Com um gesto Carlos recusou, e veiu sentar-se no terraço. A tarde

descia, calma, radiosa, sem um estremecer de folhagem, cheia de

claridade dourada, n'uma larga serenidade que penetrava a alma. Elle

tel-a-hia pois encontrado, ali mesmo n'aquelle terraço, vendo tambem

cahir a tarde--se ella não estivesse impaciente por tornar a vêr a

filha, algum bébésinho loiro que ficára só com a ama. Assim, a brilhante

deusa era tambem uma boa mamã; e isto dava-lhe um encanto mais profundo,

era assim que elle gostava mais d'ella, com este terno estremecimento

humano nas suas bellas fórmas de marmore. Agora, já ella estava em

Lisboa; e imaginava-a nas rendas do seu _peignoir_, com o cabello

enrolado à pressa, grande e branca, erguendo ao ar o bébé nos seus

explendidos braços de Juno, e fallando-lhe com um riso d'ouro. Achava-a

assim adoravel, todo o seu coração fugia para ella... Ah! poder ter o

direito de estar junto d'ella, n'essas horas d'intimidade, bem junto,

sentindo o aroma da sua pelle, e sorrindo tambem a um bébé. E, pouco a

pouco, foi-lhe surgindo na alma um romance, radiante e absurdo: um sopro

de paixão, mais forte que as leis humanas, enrolava violentamente,

levava juntos o seu destino e o d'ella; depois, que divina existencia,

escondida n'um ninho de flôres e de sol, longe, n'algum canto da

Italia... E, toda a sorte de idéas d'amor, de devoção absoluta, de

sacrificio, invadiam-n'o deliciosamente--emquanto os seus olhos se

esqueciam, se perdiam, enlevados na religiosa solemnidade d'aquelle

bello fim da tarde. Do lado do mar subia uma maravilhosa côr d'ouro

pallido, que ia no alto diluir o azul, dava-lhe um branco indeciso e

opalino, um tom de desmaio doce; e o arvoredo cobria-se todo de uma

tinta loura, delicada e dormente. Todos os rumores tomavam uma suavidade

de suspiro perdido. Nenhum contorno se movia como na immobilidade de um

extase. E as casas, voltadas para o poente, com uma ou outra janella

accesa em braza, os cimos redondos das arvores apinhadas, descendo a

serra n'uma espessa debandada para o valle, tudo parecera ficar de

repente parado n'um recolhimento melancolico e grave, olhando a partida

do sol, que mergulhava lentamente no mar...

--Oh Carlos, tu estás ahi?

Era em baixo, na estrada, a voz grossa do Alencar gritando por elle.

Carlos appareceu á varanda do terraço.

--Que diabo estás tu ahi a fazer, rapaz? exclamou Alencar, agitando

alegremente o seu panamá. Nós lá estivemos à espera, no covil real...

Fomos ao Nunes... Iamos agora procurar-te á cadeia!

E o poeta riu largamente da sua pilheria--emquanto Cruges, ao lado, de

mãos atraz das costas, e a face erguida para o terraço, bocejava

desconsoladamente.

--Vim _refrescar_, como tu dizes, tomar um pouco de cognac, que estava

com sêde.

Cognac? eis ahi o mimo por que o pobre Alencar estivera anciando toda a

tarde, desde Sitiaes. E galgou logo as escadas do terraço--depois de ter

gritado para dentro, para a sua velha Lawrence, que lhe mandasse acima

_meia da fina_.

--Viste o Paço, hein, Cruges? perguntou Carlos ao maestro, quando elle

appareceu, arrastando os passos. Então, parece-me que o que nos resta a

fazer é jantar, e abalar...

Cruges concordou. Voltava do palacio com um ar murcho, fatigado

d'aquelle vasto casarão historico, da voz monotona do cicerone mostrando

a cama de S. M. El-Rei, as cortinas do quarto de S. M. a Rainha,

«melhores que as de Mafra,» o tira-botas de S. A.; e trazia de lá uma

pouca d'essa melancolia que erra, como uma atmosphera propria, nas

residencias reaes.

E aquella natureza de Cintra, ao escurecer, dizia elle, começava a

entristecel-o.

