n'aquelle moço gordo e bochechudo, sem o saber, uma adoração muda e
profunda; o proprio verniz dos seus sapatos, a côr das suas luvas eram
para o Damaso motivo de veneração, e tão importantes como principios.
Considerava Carlos um typo supremo de _chic_, do seu querido _chic_, um
Brummel, um d'Orsay, um Morny,--uma «d'estas cousas que só se vêem lá
fóra», como elle dizia arregalando os olhos. N'essa tarde sabendo que
vinha jantar com o Maia, conhecer o Maia, estivera duas horas ao espelho
experimentando gravatas, perfumara-se como para os braços d'uma
mulher;--e por causa de Carlos mandara estacionar alli o coupé, ás dez
horas, com o cocheiro de ramo ao peito.
--Então essa senhora brazileira vive aqui? perguntou Carlos, que dera
dous passos, olhava uma janella allumiada no segundo andar.
Damaso seguiu-lhe o olhar.
--Vive lá do outro lado. Estão aqui ha quinze dias... Gente _chic_... E
ella é de appetecer, v. ex.^a reparou? Eu a bordo atirei-me... E ella
dava cavaco! Mas tenho andado muito preso desde que cheguei, jantar
aqui, soirée acolá, umas aventurasitas... Não tenho podido cá vir,
deixei-lhes só bilhetes; mas trago-a d'olho, que ella demora-se...
Talvez venha cá ámanhã, estou cá agora a sentir umas cocegas... E se me
pilho só com ella, zás, ferro-lhe logo um beijo! Que eu cá, não sei se
v. ex.^a é a mesma cousa, mas eu cá, com mulheres, a minha theoria é
esta: attracão! Eu cá, é logo: attracão!
N'esse momento Alencar voltava do estanco, de charuto na boca. Damaso
despediu-se, atirando muito alto ao cocheiro, para que Carlos ouvisse, a
adresse da Morelli, a segunda dama de S. Carlos.
--Bom rapaz, este Damaso, dizia Alencar, travando de braço de Carlos, ao
seguirem ambos pelo Aterro. É lá muito dos Cohens, muito querido na
sociedade. Rapaz de fortuna, filho do velho Silva, o agiota, que esfolou
muito teu pae; e a mim tambem. Mas elle assigna Salcede; talvez nome da
mãe; ou talvez inventado. Bom rapaz... O pae era um velhaco! Parece que
estou a ouvir o Pedro dizer-lhe com o seu ar de fidalgo, que o tinha e
do grande: «Silva judeu, dinheiro, e a rôdo!»... Outros tempos, meu
Carlos, grandes tempos. Tempos de gente!
E então por esse longo Aterro, triste no ar escuro, com as luzes do gaz
dormente luzindo em fila d'enterro, Alencar foi fallando d'esses
«grandes tempos» da sua mocidade e da mocidade de Pedro; e, atravéz das
suas phrases de lyrico, Carlos sentia vir como um aroma antiquado d'esse
mundo defunto... Era quando os rapazes ainda tinham um resto de calor
das guerras civis, e o calmavam indo em bando varrer botequins ou
rebentando pilecas de sejes em galopadas para Cintra. Cintra era então
um ninho de amores, e sob as suas romanticas ramagens as fidalgas
abandonavam-se aos braços dos poetas. Ellas eram Elviras, elles eram
Antonys. O dinheiro abundava; a côrte era alegre; a Regeneração
litterata e galante ia engrandecer o paiz, bello jardim da Europa; os
bachareis chegavam de Coimbra, frementes de eloquencia; os ministros da
corôa recitavam ao piano; o mesmo sopro lyrico inchava as odes e os
projectos de lei...
--Lisboa era bem mais divertida, disse Carlos.
--Era outra cousa, meu Carlos! Vivia-se! Não existiriam esses ares
scientificos, toda essa palhada philosophica, esses badamecos
positivistas... Mas havia coração, rapaz! Tinha-se faisca! Mesmo n'essas
cousas da politica... Vê esse chiqueiro agora ahi, essa malta de
bandalhos... N'esse tempo ía-se alli á camara e sentia-se a inspiração,
sentia-se o rasgo!... Via-se luz nas cabeças!... E depois, menino, havia
muitissimo boas mulheres.
