A sala era espaçosa, com uma mobilia de réps azul, e um grande espelho

sobre a console dourada, entre as duas janellas: a meza estava coberta

de jornaes, de caixas de charutos, e de romances de Cappendu; sobre uma

cadeira, ao lado, ficára enrolado um bordado.

--Esta Melanie, esta desleixada, murmurava o Damaso, fechando a janella

com um esforço sobre o feixo perro. Deixar assim tudo aberto! Jesus, que

gente!

--Este cavalheiro é bonapartista, disse Carlos vendo sobre a meza os

numeros do _Pays_.

--Isso, temos questões terriveis! exclamou o Damaso. E eu enterro-o

sempre... É bom rapaz, mas tem pouco fundo.

Melanie voltou pedindo a _Monsieur le Docteur_ para entrar um instante

no gabinete de toilette. E ahi, depois de apanhar uma toalha cahida, de

dardejar a Carlos outro olharsinho petulante, disse que Miss Sarah vinha

immediatamente, e retirou-se na ponta dos sapatos. Fóra, na sala,

ergueu-se logo a voz do Damaso, fallando a Melanie de _sa

responsabilité, et que il etait très affligé_.

Carlos ficou só, na intimidade d'aquelle gabinete de toilette, que

n'essa manhã ainda não fôra arrumado. Duas malas, pertencentes de certo

a Madame, enormes, magnificas, com fecharias e cantos de aço polido,

estavam abertas: d'uma trasbordava uma cauda rica, de seda forte côr de

vinho: e na outra era um delicado alvejar de roupa branca, todo um luxo

secreto e raro de rendas e _baptistes_, d'um brilho de neve, macio pelo

uso e cheirando bem. Sobre uma cadeira alastrava-se um monte de meias de

seda, de todos os tons, unidas, bordadas, abertas em renda e tão leves,

que uma aragem as faria voar; e, no chão corria uma fila de sapatinhos

de verniz, todos do mesmo estylo, longos, com o tacão baixo e grandes

fitas de laçar. A um canto estava um cesto acolchoado de seda côr de

rosa, onde de certo viajara a cadellinha.

Mas o olhar de Carlos prendia-se sobre tudo a um sophá onde ficará

estendido, com as duas mangas abertas, á maneira de dous braços que se

offerecem, o casaco branco de velludo lavrado de Genova com que elle a

vira, a primeira vez, apear-se á porta do hotel. O forro, de setim

branco, não tinha o menor acolxoado, tão perfeito devia ser o corpo que

vestia: e assim, deitado sobre o sophá, n'essa attitude viva, n'um

desabotoado de semi-nudez, adiantando em vago relevo o cheio de dois

seios, com os braços alargando-se, dando-se todos, aquelle estofo

parecia exhalar um calor humano, e punha ali a fórma d'um corpo amoroso,

desfallecendo n'um silencio d'alcova. Carlos sentiu bater o coração. Um

perfume indefinido e forte de jasmim, de marechala, de tanglewood,

elevava-se de todas aquellas cousas intimas, passava-lhe pela face com

um bafo suave de caricia...

Então desviou os olhos, approximou-se da janella, que tinha por

perspectiva a fachada enxovalhada do hotel _Shneid_. Quando se voltou,

miss Sarah estava diante d'elle, vestida de preto e muito córada: era

uma pessoa sympathica, redondinha e pequena, com um ar de rola farta, os

olhos sentimentaes, e uma testa de virgem sob bandós lisos e louros.

Balbuciava umas palavras em francez, em que Carlos só percebeu

_docteur_.

--_Yes, I am the doctor_, disse elle.

A face da boa ingleza illuminou-se. Oh! era tão bom, ter emfim com quem

se entender! A menina estava muito melhor! Oh, o doutor vinha livral-a

d'uma responsabilidade!...

Abriu o reposteiro, fêl-o penetrar n'um quarto com as janellas todas

cerradas, onde elle apenas distinguiu a fórma d'um grande leito e o

brilho de cristaes n'um toucador. Perguntou para que eram aquellas

trevas?

