a barba que começava agora a deixar crescer até á forma dos sapatos.
Lançara-se no _bric-a-brac_. Trazia sempre o _coupé_ cheio de lixos
archeologicos, ferragens velhas, um bocado de tijolo, a aza rachada de
um bule... E se avistava um conhecido, fazia parar, entreabria a
portinhola como um addito de sacrario, exhibia a preciosidade:
--Que te parece? _Chic_ a valer!... Vou mostral-a ao Maia. Olha-me isto,
hein! Pura meia edade, do reinado de Luiz XIV. O Carlos vae-se roer de
inveja!
N'esta intimidade de rosas havia todavia para Damaso horas pesadas. Não
era divertido assistir em silencio, do fundo d'uma poltrona, ás
infindaveis discussões de Carlos e de Craft sobre arte e sobre sciencia.
E, como elle confessou depois, chegara a encavacar um pouco quando o
levaram ao laboratorio para fazer no seu corpo experiencias de
electricidade...--«Pareciam dois demonios engalphinhados em mim, disse
elle á sr.^a condessa de Gouvarinho; e eu então que embirro com o
spiritismo!...»
Mas tudo isto ficava regiamente compensado, quando á noite, n'um sophá,
do Gremio, ou ao chá n'uma casa amiga, elle podia dizer, correndo a mão
pelo cabello:
--Passei hoje um dia divino com o Maia. Fizemos armas, _bric-a-brac_,
discutimos... Um dia, _chic_! Ámanhã tenho uma manhã de trabalho com o
Maia... Vamos ás colxas.
N'esse domingo, justamente, deviam ir ás colxas, ao Lumiar. Carlos
concebera um _boudoir_, todo revestido de colxas antigas de setim,
bordadas a dous tons especiaes, perola e botão d'ouro. O tio Abrahão
esquadrinhava-as por toda a Lisboa e pelos suburbios; e n'essa manhã
viera annunciar a Carlos a existencia de duas preciosidades, _so
beautiful! oh! so lovely!_ em casa de umas senhoras Medeiros que
esperavam o sr. Maia ás duas horas...
Já tres vezes Damaso tossira, olhara o relogio,--mas, vendo Carlos
confortavelmente mergulhado na _Revista_, recahia tambem na sua
indolencia de homem _chic_, investigando o _Figaro_. Emfim, dentro, o
relogio Luiz XV cantou argentinamente as duas...
--Esta é boa, exclamou Damaso ao mesmo tempo, com uma palmada na coxa.
Olha quem aqui me apparece! A Suzanna! A minha Suzanna!
Carlos não despegara os olhos da pagina.
--Oh Carlos, accrescentou elle, fazes favor? Ouve. Ouve esta que é boa.
Esta Suzanna é uma pequena que eu tive em Paris... Um romance!
Apaixonou-se por mim, quiz-se envenenar, o diabo!... Pois diz aqui o
_Figaro_ que debutou nas _Folies-Bergeres_. Falla n'ella... É boa, hein?
E era rapariguita _chic_... E o _Figaro_ diz que ella teve aventuras,
naturalmente sabia o que se passou comigo... Todo o mundo sabia em
Paris. Ora a Suzanna!... Tinha bonitas pernas. E custou-me a vêr livre
d'ella!
--Mulheres! murmurou Carlos, refugiando-se mais no fundo da _Revista_.
Damaso era interminavel, torrencial, inundante a fallar das «suas
conquistas», n'aquella solida satisfação em que vivia de que todas as
mulheres, desgraçadas d'ellas, soffriam a fascinação da sua pessoa e da
sua toilette. E em Lisboa, realmente, era exacto. Rico, estimado na
sociedade, com _coupè_ e parelha, todas as meninas tinham para elle um
olhar doce. E no _démi-monde_, como elle dizia, «tinha prestigio a
valer.» Desde moço fôra celebre, na capital, por pôr casas a
hespanholas; a uma mesmo dera carruagem ao mez; e este fausto
excepcional tornara-o bem depressa o D. João V dos prostibulos.