Então concordaram em jantar ali, na Lawrence, para evitar o espectaculo

torpe do Palma e das damas, mandar vir á porta o break, e partir depois

ao nascer do luar. Alencar, aproveitando a carruagem, recolhia tambem a

Lisboa.

--E, para ser festa completa, exclamou elle, limpando os bigodes do

cognac, emquanto vocês vão ao Nunes pagar a conta, e dar ordens para o

break, eu vou-me entender lá abaixo á cosinha com a velha Lawrence, e

preparar-vos um _bacalhau á Alencar_, recipe meu... E vocês verão o que

é um bacalhau! Porque, lá isso, rapazes, versos os farão outros melhor;

bacalhau, não!

Atravessando a praça, Cruges pedia a Deus que não encontrassem mais o

Eusebiosinho. Mas, apenas pozeram os pés nos primeiros degraus do Nunes,

ouviram em cima o chalrar da sucia. Estavam na ante-sala, já todos

reconciliados, a Concha contente--e installados aos dois cantos de uma

meza, com cartas. O Palma, munido d'uma garrafa de genebra, fazia uma

_batotinha_ para o Eusebio; e as duas hespanholas, de cigarro na bocca,

jogavam languidamente a bisca.

O viuvo, enfiado, perdia. No monte, que começára miseravelmente com duas

corôas, já luzia ouro; e Palma triumphava, chalaceiando, dando beijocas

na sua moça. Mas, ao mesmo tempo, fazia de cavalheiro, fallava de dar a

desforra, ficar ali, sendo necessario, até de madrugada.

--Então vv. ex.^{as} não se tentam? Isto é para passar o tempo... Em

Cintra tudo serve... Valete! Perdeu você outro mico no rei. Deve a libra

mais quinze tostões, sô Silveira!

Carlos passára, sem responder, seguido pelo criado--no momento em que

Euzebiosinho, furioso, já desconfiado, quiz verificar, com as lunetas

negras sobre o baralho, se lá estavam todos os reis.

Palma alastrou as cartas largamente, sem se zangar. Entre amigos, que

diabo, tudo se admittia! A sua hespanhola, essa sim, escandalisou-se,

defendendo a honra do seu homem: então Palmita havia de ter empalmado o

rei? Mas, a Concha, zelava o dinheiro do seu viuvo, exclamava que o rei

podia estar perdido... Os reis estavam lá.

Palma atirou um calice de genebra ás goelas, e recomeçou a baralhar

magestosamente.

--Então v. ex.^a não se tenta? repetia elle para o maestro.

Cruges, com effeito, parára, roçando-se pela meza, com o olho nas cartas

e no ouro do monte, já sem força, remexendo o dinheiro nas algibeiras.

Subitamente um az decidiu-o. Com a mão nervosa, escorregou-lhe uma libra

por baixo, jogando cinco tostões, e de porta. Perdeu logo. Quando Carlos

voltou do quarto com o criado que descia as malas, o maestro estava em

pleno vicio, com a libra entalada, os olhos accezos, o ar esguedelhado.

--Então tu?...--exclamou Carlos com severidade.

--Já desço, rosnou o maestro.

E, á pressa, foi á paz da libra, n'um terno contra o rei. Cartada de

colicas! como disse o Palma: e foi com emoção que elle começou a puxar

as cartas, espremendo-as uma a uma, n'um vagar mortal. A apparição de um

bico arrancou-lhe uma praga. Era apenas um duque, Eusebiosinho perdia

mais uma placa. Palma teve um suspirinho de alivio; e, escondendo com

ambas as mãos o baralho, erguendo as lunetas faiscantes para o maestro:

--Então, sempre continúa toda a libra?

--Toda.

Palma teve outro suspiro, d'anciedade; e, mais pallido, voltou

bruscamente as cartas.

--Rei! gritou elle, empolgando o ouro.

Era o rei de paus, a sua hespanhola bateu as palmas, o maestro abalou

furioso.