Miss Sarah pensara que a escuridão faria bem à menina, e a adormeceria.

E trouxera-a ali para o quarto da mamã, por ser mais largo e mais

arejado.

Carlos fez abrir as janellas: e, quando a grande luz entrou, ao avistar

a pequena no leito, sob os cortinados abertos, não conteve a sua

admiração.

--Que linda creança!

E ficou um instante a contemplal-a, n'um enlevo d'artista, pensando que

os brancos mais mimosos, mais ricos, sob a mais sabia combinação de luz,

não egualariam a pallidez eburnea d'aquella pelle maravilhosa: e esta

adoravel brancura era ainda realçada por um cabello negro, tenebroso,

forte, que reluzia sob a rede. Os seus por dois olhos grandes, d'um azul

profundo e liquido, pareciam n'esse instante maiores, muito serios, e

muito abertos para elle.

Estava encostada a um grande travesseiro, toda quieta, com o susto ainda

da dôr, perdida n'aquelle vasto leito, e apertando nos braços uma enorme

boneca paramentada, de pello riçado, d'olhos tambem azues e arregalados

tambem.

Carlos tomou-lhe a mãosinha e beijou-lh'a,--perguntando se a boneca

tambem estava doente.

--Cri-cri tambem teve dôr, respondeu ella muito séria, sem tirar d'elle

os seus magnificos olhos. Eu já não tenho...

Estava com effeito fresca como uma flor, com a lingoasinha muito rosada,

e a sua vontade já de lunchar.

Carlos tranquillisou miss Sarah. Oh, ella via bem que mademoiselle

estava boa. O que a assustara fôra achar-se ali só, sem a mamã, com

aquella responsabilidade. Por isso a tinha deitado... Oh se fosse uma

creança ingleza saía com ella para o ar... Mas estas meninas

estrangeiras, tão debeis, tão delicadas... E o labiosinho gordo da

ingleza trahia um desdem compassivo por estas raças inferiores e

deterioradas.

--Mas a mamã não é doente?

Oh, não! Madame era muito forte. O senhor, esse sim, parecia mais

fraco...

--E, como se chama a minha querida amiga? perguntou Carlos, sentado à

cabeceira do leito.

--Esta é Cri-cri, disse a pequena, apresentando outra vez a boneca. Eu

chamo-me Rosa, mas o papá diz que eu que sou Rosicler.

--Rosicler? realmente? disse Carlos sorrindo d'aquelle nome de livro de

cavallaria, rescendente a torneios, e a bosques de fadas.

Então, como colhendo simplesmente informações de medico, perguntou a

miss Sarah se a menina sentira a mudança de clima. Habitavam

ordinariamente Paris, não é verdade?

Sim, viviam em Paris no inverno, no parque Monceaux; de verão iam para

uma quinta da Touraine ao pé mesmo de Tours, onde ficavam até ao começo

da caça; e iam sempre passar um mez a Dieppe. Pelo menos fora assim, nos

ultimos tres annos, desde que ella estava com Madame.

Emquanto a ingleza fallava, Rosa, com a sua boneca nos braços, não

cessava de olhar Carlos gravemente e como maravilhada. Elle, de vez em

quando sorria-lhe, ou acariciava-lhe a mãosinha. Os olhos da mãe eram

negros: os do pae d'azeviche e pequeninos: de quem herdara ella aquellas

maravilhosas pupillas d'um azul tão rico, liquido e doce.

Mas a sua visita de medico findara, ergueu-se para receitar um calmante.

Emquanto a ingleza preparava muito cuidadosamente o papel, e

experimentava a pena, elle examinou um momento o quarto. N'aquella

installação banal d'hotel, certos retoques d'uma elegancia delicada

revelavam a mulher de gosto e de luxo: sobre a commoda e sobre a meza

havia grandes ramos de flores: os travesseiros e os lençoes não eram do

hotel, mas proprios, de bretanha fina, com rendas e largos monogrammas

bordados a duas côres. Na poltrona que ella usava uma cachemira de

Tarnah disfarçava o medonho reps desbotado.