Os hombros descahiam-lhe na saudade d'esse mundo perdido. E parecia mais
lugubre, com a sua grenha d'inspirado sahindo-lhe de sob as abas largas
do chapéo velho, a sobrecasaca coçada e mal feita collando-se-lhe
lamentavelmente ás ilhargas.
Um momento caminharam em silencio. Depois, na rua das Janellas Verdes, o
Alencar _quiz refrescar_. Entraram n'uma pequena venda, onde a mancha
amarella d'um candieiro de petroleo destacava n'uma penumbra de
subterraneo, allumiando o zinco humido do balcão, garrafas nas
prateleiras, e o vulto triste da patroa com um lenço amarrado nos
queixos. Alencar parecia intimo no estabelecimento: apenas soube que a
sr.^a Candida estava com dôr de dentes, aconselhou logo remedios,
familiar, descido das nuvens romanticas, com os cotovellos sobre o
balcão. E quando Carlos quiz pagar a canna branca zangou-se, bateu a sua
placa de dois tostões sobre o zinco polido, exclamou, com nobreza:
--Eu é que faço a honra da bodega, meu Carlos! Nos palacios os outros
pagarão... Cá na taberna pago eu!
Á porta tomou o braço de Carlos. Depois d'alguns passos lentos no
silencio da rua, parou de novo, e murmurou n'uma voz vaga,
contemplativa, como repassada da vasta solemnidade da noite:
--Aquella Rachel Cohen é divinamente bella, menino! Tu conhecel'a?
--De vista.
--Não te faz lembrar uma mulher da Biblia? Não digo lá uma d'essas
viragos, uma Judith, uma Dalila... Mas um d'esses lyrios poeticos da
Biblia... É seraphica!
Era agora a paixão platonica do Alencar, a sua dama, a sua Beatriz...
--Tu viste ha tempos, no _Diario Nacional_, os versos que eu lhe fiz?
«Abril chegou! Sê minha»
Dizia o vento á rosa.
Não me sahiu mau! Aqui ha uma maliciasinha: _Abril chegou, sê minha_...
Mas logo: _dizia o vento á rosa_. Comprehendes? Calhou bem este effeito.
Mas não imagines lá outras cousas, ou que lhe faço a côrte... Basta ser
a mulher do Cohen, um amigo, um irmão... E a Rachel, para mim,
coitadinha, é como uma irmã... Mas é divina. Aquelles olhos, filho, um
velludo liquido!...
Tirou o chapeu, refrescou a fronte vasta. Depois n'outro tom, e como a
custo:
--Aquelle Ega tem muito talento... Vae lá muito aos Cohens... A Rachel
acha-lhe graça...
Carlos parára, estavam defronte do Ramalhete. Alencar deu um olhar á
severa frontaria de convento, adormecida, sem um ponto de luz.
--Tem bom ar esta vossa casa... Pois entra tu, meu rapaz, que eu vou
andando por aqui para a minha toca. E quando quizeres, filho, lá me tens
na rua do Carvalho, 52, 3.^o andar. O predio é meu, mas eu occupo o
terceiro andar. Comecei por habitar no primeiro, mas tenho ido
trepando... A unica cousa mesmo que tenho trepado, meu Carlos, é de
andares...
Teve um gesto, como desdenhando essas miserias.
--E has de ir lá jantar um dia. Não te posso dar um banquete, mas has de
ter uma sopa e um assado... O meu Matheus, um preto, (um amigo!) que me
serve ha muito anno, quando ha que cosinhar, sabe cosinhar! Fez muito
jantar a teu pae, ao meu pobre Pedro... Que aquillo foi casa de alegria,
meu rapaz. Dei lá cama e mesa, e dinheiro para a algibeira, a muita
d'essa canalha que hoje por ahi trota em coupé da companhia e de correio
atraz... E agora, quando me avistam, voltam para o lado o focinho...
