, que se apoderara

logo do velho, rindo, mexendo-se, animada, amavel.

--O nosso conde fallou! disse o velho, ainda com o olho brilhante de

enthusiasmo.

--Fallaste? exclamou ela, voltando-se com um interesse encantador.

É verdade, fallara; e desprevenido! Quando ouvira porém o Torres Valente

(homem de litteratura, mas um doido, sem senso pratico) quando o ouvira

defender a gymnastica obrigatoria nos collegios--erguera-se. Mas não

imaginasse o amigo Maia, que elle tinha feito um discurso.

--Ora essa! exclamou o velho, agitando o lenço. E um dos melhores que eu

tenho ouvido na camara! Dos de arromba!

O Conde modestamente protestou. Não: tinha simplesmente lançado uma

palavra de bom senso, e de bom principio. Perguntara apenas ao seu

illustre amigo, o sr. Torres Valente, se na sua idéa, os nossos filhos,

os herdeiros das nossas casas, estavam destinados para palhaços!...

--Ah, esta piada, sr.^a condessa! exclamou o velho. Eu só queria que v.

ex.^a ouvisse esta piada... E como elle a disse! com um _chic!_

O conde sorriu, agradeceu para o lado, ao velho. Sim, dissera-lhe

aquillo. E, respondendo a outras reflexões do Torres Valente, que não

queria nos lyceus, nem nos collegios, um ensino «todo impregnado de

cathecismo», elle lançara-lhe uma palavra cruel.

--Terrivel, exclamou o velho n'um tom cavo, preparando o lenço para se

assoar outra vez.

--Sim, terrivel... Voltei-me para elle, e disse-lhe isto... «Creia o

digno par, que nunca este paiz retomará o seu logar à testa da

civilisação, se, nos lyceus, nos collegios, nos estabelecimentos de

instrucção, nós outros os legisladores formos, com mão impia, substituir

a cruz pelo trapezio...

--Sublime, rosnou o velho, dando um ronco medonho dentro do lenço.

Carlos, erguendo-se, declarou aquillo d'uma ironia adoravel.

E o conde, quando elle se despediu, não se contentou com um simples

aperto de mão, passou-lhe o braço pela cinta, chamou-lhe o seu querido

Maia. A condessa sorria, com o olhar ainda humido, um resto de pallidez,

movendo o leque languidamente, recostada em duas almofadas do

sophá--debaixo do busto do marido que erguia a fronte inspirada.

X

Tres semanas depois, por uma tarde quente, com um ceu triste de

trovoada, e no momento em que estavam cahindo algumas gotas grossas de

chuva,--Carlos apeava-se d'um coupé de praça, que viera parar, de vagar,

á esquina da Patriarchal, com os stores verdes mysteriosamente corridos.

Dous sujeitos que passavam sorriram-se, como se o vissem escoar-se

desgeitosamente d'uma portinha suspeita. E com effeito a velha

traquitana de rodas amarellas acabava de ser uma alcova d'amor,

perfumada de verbena, durante as duas horas que Carlos rolara dentro

d'ella, pela estrada de Queluz, com a sr.^a condessa de Gouvarinho.

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 21 / 53 段