Na Lawrence o jantar prolongou-se até ás oito horas, com luzes;--e o

Alencar fallou sempre. Tinha esquecido n'esse dia as desillusões da

vida, todos os rancores litterarios, estava n'uma veia excellente; e

foram historias dos velhos tempos de Cintra, recordações da sua famosa

ida a Paris, cousas picantes de mulheres, bocados da chronica intima da

Regeneração... Tudo isto com estridencias de voz, e _filhos isto!_ e

_rapazes aquillo!_ e gestos que faziam oscillar as chammas das vellas, e

grandes copos de Collares emborcados de um trago. Do outro lado da meza,

os dois inglezes, correctos nos seus fraques negros, de cravos brancos

na botoeira, pasmavam, com um ar embaraçado a que se misturava desdem,

para esta desordenada exhuberancia de meridional.

A apparição do bacalhau foi um triumpho:--e a satisfação do poeta tão

grande, que desejou mesmo, caramba, rapazes, que ali estivesse o Ega!

--Sempre queria que elle provasse este bacalhau! Já que me não aprecia

os versos, havia de me apreciar o cozinhado, que isto é um bacalhau de

artista em toda a parte!... N'outro dia fil-o lá em casa dos meus

Cohens; e a Rachel, coitadinha, veiu para mim e abraçou-me... Isto,

filhos, a poesia e a cozinha são irmãs! Vejam vocês Alexandre Dumas...

Dirão vocês que o pae Dumas não é um poeta... E então d'Artagnan?

D'Artagnan é um poema... É a faisca é a phantasia, é a inspiração, é o

sonho, é o arrobo! Então, pôço, já vêem vocês, que é poeta!... Pois

vocês hão-de vir um dia d'estes jantar commigo, e ha-de vir o Ega, e

hei-de-vos arranjar umas perdizes á hespanhola, que vos hão-de nascer

castanholas nos dedos!... Eu, palavra, gosto do Ega! Lá essas cousas de

realismo e romantismo, historias... Um lyrio é tão natural como um

persevejo... Uns preferem fedôr de sargeta; perfeitamente, destape-se o

cano publico... Eu prefiro pós de marechala n'um seio branco; a mim o

seio, e, lá vae á vossa. O que se quer, é coração. E o Ega tem-n'o. E

tem faisca, tem rasgo, tem estylo... Pois, assim é que elles se querem,

e, lá vae á saude do Ega!

Pousou o copo, passou a mão pelos bigodes, e rosnou mais baixo:

--E, se aquelles inglezes continuam a embasbacar para mim, vae-lhes um

copo na cara, e é aqui um vendaval, que ha-de a Gran-Bretanha ficar

sabendo o que é um poeta portuguez!...

Mas não houve vendaval, a Gran-Bretanha ficou sem saber o que é um poeta

portuguez, e o jantar terminou n'um café tranquillo. Eram nove horas,

fazia luar, quando Carlos subiu para a almofada do break.

Alencar, embuçado n'um capote, um verdadeiro capote de padre de aldêa,

levava na mão um ramo de rosas: e agora, guardara o seu panamá na

maleta, trazia um bonet de lontra. O maestro, pesado do jantar, com um

começo de _spleen_, encolheu-se a um canto do break, mudo, enterrado na

gola do paletot, com a manta da mamã sobre os joelhos. Partiram. Cintra

ficava dormindo ao luar.

Algum tempo o break rodou em silencio, na belleza da noite. A espaços, a

estrada apparecia banhada d'uma claridade quente que faiscava. Fachadas

de casas, caladas e pallidas, surgiam, d'entre as arvores com um ar de

melancolia romantica. Murmurios de agoas perdiam-se na sombra; e, junto

dos muros enramados, o ar estava cheio d'aroma. Alencar accendera o

cachimbo, e olhava a lua.

Mas, quando passaram as casas de S. Pedro, e entraram na estrada,

silenciosa e triste, Cruges mexeu-se, tossiu, olhou tambem para a lua, e

murmurou d'entre os seus agasalhos:

--Oh Alencar, recita para ahi alguma cousa...

O poeta condescendeu logo--apesar de um dos criados ir ali ao lado

d'elles, dentro do break. Mas, que havia elle de recitar, sob o encanto

da noite clara? Todo o verso parece frouxo, escutado diante da lua!

