Na manhã seguinte, ás oito horas pontualmente, Carlos parava o break na

rua das Flores, diante do conhecido portão da casa do Cruges. Mas o

trintanario, que elle mandara acima bater á campainha do terceiro andar,

desceu com a estranha nova de que o sr. Cruges já não morava ali. Onde

diabo morava então o sr. Cruges? A criada dissera que o sr. Cruges vivia

agora na rua de S. Francisco, quatro portas adiante do Gremio. Durante

um momento, Carlos, desesperado, pensou em partir só para Cintra. Depois

lá largou para a rua de S. Francisco, amaldiçoando o maestro, que mudara

de casa sem avisar, sempre vago, sempre tenebroso!... E era em tudo

assim. Carlos nada sabia do seu passado, do seu interior, das suas

affeições, dos seus habitos. O marquez uma noite levara-o ao Ramalhete,

dizendo ao ouvido de Carlos que estava alli um genio. Elle encantara

logo todo o mundo pela modestia das suas maneiras e a sua arte

maravilhosa ao piano: e todo o mundo no Ramalhete começou a tratar

Cruges por _maestro_, a fallar tambem do Cruges como de um genio, a

declarar que Choppin nunca fizera obra egual á _Meditação de Outono_ do

Cruges. E ninguem sabia mais nada. Fôra pelo Damaso que Carlos conhecera

a casa do Cruges e soubera que elle vivia lá com a mãe, uma senhora

viuva, ainda fresca, e dona de predios na Baixa.

Ao portão da rua de S. Francisco, Carlos teve de esperar um quarto de

hora. Primeiro appareceu furtivamente ao fundo da escada uma criada em

cabello, que espreitou o break, os criados de farda, e fugiu pelos

degraus acima. Depois veiu um creado em mangas de camisa trazer a maleta

do senhor e um chaile manta. Emfim, o maestro desceu, a correr, quasi

aos trambulhões, com um cache-nez de seda na mão o guarda-chuva debaixo

do braço, abotoando atarantadamente o paletot.

Quando vinha pulando os ultimos degraus, uma voz esganiçada de mulher

gritou-lhe de cima:

--Olha não te esqueçam as queijadas!

E Cruges subiu precipitadamente para a almofada, para o lado de Carlos,

rosnando que, com a preoccupação de se levantar tão cedo, tivera uma

insomnia abominavel...

--Mas que diabo de idéa é essa de mudar de casa, sem avisar a gente,

homem?--exclamou Carlos, atirando-lhe para cima dos joelhos um bocado do

_plaid_ que o agasalhava, porque o maestro parecia arrepiado.

--É que esta casa tambem é nossa, disse simplesmente Cruges.

--Está claro, ahi está uma razão! murmurou Carlos rindo e encolhendo os

hombros.

Partiram.

Era uma manhã muito fresca, toda azul e branca, sem uma nuvem, com um

lindo sol que não aquecia, e punha nas ruas, nas fachadas das casas,

barras alegres de claridade dourada. Lisboa acordava lentamente: as

saloias ainda andavam pelas portas com os seus ceirões d'hortaliças:

varria-se de vagar a testada das lojas: no ar macio morria a distancia

um toque fino de missa.

Cruges, tendo acabado de arranjar o cache-nez e de abotoar as luvas,

estendeu um olhar á esplendida parelha baia reluzindo como um setim sob

o faiscar de prata dos arreios, aos criados com os seus ramos nas

librés, a todo aquelle luxo correcto e rolando em cadencia--onde fazia

mancha o seu paletot: mas o que o impressionou foi o aspecto

resplandecente de Carlos, o olhar acceso, as bellas côres, o bello riso,

o quer que fosse de vibrante e de luminoso, que, sob o seu simples

veston de xadrezinho castanho, n'aquella almofada burgueza de break, lhe

dava um arranque de heroe jovial, lançando o seu carro de guerra...

Cruges farejou uma aventura, soltou logo a pergunta que desde a vespera

lhe ficara nos labios.

--Com franqueza, aqui para nós, que idéa foi esta de ir a Cintra?