Depois, ao escrever a receita, Carlos notou ainda sobre a meza alguns

livros de encadernações ricas, romances e poetas inglezes: mas destoava

ali, estranhamente, uma brochura singular--o _Manual de interpretação

dos sonhos_. E ao lado, em cima do toucador, entre os marfins das

escovas, os cristaes dos frascos, as tartarugas finas, havia outro

objecto estravagante, uma enorme caixa de pó de arroz, toda de prata

dourada, com uma magnifica safira engastada na tampa dentro d'um circulo

de brilhantes miudos, uma joia exagerada de cocotte, pondo ali uma

dissonancia audaz de explendor brutal.

Carlos voltou junto do leito, e pediu um beijo a Rosicler: ella

estendeu-lhe logo a boquinha fresca como um botão de rosa; elle não

ousou beijal-a assim n'aquelle grande leito da mãe, e tocou-lhe apenas

na testa.

--Quando vens tu outra vez? perguntou ella agarrando-o pela manga do

casaco.

--Não é necessario vir outra vez, minha querida. Tu estás boa, e Cri-cri

tambem.

--Mas eu quero o meu lunch... Dize a Sarah que eu posso tomar o meu

lunch... E Cri-cri tambem.

--Sim já podeis ambas petiscar alguma cousa... Fez as suas

recommendações á mestra, e depois, apertando a mãosinha da pequena:

--E agora adeus, minha linda Rosicler, uma vez que és Rosicler...

E não quiz ser menos amavel com a boneca, deu-lhe tambem um

_shake-hands_.

Isto pareceu captivar Rosa ainda mais. A ingleza, ao lado, sorria, com

duas covinhas na face.

Não era necessario, lembrou Carlos, conservar a creança na cama, nem

tortural-a com cautellas exageradas...

--Oh, nò, sir!

E se a dôr reapparecesse, ainda que ligeira, mandal-o logo chamar...

--Oh yes, sir!

E ali deixava o seu bilhete, com a sua adresse.

--Oh thank you, sir!

Ao voltar á sala, o Damaso saltou do sophá, onde percorria um jornal,

como uma féra a quem se abre a jaula.

--Credo, imaginei que ias lá ficar toda a vida! Que estivestes tu a

fazer? Irra, que estopada!

Carlos, calçando as luvas, sorria, sem responder.

--Então, é cousa de cuidado?

--Não tem nada. Tem uns lindos olhos... E um nome extraordinario.

--Ah, Rosicler, murmurou Damaso, agarrando o chapéo com mau modo; muito

ridiculo, não é verdade?

A creada franceza appareceu outra vez a abrir a porta da

sala,--dardejando para Carlos o mesmo olhar quente e vivo. Damaso

recommendou-lhe muito que dissesse aos senhores, que elle tinha vindo

logo com o medico; e que havia de voltar á noite para lhes fazer uma

surpreza, e para saber se tinham gostado de Queluz--_si ils avaient aimè

Queluz_.

Depois, ao passar diante do escriptorio, metteu a cabeça, para dizer ao

guarda-livros, que a menina estava boa, tudo ficava em socego.

O guarda livros sorrio, e cortejou.

--Queres que te vá levar a casa? perguntou elle a Carlos, em baixo,

abrindo a porta do coupé, ainda com um resto de mau humor.

Carlos preferia ir a pé.

--E acompanha-me tu um bocado, Damaso, tu agora não tens que fazer.

Damaso hesitou, olhando o céu aspero, as nuvens pesadas de chuva. Mas

Carlos tomara-lhe o braço, arrastava-o, amavel e gracejando.

--Agora que te tenho aqui, velhaco, homem fatal, quero o _romance_... Tu

disseste que tinhas um _romance_. Não te largo. És meu. Venha o

_romance_. Eu sei que os tens sempre bons. Quero o _romance_!

Pouco a pouco Damaso sorria, as bochechas esbrazeavam-se-lhe de

satisfação.