Emfim, ía dizer-lhe uma historia bem verdadeira e bem triste... Veiu

sentar-se ao pé do Cruges, dentro do seu grande capotão, esvaziou os

restos do cachimbo, e, depois de acariciar algum tempo os bigodes,

começou, n'um tom familiar e simples:

Era o jardim d'uma vivenda antiga,

Sem arrebiques d'arte ou flôres de luxo;

Ruas singellas d'alfazema e buxo,

Cravos, roseiras...

--Com mil raios! exclamou de repente o Cruges, saltando de dentro da

manta, com um berro que emmudeceu o poeta, fez voltar Carlos na

almofada, assustou o trintanario.

O break parára, todos o olhavam suspensos; e, no vasto silencio da

charneca, sob a paz do luar, Cruges, succumbido, exclamou:

--Esqueceram-me as queijadas!

IX

O dia famoso da soirée dos Cohens, ao fim d'essa semana tão luminosa e

tão doce, amanheceu enevoado e triste. Carlos, abrindo cedo a janella

sobre o jardim, vira um céu baixo que pesava como se fosse feito de

algodão em rama enxovalhado: o arvoredo tinha um tom arripiado e humido;

ao longe o rio estava turvo, e no ar molle errava um halito morno de

sudoeste. Decidira não sahir--e desde as nove horas, sentado á banca,

embrulhado no seu vasto robe-de-chambre de velludo azul, que lhe dava o

bello ar de um principe artista da Renascença, tentava trabalhar: mas,

apesar de duas chavenas de café, de cigarettes sem fim, o cerebro, como

o céu fóra, conservava-se-lhe n'essa manhã afogado em nevoas. Tinha

d'estes dias terriveis; julgava-se então «uma besta»; e a quantidade de

folhas de papel, dilaceradas, amarfanhadas, que lhe juncavam o tapete

aos pés, davam-lhe a sensação de ser todo elle uma ruina.

Foi realmente um allivio, uma tregoa n'aquella lucta com as idéas

rebeldes, quando Baptista annunciou Villaça, que lhe vinha fallar de uma

venda de montados no Alemtejo, pertencentes á sua legitima.

--Negociosinho, disse o administrador, pousando o chapéo a um canto da

mesa e dentro um rolo de papeis, que lhe mette na algibeira para cima de

dois contos de réis... E não é mau presente, logo assim pela manhã...

Carlos espreguiçou-se, crusando fortemente as mãos por trás da cabeça:

--Pois olhe, Villaça, preciso bem de dous contos de réis, mas preferia

que me trouxesse ahi alguma lucidez de espirito... Estou hoje d'uma

estupidez!

Villaça considerou-o um momento, com malicia.

--Quer v. ex.^a dizer que antes queria escrever uma bonita pagina do que

receber assim perto de quinhentas libras? São gostos, meu senhor, são

gostos... Elle é bom sahir-se a gente um Herculano ou um Garrett, mas

dous contos de réis, são dous contos de réis... Olhe que sempre valem um

folhetim. Emfim, o negocio é este.

Explicou-lh'o, sem se sentar, apressado, emquanto Carlos, de braços

cruzados, considerava quanto era medonho o alfinete de peito que Villaça

trazia (um macacão de coral comendo uma pera de ouro) e distinguia

vagamente, atravez da sua neblina mental, que se tratava de um visconde

de Torral e de porcos... Quando Villaça lhe apresentou os papeis,

assignou-os com um ar moribundo.

--Então não fica para almoçar, Villaça? disse elle, vendo o procurador

metter o seu rolo de papeis debaixo do braço.

--Muito agradecido a v. ex.^a Tenho de me encontrar com o nosso amigo

Eusebio... Vamos ao ministerio do reino, elle tem lá uma pertenção...

Quer a commenda da Conceição... Mas este governo está desgostoso com

elle.

--Ah, murmurou Carlos com respeito e atravez d'um bocejo, o governo não

está contente com o Eusebiosinho?

--Não se portou bem nas eleições. Ainda ha dias, o ministro do reino me

dizia, em confidencia: «O Eusebio é rapaz de merecimento, mas

atravessado...» V. Ex.^a n'outro dia, disse-me o Cruges, encontrou-o em

Cintra.

