Eram duas horas quando os dous amigos sahiram emfim do hotel, a fazer

esse passeio a Sitiaes--que desde Lisboa tentava tanto o maestro. Na

praça, por defronte das lojas vasias e silenciosas, cães vadios dormiam

ao sol: atravez das grades da cadêa os presos pediam esmola. Creanças,

enxovalhadas e em farrapos, garotavam pelos cantos; e as melhores casas

tinham ainda as janellas fechadas, continuando o seu somno de inverno,

entre as arvores já verdes. De vez em quando apparecia um bocado da

serra, com a sua muralha de ameias correndo sobre as penedias, ou via-se

o castello da Pena, solitario, lá no alto. E por toda a parte o luminoso

ar de abril punha a doçura do seu velludo.

Defronte do hotel da Lawrence, Carlos retardou o passo, mostrou-o ao

Cruges.

--Tem o ar mais sympathico, disse o maestro. Mas valeu muito a pena ir

para o Nunes, só para vêr aquella scena... E então com quê o sr. Carlos

da Maia tem experiencia de hespanholas?

Carlos não respondeu, os seus olhos não se despegavam d'aquella fachada

banal, onde só uma janella estava aberta com um par de botinas de

duraque seccando ao ar. Á porta, dous rapazes inglezes, ambos de

knicker-bokers, cachimbavam em silencio; e defronte, sentados sobre um

banco de pedra, dous burriqueiros ao lado dos burros, não lhes tiravam o

olho de cima, sorrindo-lhes, cocando-os como uma presa.

Carlos ia seguir, mas pareceu-lhe ouvir, distante e melancolico, sahindo

do silencio do hotel, um vago som de flauta; e parou ainda, remexendo as

suas recordações, quasi certo de Damaso lhe ter dito que a bordo Castro

Gomes tocava flauta...

--Isto é sublime! exclamou do lado o Cruges, commovido.

Parara diante da grade d'onde se domina o valle. E d'ali olhava,

enlevadamente, a rica vastidão de arvoredo cerrado, a que só se veem os

cimos redondos, vestindo um declive da serra como o musgo veste um muro,

e tendo aquella distancia, no brilho da luz, a suavidade macia de um

grande musgo escuro. E n'esta espessura verde-negra havia uma frontaria

de casa que o interessava, branquejando, affogada entre a folhagem, com

um ar de nobre repouso, debaixo de sombras seculares... Um momento teve

uma idéa de artista: desejou habital-a com uma mulher, um piano e um cão

da Terra-nova.

Mas o que o encantava era o ar. Abria os braços, respirava a tragos

deliciosos:

--Que ar! Isto dá saude, menino! Isto faz reviver!...

Para o gosar mais docemente, sentou-se adiante, n'um bocado de muro

baixo, defronte de um alto terraço gradeado, onde velhas arvores

assombreiam bancos de jardim, e estendem sobre a estrada a frescura das

suas ramagens, cheias do piar das aves. E como Carlos lhe mostrava o

relogio, as horas que fugiam para ir vêr o palacio, a Pena, as outras

bellezas de Cintra--o maestro declarou que preferia estar ali, ouvindo

correr a agua, a vêr monumentos caturras...

--Cintra não são pedras velhas, nem cousas gothicas... Cintra é isto,

uma pouca de agua, um bocado de musgo... Isto é um paraiso!...

E, n'aquella satisfação que o tornava loquaz, acrescentou, repetindo a

sua chalaça:

--E v. ex.^a deve sabel-o, sr. Maia, porque tem experiencia de

hespanholas!...

--Poupa-me, respeita a natureza, murmurou Carlos, que riscava

pensativamente o chão com a bengala.

Ficaram callados. Cruges agora admirava o jardim, por baixo do muro em

que estavam sentados. Era um espesso ninho de verdura, arbustos, flores

e arvores, suffocando-se n'uma prodigalidade de bosque silvestre,

deixando apenas espaço para um tanquesinho redondo, onde uma pouca de

agua, immovel e gelada, com dous ou tres nenufares, se esverdinhava sob

a sombra d'aquella ramaria profusa. Aqui e alem, entre a bella desordem

da folhagem, distinguiam-se arranjos de gosto burguez, uma volta de

ruasita estreita como uma fita, faiscando ao sol, ou a banal palidez de

um gesso. N'outros recantos, aquelle jardim de gente rica, exposto ás

vistas, tinha retoques pretenciosos de estufa rara, aloes e cactos,

braços aguardasolados de auraucarias erguendo-se d'entre as agulhas

negras dos pinheiros bravos, laminas de palmeira, com o seu ar triste de

planta exilada, roçando a rama leve e perfumada das olaias floridas de

côr de rosa. A espaços, com uma graça discreta, branquejava um grande pé

de margaridas; ou em torno de uma rosa, solitaria na sua haste,

palpitavam borboletas aos pares.

