a milhares de edições; essas rudes analyses, apoderando-se da Egreja, da
Realeza, da Bureocracia, da Finança, de todas as cousas santas,
dissecando-as brutalmente e mostrando-lhes a lesão, como a cadaveres
n'um amphitheatro; esses estylos novos, tão precisos e tão ducteis,
apanhando em flagrante a linha, a côr, a palpitação mesma da vida; tudo
isso (que elle, na sua confusão mental, chamava a _Idéa nova_) caindo
assim de chofre e escangalhando a cathedral romantica, sob a qual tantos
annos elle tivera altar e celebrara missa, tinha desnorteado o pobre
Alencar e tornara-se o desgosto litterario da sua velhice. Ao principio
reagiu. «Para pôr um dique definitivo á torpe maré», como elle disse em
plena Academia, escreveu dois folhetins crueis; ninguem os leu; a «maré
torpe» alastrou-se, mais profunda, mais larga. Então Alencar refugiou-se
na _moralidade_ como n'uma rocha solida. O naturalismo, com as suas
alluviões de obscenidade, ameaçava corromper o pudor social? Pois bem.
Elle, Alencar, seria o paladino da Moral, o gendarme dos bons costumes.
Então o poeta das _Vozes d'Aurora_, que durante vinte annos, em
cançoneta e ode, propozera commercios lubricos a todas as damas da
capital; então o romancista de _Elvira_ que, em novella e drama, fizera
a propaganda do amor illegitimo, representando os deveres conjugaes como
montanhas de tedio, dando a todos os maridos formas gordurosas e
bestiaes, e a todos os amantes a belleza, o esplendor e o genio dos
antigos Apollos; então Thomaz Alencar que (a acreditarem-se as
confissões autobiographicas da _Flôr de Martyrio_) passava elle proprio
uma existencia medonha de adulterios, lubricidades, orgias, entre
velludos e vinhos de Chypre--d'ora em diante austero, incorruptivel,
todo elle uma torre de pudicicia, passou a vigiar attentamente o jornal,
o livro, o theatro. E mal lobrigava symptomas nascentes de realismo n'um
beijo que estalava mais alto, n'uma brancura de saia que se arregaçava
de mais--eis o nosso Alencar que soltava por sobre o paiz um grande
grito de alarme, corria á penna, e as suas imprecações lembravam (a
academicos faceis de contentar) o rugir de Isaias. Um dia porém, Alencar
teve uma d'estas revelações que prostram os mais fortes; quanto mais
elle denunciava um livro como immoral, mais o livro se vendia como
agradavel! O Universo pareceu-lhe cousa torpe, e o auctor de _Elvira_
encavacou...
Desde então reduziu a expressão do seu rancor ao minimo, a essa phrase
curta, lançada com nojo:
--Rapazes, não se mencione o _excremento_!
Mas n'essa noite teve o regosijo de encontrar alliados. Craft não
admittia tambem o naturalismo, a realidade feia das cousas e da
sociedade estatelada nua n'um livro. A arte era uma idealisação! Bem:
então que mostrasse os typos superiores d'uma humanidade aperfeiçoada,
as fórmas mais bellas do viver e do sentir... Ega horrorisado apertava
as mãos na cabeça--quando do outro lado Carlos declarou que o mais
intoleravel no realismo eram os seus grandes ares scientificos, a sua
pretenciosa esthetica deduzida d'uma philosophia alheia, e a invocação
de Claude Bernard, do experimentalismo, do positivismo, de Stuart Mill e
de Darwin, a proposito d'uma lavadeira que dorme com um carpinteiro!
Assim atacado, entre dois fogos, Ega trovejou: justamente o fraco do
realismo estava em ser ainda pouco scientifico, inventar enredos, crear
dramas, abandonar-se á phantasia litteraria! a fórma pura da arte
naturalista devia ser a monographia, o estudo secco d'um typo, d'um
vicio, d'uma paixão, tal qual como se se tratasse d'um caso pathologico,
sem pittoresco e sem estylo!...
--Isso é absurdo, dizia Carlos, os caracteres só se podem manifestar
pela acção...
--E a obra d'arte, accrescentou Craft, vive apenas pela fórma...