Carlos gracejou. O maestro jurava o segredo pela alma melodiosa de

Mozart, e pelas _fugas_ de Bach? Pois bem, a idéa era vir a Cintra,

respirar o ar de Cintra, passar o dia em Cintra... Mas, pelo amor de

Deus, que o não revelasse a ninguem!

E accrescentou, rindo:

--Deixa-te levar, que não te has de arrepender...

Não, Cruges não se arrependia. Até achava delicioso o passeio, gostara

sempre muito de Cintra... Todavia não se lembrava bem, tinha apenas uma

vaga idéa de grandes rochas e de nascentes d'aguas vivas... E terminou

por confessar que desde os nove annos não voltara a Cintra.

O que! o maestro não conhecia Cintra?... Então era necessario ficarem

lá, fazer as peregrinações classicas, subir á Pena, ir beber agua á

Fonte dos Amores, barquejar na varzea...

--A mim o que me está a appetecer muito é Sitiaes; e a manteiga fresca.

--Sim, muita manteiga, disse Carlos. E burros, muitos burros... Emfim,

uma ecloga!

O break rodava na estrada de Bemfica: iam passando muros enramados de

quintas, casarões tristonhos de vidraças quebradas, vendas com o seu

masso de cigarros á porta dependurado de uma guita: e a menor arvore,

qualquer bocado de relva com papoulas, um fugitivo longe de collina

verde, encantavam Cruges. Ha que tempos elle não via o campo!

Pouco a pouco o sol elevara-se. O maestro desembaraçou-se do seu grande

cache-nez. Depois, encalmado, despiu o paletot--e declarou-se morto de

fome.

Felizmente estavam chegando á Porcalhota.

O seu vivo desejo seria comer o famoso coelho guisado,--mas, como era

cedo para esse acepipe, decidiu-se, depois de pensar muito, por uma

bella pratada de ovos com chouriço. Era uma cousa que não provava havia

annos, e que lhe daria a sensação de estar na aldêa... Quando o patrão,

com um ar importante e como fazendo um favor, pousou sobre a meza sem

toalha a enorme travessa com o petisco, Cruges esfregou as mãos, achando

aquillo deliciosamente campestre.

--A gente em Lisboa estraga a saude! disse elle. puxando para o prato

uma montanha de ovo e chouriço. Tu não tomas nada?...

Carlos, para lhe fazer companhia, acceitou uma chavena de café.

D'ahi a pouco Cruges, que devorava, exclamou com a bocca cheia:

--O Rheno tambem deve ser magnifico!

Carlos olhou-o espantado e rindo. A que vinha agora alli o Rheno?... É

que o maestro, desde que sahira as portas, estava cheio de idéas de

viagens e de paisagens; queria vêr as grandes montanhas onde ha neve, os

rios de que se falla na Historia. O seu ideal seria ir á Allemanha,

percorrer a pé, com uma mochilla, aquella patria sagrada dos seus

deuses, de Beethoven, de Mozart, de Wagner...

--Não te appetecia mais ir á Italia? perguntou Carlos accendendo o

charuto.

O maestro esboçou um gesto de desdem, teve uma das suas phrases

sybillinas:

--Tudo contradanças!...

Carlos então fallou de um certo plano de ir á Italia, com o Ega, no

inverno. Ir á Italia, para o Ega, era uma hygiene intellectual:

precisava calmar aquella imaginação tumultuosa de nervoso peninsular

entre a placida magestade dos marmores...

--O que elle precisava antes de tudo era chicote, rosnou o Cruges.

E voltou a fallar do caso da vespera, do famoso artigo da _Gazeta_.

Achava aquillo, como elle dissera, pura e simplesmente insensato, e de

uma sabujice indecorosa. E o que o affligia é que o Ega, com aquelle

talento, aquella verve fumegante, não fizesse nada...

--Ninguem faz nada, disse Carlos espreguiçando-se. Tu, por exemplo, que

fazes?