--Que pena que isto não pertença a um artista! murmurou o maestro. Só um

artista saberia amar estas flores, estas arvores, estes rumores...

Carlos sorriu. Os artistas, dizia elle, só amam na natureza os effeitos

de linha e côr; para se interessar pelo bem-estar de uma tulipa, para

cuidar de que um craveiro não soffra sede, para sentir magoa de que a

geada tenha queimado os primeiros rebentões das acacias--para isso só o

burguez, o burguez que todas as manhãs desce ao seu quintal com um

chapéo velho e um regador, e vê nas arvores e nas plantas uma outra

familia muda, por que elle é tambem responsavel...

Cruges, que escutara distrahidamente, exclamou:

--Diabo! É necessario que não me esqueçam as queijadas!

Um som de rodas interrompeu-os, uma caleche descoberta desembocou a

trote do lado de Sitiaes. Carlos ergueu-se logo, certo de que era

_ella_, e que elle ia vêr os seus bellos olhos brilhar e fugir como duas

estrellas. A caleche passou, levando um ancião de barbas de patriarcha,

e uma velha ingleza com o regaço cheio de flores, e o véo azul

fluctuando ao ar. E logo atraz, quasi no pó que as rodas tinham erguido,

appareceu, caminhando pensativamente, de mãos atraz das costas, um homem

alto, todo de preto, com um grande chapéo Panamá sobre os olhos. Foi

Cruges que reconheceu os longos bigodes romanticos, que gritou:

--Olha o Alencar! Oh! grande Alencar!...

Durante um momento, o poeta ficou assombrado, com os braços abertos, no

meio da estrada. Depois, com a mesma effusão ruidosa, apertou Carlos

contra o coração, beijou o Cruges na face--porque conhecia Cruges desde

pequeno, Cruges era para elle como um filho. Caramba! Eis ahi uma

surpreza que elle não trocava pelo titulo de duque! Ora o alegrão de os

vêr ali! Como diabo tinham elles vindo ali parar?

E não esperou a resposta, contou elle logo a sua historia. Tivera um dos

seus ataques de garganta, com uma ponta de febre, e o Mello, o bom

Mello, recommendara-lhe mudança d'ares. Ora elle, bons ares, só

comprehendia os de Cintra: porque alli não eram só os pulmões que lhe

respiravam bem, era tambem o coração, rapazes!... De sorte que viera na

vespera, no omnibus.

--E onde estás tu, Alencar? perguntou logo Carlos.

--Pois onde queres tu que eu esteja, filho? Lá estou com a minha velha

Lawrence. Coitada! está bem velha! mas para mim é sempre uma amiga, é

quasi uma irmã!... E vocês, que diabo? Para onde vão vocês, com essas

flores nas lapellas?

--A Sitiaes. Vou mostrar Sitiaes ao maestro.

Então tambem elle voltava a Sitiaes! Não tinha nada que fazer senão

sorver bom ar, e scismar... Toda a manhã andara alli, vagamente,

pendurando sonhos dos ramos das arvores. Mas agora já os não largava;

era mesmo um dever ir elle proprio fazer ao maestro as honras de

Sitiaes...

--Que aquillo é sitio muito meu, filhos! Não ha alli arvore que me não

conheça... Eu não vos quero começar já a impingir versos; mas emfim,

vocês lembram-se de uma cousa que eu fiz a Sitiaes, e de que por ahi se

gostou...

Quantos luares eu lá vi!

Que doces manhãs d'abril!

E os ais que soltei alli

Não foram sete, mas mil!

Pois então já vocês vêem, rapazes, que tenho razão para conhecer

Sitiaes...

O poeta lançou ao ar um vago suspiro, e durante um instante caminharam

todos tres callados.

--Dize-me uma cousa, Alencar, perguntou Carlos baixo, parando, e tocando

no braço do poeta. O Damaso está na Lawrence?

Não, que elle o tivesse visto. Verdade seja que na vespera, apenas

chegara, fôra-se deitar, fatigado; e n'essa manhã almoçara só com dois

rapazes inglezes. O unico animal que avistara fôra um lindo cãosinho de

luxo, ladrando no corredor...

