batida pelo ar agreste do rio. Nenhum dizia uma palavra, cada um para o
seu canto, arripiados na friagem que entrava pelas gretas da tipoia.
Carlos não cessava de vêr o casaco branco de velludo, com as duas mangas
abertas, como dois braços que se offereciam...
Passava da uma hora quando chegaram á quinta, a sineta do portão, aos
puxões do cocheiro encharcado, retumbou lugubre n'aquelle silencio
escuro de aldeia. Um cão ladrou furiosamente: outros latidos ao longe
responderam; e ainda esperaram muito, antes que um creado, somnolento e
resmungão, apparecesse com uma lanterna. Uma rua d'acacias conduzia á
casa: o Ega praguejava, enterrando os seus bellos sapatos de velludo no
chão lamacento.
Craft, surprehendido com aquelle tumulto, veiu-lhes ao encontro no
corredor, de robe-de-chambre, e a _Revista dos Dois Mundos_ debaixo do
braço. Percebeu logo que havia desastre. Levou-os em silencio para o seu
gabinete onde um bom lume de carvão na chaminé aquecia, alegrava o
aposento todo estofado de cretones claros. Ambos foram direitos ao lume.
Ega rompera logo a contar o seu caso--emquanto Craft, sem espanto nem
exclamações, ia preparando methodicamente sobre a meza tres grogs de
cognac e limão. Carlos, sentado ao pé do fogão, aquecia os pés: e Craft
veiu acabar de ouvir o Ega, accommodando-se tambem na sua poltrona, do
outro lado da chaminé, com o seu cachimbo na bocca.
--Emfim, exclamou Ega, de pé, cruzando os braços, que me aconselhas tu
agora?
--Tens a fazer só isto, disse Craft: esperar ámanhã em casa que elle te
mande os seus padrinhos... Que tenho a certeza que não manda... E
depois, se vos baterdes, deixar-te ferir ou matar.
--Perfeitamente o que eu disse, murmurou Carlos, provando o seu grog.
Ega olhou-os a ambos, successivamente, petrificado. E logo, n'um fluxo
de palavras desordenadas, queixou-se de não ter amigos. Ali estava,
n'aquella crise, a maior da sua vida: e em logar de encontrar, nos seus
camaradas de infancia e de Coimbra, apoio, solidariedade, lealdade _à
tort et à travers_, abandonavam-n'o, pareciam querer enterral-o, e
expol-o a irrisões maiores... Ia-se commovendo; os olhos
vermelhejavam-lhe sob as lagrimas. E quando algum d'elles ia
interrompel-o, n'uma palavra de senso, batia o pé, persistia na sua
teima--um desafio, matar o Cohen, vingar-se! Tinha sido insultado. Não
existia outra cousa. Não se tinha fallado na mulher. Era elle que devia
primeiro mandar padrinhos, lavar a sua honra. Havia pessoas na sala,
quando o outro o insultou. Havia um urso, e uma tyrolesa... E emquanto a
deixar-se varar por uma bala, não! Tinha mais direito a viver que o
Cohen, que era um burguez, e um agiota... E elle era um homem de estudo
e de arte! Tinha na cabeça livros, idéas, cousas grandes. Devia-se ao
paiz, á civilisação!... Se fosse ao campo, era para fazer a sua
pontaria, e abater o Cohen, ali, como uma besta immunda...
--Mas o que é, é que não tenho amigos! gritou elle exhausto por fim,
cahindo para o canto d'um sophá.
Craft bebia em silencio, e aos golos, o seu cognac.
Foi Carlos que se ergueu, serio e aspero. Elle não tinha direito de
duvidar da sua amisade. Quando lhe tinha ella faltado? Mas era
necessario não ser pueril; nem theatral... A questão estava simplesmente
em que o Cohen o surprehendera, amando-lhe a mulher. Logo, podia
matal-o, podia entregal-o aos tribunaes, podia escavacal-o na sala a
pontapés...
--Ou peor, interrompeu Craft. Mandar-te a senhora, com este bilhetinho:
«Guarde-a».