--Vae-se fazendo pela vida, disse elle a estoirar de jactancia.

--Vocês estiveram em Cintra?...

--Estivemos, mas isso não foi divertido... O romance é outro!

Desprendeu-se do braço de Carlos, fez um signal ao cocheiro para que os

seguisse, e regalou-se pelo Aterro fóra de contar o seu _romance_.

--A coisa é esta... O marido d'aqui a dias vai para o Brazil, tem lá

negocios. E ella fica! Fica com as criadas e com a pequena, á espera,

dois ou tres mezes. Diz que já andaram até a vêr casas mobiladas, que

ella não quer estar no hotel... E eu, intimo, a unica pessoa que ella

conhece, mettido de dentro... Hein, percebes agora?

--Perfeitamente, disse Carlos, arrojando para longe o charuto, com um

gesto nervoso. E de certo, a pobre creatura já está fascinada! Já lhe

déste, como costumas, um beijo ardente entre duas portas! Já a

desgraçada se surtiu da caixa de phosphoros, para mais tarde quando a

abandonares!

Damaso enfiava.

--Não venhas já tu com o espirito e com a chufasinha... Não lhe dei

beijos que ainda não houve occasião... Mas, o que te posso dizer, é que

tenho mulher!

--Pois já era tempo, exclamou Carlos, sem conter um gesto brusco, e

atirando-lhe as palavras como chicotadas. Já era tempo! Andavas ahi

mettido com umas creaturas ignobeis, uma ralé de lupanar. Emfim, agora

ha progresso. E eu gosto que os meus amigos vivam n'uma ordem de

sentimentos decentes... Mas vê lá... Não sejas o costumado Damaso! Não

te vás pôr a alardear isso pelo Gremio e pela casa Havaneza!

D'esta vez Damaso estacou, suffocado, sem comprehender aquelle modo,

semelhante azedume. E terminou por balbuciar, livido:

--Tu podes entender muito de medicina e de bric-a-brac, mas lá a

respeito de mulheres, e da maneira de fazer as cousas, não me dás

licções...

Carlos olhou-o, com um desejo brutal de o espancar. E de repente,

sentio-o tão innofensivo, tão insignificante, com o seu ar bochechudo, e

molle, que se envergonhou do surdo despeito que o atravessara, tomou-lhe

o braço, teve duas palavras amaveis.

--Damaso, tu não me comprehendeste. Eu não te quiz fazer zangar... É

para teu bem... O que eu receava é que tu, imprudente, arrebatado,

apaixonado, fosses perder essa bella aventura por uma indiscrição...

E o outro ficou logo contente, sorrindo já, abandonando-se ao braço do

seu amigo, certo que o desejo do Maia era que elle tivesse uma amante

_chic_. Não, elle não se tinha zangado, nunca se zangava com os

intimos... Comprehendia bem que o que Carlos dizia era por amisade...

--Mas tu, ás vezes, tens essa cousa que te pegou o Ega, gostas do teu

bocadinho de espirito...

E então tranquillisou-o. Não, por imprudencia não havia elle de «perder

a cousa». Aquillo ia com todas as regras. Lá n'isso sobrava-lhe

experiencia. A Melanie já a tinha na mão; já lhe dera duas libras.

--Isto de mais a mais é uma cousa muito seria... Ella conhece meu tio, é

intima d'elle desde pequena, tratam-se até por _tu_...

--Que tio?

--Meu tio Joaquim... Meu tio Joaquim Guimarães. Mr. de Guimaran, o que

vive em Paris, o amigo de Gambetta...

--Ah sim, o communista...

--Qual communista, até tem carruagem!

Subitamente lembrou-lhe outra cousa, um ponto de toilette em que queria

consultar Carlos.

--Ámanhã vou jantar com elles, e vão tambem dois brazileiros, amigos

d'elle, que chegaram ahi ha dias, e que partem pelo mesmo paquete... Um

é _chic_, é da Legação do Brazil em Londres. De maneira que é jantar de

ceremonia. O Castro Gomes não me disse nada; mas que te parece, achas

que vá de casaca?...