--E vocês onde estão?

--No Nunes.

Então o poeta parando de novo, contemplando Carlos com sympathia:

--Que bem que fizeste em arrastar cá o maestro, filho!... Quantas vezes

eu tenho dito áquelle diabo, que se mettesse no omnibus, viesse passar

dous dias a Cintra. Mas ninguem o tira de martelar o piano. E olha tu

que mesmo para a musica, para compor, para entender um Mozart, um

Choppin, é necessario ter visto isto, escutado este rumor, esta melodia

da ramagem...

Baixou a voz, apontando para o maestro, que caminhava adiante, enlevado:

--Tem muito talento, tem muita idéa melodica!... Olha que andei com

aquillo ás cabritas... E a mãe, menino, foi muitissimo boa mulher.

--Vejam vocês isto! gritou Cruges que parara, esperando-os. Isto é

sublime.

Era apenas um bocadito d'estrada, apertada entre dous velhos muros

cobertos d'hera, assombreada por grandes arvores entrelaçadas, que lhe

faziam um toldo de folhagem aberto á luz como uma renda: no chão tremiam

manchas de sol: e, na frescura e no silencio, uma agoa que se não via ia

fugindo e cantando.

--Se tu queres sublime, Cruges, exclamou Alencar, então tens de subir á

serra. Ahi tens o espaço, tens a nuvem, tens a arte...

--Não sei, talvez goste mais d'isto, murmurou o maestro.

A sua natureza de timido preferiria, de certo, estes humildes recantos,

feitos de uma pouca de folhagem fresca e de um pedaço de muro musgoso,

logares de quietação e de sombra, onde se aninha com um conforto maior o

scismar dos indolentes...

--De resto, filho, continuou Alencar, tudo em Cintra é divino. Não ha

cantinho que não seja um poema... Olha, alli tens tu, por exemplo,

aquella linda florinha azul...--e, ternamente, apanhou-a.

--Vamos andando, vamos andando, murmurou Carlos impaciente, e agora,

desde que o poeta fallara do cãosinho de luxo, mais certo de que ella

estava na Lawrence, e que a ia brevemente encontrar.

Mas, ao chegar a Sitiaes, Cruges teve uma desillusão diante d'aquelle

vasto terreiro coberto de herva, com o palacete ao fundo, enxovalhado,

de vidraças partidas, e erguendo pomposamente sobre o arco, em pleno

ceu, o seu grande escudo de armas. Ficara-lhe a idéa, de pequeno, que

Sitiaes era um montão pittoresco de rochedos, dominando a profundidade

de um valle; e a isto misturava-se vagamente uma recordação de luar e de

guitarras... Mas aquillo que elle alli via era um desapontamento.

--A vida é feita de desapontamentos, disse Carlos, Anda para diante!

E apressou o passo atravez do terreiro, em quanto o maestro, cada vez

mais animado, lhe gritava a chalaça do dia:

--E v. ex.^a deve sabel-o, sr. Maia, porque tem experiência de

hespanholas!...

Alencar, que se demorara atraz a accender o cigarro, estendeu o ouvido,

curioso, quiz saber o que era isso de hespanholas? O maestro contou-lhe

o encontro no Nunes e os furores da Concha.

Iam ambos caminhando por uma das alamedas lateraes, verde e fresca, de

uma paz religiosa, como um claustro feito de folhagem. O terreiro estava

deserto; a herva que o cobria, crescia ao abandono, toda estrellada de

botões de ouro brilhando ao sol, e de malmequersinhos brancos. Nenhuma

folha se movia: atravez da ramaria ligeira o sol atirava mólhos de raios

de ouro. O azul parecia recuado a uma distancia infinita, repassado de

silencio luminoso; e só se ouvia, ás vezes, monotona e dormente, a voz

de um cuco nos castanheiros.

Toda aquella vivenda, com a sua grade enferrujada sobre a estrada, os

seus florões de pedra roídos da chuva, o pesado brazão rococó, as

janellas cheias de teias de aranha, as telhas todas quebradas, parecia

estar-se deixando morrer voluntariamente n'aquella verde

solidão,--amuada com a vida, desde que d'alli tinham desapparecido as

ultimas graças do tricorne e do espadim, e os derradeiros vestidos de

anquinhas tinham roçado essas relvas... Agora Cruges ía descrevendo ao

Alencar a figura do Eusebiosinho, com a chavena de café na mão, a ir

pedir perdão á Concha; e a cada momento o poeta, com o seu grande chapéo

panamá, se agachava a colher florinhas silvestres.