Conhecia-se tambem a sua ligação com a viscondessa da Gafanha, uma
carcassa esgalgada, caiada, rebocada, gasta por todos os homens validos
do paiz: ía nos cincoenta annos, quando chegou a vez do Damaso--e não
era decerto uma delicia ter nos braços aquelle esqueleto rangente e
lubrico; mas dizia-se que em nova dormira n'um leito real, e que
augustos bigodes a tinham lambuzado; tanta honra fascinou Damaso, e
collou-se-lhe ás saias com uma fidelidade tão sabuja, que a decrepita
creatura, farta, enojada já, teve de o enxotar á força e com desfeitas.
Depois gozou uma tragedia: uma actriz do _Principe Real_, uma montanha
de carne, apaixonada por elle, n'uma noite de ciume e de genebra,
engoliu uma caixa de phosphoros; naturalmente d'ahi a horas estava boa,
tendo vomitado abominavelmente sobre o collete do Damaso que chorava ao
lado--mas desde então este homem de amor julgou-se fatal! Como elle
dizia a Carlos, depois de tanto drama na sua vida quasi tremia, tremia
verdadeiramente de fitar uma mulher...
--Passaram-se scenas com esta Suzanna! murmurou elle depois de um
silencio em que estivera catando pelliculas nos beiços.
E, com um suspiro, retomou o _Figaro_. Houve outra vez um silencio no
terrasso. Dentro, a partida continuava. Para lá da sombra do toldo,
agora, o sol ía aquecendo, batendo a pedra, os vasos de louça branca,
n'uma refracção d'ouro claro em que palpitavam as azas das primeiras
borboletas voando em redor dos craveiros sem flor: em baixo, o jardim
verdejava, immovel na luz, sem um bolir de ramo, refrescado pelo cantar
do repuxo, pelo brilho liquido da agoa do tanque, avivado, aqui e além,
pelo vermelho ou o amarello das rosas, pela carnação das ultimas
camelias... O bocado de rio que se avistava entre os predios era azul
ferrete como o céu: e entre rio e céu o monte punha uma grossa barra
verde-escura, quasi negra no resplendor do dia, com os dois moinhos
parados no alto, as duas casinhas alvejando em baixo, tão luminosas e
cantantes que pareciam viver. Um repouso dormente de domingo envolvia o
bairro: e, muito alto, no ar, passava o claro repique d'um sino.
--O duque de Norfolk chegou a Paris, disse Damaso n'um tom entendido e
traçando a perna. O duque de Norfolk é _chic_, não é verdade, ó Carlos?
Carlos, sem erguer os olhos, lançou para os céus um gesto, como
exprimindo o infinito do _chic_!
Damaso largara o _Figaro_ para metter um charuto na boquilha; depois
desapertou os ultimos botões do collete, deu um puchão á camisa para
mostrar melhor a marca que era um S enorme sob uma corôa de conde, e de
palpebra cerrada, com o beiço trombudo, ficou mamando gravemente a
boquilha...
--Tu estás hoje em belleza, Damaso, disse-lhe Carlos que deixara tambem
a _Revista_ e o contemplava com melancolia.
Salcede corou de gozo. Escorregou um olhar ao verniz dos sapatos, á meia
côr de carne, e revirando para Carlos o bogalho azulado da orbita:
--Eu agora ando bem... Mas, muito _blazè_.
E foi realmente com um ar _blazè_ que se ergueu a ir buscar a uma mesa
de jardim, ao lado, onde estavam jornaes e charutos, a _Gazeta
Illustrada_, «para vêr o que ia pela patria.» Apenas lhe deitou os olhos
soltou uma exclamação.
--Outro debute? perguntou Carlos.
--Não, é a besta do Castro Gomes!
A _Gazeta Illustrada_ annunciava que «o sr. Castro Gomes, o cavalheiro
brasileiro que no Porto fôra victima da sua dedicação por occasião da
desgraça occorrida na Praça Nova, e de que o nosso correspondente J. T.
nos deu uma descripção tão opulenta de colorido realista, acha-se
restabelecido e é hoje esperado no Hotel Central. Os nossos parabens ao
arrojado gentleman.»