--Sim, lá estava a fazer jus á commenda da Conceição.

Quando Villaça saiu Carlos retomou lentamente a penna, e ficou um

momento, com os olhos na pagina meio-escripta, coçando a barba,

desanimado e esteril. Mas quasi em seguida appareçeu Affonso da Maia,

ainda de chapéo, á volta do seu passeio matinal no bairro, e com uma

carta na mão, que era para Carlos, e que elle achara no escriptorio

misturada ao seu correio. Além d'isso, esperava encontrar ali o Villaça.

--Esteve ahi, mas deitou a correr, para ir arranjar uma commenda para o

Eusebiosinho--disse Carlos, abrindo a carta.

E teve uma surpreza, vendo no papel--que cheirava a verbena como a

condessa de Gouvarinho--um convite do conde para jantar no sabbado

seguinte, feito em termos de sympathia tão escolhidos que eram quasi

poeticos; tinha mesmo uma phrase sobre a amisade, fallava dos _atomos em

gancho_ de Descartes. Carlos desatou a rir, contou ao avô que era um par

do reino que o convidava a jantar, citando Descartes...

--São capazes de tudo, murmurou o velho.

E dando um olhar risonho, aos manuscriptos espalhados sobre a banca:

--Então, aqui, trabalha-se, hein?

Carlos encolheu os hombros:

--Se é que se póde chamar a isto trabalhar... Olhe ahi para o chão. Veja

esses destroços... Em quanto se trata de tomar notas, colligir

documentos, reunir materiaes, bem, lá vou indo. Mas quando se trata de

pôr as idéas, a observação, n'uma fórma de gosto e de symetria, dar-lhe

côr, dar-lhe relevo, então... Então foi-se!

--Preoccupação peninsular, filho, disse Affonso sentando-se ao pé da

mesa, com o seu chapéo desabado na mão. Desembaraça-te d'ella. É o que

eu dizia n'outro dia ao Craft, e elle concordava... O portuguez nunca

póde ser homem de idéas, por causa da paixão da fórma. A sua mania é

fazer bellas phrases vêr-lhes o brilho, sentir-lhes a musica. Se fôr

necessario falsear a idéa, deixal-a incompleta, exageral-a, para a

phrase ganhar em belleza, o desgraçado não hesita... Vá-se pela agoa

abaixo o pensamento, mas salve-se a bella phrase.

--Questão de temperamento, disse Carlos. Ha sêres inferiores, para quem

a sonoridade de um adjectivo é mais importante que a exactidão de um

systema... Eu sou d'esses monstros.

--Diabo! então és um rhetorico...

--Quem o não é? E resta saber por fim se o estylo não é uma disciplina

do pensamento. Em verso, o avô sabe, é muitas vezes a necessidade de uma

rima que produz a originalidade de uma imagem... E quantas vezes o

esforço para completar bem a cadencia de uma phrase, não poderá trazer

desenvolvimentos novos e inesperados de uma idéa... Viva a bella phrase!

--O sr. Ega annunciou o Baptista, erguendo o reposteiro, quando começava

justamente a tocar a sineta do almoço.

--Fallae na phrase...--disse Affonso, rindo.

--Hein? Que phrase? O que?..--exclamou Ega, que rompeu pelo quarto, com

o ar estonteado, a barba por fazer, a gola do paletot levantada. Oh! por

aqui a esta hora sr. Affonso da Maia! Como está v. ex.^a? Dize-me cá,

Carlos, tu é que me podes tirar d'uma atrapalhação... Tu terás por acaso

uma espada que me sirva?

E, como Carlos o olhava assombrado, acrescentou, já impaciente:

--Sim, homem, uma espada! Não é para me batter, estou em paz com toda a

humanidade... É para esta noute, para o fato de mascara.