--Isso são imaginações, disse Carlos com amisade.
--Não são, Carlos, respondeu o poeta, muito grave, muito amargo. Não
são. Tu não sabes a minha vida. Tenho soffrido muito repellão, rapaz. E
não o merecia! Palavra, que o não merecia.
Agarrou o braço de Carlos, e com a voz abalada:
--Olha que esses homens que por ahi figuram embebedavam-se comigo,
emprestei-lhes muito pinto, dei-lhes muita ceia... E agora são
ministros, são embaixadores, são personagens, são o diabo. Pois
offereceram-te elles um bocado do _bolo_ agora que o teem na mão? Não.
Nem a mim. Isto é duro, Carlos, isto é muito duro, meu Carlos. E que
diabo, eu não queria que me fizessem conde, nem que me dessem uma
embaixada... Mas ahi alguma cousa n'uma secretaria... Nem um chavelho!
Emfim, ainda há para o bocado do pão, e para a meia onça do tabaco...
Mas esta ingratidão tem-me feito cabellos brancos... Pois não te quero
massar mais, e que Deus te faça feliz como tu mereces, meu Carlos!
--Tu não queres subir um bocado, Alencar?
Tanta franqueza enterneceu o poeta.
--Obrigado, rapaz, disse elle, abraçando Carlos. E agradeço-te isso,
porque sei que vem do coração... Todos vocês teem coração... Já teu pae
o tinha, e largo, e grande como o d'um leão! E agora crê uma cousa: é
que tens aqui um amigo. Isto não é palavriado, isto vem de dentro...
Pois adeus, meu rapaz. Queres tu um charuto?
Carlos acceitou logo, como um presente do ceu.
--Então ahi tens um charuto, filho! exclamou Alencar com enthusiasmo.
E aquelle charuto dado a um homem tão rico, ao dono do Ramalhete,
fazia-o por um momento voltar aos tempos em que n'esse Marrare elle
estendia em redor a charuteira cheia, com o seu grande ar de Manfredo
triste. Interessou-se então pelo charuto. Accendeu elle mesmo um
phosphoro. Verificou se ficava bem acceso. E que tal, charuto rasoavel?
Carlos achava um excellente charuto!
--Pois ainda bem que te dei um bom charuto!
Abraçou-o outra vez; e estava batendo uma hora, quando elle emfim se
affastou, mais ligeiro, mais contente de si, trauteando um trecho de
_fado_.
Carlos no seu quarto, antes de se deitar, acabando o pessimo charuto do
Alencar estirado n'uma chaise-longue, em quanto Baptista lhe fazia uma
chavena de chá, ficou pensando n'esse estranho passado que lhe evocara o
velho lyrico...
E era sympathico o pobre Alencar! Com que cuidado exagerado, ao fallar
de Pedro, d'Arroios, dos amigos e dos amores d'então, elle evitara
pronunciar sequer o nome de Maria Monforte! Mais de uma vez, pelo Aterro
fóra, estivera para lhe dizer:--pódes fallar da mamã, amigo Alencar, que
eu sei perfeitamente que ella fugiu com um italiano!
E isto fêl-o insensivelmente recordar da maneira como essa lamentavel
historia lhe fôra revelada, em Coimbra, n'uma noite de troça, quasi
grotescamente. Por que o avô, obdecendo á carta testamentaria de Pedro,
contara-lhe um romance decente: um casamento de paixão,
incompatibilidades de naturezas, uma separação cortez, depois a retirada
da mamã com a filha para a França, onde tinham morrido ambas. Mais nada.
A morte de seu pae fôra-lhe apresentada sempre como o brusco remate
d'uma longa nevrose...
