suas meias de seda, escarlates como as d'um prelado, deixou cair, muito
serio, estas palavras:
--É uma mulher deliciosa, Carlinhos.
E, como Carlos encolhia os hombros, Ega insistio: a Gouvarinho era uma
senhora de intelligencia e de gosto; tinha originalidade, tinha audacia,
uma pontinha de romantismo muito picante...
--E, como corpinho de mulher, não ha melhor que aquillo de Badajoz para
cá!
--Vae-te d'ahi, Mephistopheles de Celorico!
E Ega, divertido, cantarolou:
Je suis Mephisto...
Je suis Mephisto...
Carlos no entanto, fumando preguiçosamente, continuava a fallar na
Gouvarinho e n'essa brusca saciedade que o invadira, mal trocara com
ella tres palavras n'uma sala. E não era a primeira vez que tinha
d'estes falsos arranques de desejo, vindo quasi com as formas do amor,
ameaçando absorver, pelo menos por algum tempo, todo o seu ser, e
resolvendo-se em tedio, em «secca». Eram como os fogachos de polvora
sobre uma pedra; uma fagulha atêa-os, n'um momento tornam-se chamma
vehemente que parece que vae consumir o Universo, e por fim fazem apenas
um rastro negro que suja a pedra. Seria o seu um d'esses corações de
fraco, molles e flaccidos, que não podem conservar um sentimento, o
deixam fugir, escoar-se pelas malhas lassas do tecido relles?
--Sou um ressequido! disse elle sorrindo. Sou um impotente de
sentimento, como Satanaz... Segundo os padres da Egreja, a grande
tortura de Satanaz é que não póde amar...
--Que phrases essas, menino! murmurou Ega.
Como phrases? Era uma atroz realidade! Passava a vida a ver as paixões
falharem-lhe nas mãos como phosphoros. Por exemplo, com a coronela de
hussards em Vienna! Quando ella faltou ao primeiro _rendez-vous_,
chorara lagrimas como punhos, com a cabeça enterrada no travesseiro e
aos coices á roupa. E d'ahi a duas semanas, mandava postar o Baptista á
janella do hotel, para elle se safar, mal a pobre coronela dobrasse a
esquina! E com a hollandeza, com Madame Rughel, peior ainda. Nos
primeiros dias foi uma insensatez: queria-se estabelecer para sempre na
Hollanda, casar com ella (apenas ella se divorciasse), outras loucuras;
depois os braços que ella lhe deitava ao pescoço, e que lindos braços,
pareciam-lhe pesados como chumbo...
--Passa fóra, pedante! E ainda lhe escreves! gritou Ega.
--Isso é outra cousa. Ficamos amigos, puras relações de intelligencia.
Madame Rughel é uma mulher de muito espirito. Escreveu um romance, um
d'esses estudos intimos e delicados, como os de Miss Brougthon: chama-se
as _Rosas Murchas_. Eu nunca li, é em hollandez...
--As _Rosas Murchas_! em hollandez! exclamou Ega apertando as mãos na
cabeça.
Depois vindo plantar-se diante de Carlos, de monocolo no olho:
--Tu és extraordinario, menino!... Mas o teu caso é simples, é o caso de
D. Juan. D. Juan tambem tinha essas alternações de chamma e cinza.
Andava á busca do seu ideal, da _sua mulher_, procurando-a
principalmente, como de justiça, entre as mulheres dos outros. E _après
avoir couché_, declarava que se tinha enganado, que não era aquella.
Pedia desculpa e retirava-se. Em Hespanha experimentou assim mil e tres.
Tu és simplesmente, como elle, um devasso; e has de vir a acabar
desgraçadamente como elle, n'uma tragedia infernal!
Esvasiou outro copo de _Champagne_, e a grandes passadas pela sala:
--Carlinhos da minha alma, é inutil que ninguem ande á busca da _sua
mulher_. Ella virá. Cada um tem a _sua mulher_, e necessariamente tem de
a encontrar. Tu estás aqui, na Cruz dos Quatro Caminhos, ella está
talvez em Pekin: mas tu, ahi a raspar o meu reps com o verniz dos
sapatos, e ella a orar no templo de Confucio, estaes ambos
insensivelmente, irresistivelmente, fatalmente, marchando um para o
outro!... Estou eloquentissimo hoje, e temos dito cousas idiotas. Toca a
vestir. E, em quanto eu adorno a carcassa, prepara mais phrases sobre
Satanaz!