--Ora está s. ex.^a restabelecida! exclamou Damaso, atirando para o lado
o jornal. Pois deixa estar, que agora é a occasião de lhe dizer na cara
o que penso... Aquelle pulha!
--Tu exageras, murmurou Carlos, que se apoderara vivamente do jornal, e
relia a noticia.
--Ora essa! exclamou Damaso, erguendo-se. Ora essa! Queria vêr, se fosse
comtigo... É uma besta! É um selvagem!
E repetiu mais uma vez a Carlos essa historia que o magoava. Desde a sua
chegada de Bordeus, logo que o Castro Gomes se installara no Hotel
Central elle fôra deixar-lhe bilhetes duas vezes--a ultima na manhã
seguinte ao jantar do Ega. Pois bem, s. ex.^a não se dignara agradecer a
visita! Depois elles tinham partido para o Porto; fôra ahi que,
passeiando só na Praça Nova, vendo a parelha de uma caleche desbocada,
duas senhoras em gritos, Castro Gomes se lançára ao freio dos
cavallos--e, cuspido contra as grades, tinha deslocado um braço. Teve de
ficar no Porto, no Hotel, cinco semanas. E elle immediatamente (sempre
com o olho na mulher) mandara-lhe dois telegrammas: um de sentimento,
lamentando; outro de interesse, pedindo noticias. Nem a um, nem a outro,
o animal respondeu!
--Não, isso--exclamava Salcede, passeiando pelo terraço, e recordando
estas injurias--hei de lhe fazer uma desfeita!... Não pensei ainda o
quê, mas ha de amargar-lhe... Lá isso, desconsiderações não admitto a
ninguem! a ninguem!
Arredondava o olho, ameaçador. Desde o seu feito no Gremio, quando o
rachitico apavorado emmudecera diante d'elle, Damaso ia-se tornando
feroz. Pela menor cousa fallava em «quebrar caras.»
--A ninguem! repetia elle, com puxões ao collete. Desconsiderações, a
ninguem!
N'esse momento ouviu-se dentro, no escriptorio, a voz rapida do Ega--e
quasi immediatamente elle appareceu, com um ar de pressa, e atarantado.
--Olá, Damasosinho!... Carlos, dás-me aqui em baixo uma palavra?
Desceram do terraço, penetraram no jardim, até junto de duas olaias em
flôr.
--Tu tens dinheiro?--foi ahi logo a exclamação anciosa do Ega.
E contou a sua terrivel atrapalhação. Tinha uma letra de noventa libras
que se vencia no dia seguinte. Além d'isso, vinte e cinco libras que
devia ao Eusebiosinho, e que elle lhe reclamara n'uma carta indecente: e
era isto que desesperava o Ega...
--Quero pagar a esse canalha, e quando o vir collar-lhe a carta á cara
com um escarro. Além d'isso a letra! E tenho para tudo isto quinze
tostões...
--O Eusebiosinho é homem de ordem... Emfim, queres cento e quinze
libras, disse Carlos.
Ega hesitou, com uma côr no rosto. Já devia dinheiro a Carlos. Estava-se
sempre dirigindo áquella amisade, como a um cofre inexgotavel...
--Não, bastam-me oitenta. Ponho o relogio no prego, e a pelissa, que já
não faz frio...
Carlos sorriu, subiu logo ao quarto a escrever um cheque--em quanto Ega
procurava cuidadosamente um bonito botão de rosa para florir a
sobrecasaca. Carlos não tardou, trazendo na mão o cheque, que alargara
até cento e vinte libras, para o Ega ficar _armado_...
--Seja pelo amor de Deus, menino! disse o outro, embolsando o papel, com
um bello suspiro de allivio.
Immediatamente trovejou contra o Eusebiosinho, esse villão! Mas tinha já
uma vingança. Ia remetter-lhe a somma toda em cobre, n'um sacco de
carvão, com um rato morto dentro, e um bilhete, começando
assim:--_ascorosa lombriga e immunda osga, ahi te atiro ao focinho_,
etc...