Mas Ega sabia tudo, pelos tios... Ora uma noite tinham ceiado ambos; Ega
muito bebedo, e n'um accesso de idealismo, lançara-se n'um paradoxo
tremendo, condemnando a honestidade das mulheres como origem da
decadencia das raças: e dava por prova os bastardos, sempre
intelligentes, bravos, gloriosos! Elle, Ega, teria orgulho se sua mãe,
sua propria mãe, em logar de ser a santa burgueza que resava o terço á
lareira, fosse como a mãe de Carlos, uma inspirada, que por amor d'um
exilado abandonara fortuna, respeitos, honra, vida! Carlos, ao ouvir
isto, ficara petrificado, no meio da ponte, sob o calmo luar. Mas não
poude interrogar o Ega, que já taramellava, agoniado, e que não tardou a
vomitar-lhe ignobilmente nos braços. Teve de o arrastar á casa das
Seixas, despil-o, aturar-lhe os beijos e a ternura borracha, até que o
deixou abraçado ao travesseiro, babando-se, balbuciando--«que queria ser
bastardo, que queria que a mamã fosse uma marafona!...»
E elle mal podera dormir essa noite, com a idéa d'aquella mãe, tão outra
do que lhe haviam contado, fugindo nos braços d'um desterrado--um polaco
talvez! Ao outro dia, cedo, entrava pelo quarto do Ega, a pedir-lhe,
pela sua grande amisade, a verdade toda...
Pobre Ega! Estava doente: fez-se branco como o lenço que tinha amarrado
na cabeça com pannos de agua sedativa: e não achava uma palavra,
coitado! Carlos, sentado na cama, como nas noites de cavaco,
tranquillisou-o. Não vinha alli offendido, vinha alli curioso!
Tinham-lhe occultado um episodio extraordinario da sua gente, que diabo,
queria sabel-o! Havia romance? Para alli o romance!
Ega, então, lá ganhou animo, lá balbuciou a sua historia--a que ouvira
ao tio Ega--a paixão de Maria por um principe, a fuga, o longo silencio
d'annos que se fizera sobre ella...
Justamente as ferias chegavam. Apenas em S.^{ta} Olavia, Carlos contou
ao avô a bebedeira do Ega, os seus discursos doidos, aquella revelação
vinda entre arrotos. Pobre avô! Um momento nem poude fallar--e a voz por
fim veiu-lhe tão debil e dolente como se dentro do peito lhe estivesse
morrendo o coração. Mas narrou-lhe, detalhe a detalhe, o feio romance
todo até áquella tarde em que Pedro lhe apparecera, livido, coberto de
lama, a cahir-lhe nos braços, chorando a sua dôr com a fraqueza d'uma
creança.--E o desfecho d'esse amor culpado, accrescentara o avô, fôra a
morte da mãe em Vienna d'Austria, e a morte da pequenita, da neta que
elle nunca vira, e que a Monforte levara... E eis ahi tudo. E assim,
aquella vergonha domestica estava agora enterrada, alli, no jazigo de
S.^{ta} Olavia, e em duas sepulturas distantes, em paiz estrangeiro...
Carlos recordava-se bem que n'essa tarde, depois da melancolica conversa
com o avô, devia elle experimentar uma egoa ingleza: e ao jantar não se
fallou senão da egoa que se chamava _Sultana_. E a verdade era que d'ahi
a dias tinha esquecido a mamã. Nem lhe era possivel sentir por esta
tragedia senão um interesse vago e como litterario. Isso passara-se
havia vinte e tantos annos, n'uma sociedade quasi desapparecida. Era
como o episodio historico de uma velha chronica de familia, um
antepassado morto em Alcacer-Kebir, ou uma das suas avós dormindo n'um
leito real. Aquillo não lhe dera uma lagrima, não lhe pozera um rubor na
face. De certo, prefiriria poder orgulhar-se de sua mãe, como d'uma rara
e nobre flôr de honra: mas não podia ficar toda a vida a amargurar-se
com os seus erros. E porque? A sua honra d'elle não dependia dos
impulsos falsos ou torpes que tivera o coração d'ella. Peccara, morrera,
acabou-se. Restava, sim, aquella idéa do pae, findando n'uma poça de
sangue, no desespero d'essa traição. Mas não conhecera seu pae: tudo o
que possuia d'elle e da sua memoria, para amar, era uma fria tela mal
pintada, pendurada no quarto de vestir, representando um moço moreno, de
grandes olhos, com luvas de camurça amarellas e um chicote na mão... De
sua mãe não ficara nem um daguerreotypo, nem sequer um contorno a lapis.