O Mattos, aquelle animal, só na vespera lhe dera o costume para o baile:

e, qual é o seu horror, ao vêr que lhe arranjara, em logar de uma espada

artistica, um sabre da guarda municipal! Tivera vontade de lh'o passar

atravez das entranhas. Correu ao tio Abrahão, que só tinha espadins de

côrte, reles e pelintras como a propria côrte! Lembrara-se do Craft e da

sua collecção; vinha de lá; mas ahi eram uns espadões de ferro, catanas

pesando arrobas, as durindanas tremendas dos brutos que conquistaram a

India... Nada que lhe servisse. Fôra então que lhe tinham vindo á idéa

as panoplias antigas do Ramalhete.

--Tu é que deves ter... Eu preciso uma espada longa e fina, com os copos

em concha, d'aço rendilhado, forrados de velludo escarlate. E sem cruz,

sobretudo sem cruz!

Affonso, tomando logo um interesse paternal por aquella difficuldade do

John, lembrou que havia no corredor, em cima, umas espadas

hespanholas...

--Em cima, no corredor? exclamou Ega, já com a mão no reposteiro.

Inutil precipitar-se, o bom John não as poderia encontrar. Não estavam á

vista, arranjadas em panoplia, conservavam-se ainda nos caixões em que

tinham vindo de Bemfica.

--Eu lá vou, homem fatal, eu lá vou, disse Carlos, erguendo-se com

resignação. Mas olha que ellas não têem bainhas.

Ega ficou succumbido. E foi ainda Affonso que achou uma idéa, o salvou.

--Manda fazer uma simples bainha de velludo negro; isso faz-se n'uma

hora. E manda-lhe cozer ao comprido rodellas de velludo escarlate...

--Explendido, gritou Ega: o que é ter gosto!

E apenas Carlos sahiu, trovejou contra o Mattos.

--Veja v. ex.^a isto, um sabre da guarda municipal! E é quem faz ahi os

fatos para todos os theatros! Que idiota!.. E é tudo assim, isto é um

paiz insensato!...

--Meu bom Ega, tu não queres tornar de certo Portugal inteiro, o Estado,

sete milhões d'almas, responsaveis por esse comportamento do Mattos?

--Sim senhor, exclamava o Ega passeiando pelo gabinete, com as mãos

enterradas nos bolsos do paletot; sim senhor, tudo isso se prende. O

_costumier_ com um fato do seculo XIV manda um sabre da guarda

municipal; por seu lado o ministro, a proposito de impostos, cita as

_Meditações_ de Lamartine; e o litterato, essa besta suprema...

Mas calou-se, vendo a espada que Carlos trazia na mão, uma folha do

seculo XVI, de grande tempera, fina e vibrante, com copos trabalhado

como uma renda--e tendo gravado no aço o nome illustre do espadeiro,

Francisco Ruy de Toledo.

Embrulhou-a logo n'um jornal, recusou á pressa o almoço, que lhe

offereciam, deu dous vivos _shake-hands_, atirou o chapéu para a nuca,

ia abalar, quando a voz de Affonso o deteve:

--Ouve la, John, dizia o velho alegremente, isso é uma espada cá da

casa, que nunca brilhou sem gloria, creio eu... Vê como te serves

d'ella!

Ao pé do resposteiro, Ega voltou-se, exclamou, apertando contra o peito

do paletot o ferro, enrolado, no _Jornal do Commercio_:

--Não a sacarei sem justiça, nem a embainharei sem honra. _Au revoir!_

--Que vida, que mocidade! murmurou Affonso. Muito feliz é este John!...

Pois vae-te arranjando filho, que já tocou a primeira vez para o almoço.

Carlos ainda se demorou um instante a reler, com um sorriso, a

apparatosa carta do Gouvarinho; e ia emfim chamar o Baptista para se

vestir, quando em baixo, á entrada particular, o timbre electrico

começou a vibrar violentamente. Um passo ancioso ressoou na ante-camara,

o Damaso appareceu esbaforido, d'olho esgazeado, com a face em braza. E,

sem dar tempo a que Carlos exprimisse a surpreza de o ver emfim no

Ramalhete, exclamou, lançando os braços ao ar:

--Ainda bem que te encontro, caramba! Quero que venhas d'ahi, que me

venhas ver um doente... Eu te explicarei... É aquella gente brazileira.

Mas pelo amor de Deus, vem depressa, menino!

Carlos erguera-se, pallido:

--É ella?