--Como tu podes consentir aqui, usando as tuas cadeiras, respirando o
teu ar, aquelle ser repulsivo!...
Mas era até sujo mencionar o Eusebiosinho!... Quiz saber dos trabalhos
de Carlos, do grande livro. Fallou tambem do seu _Atomo_:--e, por fim,
n'uma voz differente, applicando o monocolo a Carlos:
--Dize-me outra cousa. Porque não tens tu voltado aos Gouvarinhos?
Carlos tinha só esta rasão: não se divertia lá.
Ega encolheu os hombros. Parecia-lhe aquillo uma puerilidade...
--Tu não percebeste nada, exclamou elle. Aquella mulher tem uma paixão
por ti... Basta que se pronuncie o teu nome, sobe-lhe todo o sangue á
cara.
E como Carlos ria, incredulo, Ega, muito grave, deu a sua palavra de
honra. Ainda na vespera, estava-se fallando de Carlos, e elle
espreitara-a. Sem ser um Balzac, nem uma broca de observação, tinha a
visão correcta: pois bem, lá lhe vira na face, nos olhos, toda a
expressão de um sentimento sincero...
--Não estou a fazer romance, menino... Gosta de ti, palavra! Tenl-a
quando quiseres.
Carlos achava deliciosa aquella naturalidade mephistophelica com que Ega
o induzia a quebrar uma infinidade de leis religiosas, moraes, sociaes,
domesticas...
--Ah bem, exclamou Ega, se tu me vens com essa _blague_ da cartilha e do
codigo, então não fallemos mais n'isso! Se apanhaste a sarna da virtude,
com comichões por qualquer cousa, então era uma vez um homem, vae para a
Trappa commentar o _Ecclesiastes_...
--Não--disse Carlos, sentando-se n'um banco sob as arvores, ainda com
uns restos da preguiça do terraço--o meu motivo não é tão nobre. Não vou
lá, porque acho o Gouvarinho um massador.
Ega teve um sorriso mudo.
--Se a gente fosse a fugir das mulheres que tem maridos massadores...
Sentou-se ao lado de Carlos, começou a riscar em silencio o chão areado;
e sem erguer os olhos, deixando cahir as palavras, uma a uma, com
melancolia:
--Antes de hontem, toda a noite, a pé firme, das dez á uma, estive a
ouvir a historia da demanda do Banco Nacional!
Era quasi uma confidencia, e como o desabafo dos tedios secretos em que
se debatia, n'aquelle mundo dos Cohens, o seu temperamento de artista.
Carlos enterneceu-se.
--Meu pobre Ega, então toda a demanda?
--Toda! E a leitura do relatorio da assembléa geral! E interessei-me! E
tive opiniões!... A vida é um inferno.
Subiram ao terraço. Damaso reoccupara a sua cadeira de vime, e, com um
canivetesinho de madreperola, estava tratando das unhas.
--Então decidiu-se? perguntou elle logo ao Ega.
--Decidiu-se hontem! Não ha _cotillon_.
Tratava-se de uma grande soirée mascarada que íam dar os Cohens, no dia
dos annos de Rachel. A idéa d'esta festa sugerira-a o Ega, ao principio
com grandes proporções de gala artistica, a ressurreição historica de um
sarau no tempo de D. Manuel. Depois viu-se que uma tal festa era
irrealisavel em Lisboa--e desceu-se a um plano mais sobrio, um simples
baile _costumé_, a capricho...
--Tu, Carlos, já decidiste como vaes?
--De dominó, um severo dominó preto, como convém a um homem de
sciencia...
--Então, exclamou Ega se se trata de sciencia, vae de rabona e chinellas
de ourello!... A sciencia faz-se em casa e de chinellas... Nunca ninguem
descobriu uma lei do Universo mettido dentro de um dominó... Que
sensaboria, um dominó!...