O avô tinha-lhe dito que era loura. Não sabia mais nada. Não os
conhecera; não lhes dormira nos braços; nunca recebera o calor da sua
ternura. Pae, mãe, eram para elle como symbolos d'um culto convencional.
O papá, a mamã, os seres amados, estavam alli todos--no avô.
Baptista trouxera o chá, o charuto do Alencar acabara;--e elle
continuava na chaise-longue, como amollecido n'estas recordações, e
cedendo já, n'um meio adormecimento, á fadiga do longo jantar... E
então, pouco a pouco, diante das suas palpebras cerradas, uma visão
surgiu, tomou côr, encheu todo o aposento. Sobre o rio, a tarde morria
n'uma paz elysia. O peristillo do Hotel Central alargava-se, claro
ainda. Um preto grisalho vinha, com uma cadelinha no collo. Uma mulher
passava, alta, com uma carnação eburnea, bella como uma Deusa, n'um
casaco de velludo branco de Genova. O Craft dizia ao seu lado
_très-chic_. E elle sorria, no encanto que lhe davam estas imagens,
tomando o relevo, a linha ondeante, e a coloração de cousas vivas.
Eram tres horas quando se deitou. E apenas adormecera, na escuridão dos
cortinados de seda, outra vez um bello dia de inverno morria sem uma
aragem, banhado de côr de rosa: o banal peristillo de Hotel alargava-se,
claro ainda na tarde; o escudeiro preto voltava, com a cadellinha nos
braços; uma mulher passava, com um casaco de velludo branco de Genova,
mais alta que uma creatura humana, caminhando sobre nuvens, com um
grande ar de Juno que remonta ao Olympo: a ponta dos seus sapatos de
verniz enterrava-se na luz do azul, por trás as saias batiam-lhe como
bandeiras ao vento. E passava sempre... O Craft dizia _très-chic_.
Depois tudo se confundia, e era só o Alencar, um Alencar colossal,
enchendo todo o céu, tapando o brilho das estrellas com a sua
sobrecasaca negra e mal feita, os bigodes esvoaçando ao vendaval das
paixões, alçando os braços, clamando no espaço:
Abril chegou, sê minha!
VII
No Ramalhete, depois do almoço, com as tres janellas do escriptoro
abertas bebendo a tepida luz do bello dia de março, Affonso da Maia e
Craft jogavam uma partida de xadrez ao pé da chaminé já sem lume, agora
cheia de plantas, fresca e festiva como um altar domestico. N'uma facha
obliqua de sol, sobre o tapete, o Reverendo Bonifacio, enorme e fôfo,
dormia de leve a sua sesta.
Craft tornara-se, em poucas semanas, intimo no Ramalhete. Carlos e elle,
tendo muitas similitudes de gosto e de idéas, o mesmo fervor pelo
_bric-a-brac_ e pelo _bibelot_, o uso apaixonado da esgrima, egual
dilettantismo d'espirito, uniram-se immediatamente em relações de
superficie, faceis e amaveis. Affonso, por seu lado começara logo a
sentir uma estima elevada por aquelle gentleman de boa raça ingleza,
como elle os admirava, cultivado e forte, de maneiras graves, de habitos
rijos, sentindo finamente e pensando com rectidão. Tinham-se encontrado
ambos enthusiastas de Tacito, de Macaulay, de Burke, e até dos poetas
lakistas; Craft era grande no xadrez; o seu carater ganhara nas longas e
trabalhadas viagens a rica solidez d'um bronze; para Affonso da Maia
«aquillo era deveras um homem». Craft, madrugador, sahia cedo dos
Olivaes a cavallo, e vinha assim ás vezes almoçar de surpreza com os
Maias; por vontade de Affonso jantaria lá sempre;--mas ao menos as
noites passava-as invariavelmente no Ramalhete, tendo emfim, como elle
dizia, encontrado em Lisboa um recanto onde se podia conversar bem
sentado, no meio de idéas, e com boa educação.