--Sim, atira-lhe casaca, e uma boa rosa na lapella.

O Damaso olhou-o, pensativo.

--A mim tinha-me lembrado o habito de Christo.

--O habito de Christo... Sim, põe o habito de Christo ao pescoço, e põe

a rosa na botoeira.

--Será talvez de mais, Carlos!

--Não, fica bem ao teu typo.

Damaso fizera parar o coupé que os tinha seguido a passo. E no ultimo

aperto de mão a Carlos:

--Tu sempre vaes á noite, aos Cohens, de dominó? O meu fato de selvagem

ficou divino. Eu venho mostral-o á noite á brazileira... Entro no Hotel

embrulhado n'um capote, e appareço-lhes de repente na sala, de selvagem,

de Nelusko, a cantar:

Alerta, marinari,

Il vento cangia...

_Chic_ a valer!... _Good bye!_

Ás dez horas Carlos vestia-se para o baile dos Cohens. Fóra, a noite

fizera-se tenebrosa, com lufadas de vento, pancadas d'agoa, que a cada

instante batiam agrestemente o jardim. Ali, no gabinete de toilette,

errava no ar tepido um vago aroma de sabonete e de bom charuto. Sobre

duas commodas de pau preto, marchetadas a marfim, duas serpentinas de

velho bronze erguiam os seus molhos de vellas accezas, pondo largos

reflexos doces sobre a seda castanha das paredes. Ao lado do alto

espelho-psyché alastrava-se, em cima d'uma poltrona, o dominó de já

setim negro com um grande laço azul-claro.

Baptista, com a casaca na mão, esperava que Carlos acabasse a chavena de

chá preto que elle estava bebendo aos golos, de pé, em mangas de camisa,

e de gravata branca.

De repente, o timbre electrico da porta particular reteniu, apressado e

violento.

--Talvez outra surpreza, murmurou Carlos, hoje é o dia das surprezas...

Baptista sorriu, ia pousar a casaca para abrir--quando em baixo vibrou

outro repique brutal, d'uma impaciencia phrenetica.

Então Carlos, curioso, sahiu á ante-camara: e ahi, á meia luz das

lampadas Carcel, ainda quebrantada pelo tom dos velludos côr de cereja,

viu, ao abrir-se a porta por onde entrou um sopro aspero da noite,

apparecer vivamente uma fórma esguia e vermelha, com um confuso tinir de

ferro. Depois, pela escada acima, duas pennas negras de gallo ondearam,

um manto escarlate esvoaçou--e o Ega estava diante d'elle,

caracterisado, vestido de Mephistopheles!

Carlos apenas poude dizer _bravo_--o aspecto do Ega emmudeceu-o. Apezar

dos toques de caracterisação que quasi o mascaravam, sobrancelhas de

diabo, guias de bigode ferozmente exageradas--sentia-se bem a afflicção

em que vinha, com os olhos injectados, perdido, n'uma terrivel pallidez.

Fez um gesto a Carlos, arremessou-se pelo gabinete dentro. Baptista,

logo, discretamente, retirou-se cerrando o reposteiro.

Estavam sós. Então Ega, apertando desesperadamente as mãos, n'uma voz

rouca e d'agonia:

--Tu sabes o que me succedeu, Carlos?

Mas não poude dizer mais, suffocado, tremendo todo; e diante d'elle,

devorando-o com os olhos, Carlos tremia tambem, enfiado.

--Cheguei a casa dos Cohens, continuou Ega por fim com esforço e quasi

balbuciando, mais cedo, como tinhamos combinado. Ao entrar na sala, já

estavam duas ou tres pessoas... Elle vem direito a mim, e diz-me: «Você,

seu infame, ponha-se já no meio da rua... Já no meio da rua senão,

diante d'esta gente, corro-o a pontapés!» E eu, Carlos...

Mas a colera outra vez abafou-lhe a voz. E esteve um momento mordendo os

beiços, recalcando os soluços, com os olhos reluzentes de lagrimas.