Justamente a sr.^a D. Rachel desejava evitar, no seu baile, essa
monotonia dos dominós. E em Carlos não havia desculpa. Não o prendiam
vinte ou trinta libras; e, com aquelle esplendido physico de cavalleiro
da Renascença, devia ornar a sala pelo menos com um soberbo Francisco I.
--É n'isto, ajuntava elle com fogo, que está a belleza de uma soirée de
mascaras! Não lhe parece, você, Damaso? Cada um deve aproveitar a sua
figura... Por exemplo, a Gouvarinho vae muito bem. Teve uma inspiração:
com aquelle cabello ruivo, o nariz curto, as maçãs do rosto salientes, é
Margarida de Navarra...
--Quem é Margarida de Navarra? perguntou Affonso da Maia, apparecendo no
terraço com Craft.
--Margarida, a duqueza d'Angouleme, a irmã de Francisco I, a Margarida
das Margaridas, a perola dos Valois, a padroeira da Renascença, a sr.^a
condessa de Gouvarinho!...
Rio muito, foi abraçar Affonso, explicou-lhe que se discutia o baile dos
Cohens. E appellou logo para elle, para o Craft tambem, acerca do
nefando dominó de Carlos. Não estava aquelle mocetão, com os seus ares
de homem d'armas, talhado para um soberbo Francisco I, em toda a gloria
de Marignan?
O velho deu um olhar enternecido á belleza do neto.
--Eu te digo, John, talvez tenhas razão; mas Francisco I, rei de França,
não se póde apear de uma tipoia e entrar n'uma sala, só. Precisa côrte,
arautos, cavalleiros, damas, bobos, poetas... Tudo isso é difficil.
Ega curvou-se. Sim senhor, d'accordo! Alli estava uma maneira
intelligente de comprehender o baile dos Cohens!
--E tu, de que vaes? perguntou-lhe Affonso.
Era um segredo. Tinha a theoria de que, n'aquellas festas, um dos
encantos consistia na surpreza: dois sujeitos por exemplo que tendo
jantado juntos, de jaquetão, no Bragança, se encontram á noite, um na
purpura imperial de Carlos V, outro com a escopeta de bandido da
Calabria...
--Eu cá não faço segredo, disse ruidosamente Damaso. Eu cá vou de
selvagem.
--Nú?
--Não. De Nelusko na _Africana_. Oh sr. Affonso da Maia, que lhe parece?
Acha _chic_?
--_Chic_ não exprime bem, disse Affonso sorrindo. Mas _grandioso_, é,
decerto.
Quizeram então saber como ía Craft. Craft não ía de cousa nenhuma; Craft
ficava nos Olivaes, de robe de chambre.
Ega encolheu os hombros com tedio, quasi com colera. Aquellas
indifferenças pelo baile dos Cohens feriam-n'o como injurias pessoaes.
Elle estava dando a essa festa o seu tempo, estudos na bibliotheca, um
trabalho fumegante de imaginação; e pouco a pouco ella tomava aos seus
olhos a importancia de uma celebração d'arte, provando o genio de uma
cidade. Os «dominós», as abstenções, pareciam-lhe evidencias de
inferioridade de espirito. Citou então o exemplo do Gouvarinho: alli
estava um homem de occupações, de posição politica, nas vesperas de ser
ministro, que não só ía ao baile, mas estudara o seu _costume_:
estudara, e ía muito bem, ía de _marquez de Pombal_!
--Reclame para ser ministro, disse Carlos.
--Não o precisa, exclamou Ega. Tem todas as condições para ser ministro:
tem voz sonora, leu Mauricio Block, está encalacrado, e é um asno!...
E no meio das risadas dos outros, elle, arrependido de demolir assim um
cavalheiro que se interessava pelo baile dos Cohens, acudiu logo:
--Mas é muito bom rapaz, e não se dá ares nenhuns! É um anjo!
Affonso reprehendia-o, risonho e paternal:
--Ora tu, John, que não respeitas nada...
--O desacato é a condição do progresso, sr. Affonso da Maia. Quem
respeita decahe. Começa-se por admirar o Gouvarinho, vae-se a gente
esquecendo, chega a reverenciar o monarcha, e quando mal se precata tem
descido a venerar o Todo-Poderoso!... É necessario cautela!