Carlos sahia pouco de casa. Trabalhava no seu livro. Aquella revoada de
clientella que lhe dera esperanças d'uma carreira cheia, activa, tinha
passado miseravelmente, sem se fixar; restavam-lhe tres doentes no
bairro; e sentia agora que as suas carruagens, os cavallos, o Ramalhete,
os habitos de luxo, o condemnavam irremediavelmente ao _dillettantismo_.
Já o fino dr. Theodosio lhe dissera um dia, francamente: «você é muito
elegante p'ra medico! As suas doentes, fatalmente, fazem-lhe olho! Quem
é o burguez que lhe vae confiar a esposa dentro d'uma alcova?... Você
aterra o pater-familias!» O laboratorio mesmo prejudicara-o. Os collegas
diziam que o Maia, rico, intelligente, avido de innovações, de
modernismos, fazia sobre os doentes experiencias fataes. Tinha-se
troçado muito a sua idéa, apresentada na _Gazeta Medica_, a prevenção
das epidemias pela inoculação dos virus. Consideravam-no um phantasista.
E elle, então, refugiava-se todo n'esse livro sobre a medicina antiga e
moderna, o _seu livro_, trabalhado com vagares d'artista rico,
tornando-se o interesse intellectual de um ou dous annos.
N'essa manhã, em quanto dentro proseguia grave e silenciosa a partida de
xadrez, Carlos no terrasso, estendido n'uma vasta cadeira india de
bambu, á sombra do toldo, acabava o seu charuto, lendo uma _Revista_
ingleza, banhado pela caricia tepida d'aquelle bafo de primavera que
avelludava o ar, fazia já desejar arvores e relvas...
Ao lado d'elle, n'uma outra cadeira de bambu, tambem de charuto na boca,
o sr. Damaso Salcede percorria o _Figaro_. De perna estirada, n'uma
indolencia familiar, tendo o amigo Carlos ao seu lado, vendo junto ao
terrasso as rosas das roseiras de Affonso, sentindo por trás, atravez
das janellas abertas, o rico e nobre interior do Ramalhete--o filho do
agiota saboreava alli uma d'essas horas deliciosas que ultimamente
encontrava na intimidade dos Maias.
Logo na manhã seguinte ao jantar do Central, o sr. Salcede fôra ao
Ramalhete deixar os seus bilhetes, objectos complicados e vistosos,
tendo ao angulo, n'uma dobra simulada, o seu retratosinho em
photographia, um capacete com plumas por cima do nome--DAMASO CANDIDO DE
SALCEDE, por baixo as suas honras--Commendador de Christo, ao fundo a
sua adresse--_Rua de S. Domingos, á Lapa_; mas esta indicação estava
riscada, e ao lado, a tinta azul, esta outra mais apparatosa--Grand
Hotel, Boulevard des Capucines, Chambre N.^o 103. Em seguida procurou
Carlos no consultorio, confiou ao creado outro cartão. Emfim, uma tarde,
no Aterro, vendo passar Carlos a pé, correu para elle, pendurou-se
d'elle, conseguiu acompanhal-o ao Ramalhete.
Ahi, logo desde o pateo, rompeu em admirações extaticas, como dentro
d'um museu, lançando, diante dos tapetes, das faienças e dos quadros, a
sua grande phrase--«_chic_ a valer!» Carlos levou-o para o _fumoir_,
elle aceitou um charuto; e começou a explicar, de perna traçada, algumas
das suas opiniões e alguns dos seus gostos. Considerava Lisboa chinfrin,
e só estava bem em Paris--sobre tudo por causa do genero «femea» de que
em Lisboa se passavam fomes: ainda que n'esse ponto a Providencia não o
tratava mal. Gostava tambem do _bric-a-brac_; mas apanhava-se muita
espiga, e as cadeiras antigas, por exemplo, não lhe pareciam commodas
para a gente se sentar. A leitura entretinha-o, e ninguem o pilhava sem
livros á cabeceira da cama; ultimamente andava ás voltas com Daudet, que
lhe diziam ser muito _chic_, mas elle achava-o confusote. Em rapaz
perdia sempre as noites, até ás quatro ou cinco da madrugada, no
delirio! Agora não, estava mudado e pacato; emfim, não dizia que de vez
em quando não se abandonasse a um excessozinho; mas só em dias duples...