Quando as palavras voltaram, foi uma explosão selvagem:

--Quero-me batter em duello com aquelle malvado, a cinco passos,

metter-lhe uma bala no coração!

Outros sons estrangulados escaparam-se-lhe da garganta; e, batendo

furiosamente o pé, esmurrando o ar, berrava, sem cessar, como cevando-se

na estridencia da propria voz.

--Quero matal-o! Quero matal-o! Quero matal-o!

Depois, allucinado, sem ver Carlos, rompeu a passear desabridamente pelo

quarto, ás patadas, com o manto deitado para traz, a espada mal

afivelada batendo-lhe as canellas escarlates.

--Então descobriu tudo, murmurou Carlos.

--Está claro que descobriu tudo! exclamou o Ega, no seu passear

arrebatado, atirando os braços ao ar. Como descobriu, não sei. Sei isto,

já não é pouco. Poz-me fóra!... Hei-de-lhe metter uma bala no corpo!

Pela alma de meu pae, hei-de-lhe varar o coração!... Quero que vás lá

logo pela manhã com o Craft... E as condições são estas: á pistolla, a

quinze passos!

Carlos, agora outra vez sereno, acabava a sua chavena de chá. Depois

disse muito simplesmente:

--Meu querido Ega, tu não podes mandar desafiar o Cohen.

O outro estacou de repellão, atirando pelos olhos dois relampagos

d'ira--a que as medonhas sobrancelhas de crepe, as duas pennas de gallo

ondeando na gorra, davam uma ferocidade theatral e comica.

--Não o posso mandar desafiar?

--Não.

--Então põe-me fóra de casa...

--Estava no seu direito.

--No seu direito!... Diante de toda a gente?...

--E tu, não eras amante da mulher diante de toda a gente?...

O Ega ficou a olhar um momento para Carlos, como atordoado. Depois fez

um grande gesto:

--Não se trata da mulher!... não se fallou da mulher!... É uma questão

d'honra para mim, quero mandal-o desafiar, quero matal-o...

Carlos encolheu os hombros.

--Tu não estás em ti. Tens só uma coisa a fazer; é ficar ámanhã em casa,

a vêr se elle te manda desafiar a ti...

--O que, o Cohen! exclamou Ega. É um covarde, é um canalha!... Ou o

mato, ou lhe rasgo a cara com um chicote. Desafiar-me! Olha quem... Tu

estás doido...

E recomeçou o seu passear desabalado do espelho para a janella,

soprando, rilhando os dentes, com repellões para traz ao manto que

faziam oscillar, nas serpentinas, as chammas altas das vellas.

Carlos não dizia nada, de pé junto da meza, enchendo lentamente de novo

a sua chavena. Tudo aquillo começava a parecer-lhe pouco serio, pouco

digno, as ameaças de pontapés do marido, os furores melodramaticos do

Ega:--e mesmo não podia deixar de sorrir diante d'aquelle Mephistopheles

esgouroviado, espalhando pelo quarto o brilho escarlate do seu manto de

velludo, e a fallar furiosamente d'honra e de morte, com sobrancelhas

postiças, e escarcella de coiro á cinta.

--Vamos fallar ao Craft! exclamou de repente Ega, parando, com esta

brusca resolução. Quero vêr o que diz o Craft. Tenho lá em baixo uma

tipoia; estamos lá n'um instante!

--Ir agora á quinta, aos Olivaes? disse Carlos, olhando o relogio.

--Se és meu amigo, Carlos!...

Carlos immediatamente, sem chamar o Baptista, acabou de se vestir.

Ega, no entanto, ia preparando uma chavena de chá, deitando-lhe rhum,

ainda tão nervoso, que mal podia segurar a garrafa. Depois, com um

grande suspiro, accendeu uma cigarrete. Carlos entrára na alcova de

banho, ao lado, allumiada por um forte jacto de gaz que assobiava. Fóra,

a chuva continuava seguida e monotona, as goteiras escoavam-se no chão

molle do jardim.