--Vae-te embora, John, vae-te embora! Tu és o proprio Anti-Christo...
Ega ía responder, exhuberante e em veia--mas dentro o tinir argentino do
relogio Luiz XV, com o seu gentil minuete, emmudeceu-o.
--O que? quatro horas!
Ficou aterrado, verificou no seu proprio relogio, deu em redor rapidos,
silenciosos apertos de mão, desappareceu como um sopro.
Todos de resto estavam pasmados de ser tão tarde! E assim passara a hora
de ir ao Lumiar vêr as colxas antigas das senhoras Medeiros...
--Quer você então meia hora de florete, Craft? perguntou Carlos.
--Seja: e é necessario dar a lição ao Damaso...
--É verdade, a lição...--murmurou Damaso, sem enthusiasmo, com um
sorriso murcho.
A sala de esgrima era uma casa terrea, debaixo dos quartos de Carlos,
com janellas gradeadas para o jardim, por onde resvalava, atravez das
arvores, uma luz esverdinhada. Em dias enevoados era necessario accender
os quatro bicos de gaz. Damaso seguiu, atraz dos dois, com uma lentidão
de rez desconfiada.
Aquellas lições, que elle sollicitara por amor do _chic_, íam-se-lhe
tornando odiosas. E n'essa tarde, como sempre, apenas se enchumaçou com
o plastrão d'anta, se cobriu com a caraça de arame, começou a
transpirar, a fazer-se branco. Diante d'elle Craft, de florete na mão,
parecia-lhe cruel e bestial, com aquelles seus hombros de Hercules
sereno, o olhar claro e frio. Os dois ferros rasparam. Damaso estremeceu
todo.
--Firme, gritou-lhe Carlos.
O desgraçado equilibrava-se sobre a perna roliça; o florete de Craft
vibrou, rebrilhou, voou sobre elle; Damaso recuou, suffocado,
cambaleando e com o braço frouxo...
--Firme! berrava-lhe Carlos.
Damaso, exhausto, abaixou a arma.
--Então que querem vocês, é nervoso! É por ser a brincar... Se fosse a
valer, vocês veriam.
Assim acabava sempre a lição; e ficava depois abatido sobre uma banqueta
de marroquim, arejando-se com o lenço, pallido como a cal dos muros.
--Vou-me até casa, disse elle d'ahi a pouco, fatigado de tanto crusar de
ferro. Queres alguma cousa, Carlinhos?
--Quero que venhas cá jantar ámanhã... Tens o marquez.
--_Chic_ a valer... Não faltarei.
Mas faltou. E, como toda essa semana aquelle moço ponctual não appareceu
no Ramalhete, Carlos sinceramente inquieto, julgando-o moribundo, foi
uma manhã a casa d'elle, á Lapa. Mas ahi, o creado (um gallego
achavascado e triste, que, desde as suas relações com os Maias, Damaso
trazia entalado n'uma casaca e mortalmente aperreado em sapatos de
verniz) affirmou-lhe que o sr. Damasosinho estava de boa saude, e até
sahira a cavallo. Carlos veiu então ao tio Abrahão; o tio Abrahão tambem
não avistara, havia dias, aquelle bom senhor Salcede, _that beautiful
gentleman!_ A curiosidade de Carlos levou-o ao Gremio: no Gremio nenhum
creado vira ultimamente o sr. Salcede. «Está por ahi de lua de mel com
alguma bella andaluza» pensou Carlos.