Carlos ficou na sala verde, acabando o charuto--em quanto dentro o Ega
batia com as gavetas, lançando, a todo o desafinado da sua voz roufenha,
a _Barcarolla_ de Gounod. Quando appareceu, vinha de casaca, gravata
branca, enfiando o paletot--com o olho brilhante do _Champagne_.
Desceram. O pagem lá estava á porta perfilado, ao pé do coupé de Carlos,
que esperara. E a sua fardeta azul de botões amarellos, a magnifica
parelha baia reluzindo como um setim vivo, as pratas dos arreios, a
magestade do cocheiro louro com o seu ramo na libré, tudo alli fazia,
junto da «Villa Balzac», um quadro rico que deleitou o Ega.
--A vida é agradavel, disse elle.
O coupé partiu, ia entrar no largo da Graça, quando uma caleche de
praça, aberta, o cruzou a largo trote. Dentro um sujeito de chapéo baixo
ía lendo um grande jornal.
--É o Craft! gritou Ega, debruçando-se pela portinhola.
O coupé parou. Ega de um pulo estava na calçada, correndo, bradando:
--Oh Craft! oh Craft!
Quando, d'ahi a um momento, sentiu duas vozes approximarem-se, Carlos
desceu tambem do coupé, achou-se em face d'um homem baixo, louro, de
pelle rosada e fresca, e apparencia fria. Sob o fraque correcto
percebia-se-lhe uma musculatura de athleta.
--O Carlos, o Craft, gritou o Ega, lançando esta apresentação com uma
simplicidade classica.
Os dois homens, sorrindo, tinham-se apertado a mão. E Ega insistia para
que voltassem todos á Villa Balzac, fossem beber a outra garrafa de
_Champagne_, a celebrar o _advento do Justo_! Craft recusou, com o seu
modo calmo e placido; chegara na vespera do Porto, abraçara já o nobre
Ega, e aproveitava agora a viagem áquelle bairro longinquo para ir vêr o
velho Shlegen, um allemão que vivia á Penha de França.
--Então outra cousa! exclamou Ega. Para conversarmos, para que vocês se
conheçam mais, venham vocês jantar comigo amanhã ao Hotel Central. Dito,
hein? Perfeitamente. Ás seis.
Apenas o coupé partiu de novo, Ega rompeu nas costumadas admirações pelo
Craft, encantado com aquelle encontro que dava mais um retoque luminoso
á sua alegria. O que o enthusiasmava no Craft era aquelle ar
imperturbavel de gentleman correcto, com que elle egualmente jogaria uma
partida de bilhar, entraria n'uma batalha, arremetteria com uma mulher,
ou partiria para a Patagonia...
--É das melhores cousas que tem Lisboa. Vaes-te morrer por elle... E que
casa que elle tem nos Olivaes, que sublime bric-a-brac!
Subitamente estacou, e com um olhar inquieto, uma ruga na testa:
--Como diabo soube elle da _Villa Balzac_?
--Tu não fazes segredo d'ella, hein?
--Não... Mas tambem não a puz nos annuncios! E o Craft chegou hontem,
ainda não esteve com ninguem que eu conheça... É curioso!
--Em Lisboa sabe-se tudo...
--Canalha de terra! murmurou Ega.
O jantar no Central foi addiado, porque o Ega, alargando pouco a pouco a
idéa, convertera-o agora n'uma festa de ceremonia em honra do Cohen.
--Janto lá muitas vezes, disse elle a Carlos, estou lá todas as
noites... É necessario repagar a hospitalidade... Um jantar no Central é
o que basta. E para o effeito moral, pespego-lhe á meza o marquez e a
besta do Steinbroken. O Cohen gosta de gente assim...
