Carlos olhava para o caes de Sodré. Mas tudo lhe parecia deserto.

Steinbroken antes de adoecer, justamente, tinha dito ao ministro dos

negocios estrangeiros aquillo mesmo: lord Beaconsfield é muito forte,

mas para onde vae elle? O que queria elle?... E s. ex.^a tinha encolhido

os hombros... S. ex.^a não sabia...

--Eh, oui! Beaconsfield est très fort... Vous avez lu son speech chez le

Lord-Maire? Epatant, mon cher, epatant!... Mais voilà... Où va-t-il?

--Steinbroken, não me parece que seja prudente deixar-se estar aqui a

arrefecer no Aterro...

--Devérras? exclamou o diplomata, passando logo a mão rapidamente pelo

estomago e pelo ventre.

E não se quiz demorar um instante mais! Como Carlos ía recolher tambem,

offereceu-lhe um logar na vittoria até ao Ramalhete.

--Venha então jantar comnosco, Steinbroken.

--Charmé, mon cher, charmé...

A vittoria partiu. E o diplomata agazalhando as pernas e o estomago n'um

grande plaid escossez:

--Pôs, Maia, fezemos um bello passêo... Mas este Atêrro no é deverrtido.

Não era divertido o Aterro!... Carlos achara-o n'essa tarde o mais

delicioso logar da terra!

Ao outro dia, voltou mais cedo; e, apenas dera alguns passos entre as

arvores, viu-a logo. Mas não vinha só; ao seu lado o marido, esticado,

apurado n'uma jaqueta de casimira quasi branca, com uma ferradura de

diamantes no setim negro da gravata, fumava, indolente e languido, e

trazia a cadellinha debaixo do braço. Ao passar, deu um olhar

surprehendido a Carlos--como descobrindo emfim entre os barbaros um ser

de linha civilisada, e disse-lhe algumas palavras baixo, a ella.

Carlos encontrara outra vez os seus olhos, profundos e serios: mas não

lhe parecera tão bella; trazia uma outra toilette menos simples, de dois

tons, côr de chumbo e côr de creme, e no chapéo, d'abas grandes á

ingleza, vermelhava alguma cousa, flôr ou penna. N'essa tarde não era a

deusa descendo das nuvens d'ouro que se enrolavam alem sobre o mar; era

uma bonita senhora estrangeira que recolhia ao seu hotel.

Voltou ainda tres vezes ao Aterro, não a tornou a vêr; e então

envergonhou-se, sentiu-se humilhado com este interesse romanesco que o

trazia assim, n'uma inquietação de rafeiro perdido, farejando o Aterro,

da rampa de Santos ao caes de Sodré, á espera de uns olhos negros e de

uns cabellos louros de passagem em Lisboa, e que um paquete da _Royal

Mail_ levaria uma d'essas manhãs...

E pensar que toda essa semana deixara o seu trabalho abandonado sobre a

meza! E que todas as tardes, antes de sahir, se demorava ao espelho,

estudando a gravata! Ah, miseravel, miseravel natureza...

Ao fim d'essa semana, Carlos estava no consultorio, já para sahir,

calçando as luvas, quando o creado entreabriu o reposteiro, e murmurou

com alvoroço:

--Uma senhora!

Appareceu um menino muito pallido, de caracoes louros, vestido de

velludo preto--e atraz uma mulher, toda de negro, com um véo justo e

espesso como uma mascara.

--Creio que vim tarde, disse ella, hesitando, junto da porta. O sr.

Carlos da Maia ía sahir...

Carlos reconheceu a Gouvarinho.

--Oh senhora condessa!

Desembaraçou logo o divan dos jornaes e das brochuras; ella olhou um

momento, como indecisa, aquelle amplo e molle assento de serralho;

depois sentou-se á borda e de leve, com o pequeno junto de si.

--Venho trazer-lhe um doente, disse ella sem erguer o véu, como fallando

do fundo d'aquella toilette negra que a dissimulava. Não o mandei

chamar, por que realmente pouco é, e tinha hoje de passar por aqui...