Chegara ao fim da rua do Alecrim quando viu o conde de Steinbroken que
se dirigia ao Aterro, a pé, seguido da sua vittoria a passo. Era a
segunda vez que o diplomata fazia exercicio depois do seu desgraçado
ataque de entranhas. Mas não tinha já vestigios da doença: vinha todo
rosado e loiro, muito solido na sua sobrecasaca, e com uma bella rosa de
chá na botoeira. Declarou mesmo a Carlos que estava «más forrte». E não
lamentava os soffrimentos, porque elles lhe tinham dado o meio de
apreciar as sympathias que gosava em Lisboa. Estava enternecido. Sobre
tudo o cuidado de S. M.--o augusto cuidado de S. M.--fizera-lhe melhor
que «todos os drogues de botique»! Realmente nunca as relações entre
esses dois paizes, tão estreitamente alliados, Portugal e a Filandia,
tinham sido «màs firmes, pur assi dizerre, màs intimes, que durrante seu
ataque de intestinaes»!
Depois, travando do braço a Carlos, alludiu commovido ao offerecimento
de Affonso da Maia, que pozera á sua disposição S.^ta Olavia, para elle
se restabelecer n'esses ares fortes e limpos do Douro. Oh, esse convite
tocara-o _au plus profond de son c[oe]ur_. Mas, infelizmente, S.^{ta}
Olavia era longe, tão longe!... Tinha de se contentar com Cintra, d'onde
podia vir todas as semanas, uma, duas vezes, vigiar a Legação. _C'était
ennuyeux, mais_... A Europa estava n'um d'esses momentos de crise, em
que homens d'estado, diplomatas, não podiam affastar-se, gosar as
menores ferias. Precisavam estar alli, na brecha, observando,
informando...
--C'est très grave, murmurou elle, parando, com um pavor vago no olhar
azulado... C'est excessivement grave!
Pediu a Carlos que olhasse em torno de si para a Europa. Por toda a
parte uma confusão, um _gachis_. Aqui a questão do Oriente; alem o
socialismo; por cima o Papa, a complicar tudo... Oh, très grave!
--Tenez, la France, par exemple... D'abord Gambetta. Oh, je ne dis pas
non, il est très fort, il est excessivement fort... Mais... Voilà! C'est
très grave...
Por outro lado os radicaes, _les nouvelles couches_... Era
excessivamente grave...
--Tenez, je vais vous dire une chose, entre nous!
Mas Carlos não escutava, nem sorria já. Do fim do Aterro approximava-se,
caminhando depressa, uma senhora--que elle reconheceu logo, por esse
andar que lhe parecia de uma deusa pisando a terra, pela cadellinha côr
de prata que lhe trotava junto ás saias, e por aquelle corpo
maravilhoso, onde vibrava, sob linhas ricas de marmore antigo, uma graça
quente, ondeante e nervosa. Vinha toda vestida de escuro, n'uma toilette
de _serge_ muito simples que era como o complemento natural da sua
pessoa, collando-se bem sobre ella, dando-lhe, na sua correcção, um ar
casto e forte; trazia na mão um guarda-sol inglez, apertado e fino como
uma cana; e toda ella, adiantando-se assim no luminoso da tarde, tinha,
n'aquelle caes triste de cidade antiquada, um destaque estrangeiro, como
o requinte raro de civilisações superiores. Nenhum véo, n'essa tarde,
lhe assombreava o rosto. Mas Carlos não poude detalhar-lhe as feições;
apenas d'entre o esplendor eburneo da carnação sentiu o negro profundo
de dois olhos que se fixaram nos seus. Insensivelmente deu um passo para
a seguir. Ao seu lado Steinbroken, sem vêr nada, estava achando Bismarch
assustador. Á maneira que ella se affastava, parecia-lhe maior, mais
bella: e aquella imagem falsa e litteraria de uma deusa marchando pela
terra prendia-se-lhe á imaginação. Steinbroken ficara aterrado com o
discurso do Chanceller no Reichstag... Sim, era bem uma deusa. Sob o
chapéo, n'uma fórma de trança enrolada, apparecia o tom do seu cabello
castanho, quasi louro á luz; a cadelinha trotava ao lado, com as orelhas
direitas.
--Evidentemente, disse Carlos, Bismarck é inquietador...
Steinbroken porém já deixara Bismarck. Steinbroken agora atacava lord
Beaconsfield.
--Il est très fort... Oui, je vous l'accorde, il est excessivement
fort... Mais voilà... Ou va-t-il?