--Não, é a pequena, esteve a morrer... Mas veste-te, Carlinhos,

veste-te, que a responsabilidade é minha!

--É um bébé, não é?

--Qual bébé!... É uma pequena crescida, de seis annos... Anda d'ahi!

Carlos, já em mangas de camisa, estendia o pé ao Baptista, que, com um

joelho em terra, apressado tambem, quasi fez saltar os botões da bota. E

Damaso, de chapéu na cabeça, agitava-se, exagerando a sua impaciencia, a

estalar de importancia.

--Sempre a gente se vê em coisas!.. Olha que responsabilidade a minha!

Vou visital-os, como costumo ás vezes, de manhã... E vae, tinham partido

para Queluz.

Carlos voltou-se, com a sobrecasaca meia vestida:

--Mas então?..

--Escuta, homem! Foram para Queluz, mas a pequena ficou com a

governanta... Depois do almoço deu-lhe uma dôr. A governante queria um

medico inglez, porque não falla senão inglez... Do hotel foram procurar

o Smith, que não appareceu... E a pequena a morrer!... Felizmente,

cheguei eu, e lembrei-me logo de ti... Foi sorte encontrar-te, caramba!

E acrescentou, dando um olhar ao jardim:

--Tambem, irem a Queluz com um dia d'estes! Hão-de-se divertir... Estás

prompto, hein? Eu tenho lá em baixo o coupé... Deixa as luvas, vaes

muito bem sem luvas!

--O avô que não me espere para almoçar, gritou Carlos ao Baptista, já do

fundo da escada.

Dentro do coupé, um ramo enorme enchia quasi o assento.

--Era para ella, disse o Damaso, pondo-o sobre os joelhos. Pela-se por

flores.

Apenas o coupé partiu, Carlos cerrando a vidraça, fez a pergunta que

desde a apparição do Damaso lhe faiscava nos labios.

--Mas então tu, que querias quebrar a cara a esse Castro Gomes?..

O Damaso contou logo tudo, triumphante. Fôra tudo um equivoco! Ah, as

explicações do Castro Gomes tinham sido d'um gentleman. Senão

quebrava-lhe a cara. Isso não, desconsiderações, a ninguem! a ninguem!

Mas fôra assim: os bilhetes de visita que elle lhe deixara conservavam o

seu adresse do _Grand Hotel_ em Paris. E o Castro Gomes, suppondo que

elle vivia lá, obdecendo á indicação, mandara para lá os seus cartões!

Curioso, hein? E de estupído... E a falta de resposta aos telegrammas

fôra culpa de Madame, descuido, n'aquelle momento de afflicção, vendo o

marido com o braço escavacado... Ah, tinham-lhe dado satisfações

humildes. E agora eram intimos, estava lá quasi sempre...

--Emfim, menino, um romance... Mas isso é para mais tarde!

O coupé parara á porta do Hotel Central. Damaso saltou, correu ao guarda

portão.

--Mandou o telegramma, Antonio?

--Já lá vae...

--Tu comprehendes, dizia elle a Carlos, galgando as escadas, mandei-lhes

logo um telegramma para o hotel em Queluz. Não estou para ter mais

responsabilidades!...

No corredor, defronte do escriptorio, um criado passava, com um

guardanapo debaixo do braço:

--Como está a menina? gritou-lhe o Damaso.

O criado encolheu os hombros, sem comprehender.

Mas Damaso já trepava o outro lanço de escada, soprando, gritando:

--Por aqui Carlos, eu conheço isto a palmos! Numero 26!

Abriu com estrondo a porta do numero 26. Uma criada, que estava á

janella, voltou-se.

Ah _bonjour_, Melanie! exclamava Damaso, no seu extraordinario francez.

A creança estava melhor? _l'enfant etait meilleur?_ Ali lhe trazia o

doutor, _monsieur le docteur Maia_.

Melanie, uma rapariga magra e sardenta, disse que Mademoiselle estava

mais socegada, e ella ia avisar miss Sarah, a governanta. Passou o

espanador pelo marmore d'uma console, ageitou os livros sobre a meza, e

sahiu, dardejando a Carlos um olhar vivo como uma faisca.

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 18 / 53 段