--Ou isso! continuava Carlos. Não, senhor: limita-se a prohibir-te a
entrada em casa, um pouco asperamente, sim, mas indicando que, depois de
ter feito isto, não quer nada mais violento, nem mais dramatico. Teve
portanto um acto de moderação. E tu queres mandal-o desafiar por
isso?...
Mas Ega revoltou-se outra vez, deu um pulo, disparatou pela sala, sem
paletot agora, esguedelhado, parecendo mais phantastico n'aquelle
simples gibão escarlate, com os sapatos de velludo enlameados, as longas
pernas de cegonha cobertas de malha de seda vermelha. E teimava que se
não tratava d'isso! Não, não se tratava da mulher! A questão era
outra...
Carlos então zangou-se.
--Para que diabo te expulsou elle de casa então? Não disparates, homem!
Nós estamos-te a dizer o que faz um homem de senso. E é triste, que te
custe tanto a perceber o que manda o senso. Trahiste um amigo teu...
Nada de equivocos! tu declaravas bem alto a tua amisade pelo Cohen.
Trahistel-o, tens de acceitar a lei: se elle te quizer matar tens de
morrer. Se elle não quizer fazer nada, tens de ficar de braços cruzados.
Se elle te quizer chamar ahi por essas ruas um infame, tens de baixar a
cabeça, e reconhecer-te infame...
--Então tenho de engolir a affronta?
Os dois amigos explicaram-lhe que aquelle fato de Satanaz lhe perturbava
a lucidez do criterio mundano--e que chegava a ser torpe fallar elle,
Ega, de _affronta_.
Ega, outra vez acabrunhado sobre o sophá, conservou um momento a cabeça
enterrada nas mãos.
--Eu já nem sei, disse elle por fim. Vocês devem ter rasão... Eu
estou-me a sentir idiota ... Então, vamos, que hei de eu fazer?
--Vocês teem a tipoia á espera? perguntou tranquillamente Craft.
Carlos mandara desapparelhar, recolher o gado esfalfado.
--Excellente! Então, meu caro Ega, tens outra cousa a fazer, antes de
morrer ámanhã talvez, é cear esta noite. Eu ia ceiar, e por motivos
longos d'explicar, ha n'esta casa um peru frio. E ha-de haver uma
garrafa de Bourgonhe...
D'ahi a pouco estavam á mesa--n'aquella bella sala de jantar do Craft,
que encantava sempre Carlos, com as suas tapeçarias ovaes representando
bocados solitarios d'arvoredo, as severas faenças da Persia, e a sua
original chaminé flanqueada por duas figuras negras de Nubios com olhos
rutilantes de crystal. Carlos, que se declarara esfomeado, trinchava já
o perú, emquanto Craft, desarrolhava, com veneração, duas garrafas do
seu velho Chambertin, para reconfortar Mephistopheles.
Mas Mephistopheles, sombrio e com os olhos avermelhados, repelliu o
prato, desviou o copo. Depois, sempre condescendeu em provar o
Chambertin.
--Pois eu, dizia Craft empunhando o talher, quando vocês chegaram,
estava a lêr um artigo interessante sobre a decadencia do protestantismo
em Inglaterra...
--Que é aquillo, além, n'aquella lata? perguntou Ega, com uma voz
moribunda.
Um _pâtê de foie-gras_. Mephistopheles escolheu com tedio uma trufa.
--Bem bom, este teu Chambertin, suspirou elle.
--Anda come e bebe com franqueza, gritou-lhe Craft. Não te romantises.
Tu o que tens é fome. Todas as tuas idéas esta noite se ressentem da
debilidade!
Então Ega confessou que devia estar fraco. Com aquella excitação do seu
trage de Satanaz nem jantára, contando ceiar bem em casa do outro...
Sim, com effeito, tinha appetite! Excellente _foie-gras_...
E d'ahi a pouco devorava: foram talhadas de perú, uma porção immensa de
lingua d'Oxford, duas vezes presunto d'York, todas aquellas boas cousas
inglezas que havia sempre em casa do Craft. E elle só bebeu quasi toda
uma garrafa de Chambertin.