Além d'isso, o meu pequeno é muito nervoso; se vê entrar o medico,

parece-lhe que vae morrer. Assim é como uma visita que se faz... E não

tens medo, não é verdade, Charlie?

O pequeno não respondeu; de pé, quedo ao lado da mamã; mimoso e debil

sob os caracoes d'anjo que lhe cahiam até aos hombros, devorava Carlos

com uns grandes olhos tristes.

Carlos poz um interesse quasi terno na sua pergunta:

--Que tem elle?

Havia dias, apparecera-lhe uma empigem no pescoço. Além disso, por traz

da orelha, tinha como uma dureza de caroço. Aquillo inquietava-a. Ella

era forte, de uma boa raça, que dera athletas e velhos de grande edade.

Mas na familia do marido, em todos os Gouvarinhos, havia uma anemia

hereditaria. O conde mesmo, com aquella solida apparencia, era um

achacado. E ella, receiando que a influencia debilitante de Lisboa não

conviesse a Charlie, estava com o vago projecto de lhe fazer ir passar

algum tempo ao campo, em Formoselha, a casa da avó.

Carlos, approximando ligeiramente a cadeira, estendeu os braços a

Charlie:

--Ora venha cá o meu lindo amigo, para vermos isso. Que magnifico

cabello elle tem, senhora condessa!...

Ella sorrio. E Charlie, seriosinho, bem ensinado, sem aquelle terror do

medico de que fallara a mamã, veio logo, desapertou delicadamente o seu

grande collarinho, e, quasi entre os joelhos de Carlos, dobrou o pescoço

macio e alvo como um lyrio.

Carlos vio apenas uma pequena mancha côr de rosa desvanecendo-se; do

«caroço» não havia vestigio; e então uma ligeira vermelhidão subiu-lhe

ao rosto, procurou vivamente os olhos da condessa, como comprehendendo

tudo, querendo vêr n'elles a confissão do sentimento que a trouxera alli

com um pretexto pueril, sob aquella toilette negra, aquelles véos que a

mascaravam...

Mas ella permaneceu impenetravel, sentada á borda do divan, com as mãos

crusadas, attenta, como esperando as suas palavras, n'um vago susto de

mãe.

Carlos abotoou o collarinho do pequeno, e disse:

--Não é absolutamente nada, minha senhora.

No entanto, fez perguntas de medico sobre o regimen e a natureza de

Charlie. A condessa, n'um tom pesaroso, queixou-se de que a educação da

creança não fosse, como ella desejava, mais forte e mais viril; mas o

pae oppunha-se ao que elle chamava «a aberração ingleza», a agua fria,

os exercicios a todo o ar, a gymnastica...

--A agoa fria e a gymnastica, disse Carlos sorrindo, teem melhor

reputação do que merecem... É o seu unico filho, senhora condessa?

--É, tem os mimos de morgado, disse ella passando a mão pelos cabellos

louros do pequeno.

Carlos assegurou-lhe que, apezar do seu aspecto nervoso e delicado,

Charlie não devia dar-lhe cuidado; nem havia necessidade de o exilar

para os ares de Formoselha... Depois ficaram um momento callados.

--Não imagina como me tranquillisou, disse ella, erguendo-se, dando um

geito ao veu. De mais a mais é um gosto vir consultal-o... Não ha aqui o

menor ar de doença, nem de remedios... E realmente tem isto muito

bonito...--accrescentou, dando um olhar lento em redor aos velludos do

gabinete.

--Tem justamente esse defeito, exclamou Carlos rindo. Não inspira nenhum

respeito pela minha sciencia... Eu estou com idêas d'alterar tudo, pôr

aqui um crocodilho empalhado, corujas, retortas, um esqueleto, pilhas

d'in-folios...

--A cella de Fausto.

--Justamente, a cella de Fausto.