Quando passaram o Arco, encontraram Carlos sentado n'um dos bancos de

pedra, fumando pensativamente a sua cigarette. O palacete deitava sobre

aquelle bocado de terraço a sombra dos seus muros tristes; do valle

subia uma frescura e um grande ar; e algures, em baixo, sentia-se o

prantear de um repuxo. Então o poeta, sentando-se ao lado do seu amigo,

fallou com nojo do Eusebiosinho.--Ahi está uma torpeza que elle nunca

commettera, trazer meretrizes a Cintra! Nem a Cintra, nem a parte

nenhuma... Mas muito menos a Cintra! Sempre tivera, todo o mundo devia

ter, a religião d'aquellas arvores e o amor d'aquellas sombras...

--E esse Palma, accrescentou elle, é um traste! Eu conheço-o; elle teve

uma especie de jornal, e já lhe dei muita bofetada na rua do Alecrim.

Foi uma historia curiosa... Ora eu t'a conto Carlos... Aquelle canalha!

quando me lembro!... Aquella vil bolinha de materia putrida!... Aquelle

chouricinho de pus!

Levantou-se, passando a mão nervosa sobre os bigodes, já excitado pela

lembrança d'aquella velha desordem, vergastando o Palma com nomes

ferozes, todo n'uma d'essas fervuras de sangue que eram a sua desgraça.

Cruges, no entanto, encostado ao parapeito, olhava a grande planicie de

lavoura que se estendia em baixo, rica e bem trabalhada, repartida em

quadrados verde-claros e verde-escuros, que lhe faziam lembrar um panno

feito de remendos assim que elle tinha na meza do seu quarto. Tiras

brancas de estradas serpeavam pelo meio: aqui e além, n'uma massa de

arvoredo, branquejava um casal: e a cada passo, n'aquelle solo onde as

aguas abundam, uma fila de pequenos olmos revelava algum fresco ribeiro,

correndo e reluzindo entre as hervas. O mar ficava ao fundo, n'uma linha

unida, esbatida na tenuidade diffusa da bruma azulada: e por cima

arredondava-se um grande azul lustroso como um bello esmalte, tendo

apenas, lá no alto, um farraposinho de nevoa, que ficara alli esquecido,

e que dormia enovellado e suspenso na luz...

--Tive nojo! exclamava o Alencar, rematando fogosamente a sua historia.

Palavra que tive nojo! Atirei-lhe a bengala aos pés, crusei os braços e

disse-lhe: ahi tem você a bengala, seu covarde, a mim bastam-me as mãos!

--Que diabo, não me hão de esquecer as queijadas! murmurou Cruges, para

si mesmo, affastando-se do parapeito.

Carlos erguera-se tambem, olhava o relogio. Mas antes de deixar Sitiaes,

Cruges quiz explorar o outro terraço ao lado: e, apenas subira os dous

velhos degraus de pedra, soltou de lá um grito alegre:

--Bem dizia eu! cá estão elles... E vocês a dizer que não!

Foram-n'o encontrar triumphante, diante de um montão de penedos, polidos

pelo uso, já com um vago feitio de assentos, deixados ali outr'ora,

poeticamente, para dar ao terraço uma graça agreste de selva brava.

Então, não dizia elle? Bem dizia elle que em Sitiaes havia penedos!

--Se eu me lembrava perfeitamente! _Penedo da Saudade_, não é que se

chama, Alencar?

Mas o poeta não respondeu. Diante d'aquellas pedras crusara os braços,

sorria dolorosamente; e immovel, sombrio no seu fato negro, com o panamá

carregado para a testa, envolveu todo aquelle recanto n'um olhar lento e

triste.

Depois, no silencio, a sua voz ergueu-se, saudosa e dolente:

--Vocês lembram-se, rapazes, nas _Flôres e Martyrios_, de uma das cousas

melhores que lá tenho, em rimas livres, chamada _6 de Agosto_? Não se

lembram talvez... Pois eu vol-a digo, rapazes!

Machinalmente tirara do bolso o lenço branco. E com elle fluctuante na

mão, puxando Carlos para junto de si, chamando do outro lado o Cruges,

baixou a voz como n'uma confidencia sagrada, recitou, com um ardor

surdo, mordendo as syllabas, tremulo, n'uma paixão ephemera de nervoso:

Vieste! Cingi-te ao peito.

Em redor que noite escura!

Não tinha rendas o leito,

Nem tinha lavores na barra

Que era só a rocha dura...