Alencar interrompeu-os, exclamando que não eram necessarias tantas
philosophias.
--Vocês estão gastando cêra com ruins defuntos, filhos. O realismo
critica-se d'este modo: mão no nariz! Eu quando vejo um d'esses livros,
enfrasco-me logo em agua de colonia. Não discutamos o _excremento_.
--_Sole normande_? perguntou-lhe o creado, adiantando a travessa.
Ega ía fulminal-o. Mas, vendo que o Cohen dava um sorriso enfastiado e
superior a estas controversias de litteraturas, calou-se; occupou-se só
d'elle, quiz saber que tal elle achava aquelle S.^t Emilion; e, quando o
viu confortavelmente servido de _sole normande_, lançou com grande
alarde de interesse esta pergunta:
--Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá... O emprestimo faz-se ou
não se faz?
E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados, que aquella questão do
emprestimo era grave. Uma operação tremenda, um verdadeiro episodio
historico!...
O Cohen collocou uma pitada de sal á beira do prato, e respondeu, com
auctoridade, que o emprestimo tinha de se realisar _absolutamente_. Os
emprestimos em Portugal constituiam hoje uma das fontes de receita, tão
regular, tão indispensavel, tão sabida como o imposto. A unica occupação
mesmo dos ministerios era esta--_cobrar o imposto_ e _fazer o
emprestimo_. E assim se havia de continuar...
Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, d'esse modo, o
paiz ia alegremente e lindamente para a _banca-rota_.
--N'um galopesinho muito seguro e muito a direito, disse o Cohen,
sorrindo. Ah, sobre isso, ninguem tem illusões, meu caro senhor. Nem os
proprios ministros da fazenda!... A _banca-rota_ é inevitavel: é como
quem faz uma somma...
Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira, hein! E todos
escutavam o Cohen. Ega, depois de lhe encher o calice de novo, fincara
os cotovellos na meza para lhe beber melhor as palavras.
--A _banca-rota_ é tão certa, as cousas estão tão dispostas para
ella--continuava o Cohen--que seria mesmo facil a qualquer, em dois ou
tres annos, fazer fallir o paiz...
Ega gritou sofregamente pela _receita_. Simplesmente isto: manter uma
agitação revolucionaria constante; nas vesperas de se lançarem os
emprestimos haver duzentos maganões decididos que cahissem á pancada na
municipal e quebrassem os candieiros com vivas á Republica; telegraphar
isto em letras bem gordas para os jornaes de Paris, Londres e do Rio de
Janeiro; assustar os mercados, assustar o brazileiro, e a _banca-rota_
estalava. Sómente, como elle disse, isto não convinha a ninguem.
Então Ega protestou com vehemencia. Como não convinha a ninguem? Ora
essa! Era justamente o que convinha a todos! Á _banca-rota_ seguia-se
uma revolução, evidentemente. Um paiz que vive da _inscripção_, em não
lh'a pagando, agarra no cacete; e procedendo por principio, ou
procedendo apenas por vingança--o primeiro cuidado que tem é varrer a
monarchia que lhe representa o _calote_, e com ella o crasso pessoal do
constitucionalismo. E passada a crise, Portugal livre da velha divida,
da velha gente, d'essa collecção grotesca de bestas...
A voz do Ega sibillava... Mas, vendo assim tratados de _grotescos_, de
_bestas_, os homens d'ordem que fazem prosperar os Bancos, Cohen pousou
a mão no braço do seu amigo e chamou-o ao bom-senso. Evidentemente, elle
era o primeiro a dizel-o, em toda essa gente que figurava desde 46 havia
mediocres e patetas,--mas tambem homens de grande valor!
--Ha talento, ha saber, dizia elle com um tom de experiencia. Você deve
reconhecel-o, Ega... Você é muito exagerado! Não senhor, ha talento, ha
saber.