O escudeiro fôra preparar o café: e, no entanto, ia-se discutindo, em
todas as hypotheses, a attitude provavel do Cohen com a mulher. Que
faria elle? Talvez lhe perdoasse. Ega affirmava que não: era vaidoso, e
de rancores longos! N'um convento tambem não a fechava, sendo judia...
--Talvez a mate, disse Craft, com toda a seriedade.
Ega, já com os olhos brilhantes do Bourgogne, declarou tragicamente que
elle então entrava n'um mosteiro. Os dois gracejaram, sem piedade. Em
que mosteiro queria elle entrar? Nenhum era congenere com o Ega! Para
dominicano era muito magro, para trapista muito lascivo, muito palrador
para jesuita, e para benedictino muito ignorante... Era necessario crear
uma ordem para elle! Craft lembrou a _Santa Blague_!
--Vocês não teem coração, exclamou Ega, enchendo outro grande copo.
Vocês não sabem, eu adorava aquella mulher!
Então largou a fallar de Rachel. E teve alli, de certo, os momentos
melhores de toda aquella paixão,--porque poude, sem escrupulo, fazer
reluzir a sua aureola de amante, banhar-se no mar de leite das
confidencias vaidosas. Começou por contar o encontro com ella na
Foz--emquanto Craft, sem perder uma palavra, como quem se instrue, se
erguera a abrir uma garrafa de Champagne. Disse depois os passeios na
Cantareira; as cartinhas ainda hesitantes e platonicas, trocadas entre
folhas de livros emprestados, em que ella se assignava _Violetta de
Parma_; o primeiro beijo, o melhor, surripiado entre duas portas,
emquanto o marido correra acima a buscar-lhe charutos especiaes; os
rendez-vous no Porto, no Cemiterio do Repouso, as pressões ardentes de
mãos á sombra dos cyprestes, e os planos de voluptuosidade combinados
entre as lapides funebres...
--Muito curioso! dizia o Craft.
Mas Ega teve de se calar, o criado entrava com o café. Emquanto se
enchiam as chavenas, e Craft fôra buscar uma caixa de charutos, elle
acabou a garrafa de Champagne, já pallido, com o nariz afilado.
O criado sahiu, correndo o reposteiro de tapeçaria: e logo Ega, com o
calice de cognac ao lado, recomeçou as confidencias, contou a volta a
Lisboa, a Villa Balzac, as manhãs deliciosas passadas lá com ella no
calor d'um ninho d'amor...
Mas agora interrompia-se, vago e com os olhos turvos, enterrando um
momento a cabeça entre os punhos. Depois lá vinha outro detalhe, os
nomes lubricos que ella lhe dava, uma certa coberta de seda preta onde
ella brilhava como um jaspe... Duas lagrimas embaciaram-lhe os olhos,
jurou que queria morrer!
--Se vocês soubessem que corpo de mulher! gritou elle de repente. Oh
meninos, que corpo de mulher... Imaginem vocês um peito...
--Não queremos saber, disse Carlos. Cala-te, tu estás bebado, miseravel!
Ega ergueu-se, retezando a perna, arrimado de lado á meza.
Bebado! Elle? Ora essa!... Era cousa que não podia, era empiteirar-se.
Tinha feito o possivel, bebido tudo, até agua raz. Nunca! Não podia...
--Olha, vou pôr aquella garrafa á boca, tu verás. E fico frio, fico
impassivel. A discutir philosophia... Queres que te diga o que penso de
Darwin? É uma besta... Ora ahi tens. Dá cá a garrafa.
Mas Craft recusou-lh'a; e, um momento Ega ficou oscillando, a olhar para
elle, com a face livida.
--Ou me dás a garrafa... ou me dás a garrafa, ou te metto uma bala no
coração... Não, nem vales a bala... Vou-te dar uma bolacha!