--Falta-lhe Mephistopheles, disse ella alegremente, com um olhar que

brilhou sob o véo.

--O que me falta é Margarida!

A senhora condessa, com um lindo movimento, encolheu os hombros, como

duvidando discretamente; depois tomou a mão de Charlie, e deu um passo

lento para a porta, puxando outra vez o véo.

--Como v. ex.^a se interessa pela minha installação, acudiu Carlos

querendo retel-a, deixe-me mostrar-lhe a outra sala.

Correu o reposteiro. Ella approximou-se, murmurou algumas palavras,

approvando a frescura dos cretones, a harmonia dos tons claros: depois o

piano fel-a sorrir.

--Os seus doentes dançam quadrilhas?

--Os meus doentes, senhora condessa, respondeu Carlos, não são bastante

numerosos para formar uma quadrilha. Raras vezes mesmo tenho dois para

uma valsa... O piano está simplesmente alli para dar idêas alegres; é

como uma promessa tacita de saude, de futuras _soirèes_, de bonitas

arias do _Trovador_, em familia...

--É engenhoso, disse ella dando familiarmente alguns passos na sala, com

Charlie collado aos vestidos.

E Carlos, caminhando ao lado d'ella:

--V. ex.^a não imagina como eu sou engenhoso!

--Já n'outro dia me disse... Como foi que disse? Ah! que era muito

inventivo quando odiava.

--Muito mais quando amo, disse elle rindo.

Mas ella não respondeu: parára junto do piano, remexeu um momento as

musicas espalhadas, feriu duas notas no teclado.

--É um chocalho.

--Oh, senhora condessa!

Ella seguiu, foi examinar um quadro a oleo, copiado de Landseer--um

focinho de cão de S. Bernardo, macisso e bonacheirão, adormecido sobre

as patas. Quasi roçando-lhe o vestido, Carlos sentia o fino perfume de

verbena que ella usava sempre exageradamente: e, entre aquelles tons

negros que a cobriam, a sua pelle parecia mais clara, mais doce á vista,

e attrahindo como um setim.

--Este é um horror, murmurou ella, voltando-se; mas disse-me o Ega que

ha quadros lindos no Ramalhete... Fallou-me sobretudo d'um Greuze e d'um

Rubens... É pena que se não possam vêr essas maravilhas.

Carlos lamentava tambem que uma existencia de solteirões lhes impedisse,

a elle e ao avô, de receberem senhoras. O Ramalhete estava tomando uma

melancolia de mosteiro. Se assim continuassem mais alguns mezes, sem que

se sentisse alli um calor de vestido, um aroma de mulher, vinha a nascer

a herva pelos tapetes.

--É por isso, accrescentou elle muito serio, que eu vou obrigar o avô a

casar-se.

A condessa riu, os seus lindos dentes miudinhos alvejaram na sombra do

véo.

--Gosto da sua alegria, disse ella.

--É uma questão de regimen. V. ex.^a não é alegre?

Ella encolheu os hombros, sem saber... Depois, batendo com a ponta do

guarda-sol na sua botina de verniz que brilhava sobre o tapete claro,

murmurou com os olhos baixos, deixando ir as palavras, n'um tom

d'intimidade e de confidencia:

--Dizem que não, que sou triste, que tenho _spleen_...

O olhar de Carlos seguira o d'ella, pousara-se na botina de verniz que

calçava delicadamente um pé fino e comprido: Charlie, entretido, mexia

nas teclas do piano--e elle baixou a voz para lhe dizer:

--É que a senhora condessa tem um mau regimen. É necessario tratar-se,

voltar aqui, consultar-me... Tenho talvez muito que lhe dizer!

Ella interrompeu-o vivamente, erguendo para elle os olhos, d'onde se

escapou um clarão de ternura e de triumpho:

--Venha-m'o antes dizer um d'estes dias, tomar chá comigo, ás cinco

horas... Charlie!

O pequeno veiu logo dependurar-se-lhe do braço.