E, lembrando-se que algumas d'essas _bestas_ eram amigos do Cohen, Ega
reconheceu-lhes talento e saber. O Alencar porém cofiava sombriamente o
bigode. Ultimamente pendia para idéas radicaes, para a democracia
humanitaria de 1848: por instincto, vendo o romantismo desacreditado nas
letras, refugiava-se no romantismo politico, como n'um asylo paralello:
queria uma republica governada por genios, a fraternisação dos povos, os
Estados Unidos da Europa... Além d'isso, tinha longas queixas d'esses
politiquotes, agora gente de Poder, outr'ora seus camaradas de redacção,
de café e de _batota_...
--Isso, disse elle, lá a respeito de talento e de saber, historias... Eu
conheço-os bem, meu Cohen...
O Cohen acudiu:
--Não senhor, Alencar, não senhor! Você tambem é dos taes... Até lhe
fica mal dizer isso... É exageração. Não senhor, ha talento, ha saber.
E o Alencar, peranta esta intimação do Cohen, o respeitado director do
_Banco Nacional_, o marido da divina Rachel, o dono d'essa hospitaleira
casa da rua do Ferregial onde se jantava tão bem, recalcou o
despeito--admittiu que não deixava de haver talento e saber.
Então, tendo assim, pela influencia do seu Banco, dos bellos olhos da
sua mulher e da excellencia do seu cosinheiro, chamado estes espiritos
rebeldes ao respeito dos Parlamentares e á veneração da Ordem, Cohen
condescendeu em dizer, no tom mais suave da sua voz, que o paiz
necessitava reformas...
Ega porém, incorrigivel n'esse dia, soltou outra enormidade:
--Portugal não necessita refórmas, Cohen, Portugal o que precisa é a
invasão hespanhola.
Alencar, patriota à antiga, indignou-se. O Cohen, com aquelle sorriso
indulgente de homem superior que lhe mostrava os bonitos dentes, vio
alli apenas «um dos paradoxos do nosso Ega.» Mas o Ega fallava com
seriedade, cheio de razões. Evidentemente, dizia elle, invasão não
significa perda absoluta de independencia. Um receio tão estupido é
digno só de uma sociedade tão estupida como a do _Primeiro de Dezembro_.
Não havia exemplo de seis milhões de habitantes serem engolidos, de um
só trago, por um paiz que tem apenas quinze milhões de homens. Depois
ninguem consentiria em deixar cahir nas mãos de Hespanha, nação militar
e maritima, esta bella linha de costa de Portugal. Sem contar as
allianças que teriamos, a troco das colonias--das colonias que só nos
servem, como a prata de familia aos morgados arruinados, para ir
empenhando em casos de crise... Não havia perigo; o que nos aconteceria,
dada uma invasão, n'um momento de guerra europea, seria levarmos uma
sova tremenda, pagarmos uma grossa indemnisação, perdermos uma ou duas
provincias, ver talvez a Galliza estendida até ao Douro...
--_Poulet aux champignons_, murmurou o creado, apresentando-lhe a
travessa.
E em quanto elle se servia, perguntavam-lhe dos lados onde via elle a
_salvação do paiz_, n'essa catastrophe que tornaria povoação hespanhola
Celorico de Basto, a nobre Celorico, berço de heroes, berço dos Egas...
--N'isto: no ressuscitar do espirito publico e do genio portuguez!
Sovados, humilhados, arrasados, escalavrados, tinhamos de fazer um
esforço desesperado para viver. E em que bella situação nos achavamos!
Sem monarchia, sem essa caterva de politicos, sem esse tortulho da
_inscripção_, porque tudo desapparecia, estavamos novos em folha,
limpos, escarollados, como se nunca tivessemos servido. E recomeçava-se
uma historia nova, um outro Portugal, um Portugal serio e intelligente,
forte e decente, estudando, pensando, fazendo civilisação como
outr'ora... Meninos, nada regenera uma nação como uma medonha tarêa...
Oh Deus d'Ourique, manda-nos o castelhano! E você, Cohen, passe-me o
S.^t Emilion.
Agora, n'um rumor animado, discutia-se a invasão. Ah, podia-se fazer uma
bella resistencia! Cohen affiançava o dinheiro. Armas, artilheria, iam
comprar-se á America--e Craft offereceu logo a sua collecção de espadas
do seculo XVI. Mas generaes? Alugavam-se. Mac-Mahon, por exemplo, devia
estar barato...