Cruges, depois de um silencio, rosnou encolhendo os hombros:

--Se eu fizesse uma boa opera, quem é que m'a representava?

--E se o Ega fizesse um bello livro, quem é que lh'o lia?

O maestro terminou por dizer:

--Isto é um paiz impossivel... Parece-me que tambem vou tomar café.

Os cavallos tinham descançado, Cruges pagou a conta, partiram. D'ahi a

pouco entravam na charneca que lhes pareceu infindavel. D'ambos os

lados, a perder de vista, era um chão escuro e triste; e por cima um

azul sem fim, que n'aquella solidão parecia triste tambem. O trote

compassado dos cavallos batia monotonamente a estrada. Não havia um

rumor: por vezes um passaro cortava o ar, n'um vôo brusco, fugindo do

ermo agreste. Dentro do break um dos criados dormia; Cruges, pesado dos

ovos com chouriço, olhava, vaga e melancolicamente, as ancas lustrosas

dos cavallos.

Carlos, no entanto, pensava no motivo que o trazia a Cintra. E realmente

não sabia bem porque vinha: mas havia duas semanas que elle não avistava

certa figura que tinha um passo de deusa pisando a terra, e que não

encontrava o negro profundo de dois olhos que se tinham fixado nos seus:

agora suppunha que ella estava em Cintra, corria a Cintra. Não esperava

nada, não desejava nada. Não sabia se a veria, talvez ella tivesse já

partido. Mas vinha: e era já delicioso o pensar n'ella assim por aquella

estrada fóra, penetrar, com essa doçura no coração, sob as bellas

arvores de Cintra... Depois, era possivel que d'ahi a pouco, na velha

Lawrence, elle a cruzasse de repente no corredor, roçasse talvez o seu

vestido, ouvisse talvez a sua voz. Se ella lá estivesse, decerto viria

jantar á sala, aquella sala que elle conhecia tão bem, que já lhe estava

appetecendo tanto, com as suas pobres cortininhas de cassa, os ramos

toscos sobre a meza, e os dois grandes candieiros de latão antigo...

Ella entraria alli, com o seu bello ar claro de Diana loira; o bom

Damaso, apresentaria o seu amigo Maia; aquelles olhos negros que elle

vira passar de longe como duas estrellas, pousariam mais de vagar nos

seus; e, muito simplesmente, á ingleza, ella estender-lhe-hia a mão...

--Ora até que finalmente! exclamou Cruges, com um suspiro de allivio e

respirando melhor.

Chegavam ás primeiras casas de Cintra, havia já verduras na estrada, e

batia-lhes no rosto o primeiro sopro forte e fresco da serra.

E a passo, o break foi penetrando sob as arvores do Ramalhão. Com a paz

das grandes sombras, envolvia-os pouco a pouco uma lenta e emballadora

sussurração de ramagens, e como o diffuso e vago murmurio de agoas

correntes. Os muros estavam cobertos de heras e de musgos: atravez da

folhagem, faiscavam longas flechas de sol. Um ar subtil e avelludado

circulava, rescendendo ás verduras novas; aqui e além, nos ramos mais

sombrios, passaros chilreavam de leve; e n'aquelle simples bocado de

estrada, todo salpicado de manchas do sol, sentia-se já, sem se vêr, a

religiosa solemnidade dos espessos arvoredos, a frescura distante das

nascentes vivas, a tristeza que cae das penedias e o repouso fidalgo das

quintas de verão... Cruges respirava largamente, voluptuosamente.

--A Lawrence onde é? Na serra?--perguntou elle com a idéa repentina de

ficar alli um mez n'aquelle paraiso.

--Nós não vamos para a Lawrence, disse Carlos sahindo bruscamente do seu

silencio, e espertando os cavallos. Vamos para o Nunes, estamos lá muito

melhor!