Carlos, acompanhando-a abaixo á rua, lamentava a fealdade da sua escada

de pedra:

--Mas vou mandar tapetar tudo para quando a senhora condessa volte a

dar-me a honra de me vir consultar...

Ella gracejou, toda risonha:

--Ah não! O sr. Carlos da Maia prometteu-nos a todos a saude... E

naturalmente não espera que seja eu que venha cá tomar chá comsigo...

--Oh, minha senhora, eu quando começo a esperar, não ponho limites

nenhuns ás minhas esperanças...

Ella parou, com o pequeno pela mão, olhou para elle, como pasmada,

encantada com aquella grandiosa certeza de si mesmo.

--Então vae por ahi além, por ahi além...?

--Vou por ahi além, por ahi além, minha senhora!

Estavam no ultimo degrau, diante da claridade e do rumor da rua.

--Mande-me chegar um coupé.

Um cocheiro, ao aceno de Carlos, lançou logo a tipoia.

--E agora, disse ella sorrindo, mande-o ir á egreja da Graça.

--A senhora condessa vai beijar o pé do Senhor dos Passos?

Ella corou de leve, murmurou:

--Ando fazendo as minhas devoções...

Depois saltou ligeiramente para o coupé--deixando Charlie, que Carlos

ergueu nos braços e lhe collocou ao lado, paternalmente.

--Que Deus a leve em sua santa guarda, senhora condessa!

Ella agradeceu com um olhar, um movimento de cabeça--ambos tão doces

como caricias.

Carlos subio: e, sem tirar o chapéo, ficou ainda enrolando uma

cigarrette, passeando n'aquella sala sempre deserta, sempre fria, onde

ella deixara agora alguma cousa do seu calor e do seu aroma...

Realmente gostava d'aquella audacia d'ella--ter vindo assim ao

consultorio, toda escondida, quasi mascarada n'uma grande toilette

negra, inventando um caroço no pescocinho são de Charlie, para o vêr,

para dar um nó brusco e mais apertado n'aquelle leve fio de relações que

elle tão negligentemente deixara cahir e quebrar...

O Ega d'esta vez não phantasiara: aquelle bonito corpo offerecia-se, tão

claramente como se se despisse. Ah! se ella fosse de sentimentos

errantes e faceis--que bella flôr a colher, a respirar, a deitar fóra

depois! Mas não: como dizia o Baptista, a senhora condessa nunca se

tinha divertido. E o que elle não queria era achar-se envolvido n'uma

paixão ciosa, uma d'essas ternuras tumultuosas de mulher de trinta

annos, de que depois se desembaraçaria difficilmente... Nos braços

d'ella o seu coração ficaria mudo: e apenas esgotada a primeira

curiosidade, começaria o tedio dos beijos que se não desejam, a horrivel

massada do prazer a frio. Depois, teria de ser intimo da casa, receber

pelo hombro as palmadas do senhor conde, ouvir-lhe a voz morosa

distillando doutrina... Tudo isto o assustava... E, todavia, gostara

d'aquella audacia! Havia ali uma pontinha de romantismo, muito

irregular, e pícante... E devia ser deliciosamente bem feita... A sua

imaginação despia-a, enrolava-se-lhe no setim das fórmas onde sentia ao

mesmo tempo alguma cousa de maduro e de virginal... E outra vez, como

nas primeiras noites que os vira em S. Carlos, aquelles cabellos

tentavam-n'o, assim avermelhados, tão crespos e quentes...

Sahiu. E dera apenas alguns passos na rua Nova do Almada, quando avistou

o Damaso, n'um coupé lançado a grande trote, que o chamava, mandava

parar, com a face á portinhola, vermelho e radiante:

--Não tenho podido lá ir, exclamou elle, apoderando-se-lhe da mão,

apenas Carlos se approximou, e apertando-lh'a com enthusiasmo. Tenho

andado n'um turbilhão!.. Eu te contarei! Um romance divino... Mas eu te

contarei!.. Tem cuidado com a roda! Bate lá, ó _Calção_!