--O Craft e eu organisamos uma guerrilha, gritou Ega.
--Ás ordens, meu coronel.
--O Alencar, continuava Ega, é encarregado de ir despertar pela
provincia o patriotismo, com cantos e com odes!
Então o poeta, pousando o calice, teve um movimento de leão que sacode a
juba:
--Isto é uma velha carcassa, meu rapaz, mas não está só para odes! Ainda
se agarra uma espingarda, e como a pontaria é boa, ainda vão a terra um
par de gallegos... Caramba, rapazes, só a idéa d'essas cousas me põe o
coração negro! E como vocés podem fallar n'isso, a rir, quando se trata
do paiz, d'esta terra onde nascemos, que diabo! Talvez seja má, de
accordo, mas, caramba! é a unica que temos, não temos outra! É aqui que
vivemos, é aqui que rebentamos... Irra, fallemos d'outra cousa, fallemos
de mulheres!
Dera um repellão ao prato, os olhos humedeciam-se-lhe de paixão
patriotica...
E no silencio que se fez Damaso, que desde as informações sobre a
rapariga do Ermidinha emmudecera, occupado a observar Carlos com
religião, ergueu a voz pausadamente, disse, com um ar de bom senso e de
finura:
--Se as cousas chegassem a esse ponto, se pozessem assim feias, eu cá, á
cautela, ía-me raspando para Paris...
Ega triumphou, pulou de gosto na cadeira. Eis alli, no labio synthetico
de Damaso, o grito espontaneo e genuino do brio portuguez! Raspar-se,
pirar-se!... Era assim que d'alto a baixo pensava a sociedade de Lisboa,
a malta constitucional, desde El-Rei nosso Senhor até aos cretinos de
secretaria!...
--Meninos, ao primeiro soldado hespanhol que appareça á fronteira, o
paiz em massa foge como uma lebre! Vae ser uma debandada unica na
historia!
Houve uma indignação, Alencar gritou:
--Abaixo o traidor!
Cohen interveiu, declarou que o soldado portuguez era valente, á maneira
dos turcos--sem disciplina, mas teso. O proprio Carlos disse, muito
serio:
--Não senhor... Ninguem ha de fugir, e ha de se morrer bem.
Ega rugiu. Para quem estavam elles fazendo essa _pose_ heroica? Então
ignoravam que esta raça, depois de cincoenta annos de
constitucionalismo, creada por esses saguões da Baixa, educada na
piolhice dos lyceus, roída de syphlis, apodrecida no bolôr das
secretarias, arejada apenas ao domingo pela poeira do Passeio, perdera o
musculo como perdera o caracter, e era a mais fraca, a mais covarde raça
da Europa?...
--Isso são os lisboetas, disse Craft.
--Lisboa é Portugal, gritou o outro. Fóra de Lisboa não ha nada. O paiz
está todo entre a Arcada e S. Bento!...
A mais miseravel raça da Europa! continuava elle a berrar. E que
exercito! Um regimento, depois de dois dias de marcha, dava entrada em
massa no hospital! Com seus olhos tinha elle visto, no dia da abertura
das Côrtes, um marujo sueco, um rapagão do Norte, fazer debandar, a
soccos, uma companhia de soldados; as praças tinham litteralmente
largado a fugir, com a patrona a batter-lhe os rins; e o official,
enfiado de terror, metteu-se para uma escada, a vomitar!...
Todos protestaram. Não, não era possivel... Mas se elle tinha visto, que
diabo!... Pois sim, talvez, mas com os olhos fallazes da phantasia...
--Juro pela saude da mamã! gritou Ega furioso.
Mas emmudeceu. O Cohen tocara-lhe no braço. O Cohen ía fallar.
O Cohen queria dizer que o futuro pertence a Deus. Que os hespanhoes
porém pensassem na invasão isso parecia-lhe certo--sobretudo se viessem,
como era natural, a perder Cuba. Em Madrid todo o mundo lh'o dissera. Já
havia mesmo negocios de fornecimentos entabolados...
--Hespanholadas, gallegadas! rosnou Alencar, por entre dentes, sombrio e
torcendo os bigodes.