Muito ao longe uma guitarra

Gemia vagos harpejos...

(Vê tu que não me esqueceu)...

E a rocha dura aqueceu

Ao calor dos nossos beijos!

Esteve um momento embebendo o olhar nas pedras brancas batidas do sol,

atirou para lá um gesto triste, e murmurou:

--Foi alli.

E affastou-se, alquebrado sob o seu grande chapéo panamá, com o lenço

branco na mão. Cruges, que aquelles romantismos impressionavam, ficou a

olhar para os penedos como para um sitio historico. Carlos sorria. E

quando ambos deixaram esse recanto do terraço--o poeta, agachado junto

do arco, estava apertando o atilho da ceroula.

Endireitou-se logo, já toda a emoção o deixara, mostrava os maus dentes

n'um sorriso amigo, e exclamou, apontando para o arco:

--Agora, Cruges, filho, repara tu n'aquella tela sublime.

O maestro embasbacou. No vão do arco, como dentro de uma pesada moldura

de pedra, brilhava, á luz rica da tarde, um quadro maravilhoso, de uma

composição quasi phantastica, como a illustração de uma bella lenda de

cavallaria e de amor. Era no primeiro plano o terreiro, deserto e

verdejando, todo salpicado de botões amarellos; ao fundo, o renque

cerrado de antigas arvores, com hera nos troncos, fazendo ao longo da

grade uma muralha de folhagem reluzente; e emergindo abruptamente d'essa

copada linha de bosque assoalhado, subia no pleno resplendor do dia,

destacando vigorosamente n'um relevo nitido sobre o fundo de céu azul

claro, o cume airoso da serra, toda côr de violeta escura, coroada pelo

castello da Pena, romantico e solitario no alto, com o seu parque

sombrio aos pés, a torre esbelta perdida no ar, e as cupulas brilhando

ao sol como se fossem feitas de ouro...

Cruges achou aquelle quadro digno de Gustavo Doré. Alencar teve uma

bella phrase sobre a imaginação dos arabes. Carlos, impaciente, foi-os

apressando para diante.

Mas agora Cruges, impressionado, estava com desejo de subir á Pena.

Alencar, por si, ía tambem com prazer. A Pena para elle era outro ninho

de recordações. Ninho? Devia antes dizer cemiterio... Carlos hesitava,

parado junto da grade. Estaria ella na Pena? E olhava a estrada, olhava

as arvores, como se podesse adivinhar pelas pegadas no pó, ou pelo mover

das folhas, que direcção tinham tomado os passos que elle seguia... Por

fim teve uma idéa.

--Vamos indo primeiro á Lawrence. E depois se quizermos ir á Pena,

arranjam-se lá os burros...

E nem mesmo quiz escutar o Alencar, que tivera, tambem uma idéa, fallava

de Collares, de uma visita ao seu velho Carvalhosa; accelerou o passo

para a Lawrence, emquanto o poeta tornava a arranjar o atilho da

ceroula, e o maestro, n'um enthusiasmo bucolico, ornava o chapéo de

folhas de hera.

Defronte da Lawrence, os dois burriqueiros, de cigarro na bocca, não

tendo podido apoderar-se dos inglezes, preguiçavam ao sol.

--Vocês sabem, perguntou-lhes Carlos, se uma familia, que está aqui no

hotel, foi para a Pena?...

Um dos homens pareceu adivinhar, exclamou logo, desbarretando-se.

--Sim, senhor, foram para lá ha bocado, e aqui está o burrinho tambem

para v. ex.^a, meu amo!

Mas o outro, mais honesto, negou. Não senhor, a gente que fôra para a

Pena estava no Nunes...

--A familia que o senhor diz foi agora ali para baixo, para o palacio...

--Uma senhora alta?

--Sim senhor.

--Com um sujeito de barba preta?

--Sim senhor.

--E uma cadellinha?

--Sim senhor.

--Tu conheces o sr. Damaso Salcede?

--Não senhor... É o que tira retratos?

--Não, não tira retratos... Tomae lá.

Deu-lhes uma placa de cinco tostões; e voltou ao encontro dos outros,

declarando que realmente era tarde para subirem á Pena.

--Agora o que tu deves vêr, Cruges, é o palacio. Isso é que tem

originalidade e cachet! Não é verdade, Alencar?...

--Eu vos digo, filhos, começou o auctor de _Elvira_, historicamente

fallando...

--E eu tenho de comprar as queijadas, murmurou Cruges.

--Justamente! exclamou Carlos. Tens ainda as queijadas; é necessario não

perder tempo; a caminho!