Era uma idéa que lhe viera de repente, apenas passara as primeiras casas

de S. Pedro, e o break começara a rolar n'aquellas estradas onde a cada

momento elle a poderia encontrar. Tomara-o uma timidez, a que se

misturava um laivo de orgulho, o receio melindrado de ser indiscreto,

seguindo-a assim a Cintra, ainda que ella o não reconhecesse, indo

installar-se sob as mesmas telhas, apoderando-se de um logar á mesma

meza... E ao mesmo tempo repugnou-lhe a idéa de lhe ser apresentado pelo

Damaso: via-o já, bochechudo e vestido de campo, a esboçar um gesto de

ceremonia, a mostrar o _seu amigo Maia_, a tratal-o por tu, affectando

intimidades com ella, cocando-a com um olho terno... Isto seria

intoleravel.

--Vamos para o Nunes, que se come melhor!

Cruges não respondeu, mudo, enlevado, recebendo como uma impressão

religiosa de todo aquelle esplendor sombrio de arvoredo, dos altos

fragosos da serra entrevistos um instante lá em cima nas nuvens, d'esse

aroma que elle sorvia deliciosamente, e do sussurro doce de aguas

descendo para os valles...

Só ao avistar o Paço descerrou os labios:

--Sim senhor, tem _cachet_!

E foi o que mais lhe agradou--este macisso e silencioso palacio, sem

florões e sem torres, patriarchalmente assentado entre o casario da

villa, com as suas bellas janellas manuelinas que lhe fazem um nobre

semblante real, o valle aos pés, frondoso e fresco, e no alto as duas

chaminés collossaes, disformes, resumindo tudo, como se essa residencia

fosse toda ella uma cosinha talhada ás proporções de uma gula de Rei que

cada dia come todo um Reino...

E apenas o break parou á porta do Nunes, foi-lhe ainda dar um olhar,

timido e de longe--receiando alguma palavra rude da sentinella.

Carlos no entanto, saltando logo da almofada, tomou á parte o criado do

hotel, que descera a recolher as maletas.

--Vossê conhece o sr. Damaso Salcede? Sabe se elle está em Cintra?

O creado conhecia muito bem o sr. Damaso Salcede. Ainda na vespera pela

manhã o vira entrar defronte, no bilhar, com um sujeito de barbas

pretas... Devia estar na Lawrence, porque só com raparigas e em pandiga

é que o sr. Damaso vinha para o Nunes.

--Então, depressa, dous quartos! exclamou Carlos, com uma alegria de

creança, certo agora que _ella_ estava em Cintra. E uma sala particular,

só para nós, para almoçarmos!

Cruges, que se approximava, protestou contra esta sala solitaria.

Preferia a meza redonda. Ordinariamente na meza redonda encontram-se

typos...

--Bem, exclamou Carlos, rindo e esfregando as mãos, põe o almoço na sala

de jantar, põe-n'o até na Praça... E muita manteiga fresca para o sr.

Cruges!

O cocheiro levou o break, o creado sobraçou as maletas. Cruges,

enthusiasmado com Cintra, rompeu pela escada acima, a

assobiar--conservando aos hombros o chaile-manta, de que se não queria

separar, porque lh'o emprestara a mamã. E apenas chegou á porta da sala

do jantar, estacou, ergueu os braços, teve um grito.

--Oh Euzebiosinho!

Carlos correu, olhou... Era elle, o viuvo, acabando de almoçar, com duas

raparigas hespanholas.

Estava no topo da meza, como presidindo, diante de uns restos de pudim e

de pratos de fructa, amarellado, despenteado, carregado de luto, com a

larga fita das lunetas pretas passada por traz da orelha, e uma rodela

de taffetá negro sobre o pescoço tapando alguma espinha rebentada.

Uma das hespanholas era um mulherão trigueiro, com signaes de bexigas na

cara; a outra muito franzina, de olhos meigos, tinha uma roseta de

febre, que o pó de arroz não desfarçava. Ambas vestiam de setim preto, e

fumavam cigarro. E na luz e na frescura que entrava pela janella,

pareciam mais gastas, mais molles, ainda pegajosas da lentura morna dos

colxões, e cheirando a bafio de alcova. Pertencendo á sucia havia um

outro sujeito, gordo, baixo, sem pescoço, com as costas para a porta e a

cabeça sobre o prato, babujando uma metade de laranja.