--No _Hotel de Paris_, continuou Cohen, em Madrid, conheci eu um
magistrado, que me disse com um certo ar que não perdia a esperança de
se vir estabelecer de todo em Lisboa; tinha-lhe agradado muito Lisboa,
quando cá estivera a banhos. E em quanto a mim, estou que ha muitos
hespanhoes que estão á espera d'este augmento de territorio para se
empregarem!
Então Ega cahiu em extasi, apertou as mãos contra o peito. Oh que
delicioso traço! Oh que admiravelmente observado!
--Este Cohen! exclamava elle para os lados. Que finamente observado! Que
traço adoravel! Hein, Craft? Hein, Carlos? Delicioso!
Todos cortezmente admiraram a finura do Cohen. Elle agradecia, com o
olho enternecido, passando pelas suissas a mão onde reluzia um diamante.
E n'esse momento os creados serviam um prato de ervilhas n'um molho
branco, murmurando:
--_Petits pois a la Cohen_.
_A la Cohen?_ Cada um verificou o seu _menu_ mais attentamente. E lá
estava, era o legume: _petits pois a la Cohen!_ Damaso, enthusiasmado,
declarou isto «chic a valer!» E fez-se, com o Champagne que se abria, a
primeira saude ao Cohen!
Esquecera-se a banca rota, a invasão, a patria--o jantar terminava
alegremente. Outras _saudes_ crusaram-se, ardentes e loquazes: o proprio
Cohen, com o sorriso de quem cede a um capricho de creança, bebeu á
Revolução e á Anarchia, brinde complicado, que o Ega erguera, já com o
olho muito brilhante. Sobre a toalha, a sobremeza alastrava-se,
destroçada; no prato do Alencar as pontas de cigarros misturavam-se a
bocados de ananaz mastigado. Damaso, todo debruçado sobre Carlos,
fazia-lhe o elogio da parelha ingleza, e d'aquelle _phaeton_ que era a
cousa mais linda que passeiava Lisboa. E logo depois do seu brinde de
demagogo, sem razão, Ega arremettera contra Craft, injuriando a
Inglaterra, querendo excluil-a d'entre as nações pensantes, ameaçando-a
de uma revolução social que a ensoparia em sangue: o outro respondia com
acenos de cabeça, imperturbavel, partindo nozes.
Os creados serviram o café. E como havia já tres longas horas que
estavam á meza, todos se ergueram, acabando os charutos, conversando, na
animação viva que dera o _Champagne_. A sala, de tecto baixo, com os
cinco bicos de gaz ardendo largamente, enchera-se de um calor pesado,
onde se ia espalhando agora o aroma forte das chartreuses e dos licores
por entre a nevoa alvadia do fumo.
Carlos e Craft, que abafavam, foram respirar para a varanda; e ahi
recomeçou logo, n'aquella communidade de gostos que os começava a ligar,
a conversa da rua do Alecrim sobre a bella collecção dos Olivaes. Craft
dava detalhes; a cousa rica e rara que tinha era um armario hollandez do
seculo XVI; de resto, alguns bronzes, faianças e boas armas...
Mas ambos se voltaram ouvindo, no grupo dos outros, junto á meza,
estridencias de voz, e como um conflicto que rompia: Alencar, sacudindo
a grenha, gritava contra a _palhada philosophica_; e do outro lado, com
o calice de cognac na mão, Ega, pallido e affectando uma tranquillidade
superior, declarava toda essa babuge lyrica que por ahi se publica digna
da policia correccional...
--Pegaram-se outra vez, veiu dizer Damaso a Carlos, approximando-se da
varanda. É por causa do Craveiro. Estão ambos divinos!
Era com effeito a proposito de poesia moderna, de Simão Craveiro, do seu
poema a _Morte de Satanaz_. Ega estivera citando, com enthusiasmo,
estrophes do episodio da _Morte_, quando o grande esqueleto symbolico
passa em pleno sol no Boulevard, vestido como uma cocotte, arrastando
sedas rumorosas
«E entre duas costellas, no decotte,
Tinha um bouquet de rosas!»
E o Alencar, que detestava o Craveiro, o homem da _Idéa nova_, o
paladino do Realismo, triumphara, cascalhara, denunciando logo n'essa
simples estrophe dois erros de grammatica, um verso errado, e uma imagem
roubada a Beaudelaire!