De repente os olhos cerraram-se-lhe, abatteu-se sobre a cadeira, d'ahi
sobre o chão, como um fardo.
--Terra! disse tranquillamente Craft.
Tocou a campainha, o escudeiro entrou, apanharam João da Ega. E emquanto
o levavam para o quarto dos hospedes e lhe despiam o fato de Satanaz,
não cessou de choramingar, dando beijos babosos pelas mãos de Carlos,
balbuciando:
--Rachelsinha!... Racaqué, minha Raquesinha! gostas do teu
bibichinho?...
Quando Carlos partiu na tipoia para Lisboa, não chovia, um vento frio ia
varrendo o ceu, já clareava a alvorada.
Ao outro dia, ás dez horas, Carlos voltou aos Olivaes. Achou Craft
dormindo, e subiu ao quarto do Ega. As janellas tinham ficado abertas,
um largo raio de sol dourava o leito; e elle ressonava ainda, no meio
d'aquella aureola, deitado de lado, com os joelhos contra o estomago, o
nariz dentro dos lençoes.
Quando Carlos o sacudio, o pobre John abriu um olho triste, e
bruscamente ergueu-se sobre o cotovello, espantado para o quarto, para
os cortinados de damasco verde, para um retrato de dama empoada que lhe
sorria de dentro da sua moldura dourada. De certo as memorias da vespera
o assaltaram, porque se enterrou para baixo, com os lençoes até ao
queixo; e a sua face esverdeada, envelhecida, exprimiu a desconsolação
de deixar aquelles fofos colxões, a paz confortavel da quinta--para ir
affrontar a Lisboa toda a sorte de cousas amargas.
--Está frio lá fóra? perguntou elle melancholicamente.
--Não, está um dia adoravel. Mas levanta-te, depressa! Se lá fôr alguem
da parte do Cohen, podem imaginar que fugiste...
Ega deu immediatamente um pulo da cama, e atordoado, esguedelhado,
procurava a roupa, com as canellas nuas, tropeçando contra os moveis. Só
achou o gibão de Satanaz. Chamaram o criado, que trouxe umas calças de
Craft. Ega enfiou-as á pressa: e sem se lavar, com a barba por fazer, a
gola do paletot erguida, enterrou emfim na cabeça o bonet escossez,
voltou-se para Carlos, disse com um ar tragico:
--Vamos a isso!
Craft, que se erguera, foi acompanhal-os ao portão, onde esperava o
coupé de Carlos. Na alameda de acacias, tão tenebrosa na vespera sob a
chuva, cantavam agora os passaros. A quinta, fresca e lavada, verdejava
ao sol. O grande Terra-nova do Craft pulava em roda d'elles.
--Doe-te a cabeça, Ega? perguntou Craft.
--Não, respondeu o outro, acabando de abotoar o paletot. Eu hontem não
estava bebado... O que estava era fraco.
Mas, ao entrar para o coupé, fez, com um ar profundo e philosophico,
esta reflexão:
--O que é a gente beber bons vinhos... Estou como se não fosse nada!
Craft recommendou que se houvesse novidade, lhe mandassem um telegramma;
fechou a portinhola, o coupé partiu.
Durante a manhã não veiu telegramma á quinta; e quando Craft appareceu
na Villa Balzac, onde uma carruagem de Carlos esperava á porta, já
escurecera, duas vélas ardiam na triste sala verde. Carlos, estirado no
sophá, dormitava, com um livro aberto sobre o estomago: e Ega passeiava
d'um lado para outro, todo vestido de preto, pallido, com uma rosa na
botoeira. Tinham estado alli na sala, n'aquella sécca, esperando todo o
dia as testemunhas do Cohen.
--Que te dizia eu? Não ha nada, nem podia haver, murmurou Craft.
Mas Ega, agora agitado de idéas negras, temia que elle tivesse
assassinado a mulher! O sorriso sceptico de Craft indignou-o. Quem
conhecia melhor o Cohen do que elle? Sob a apparencia burgueza, era um
monstro! Tinha-lhe visto matar um gato, só por capricho de derramar
sangue...