A parelha abalou; elle ainda se debruçou da portinhola, agitou a mão,

gritou no rumor da rua:

--Um romance divino, _chic_ a valer!

Justamente, dias depois, no Ramalhete, na sala de bilhar, Craft que

acabava de «bater» o marquez, perguntou, pousando o taco e accendendo o

cachimbo:

--E noticias do nosso Damaso? Já se esclareceu esse lamentavel

desapparecimento?...

Carlos então contou como o encontrára, afogueado e triumphante,

atirando-lhe da portinhola do coupé, em plena rua Nova do Almada, a

noticia de um _romance divino_!

--Bem sei, disse o Taveira.

--Como sabes?... exclamou Carlos.

Taveira vira-o na vespera, n'um grande landeau da Companhia, com uma

esplendida mulher, muito elegante e que parecia estrangeira...

--Ora essa! gritou Carlos. E com uma cadelinha escoceza?

--Exactamente, uma cadelinha escoceza, um _griffon_ côr de prata... Quem

são?

--E um rapaz magro, de barba muito preta, com um ar inglezado?

--Justamente... Muito correcto, um ar _sport_... Que gente é?

--Uma gente brazileira, penso eu.

Eram os Castros Gomes, de certo! Isto parecia-lhe espantoso. Havia

apenas duas semanas que no terraço o Damaso, de punhos fechados, bramara

contra os Castro Gomes e as suas «desconsiderações»! Ia pedir outros

pormenores ao Taveira--mas o marquez ergueu a voz do fundo da poltrona

onde se estirára, e quiz saber a opinião de Carlos sobre o grande

acontecimento d'essa manhã na _Gazeta Illustrada_.--Na _Gazeta

Illustrada_?... Carlos não sabia, essa manhã não vira jornal nenhum.

--Então não lhe digam nada, gritou o marquez. Venha a surpreza! Cá ha a

_Gazeta_? Manda buscar a _Gazeta_!

Taveira puxou o cordão da campainha;--e quando o escudeiro trouxe a

_Gazeta_, elle apoderou-se d'ella, quiz fazer uma leitura solemne.

--Deixa-lhe vêr primeiro o retrato, berrou o marquez, erguendo-se.

--Primeiro o artigo! exclamava o Taveira, defendendo-se, com o jornal

atraz das costas.

Mas cedeu, e poz o papel deante dos olhos de Carlos, largamente, como um

sudario desdobrado. Carlos reconheceu logo o retrato do Cohen... E a

prosa que se alastrava em redor, encaixilhando a face escura de suissas

retintas, era um trabalho de seis columnas, em estylo emplumado e

cantante, celebrando até aos céus as virtudes domesticas do Cohen, o

genio financeiro do Cohen, os ditos d'espirito do Cohen, a mobilia das

salas do Cohen; havia ainda um paragrapho alludindo á festa proxima, ao

grande sarau de mascaras do Cohen. E tudo isto vinha assignado--J. da

E.--as iniciaes de João da Ega!

--Que tolice! exclamou Carlos, com tedio, atirando o jornal para cima do

bilhar.

--É mais que tolice, observou Craft; é uma falta de senso moral.

O marquez protestou. Gostava do artigo. Achava-o brilhante, e de

velhaco!... E de resto em Lisboa quem dava por uma falta de senso

moral?...

--Você, Craft, não conhece Lisboa! Todo o mundo acha isto muito natural.

É intimo da casa, celebra os donos. É admirador da mulher, lisongea o

marido. Está na logica cá da terra... Você verá que successo isto vae

ter... E lá que o artigo está lindo, isso está!

Tomou-o de cima do bilhar, leu alto o trecho sobre o boudoir côr de rosa

de madame Cohen: «respira-se alli (dizia o Ega) alguma cousa de

perfumado, intimo e casto, como se todo aquelle côr de rosa exhalasse de

si o aroma que a rosa tem»!