Então Ega, que bebera um sobre outro dois calices de cognac, tornou-se
muito provocante, muito pessoal.
--Eu bem sei por que tu fallas, Alencar, dizia elle agora. E o motivo
não é nobre. É por causa do epigramma que elle te fez:
O Alencar d'Alemquer,
Acceso com a primavera...
--Ah, vocês nunca ouviram isto? continuou elle voltando-se, chamando os
outros. É delicioso, é das melhores cousas do Craveiro. Nunca ouviste,
Carlos? É sublime, sobre tudo esta estrophe:
O Alencar d'Alemquer
Que quer? Na verde campina
Não colhe a tenra bonina
Nem consulta o malmequer...
Que quer? Na verde campina
O Alencar d'Alemquer
Quer menina!
Eu não me lembro do resto, mas termina com um grito de bom senso, que é
a verdadeira critica de todo esse lyrismo pandilha:
O Alencar d'Alemquer
Quer cacete!
Alencar passou a mão pela testa livida, e com o olho cavo fito no outro,
a voz rouca e lenta:
--Olha, João da Ega, deixa-me dizer-te uma cousa, meu rapaz... Todos
esses epigrammas, esses dichotes lorpas do rachitico e dos que o
admiram, passam-me pelos pés como um enxurro de cloaca... O que faço é
arregaçar as calças! Arregaço as calças... Mais nada, meu Ega. Arregaço
as calças!
E arregaçou-as realmente, mostrando a ceroula, n'um gesto brusco e de
delirio.
--Pois quando encontrares enchurros d'esses, gritou-lhe o Ega, agacha-te
e bebe-os! Dão-te sangue e força ao lyrismo!
Mas Alencar, sem o ouvir, berrava para os outros, esmurrando o ar:
--Eu, se esse Craveirete não fosse um rachitico, talvez me entretivesse
a rolal-o aos pontapés por esse Chiado abaixo, a elle e á versalhada, a
essa lambisgonhice excrementicia com que seringou Satanaz! E depois de o
besuntar bem de lama, esborrachava-lhe o craneo!
--Não se esborracham assim craneos, disse de lá o Ega n'um tom frio de
troça.
Alencar voltou para elle uma face medonha. A colera e o cognac
incendiavam-lhe o olhar; todo elle tremia:
--Esborrachava-lh'o, sim, esborrachava, João da Ega! Esborrachava-lh'o
assim, olha, assim mesmo!--Rompeu a atirar patadas ao soalho, abalando a
sala, fazendo tilintar crystaes e louças.--Mas não quero, rapazes!
Dentro d'aquelle craneo só ha excremento, vomito, puz, materia verde, e
se lh'o esborrachasse, por que lh'o esborrachava, rapazes, todo o miollo
podre sahia, empestava a cidade, tinhamos o cholera! Irra! Tinhamos a
peste!
Carlos, vendo-o tão excitado, tornou-lhe o braço, quiz calmal-o:
--Então, Alencar! Que tolice... Isso vale lá a pena!...
O outro desprendeu-se, arquejante, desabotoou a sobrecasaca, soltou o
ultimo desabafo:
--Com effeito, não vale a pena ninguem zangar-se por causa d'esse
Craveirote da _Idéa nova_, esse caloteiro, que se não lembra que a porca
da irmã é uma meretriz de doze vintens em Marco de Canavezes!
--Não, isso agora é de mais, pulha! gritou Ega, arremeçando-se, de
punhos fechados.
Cohen e Damaso, assustados, agarraram-n'o. Carlos puchara logo para o
vão da janella o Alencar que se debatia, com os olhos chammejantes, a
gravata solta. Tinha cahido uma cadeira; a correcta sala, com os seus
divans de marroquim, os seus ramos de camelias, tomava um ar de taverna,
n'uma bulha de faias, entre a fumaraça de cigarros. Damaso, muito
pallido, quasi sem voz, ía d'um a outro:
--Oh meninos, oh meninos, aqui, no Hotel Central! Jesus!... Aqui no
Hotel Central!...