--Tenho um presentimento de desgraça, balbuciou elle aterrado.
E logo n'esse momento a campainha retiniu. Ega acordou precipitadamente
Carlos, empurrou os dois amigos para o quarto de cama. Craft ainda lhe
disse que, áquella hora, não podiam ser os amigos do Cohen. Mas elle
queria estar só na sala: e lá ficou, mais pallido, rigido, muito
abotoado na sobrecasaca, com os olhos cravados na porta.
--Que massada! dizia Carlos dentro, tenteando a escuridão do quarto.
Craft accendeu no toucador um resto de vella. Uma luz triste
espalhou-se, tudo appareceu n'um desarranjo: no meio do chão estava
cahida uma camisa de dormir; a um canto ficara a bacia de banho com agoa
de sabão; e, no centro, o enorme leito, envolto nas suas cortinas de
seda vermelha, conservava uma magestade de tabernaculo.
Um momento estiveram callados. Craft methodico, e como quem se instrue,
examinava o toucador, onde havia um maço de ganchos de cabello, uma liga
com o fecho quebrado, um ramo de violetas murchas. Depois foi olhar o
marmore da commoda; ahi ficara um prato com ossos de frango, e ao lado
uma meia folha de papel escripta a lapis, toda emendada, de certo
trabalho litterario do Ega. Elle achava tudo isto muito curioso.
Da sala, no entanto, vinha um ciciar de vozes subtil e intimo. Carlos
escutando, julgou sentir uma falla abafada de mulher... Impaciente, foi
á cozinha. A criada estava sentada á meza, com a mão mettida pelos
cabellos, sem fazer nada, a olhar para a luz: o pagem, espaparrado n'uma
cadeira, chupava o seu cigarro.
--Quem foi que entrou? perguntou Carlos.
--Foi a criada do sr. Cohen, disse o garoto, escondendo o cigarro atraz
das costas.
Carlos voltou ao quarto, annunciando:
--É a confidente. As cousas terminam amavelmente.
--E como queria você que terminassem? disse Craft. O Cohen tem o seu
Banco, os seus negocios, as suas letras a vencer, o seu credito, a sua
respeitabilidade, todo um arranjo de cousas a que não convém um
escandalo... É isto que calma os maridos. Além d'isso, já se satisfez,
já lhe offereceu pontapés...
N'esse instante houve um rumor na sala, Ega abriu violentamente a porta.
--Não ha nada, exclamou elle, deu-lhe uma coça, e vão ámanhã para
Inglaterra!
Carlos olhou para o Craft--que movia a cabeça, como vendo todas as suas
previsões realisadas, e approvando plenamente.
--Uma coça, dizia o Ega, com os olhos chammejantes e n'uma voz que
sibillava. E depois fizeram as pazes... Vem ainda a ser um _menage_
modelo! A bengala purifica tudo... Que canalha!
Estava furioso. N'esse momento odiava Rachel--não perdoando ao seu idolo
ter-se deixado desfazer á paulada. Lembrava-se justamente da bengala do
Cohen, um junco da India, com uma cabeça de galgo por castão. E aquillo
zurzira as carnes que elle tinha apertado com paixão! Aquillo pozera
vergões roxos onde os seus labios tinham avivado signaes côr de rosa! E
tinham _feito as pazes_. E assim terminava, relles e chinfrim, o romance
melhor da sua vida! Preferiria sabel-a morta, a sabel-a espancada. Mas
não! levava a sova, deitava-se depois com o marido, e elle mesmo,
decerto arrependido, chamando-lhe nomes doces, a ajudava, em ceroulas, a
fazer as applicações de arnica! Aquillo acabava em arnica!
--Entre vocemecê para aqui, sr.^a Adelia, gritou elle para a sala, entre
para aqui! Aqui só ha amigos. O segredo acabou, o pudor acabou! Isto são
amigos! Somos tres, mas somos um! Tem vocemecê diante de si o grande
mysterio da Santissima Trindade. Sente-se, sr.^a Adelia, sente-se... Não
faça ceremonia... E póde contar... Aqui a sr.^a Adelia, meninos, viu
tudo, viu a coça!