--Achas que a tipoia aguentará? perguntou Carlos de dentro.

--Aguenta, é o _Canhôto_, disse Ega.

Agora reparara no dominó, fôra erguel-o, examinava-lhe o setim rico, o

bello laço azul claro. Depois, tendo encontrado diante de si o grande

espelho-psyché, entalou o monoculo no olho, recuou um passo,

contemplou-se d'alto a baixo;--e terminou por pousar uma das mãos na

cinta, appoiar a outra, galhardamente, sobre os copos da espada.

--Eu não estava mal, oh Carlos, hein?

--Estavas explendido, respondeu o outro de dentro da alcova. Foi pena

estragar-se tudo... Como estava ella?

--Devia estar de Margarida.

--E elle?

--A besta? De beduino.

E continuou ao espelho, gosando a sua figura esguia, as pennas da gorra,

os sapatos bicudos de velludo, e a ponta flamante da espada erguendo o

manto por traz, n'uma prega fidalga.

--Mas então, disse Carlos, apparecendo a enxugar as mãos, tu não fazes

idéa do que se passou, o que elle diria á mulher, o escandalo...

--Não faço idéa nenhuma, disse o Ega, agora mais sereno. Quando entrei

na primeira sala estava elle, de beduino; estava um outro sujeito

d'urso, e uma senhora não sei de que, de Tyrollesa creio eu... Elle veiu

para mim, e disse-me aquillo: ponha-se fóra! Não sei mais nada... Nem

posso perceber... O canalha, se descobriu, naturalmente, para não

estragar a festa, não disse nada a Rachel... Depois é que ellas são!

Ergueu as mãos para o ceu, murmurou:

--É horroroso!

Deu ainda uma volta pelo quarto, e depois n'uma outra voz, franzindo a

face:

--Não sei que diabo aquelle Godefroy me deu para collar as sobrancelhas,

que me picam que tem diabo!

--Tira-as...

Deante do espelho, Ega hesitava em desmanchar o seu semblante feroz de

Santanaz. Mas arrancou-as por fim--e a gorra emplumada, muito justa, que

lhe escaldava a cabeça. Então Carlos lembrou-lhe que, para ir a casa do

Craft, se desembaraçasse do manto e da espada, se agasalhasse n'um

paletot d'elle. Ega deu ainda um longo e mudo olhar ao seu flamejante

traje infernal, e com um profundo suspiro começou a desafivelar o talim.

Mas o paletot era muito largo, muito comprido; teve de lhe dar uma dobra

nas mangas. Depois Carlos metteu-lhe um bonet escossez na cabeça.--E

assim arranjado, com as canellas vermelhas de diabo apparecendo sob o

paletot, a gargantilha escarlate á Carlos IX emergindo da gola, a velha

casqueta de viagem na nuca, o pobre Ega tinha o ar lamentavel d'um

Satanaz pelintra, agasalhado pela caridade d'um gentleman, e usando-lhe

o fato velho.

Baptista allumiou, grave e discreto. Ega ao passar por elle, murmurou:

--Isto vae mal, Baptista, isto vae mal...

O velho creado teve um movimento triste d'hombros, como significando que

nada no mundo ia bem.

Na rua negra, a parelha quieta dobrava a cabeça sob a chuva. O

_Canhoto_, ao ouvir fallar d'uma gorgeta de libra, fez um grande

espalhafato, rompeu ás chicotadas; e a velha traquitana lá partiu a

galope, a escorrer d'agua, atroando a calçada.

Por vezes um coupé particular crusava-os, os casacos de gutta-perche dos

criados branquejavam á luz das lanternas. Então a idéa da festa que

devia agora resplandecer; Margarida ignorando tudo, walsando nos braços

d'outros, anciosa, á espera d'elle; a ceia depois, o champagne, as

cousas brilhantes que elle teria dito--todas estas delicias perdidas se

vinham cravar no coração do pobre Ega, arrancavam-lhe pragas surdas,

Carlos fumava silenciosamente, com o pensamento no Hotel Central.

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 19 / 53 段