E, d'entre os braços do Cohen, Ega berrava, já rouco:
--Esse pulha, esse covarde... Deixe-me, Cohen! Não, isso hei de
esbofeteal-o!... A D. Anna Craveiro, uma santa!... Esse calumniador...
Não, isso hei de esganal-o!...
Craft, no entanto, impassivel, bebia aos golos a sua chartreuse. Já
presenceára, mais vezes, duas litteraturas rivaes engalphinhando-se,
rolando no chão, n'um latir de injurias: a torpeza do Alencar sobre a
irmã do outro fazia parte dos costumes de critica em Portugal: tudo isso
o deixava indifferente, com um sorriso de desdem. Além d'isso sabia que
a reconciliação não tardaria, ardente e com abraços. E não tardou.
Alencar sahiu do vão da janella, atraz de Carlos, abotoando a
sobrecasaca, grave e como arrependido. A um canto da sala, Cohen fallava
ao Ega com auctoridade, severo, á maneira d'um pae: depois voltou-se,
ergueu a mão, ergueu a voz, disse que alli todos eram cavalheiros: e
como homens de talento e de coração fidalgo os dois deviam abraçar-se...
--Vá, um _shake-hands_, Ega, faça isso por mim!... Alencar, vamos,
peço-lh'o eu!
O auctor de _Elvira_ deu um passo, o auctor das _Memorias d'um Atomo_
estendeu a mão: mas o primeiro aperto foi gôche e molle. Então Alencar,
generoso e rasgado, exclamou que entre elle e o Ega não devia _ficar uma
nuvem!_ Tinha-se excedido... Fôra o seu desgraçado genio, esse calor de
sangue, que durante toda a existencia só lhe trouxera lagrimas! E alli
declarava bem alto que Anna Craveiro era uma santa! Tinha-a conhecido em
Marco de Canavezes, em casa dos Peixotos... Como esposa, como mãe, Anna
Craveiro era impeccavel. E reconhecia, do fundo d'alma, que o Craveiro
tinha carradas de talento!...
Encheu um copo de _Champagne_, ergueu-o alto, diante do Ega, como um
calice de altar:
--Á tua, João!
Ega, generoso tambem, respondeu:
--Á tua, Thomaz!
Abraçaram-se. Alencar jurou que ainda na vespera, em casa de D. Joanna
Coutinho, elle dissera que não conhecia ninguem mais scintillante que o
Ega! Ega affirmou logo que em poemas nenhuns corria, como nos do
Alencar, uma tão bella veia lyrica. Apertaram-se outra vez, com palmadas
pelos hombros. Trataram-se de _irmãos na arte_, trataram-se de
_genios_!...
--São extraordinarios, disse Craft baixo a Carlos, procurando o chapéo.
Desorganisam-me, preciso ar!...
A noite alongava-se, eram onze horas. Ainda se bebeu mais cognac. Depois
Cohen sahiu levando o Ega. Damaso e Alencar desceram com Carlos--que ia
recolher a pé pelo Aterro.
Á porta, o poeta parou com solemnidade.
--Filhos, exclamou elle tirando o chapéo e refrescando largamente a
fronte, então? Parece-me que me portei como um gentleman!
Carlos concordou, gabou-lhe a generosidade...
--Estimo bem que me digas isso, filho, porque tu sabes o que é ser
gentleman! E agora vamos lá por esse Aterro fóra... Mas deixa-me ir alli
primeiro comprar um pacote de tabaco...
--Que typo! exclamou Damaso, vendo-o affastar-se. E a cousa ía-se pondo
feia...
E immediatamente, sem transição, começou a fazer elogios a Carlos. O sr.
Maia não imaginava ha quanto tempo elle desejava conhecel-o!
--Oh senhor...
--Creia v. ex.^a... Eu não sou de sabujices... Mas pode v. ex.^a
perguntar ao Ega, quantas vezes o tenho dito: v. ex.^a é a cousa melhor
que ha em Lisboa!
Carlos, baixava a cabeça, mordendo o riso. Damaso, repetia, do fundo do
peito.
--Olhe que isto é sincero, sr. Maia! Acredite v. ex.^a que isto é do
coração!