Durante um momento, Euzebiosinho ficou interdito com o garfo no ar;

depois lá se ergueu, de guardanapo na mão, veiu apertar os dedos aos

amigos, balbuciando logo uma justificação embrulhada, a ordem do medico

para mudar de ares, aquelle rapaz que o acompanhara, e que quizera

trazer raparigas... E nunca parecera tão funebre, tão relles, como

resmungando estas cousas hypocritas, encolhido á sombra de Carlos.

--Fizeste muito bem, Eusebiosinho, disse Carlos por fim, batendo-lhe no

hombro. Lisboa está um horror, e o amor é cousa doce.

O outro continuava a justificar-se. Então a hespanhola magrita, que

fumava, afastada da meza e com a perna traçada, elevou a voz, perguntou

ao Cruges se elle não lhe fallava. O maestro affirmou-se um momento, e

partiu de braços abertos para a sua amiga Lolla. E foi, n'esse canto da

meza, uma grulhada em hespanhol, grandes apertos de mão, e _hombre, que

no se le ha visto! e mira, que me he accordado de ti!_ e _caramba, que

reguapa estas_... Depois a Lolla, tomando um arsinho espremido,

apresentou o outro mulherão, la señorita Concha...

Vendo isto, impressionado com tanta familiaridade--o sujeito obeso, que

apenas levantara um instante a cabeça do prato, decidiu-se a examinar

mais attentamente os amigos do Euzebio: crusou o talher, limpou com o

guardanapo a bocca, a testa e o pescoço, encavallou laboriosamente no

nariz uma grande luneta de vidros grossos, e erguendo a face larga,

balofa e côr de cidra, examinou detidamente Cruges, e depois Carlos, com

uma impudencia tranquilla.

Eusebiosinho apresentou o seu amigo Palma: e o seu amigo Palma, ouvindo

o nome conhecido de Carlos da Maia, quiz logo mostrar diante de um

gentleman, que era um gentleman tambem. Arrojou para longe o guardanapo,

arredou para fóra a cadeira; e de pé, estendendo a Carlos os dedos

molles e de unhas roidas, exclamou, com um gesto para os restos da

sobremeza:

--Se. v. ex.^a é servido, é sem ceremonia... Que isto quando a gente vem

a Cintra, é para abrir o appetite e fazer bem á barriga...

Carlos agradeceu, e ia retirar-se. Mas Cruges, que se animava e

gracejava com a Lolla, fez tambem do outro lado da meza a sua

apresentação:

--Carlos, quero que conheças aqui a lindissima Lolla, relações antigas,

e a señorita Concha, que eu tive agora o prazer...

Carlos saudou respeitosamente as damas.

O mulherão da Concha rosnou seccamente os _buenos dias_: parecia de mau

humor, pesada do almoço, amodorrada para alli, sem dizer uma palavra,

com os cotovellos fincados na meza, os olhos pestanudos meio cerrados,

ora fumando, ora palitando os dentes. Mas a Lolla foi amavel, fez de

senhora, ergueu-se, offereceu a Carlos a mãosita suada. Depois retomando

o cigarro, dando um geito ás pulseiras de ouro, declarou com um requebro

d'olhos, que conhecia de ha muito Carlos...

--No ha estado ustêd con Encarnacion?

Sim, Carlos tivera essa honra... E que era feito d'ella, d'essa bella

Encarnacion?

A Lolla sorriu com finura, tocou no cotovello do maestro. Não acreditava

que Carlos ignorasse o que era feito da Encarnacion... Emfim, terminou

por dizer que a Encarnacion estava agora com o Saldanha.

--Mas olhe que não é com o duque de Saldanha! exclamou Palma, que se

conservara de pé, com a bolsa do tabaco aberta sobre a meza, fazendo um

grande cigarro.

A Lolita, com um modo secco, replicou que o Saldanha não seria duque,

mas era um _chico muy decente_...