--Isto, caramba, é lindo em toda a parte! exclamou o marquez. Tem muito

talento, aquelle diabo! Tomara eu ter o talento que elle tem!...

--Nada d'isso impede, repetiu Craft, cachimbando tranquillamente, que

seja uma extraordinaria falta de senso moral.

--Pura e simplesmente insensato! disse Cruges, desenroscando-se do canto

d'um sophá, para deixar cahir ás syilabas esta pesada opinião.

O marquez investiu com elle.

--Que entende você d'isso, seu maestro? O artigo é sublime! E saiba

mais: é de finorio!

O maestro, com preguiça de argumentar, foi-se enroscar em silencio ao

outro canto do sophá.

E então o marquez, de pé e bracejando, appellou para Carlos, e quiz

saber o que é que Craft em principio entendia por _senso moral_.

Carlos, que dava pela sala passos impacientes, não respondeu, tomou o

braço do Taveira, levou-o para o corredor.

--Dize-me uma cousa: onde viste tu o Damaso, com essa gente? Para que

lado iam?

--Iam pelo Chiado abaixo; ante-hontem, ás duas horas... Estou convencido

que iam para Cintra. Levavam uma maleta no landau, e atraz ia uma criada

n'um coupé com uma mala maior... Aquillo cheirava a ida a Cintra. E a

mulher é divina! Que toilette, que ar, que chic!.. É uma Venus,

menino!... Como conheceria elle aquillo?...

--Em Bordeus, n'um paquete, não sei onde!

--Eu do que gostei foi dos ares que elle se ia dando por aquelle Chiado!

Cumprimento para a direita, cumprimento para a esquerda... A

debruçar-se, a fallar muito baixo para a mulher, com olho terno,

alardeando conquista...

--Que besta! exclamou Carlos, batendo com o pé no tapete.

--Chama-lhe besta, disse o Taveira. Vem a Lisboa, por acaso, uma mulher

civilisada e decente, e é elle que a conhece, e é elle que vae com ella

para Cintra! Chama-lhe besta!... Anda d'ahi, vamos á partidinha de

dominó.

Taveira ultimamente introduzira o dominó no Ramalhete--e havia agora

alli, ás vezes, partidas ardentes, sobretudo quando apparecia o marquez.

Porque a paixão do Taveira era bater o marquez.

Mas foi necessario que o marquez acabasse de bracejar, de desenrolar o

arrazoado com que estava acabrunhando o Craft--que do fundo da poltrona,

de cachimbo na mão e com um ar de somno, respondia por monossyllabos.

Era ainda a proposito do artigo do Ega, da definição de _senso moral_.

Já tinha fallado de Deus, de Garibaldi, até do seu famoso perdigueiro

_Finorio_; e agora definia a Consciencia... Segundo elle, era o medo da

policia. Tinha o amigo Craft visto já alguem com remorsos? Não, a não

ser no theatro da Rua dos Condes, em dramalhões...

--Acredite você uma cousa, Craft--terminou elle por dizer, cedendo ao

Taveira que o puchava para a meza--isto de consciencia é uma questão de

educação. Adquire-se como as boas maneiras; soffrer em silencio por ter

trahido um amigo, aprende-se exactamente como se aprende a não metter os

dedos no nariz. Questão d'educação... No resto da gente é apenas medo da

cadeia, ou da bengala... Ah! vocês querem levar outra sova ao dominó

como a de sabbado passado? Perfeitamente, sou todo vosso...

Carlos, que estivera passando de novo os olhos pelo artigo do Ega,

approximou-se tambem da meza. E estavam sentados, remexiam as

pedras--quando á porta da sala appareceu o conde de Steinbroken, de

casaca e crachá, gran-cruz sobre o colete branco, loiro como uma espiga,

esticado e resplandecente. Tinha jantado no Paço, e vinha acabar no

Ramalhete a sua soirée, em familia...