Deixou os outros ainda indecisos, abalou para o palacio, em quatro

largas passadas estava lá. E logo da praça avistou, saindo já o portão,

passando rente da sentinella, a famosa familia hospedada na Lawrence e a

sua cadellinha de luxo. Era, com effeito, um sujeito de barba preta, e

de sapatos de lona branca; e, ao lado d'elle, uma matrona enorme, com um

mantelete de seda, cousas de ouro pelo pescoço e pelo peito, e o

cãosinho felpudo ao collo. Vinham ambos rosnando o quer que fosse, com

mau modo um para o outro, e em hespanhol.

Carlos ficou a olhar para aquelle par com a melancolia de quem contempla

os pedaços d'um bello marmore quebrado. Não esperou mais pelos outros,

nem os quiz encontrar. Correu á Lawrence por um caminho differente,

avido de uma certeza:--e ahi, o criado que lhe appareceu, disse-lhe que

o sr. Salcede e os srs. Castro Gomes tinham partido na vespera para

Mafra...

--E de lá?...

O criado ouvira dizer ao sr. Damaso que de lá voltavam a Lisboa.

--Bem, disse Carlos atirando o chapéo para cima da meza, traga-me você

um calice de cognac, e uma pouca d'agua fresca.

Cintra, de repente, pareceu-lhe intoleravelmente deserta e triste. Não

teve animo de voltar ao palacio, nem quiz sahir mais d'ali; e arrancando

as luvas passeiando em volta da meza de jantar, onde murchavam os ramos

da vespera, sentia um desejo desesperado de galopar para Lisboa, correr

ao Hotel Central, invadir-lhe o quarto, vêl-a, saciar os seus olhos

n'ella!... Porque, o que o irritava agora era não poder encontrar, na

pequenez de Lisboa, onde toda a gente se acotovella, aquella mulher que

elle procurava anciosamente! Duas semanas farejara o Aterro como um cão

perdido: fizera perigrinações ridiculas de theatro em theatro: n'uma

manhã de domingo percorrera as missas! E não a tornara a vêr. Agora

sabia-a em Cintra, voava a Cintra, e não a via tambem. Ella cruzava-o

uma tarde, bella como uma deusa transviada no Aterro, deixava-lhe cahir

n'alma por accaso um dos seus olhares negros, e desapparecia,

evaporava-se, como se tivesse realmente remontado ao céo, d'ora em

diante invisivel e sobrenatural: e elle ali ficava, com aquelle olhar no

coração, perturbando todo o seu ser, orientando surdamente os seus

pensamentos, desejos, curiosidades, toda a sua vida interior, para uma

adoravel desconhecida, de quem elle nada sabia senão que era alta e

loira, e que tinha uma cadellinha escosseza... Assim acontece com as

estrellas d'acaso! Ellas não são d'uma essencia diferente, nem contéem

mais luz que as outras: mas, por isso mesmo que passam fugitivamente e

se esvaem, parecem despedir um fulgor mais divino, e o deslumbramento

que deixam nos olhos é mais perturbador e mais longo... Elle não a

tornara a vêr. Outros viam-n'a. O Taveira vira-a. No Gremio, ouvira um

alferes de lanceiros fallar d'ella, perguntar quem era, porque a

encontrava todos os dias. O alferes encontrava-a todos os dias. Elle não

a via, e não socegava...

O criado trouxe o cognac. Então Carlos, preparando vagarosamente o seu

refresco, conversou com elle, fallou um momento dos dois rapazes

inglezes, depois da hespanhola obesa... Emfim, dominando uma timidez,

quasi córando, fez, atravez de grandes silencios, perguntas sobre os

Castro Gomes. E cada resposta lhe parecia uma acquisição preciosa. A

senhora era muito madrugadora, dizia o criado: ás sete horas tinha

tomado banho, estava vestida, e sahia só. O sr. Castro Gomes, que dormia

n'um quarto separado, nunca se mexia antes do meio dia; e, á noite,

ficava uma eternidade á meza, fumando cigarettes e molhando os beiços em

copinhos de cognac e agua. Elle e o sr. Damaso jogavam o dominó. A

senhora tinha montões de flôres no quarto; e tencionavam ficar até

domingo, mas fôra ella que apressára a partida...

--Ah, disse Carlos depois de um silencio, foi a senhora que apressou a

partida?...

--Sim, senhor, com cuidado na menina que tinha ficado em Lisboa... V.

ex.^a toma mais cognac?

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 17 / 53 段