--Olha, disse o Palma lentamente, de cigarro na bocca e tirando a isca

da algibeira, duas boas bofetadas na cara lhe dei eu ainda não ha tres

semanas... Pergunta ao Gaspar, o Gaspar assistiu... Foi até no

Montanha... Duas bofetadas que lhe foi logo o chapéo parar ao meio da

rua... O sr. Maia ha de conhecer o Saldanha... Ha de conhecer, que elle

tambem tem um carrito e um cavallo.

Carlos fez um gesto indicando que não; e despedia-se de novo, saudando

as damas, quando Cruges o chamou ainda, retendo-o mais um instante, em

quanto satisfazia uma curiosidade: queria saber qual d'aquellas meninas

era a _esposa do amigo Eusebio_.

Assim interpellado, o viuvo encordoou, rosnou com uma voz morosa, sem

erguer as lunetas da laranja que descascava, que estava alli de passeio,

não tinha esposa, e ambas aquellas meninas pertenciam ao amigo Palma...

E ainda elle mascava as ultimas palavras, quando Concha, que digeria de

perna estendida, se endireitou bruscamente como se fosse saltar, atirou

um murro á borda da meza, e com os olhos chammejantes, desafiou o

Eusebio a que repetisse aquillo! Queria que elle repetisse! Queria que

dissesse se tinha vergonha d'ella, e de dizer que a tinha trazido a

Cintra!... E como o Eusebio, já enfiado, tentava gracejar, fazer-lhe uma

festa--ella despropositou, atirou-lhe os peiores nomes, dando sempre

punhadas na meza, com uma furia que lhe torcia a bocca, lhe punha duas

manchas de sangue no carão trigueiro. A Lolita, vexada, puchava-lhe pelo

braço: a outra deu-lhe um repellão; e, mais excitada com a estridencia

da propria voz, esvasiou-se de toda a bilis, chamou-lhe porco, accusou-o

de forreta, usou-o como um trapo vil.

Palma afflicto, debruçado sobre a meza, exclamava n'um tom ancioso:

--Ó Concha, escuta lá!... Ouve lá!... Concha, eu te explico...

De repente, ella ergueu-se, a cadeira tombou para o lado: e o mulherão

abalou pela sala fóra, a grande cauda de setim varreu desabridamente o

soalho, ouviu-se dentro estalar uma porta. No chão ficara caindo um

pedaço da mantilha de renda.

O creado que entrava do outro lado com a cafeteira estacou, afiando o

olho curioso, farejando o escandalo; depois, calado e seccamente, foi

servindo em roda o café.

Durante um momento houve um silencio. Apenas porém o criado sahiu--a

Lolita e o Palma, agitados mas abafando a voz, atacaram o Eusebiosinho.

Elle portara-se muito mal! Aquillo não fôra de cavalheiro! Tinha trazido

a rapariga a Cintra, devia-a respeitar, não a ter renegado assim, á

bruta, diante de todos...

--_Esto no se hace_, dizia a Lolita, de pé, gesticulando, com os olhos

brilhantes, voltada para Carlos, _ha sido una cosa muy fêa!_..

E como o Cruges lamentava, sorrindo, ter sido a causa involuntaria da

catastrophe--ella baixou a voz, contou que a Concha era uma furia, viera

a Cintra com pouca vontade, e desde manhã estava de _muy malo humor_...

Pero lo de Silbeira habia sido una gran pulhice...

Elle, coitado, com a cabeça cahida e as orelhas em braza, remexia

desoladamente o seu café; não se lhe viam os olhos escondidos pelas

lunetas pretas, mas percebia-se-lhe o grosso soluço que lhe affogava a

garganta. Então Palma pouzou a chavena, lambeu os beiços, e de pé no

meio da sala, com a face luzidia, o collete desabotoado, fez n'um tom

entendido o resumo d'aquelle desgosto.

--Tudo provém d'isto, e desculpe-me você dizel-o, Silveira: é que você

não sabe tratar com hespanholas!

A esta cruel palavra o viuvo succumbiu. A colher cahiu-lhe dos dedos.