Então o marquez que o não via desde o famoso ataque de intestinos,

abandonou o dominó, correu a abraçal-o ruidosamente--e sem o deixar

sequer sentar, nem estender a mão aos outros, implorou-lhe logo uma das

suas bellas canções filandezas, uma só, d'aquellas que lhe faziam tão

bem á alma!...

--Só a _Ballada_, Steinbroken... Eu tambem não me posso demorar, que

tenho aqui a partida á espera. Só a _Ballada_!... Vá, salta lá para

dentro para o piano, Cruges...

O diplomata sorria, dizia-se cançado, tendo já feito musica deliciosa no

Paço com Sua Magestade. Mas nunca sabia resistir áquelle modo folgazão

do marquez--e lá foram para a sala do piano, de braço dado, seguidos

pelo Cruges, que levara uma eternidade a desenroscar-se do canto do

sophá. E d'ahi a um momento, atravez dos resposteiros meio corridos, a

bella voz de barytono do diplomata espalhava pelas salas, entre os

suspiros do piano, a emballadora melancolia da _Ballada_, com a sua

lettra traduzida em francez, que o marquez adorava, e em que se fallava

das nevoas tristes do Norte, de lagos frios e de fadas loiras...

Taveira e Carlos, no entanto, tinham começado uma grande partida de

dominó, a tostão o ponto. Mas Carlos n'essa noite não se interessava,

jogando distrahido, a cantarolar tambem baixo bocados tristes da

_Ballada_: depois, quando já Taveira tinha só uma pedra diante de si, e

elle estava comprando interminavelmente as que restavam, voltou-se para

o lado, para o Craft, a perguntar se o hotel da Lawrence, em Cintra,

estava aberto todo o anno...

--A ida do Damaso para Cintra deu-te no goto, rosnou Taveira impaciente.

Anda, joga!

Carlos, sem responder, pousou mollemente uma pedra.

--Dominó! gritou Taveira.

E em triumpho, aos pulos, contou elle mesmo os sessenta e oito pontos

que Carlos perdia.

Justamente o marquez entrava, e a victoria do Taveira indignou-o.

--Agora nós, exclamou elle, puxando vivamente uma cadeira. Oh Carlos,

deixe-me você dar aqui uma sova n'este ladrão. Depois jogamos de tres...

Como queres tu isto, Taveirete? A dous tostões o ponto? Ah, queres só a

tostão... Muito bem, eu te ensinarei. Anda, desembaraça-te já d'esse

dôble-seis, miseravel...

Carlos ficou ainda um momento olhando o jogo, com uma cigarette apagada

nos dedos, o mesmo ar distrahido: de repente, pareceu tomar uma decisão,

atravessou o corredor, entrou na sala de musica. Steinbroken fôra ao

escriptorio vêr Affonso da Maia, e a partida de whist; e Cruges só,

entre as duas vélas do piano, com os olhos errantes pelo tecto,

improvisava para si, melancolicamente.

--Dize cá, Cruges, perguntou-lhe Carlos, queres vir ámanhã a Cintra?

O teclado callou-se, o maestro ergueu um olhar espantado! Carlos nem o

deixou fallar.

--Está claro que queres, não te faz senão bem vir a Cintra... Ámanhã lá

estou á porta, com o break. Mette sempre uma camisa n'uma maleta, que

talvez passemos lá a noite... Ás oito em ponto, hein?... E não digas

nada lá dentro.

Carlos voltou para a sala, ficou a olhar a partida de dominó. Agora

havia um largo silencio. O marquez e Taveira moviam lentamente as

pedras, sem uma palavra, com um ar de rancor surdo. Em cima do pano

verde do bilhar as bolas brancas dormiam juntas, sob a luz que cahia dos

abat-jours de porcelana. Um som de piano, dolente e vago, passava por

vezes. E Craft, com o braço descahido ao longo da poltrona, dormitava,

beatificamente.

VIII

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 15 / 53 段