A sr.^a Adelia, uma moça gordinha e baixa, de bonitos olhos, com um
chapéo de flôres vermelhas, veiu logo da sala rectificando. Não, ella
não vira... Então o sr. Ega não tinha percebido bem... Ella só _ouvira_.
--Aqui está como foi, meus senhores... Eu tinha ficado a pé,
naturalmente, até ao fim do baile, que estava que nem me tinha nas
pernas. Era já dia claro, quando o senhor, ainda vestido de moiro, se
fechou no quarto com a senhora. Eu fiquei na cozinha com o Domingos á
espera que elles tocassem a campainha. De repente ouvimos gritos!... Eu
fiquei estarrecida, pensei até que eram ladrões. Corremos, eu e o
Domingos, mas a porta do quarto estava fechada, e os dois estavam por
dentro, lá para o fundo da alcova. Eu ainda puz o olho á fechadura, mas
não pude vêr nada... Lá o estalar de bofetadas, e trambulhões, e sons de
bengalada, isso sim, isso ouvia-se perfeitamente; e os gritos. Eu disse
logo ao Domingos «ai que é uma questão, ai que lá se foi tudo.» Mas de
repente, silencio geral! Nós voltámos para a cozinha; d'ahi a pouco o
sr. Cohen appareceu, todo esguedelhado, em mangas de camisa, a dizer que
nos podiamos deitar, que elles não precisavam nada, e que amanhã
fallariamos!... Depois lá ficaram toda a noite, e pela manhã parece que
estavam muito amiguinhos... Que eu não puz os olhos na senhora. O sr.
Cohen, apenas se levantou, veiu á cozinha, fez-me elle as contas, e
pôz-me fóra; muito mal creado, até me ameaçou com a policia... Foi pelo
Domingos, que eu soube agora, quando fui buscar o bahú com um gallego,
que o sr. Cohen ía com a senhora para Inglaterra. Emfim, um chinfrim...
Eu até tenho estado todo o dia com o estomago embrulhado.
A sr.^a Adelia com um suspiro, pondo os olhos no chão, calou-se. Ega,
com os braços cruzados, olhava amargamente para os seus amigos. Que lhes
parecia aquillo? Uma coça!.. Se um covarde d'aquelles não merecia uma
bala no coração! Mas ella tambem, deixar-se tocar, não ter fugido,
consentir ainda depois em dormir com elle!.. Tudo uma corja!
--E a sr.^a Adelia, perguntava Craft, não tem idéa de como elle
descobriu?..
--Isso é que é prodigioso! gritou Ega, apertando as mãos na cabeça.
Sim, prodigioso! Não fôra carta apanhada: elles não se escreviam. Não
podia ter surprehendido as visitas á Villa Balzac: as cousas estavam
combinadas com uma arte muito subtil, perfeitamente impenetraveis. Para
vir ali, nunca ella commettera a indiscripção de se servir da sua
carruagem. Nunca ella claramente entrara pela porta. Os criados d'elle
nunca a tinham visto, não sabiam quem era a senhora que o visitava...
Tantos cuidados, e tudo estragado!
--Estranho, estranho! murmurava Craft.
Houve um silencio. A sr.^a Adelia terminara por descançar familiarmente
n'uma cadeira, com a sua trouxasinha no regaço.
--Pois olhe, sr. Ega, disse ella, depois de reflectir creia então uma
cousa, é que foi em sonhos. Já tem acontecido... Foi a senhora que
sonhou alto com v. ex.^a, disse tudo, o sr. Cohen ouviu, ficou de pedra
no sapato, espreitou-a, e descobriu a marosca... E eu sei que ella sonha
alto.
Ega, diante da sr.^a Adelia, percorria-a desde as flôres do chapéo até á
roda das saias, com os olhos faiscantes.
--Como é possivel que elle ouvisse? Se elles tinham quartos
separados!... Eu sei que tinham.