Ergueu-se, acercou-se de Carlos e de Cruges, como refugiando-se n'elles,

vindo reconfortar-se ao calor da sua amizade,--e desabafou, estas

palavras angustiosas escaparam-se-lhe dos labios:

--Vejam vocês! vem a gente a um sitio d'estes para gosar um bocado de

poesia, e no fim é uma d'estas!...

Carlos bateu-lhe melancolicamente no hombro:

--A vida é assim, Eusebiosinho.

Cruges fez-lhe uma festa nas costas:

--Não se póde contar com prazeres, Silveirinha.

Mas Palma, mais pratico, declarou que era forçoso arranjarem-se as

cousas. Virem a Cintra, para questões e amuos, isso não! N'aquellas

pandegas queria-se harmonia, chalaça, e gosar. Couces, não. Então

ficava-se em Lisboa, que era mais barato.

Chegou-se a Lolla, passou-lhe os dedos pela face, com amor:

--Anda Lolita, vae tu lá dentro á Concha, dize-lhe que se não faça tola,

que venha tomar café... Anda, que tu sabe-l'a levar... Dize-lhe que peço

eu!

Lolita esteve um momento escolhendo duas boas laranjas, foi dar um geito

ao cabello diante do espelho, apanhou a cauda--e sahiu, atirando a

Carlos, ao passar, um olhar e um sorrisinho.

Apenas ficaram sós, Palma voltou-se para o Eusebio, e deu-lhe conselhos

muito serios sobre o systema de tratar hespanholas. Era necessario

leval-as por bons modos; por isso é que ellas se pellavam por

portuguezes, porque lá em Hespanha era á bordoada... Emfim, elle não

dizia que em certos casos, duas boas bolachas, mesmo um bom par de

bengaladas, não fossem uteis... Sabiam, por exemplo, os amigos, quando

se devia bater? Quando ellas não gostavam da gente, e se faziam ariscas.

Então, sim. Então zás, tapona, que ellas ficavam logo pelo beiço... Mas

depois bons modos, delicadeza, tal qual como com francezas...

--Acredite você isto, Silveira. Olhe que eu tenho experiencia. E o sr.

Maia que lhe diga se isto não é verdade, elle que tem tambem experiencia

e sabe viver com hespanholas!

E isto foi dito com tanto calor, tanto respeito--que Cruges desatou a

rir, fez rir Carlos tambem.

O sr. Palma, um pouco chocado, compoz mais as lunetas, e olhou para

elles:

--Os senhores riem-se? Imaginam que eu que estou a mangar? Olhem que eu

comecei a lidar com hespanholas aos quinze annos! Não, escusam de rir,

que n'isso ninguem me ganha! Lá o que se chama ter geito para

hespanholas, cá o meco! E, vamos lá, que não é facil! É necessario ter

um certo talento!... Olhem, o Herculano é capaz de fazer bellos artigos

e estylo catita... Agora tragam-n'o cá para lidar com hespanholas e

veremos! Não dá meia...

Eusebiosinho no entanto fôra duas vezes escutar á porta. Todo o hotel

cahira n'um grande silencio, a Lolita não voltava. Então Palma

aconselhou um grande passo:

--Vá você lá dentro, Silveira, entre pelo quarto, e assim sem mais nem

menos, chegue-se ao pé d'ella...

--E tapona? perguntou Cruges, muito seriamente, gosando o Palma.

--Qual tapona! Ajoelhe e peça perdão... N'este caso é pedir perdão... E

como pretexto, Silveira, leve-lhe você mesmo o café.

Eusebiosinho, com um olhar ancioso e mudo, consultou os seus amigos. Mas

o seu coração já decidira: e d'ahi a um momento, com o pedaço de

mantilha n'uma das mãos, a chavena de café na outra, enfiado e

commovido, lá partia a passos lentos pelo corredor a pedir perdão á

Concha.

E, logo atraz d'elle, Carlos e Cruges deixaram a sala, sem se despedirem

do sr. Palma--que de resto, indifferente tambem, já se accommodara à

meza a preparar regaladamente o seu grog.

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 16 / 53 段