E as suas perguntas foram terriveis. O sr. Maia achava _chic_ ter um
_cab_ inglez? Qual era mais elegante, assim para um rapaz de sociedade
que quizesse ir passar o verão lá fóra, Nice ou Trouville?... Depois ao
sahir, muito serio, quasi commovido, perguntou ao sr. Maia (se o sr.
Maia não fazia segredo) quem era o seu alfaiate.
E desde esse dia, não o deixou mais. Se Carlos apparecia no theatro,
Damaso immediatamente arrancava-se da sua cadeira, ás vezes na
solemnidade d'uma bella aria, e pisando os botins dos cavalheiros,
amarrotando a compostura das damas, abalava, abria d'estalo a _claque_,
vinha-se installar na frisa, ao lado de Carlos, com a bochecha corada,
camelia na casaca, exhibindo os botões de punho que eram duas enormes
bolas. Uma ou duas vezes que Carlos entrara casualmente no Gremio,
Damaso abandonou logo a partida, indifferente á indignação dos
parceiros, para se vir collar á ilharga do Maia, offerecer-lhe
marrasquino ou charutos, seguil-o de sala em sala como um rafeiro. N'uma
d'essas occasiões, tendo Carlos soltado um trivial gracejo, eis o Damaso
rompendo em risadas soluçantes, rebolando-se pelos sophás, com as mãos
nas ilhargas, a gritar que rebentava! Juntaram-se socios; elle,
suffocado, repetia a pilheria; Carlos fugiu vexado. Chegou a odial-o;
respondia-lhe só com monossyllabos; dava voltas perigosas com o
_dog-cart_ se lhe avistava de longe a bochecha, a coxa roliça. Debalde:
Damaso Candido Salcede filara-o, e para sempre.
Depois, um dia, Taveira appareceu no Ramalhete com uma extraordinaria
historia. Na vespera, no Gremio (tinham-lhe contado, elle não
presenceara) um sujeito, um Gomes, n'um grupo onde se commentavam os
Maias, erguera a voz, exclamara que Carlos era um asno! Damaso, que
estava ao lado mergulhado na _Ilustração_, levantou-se, muito pallido,
declarou que, tendo a honra de ser amigo do sr. Carlos da Maia, quebrava
a cara com a bengala ao sr. Gomes se elle ousasse babujar outra vez esse
cavalheiro; e o sr. Gomes tragou, com os olhos no chão, a affronta, por
ser rachitico de nascença--e porque era inquilino de Damaso e andava
muito atrasado na renda. Affonso da Maia achou este feito brilhante: e
foi por desejo seu que Carlos trouxe o sr. Salcede uma tarde a jantar ao
Ramalhete.
Este dia pareceu bello a Damaso como se fosse feito de azul e oiro. Mas
melhor ainda foi a manhã em que Carlos, um pouco incommodado e ainda
deitado, o recebeu no quarto, como entre rapazes... D'ahi datava a sua
intimidade: começou a tratar Carlos por _você_. Depois, n'essa semana,
revelou aptidões uteis. Foi despachar á alfandega (Villaça achava-se no
Alemtejo) um caixote de roupa para Carlos. Tendo apparecido n'um momento
em que Carlos copiava um artigo para a _Gazeta Medica_ offereceu a sua
boa letra, letra prodigiosa, de uma belleza lithographica; e d'ahi por
diante passava horas á banca de Carlos, applicado e vermelho, com a
ponta da lingua de fóra, o olho redondo, copiando apontamentos,
transcripções de Revistas, materiaes para o livro... Tanta dedicação
merecia um _tu_ de familiaridade. Carlos deu-lh'o.