A sr.^a Adelia baixou as palpebras, acariciou com os dedos calçados de
luvas pretas a sua trouxasinha redonda, e disse mais baixo estas
palavras:
--Não tinham, não senhor. Nem a senhora consentia em tal arranjo... A
senhora gosta muito do marido, e tem muitos ciumes d'elle.
Houve um silencio embaraçado e desagradavel. Sobre o toucador o resto da
vella acabava, com uma luz lugubre. E Ega, que affectara sorrir,
encolher os hombros, dava pelo quarto passos lentos e murchos,
triturando o bigode com a mão tremula.
Então Carlos enojado, cançado d'aquelle episodio que durava desde a
vespera, e onde constantemente se remexera em lodo, declarou que era
necessario findar! Eram oito horas, e elle queria jantar...
--Sim, vamos todos jantar, murmurou o Ega, com o ar confuso e embaçado.
De repente fez um signal á sr.^a Adelia, arrastou-a para a sala,
fechou-se lá outra vez.
--Você não está farto d'isto, Craft? exclamou Carlos, desesperado.
--Não. Acho um estudo curioso.
Esperaram ainda dez minutos. Subitamente a vella extinguiu-se. Carlos,
furioso, gritou pelo pagem. E o garoto entrava com um immundo candieiro
de petroleo--quando Ega, mais composto, voltou da sala. Tudo acabara, a
sr.^a Adelia partira.
--Vamos lá jantar, disse elle. Mas aonde, a esta hora?
E elle mesmo lembrou o André, ao Chiado. Em baixo, alem do coupé de
Carlos, esperava a tipoia do Craft. As duas carruagens partiram. A Villa
Balzac ficava apagada, muda, d'ora em diante inutil.
No André tiveram de esperar muito tempo, n'um gabinete triste, com um
papel de estrellinhas douradas, cortininhas de cassa barata sob sanefas
de reps azul, e dois bicos de gaz que silvavam. Ega, enterrado no sophá
de mollas gastas e lassas, cerrara os olhos, parecia exhausto. Carlos ía
contemplando as gravuras pela parede, todas relativas a hespanholas: uma
saíndo da egreja; outra saltando uma pocinha de agua; outra, de olhos
baixos, escutando os conselhos de um canonico. Craft, já á meza, com a
cabeça entre os punhos, percorria um _Diario da Manhã_, que o criado
offerecera para os senhores se entreterem.
De repente o Ega deu um murro no sophá, que rangeu lamentavelmente.
--Eu o que não percebo, gritou elle, é como aquelle malvado descobriu!..
--A hypothese da sr.^a Adelia, disse Craft erguendo os olhos do jornal,
parece provavel. Ou em sonhos, ou acordada, a pobre senhora descahiu-se.
Ou talvez uma denuncia anonyma. Ou talvez apenas um acaso... O facto é
que o homem desconfiou, espreitou-a, e apanhou-a.
Ega erguera-se:
--Eu não vos quiz dizer diante da Adelia, que não estava no segredo
todo. Mas vocês sabem a casa defronte da minha, do outro lado da viella,
uma casa com um grande quintal? Ahi mora uma tia do Gouvarinho, a D.
Maria Lima, uma pessoa respeitavel. A Rachel ía vêl-a de vez em quando.
São intimas, a D. Maria Lima é intima de todo o mundo. Depois sahia por
uma portinha do quintal, atravessava a viella, e estava á porta da minha
casa, á porta escusa, á porta da escada que vae ter ao cacifro de banho.
Já vocês vêem... Os criados nem a avistavam. Quando ella lá lunchava, o
lunch estava já posto no meu quarto, as portas fechadas. Mesmo se alguem
visse, era uma senhora com um véo preto, que vinha de casa da Lima...
Como podia o homem apanhal-a?.. Além d'isso, em casa da Lima, ella
mudava de chapéo, e punha um waterproof...
Craft cumprimentou.
--É brilhante! Parece de Scribe.
--Então, disse Carlos sorrindo, essa respeitavel fidalga...