Mas o plano teve ainda de ser alterado: o marquez partira para a
Gollegã, e o pobre Steinbroken estava soffrendo d'um incommodo de
entranhas. Ega pensou no Cruges e no Taveira--mas receiou a cabelleira
desleixada do Cruges, e alguns dos seus ataques de amargo _spleen_ que
estragaria o jantar. Terminou por convidar dois intimos do Cohen; mas
teve então de supprimir o Taveira, que estava de mal com um d'esses
cavalheiros por palavras que tinham trocado em casa da «Lola gorda».
Decididos os convidados, fixado o jantar para uma segunda feira, Ega
teve uma conferencia com o _maitre de hotel_ do Central, em que lhe
recommendou muita flôr, dois ananazes para enfeitar a meza, e exigiu que
um dos pratos do _menu_, qualquer d'elles, fosse _à la Cohen_; e elle
mesmo suggeriu uma idéa: _tomates farcies à la Cohen_...
N'essa tarde, ás seis horas, Carlos, ao descer a rua do Alecrim para o
Hotel Central, avistou Craft dentro da loja de bric-a-brac do tio
Abrahão.
Entrou. O velho judeo, que estava mostrando a Craft uma falsa faiença do
Rato, arrancou logo da cabeça o sujo barrete de borla, e ficou curvado
em dois, diante de Carlos, com as duas mãos sobre o coração.
Depois, n'uma linguagem exotica, misturada d'inglez, pediu ao seu bom
senhor D. Carlos da Maia, ao seu digno senhor, ao seu _beautiful
gentleman_, que se dignasse examinar uma maravilhasinha que lhe tinha
reservada; e o seu muito _generous gentleman_ tinha só a voltar os
olhos, a maravilhasinha estava alli ao lado, n'uma cadeira. Era um
retrato d'hespanhola, apanhado a fortes brochadellas de primeira
impressão, e pondo, sobre um fundo audaz de côr de rosa murcha, uma face
gasta de velha garça, picada das bexigas, caiáda, ressudando vicio, com
um sorriso bestial que promettia tudo.
Carlos, tranquillamente, offereceu dez tostões. Craft pasmou d'uma tal
prodigalidade; e o bom Abrahão, n'um riso mudo que lhe abria entre a
barba grisalha uma grande boca d'um só dente, saboreou muito a «chalaça
dos seus ricos senhores.» Dez tostõesinhos! Se o quadrinho tivesse por
baixo o nomesinho de Fortuny, valia dez continhos de réis. Mas não tinha
esse nomesinho bemdito... Ainda assim valia dez notasinhas de vinte mil
réis...
--Dez cordas para te enforcar, hebreu sem alma! exclamou Carlos.
E sahiram, deixando o velho intrujão á porta, curvado em dois, com as
mãos sobre o coração, desejando mil felicidades aos seus generosos
fidalgos...
--Não tem uma unica cousa boa, este velho Abrahão, disse Carlos.
--Tem a filha, disse o Craft.
Carlos achava-a bonita, mas horrivelmente suja. Então, a proposito do
Abrahão, fallou a Craft d'essas bellas collecções dos Olivaes, que o
Ega, apesar do desdem que affectava pelo _bibelot_ e pelo movel d'arte,
lhe descrevera como sublimes.
Craft encolheu os hombros.
--O Ega não entende nada. Mesmo em Lisboa, não se póde chamar ao que eu
tenho uma collecção. É um bric-a-brac d'acaso... De que, de resto, me
vou desfazer!
Isto surprehendeu Carlos. Comprehendera das palavras do Ega ser essa uma
collecção formada com amor, no laborioso decurso de annos, orgulho e
cuidado d'uma existencia de homem...
Craft sorrio d'aquella legenda. A verdade era que só em 1872, elle
começara a interessar-se pelo bric-a-brac; chegava então da America do
Sul; e o que fora comprando, descobrindo aqui e além, accumulara-o
n'essa casa dos Olivaes, alugada então por phantasia, uma manhã que
aquelle pardieiro, com o seu bocado de quintal em redor, lhe parecera
pittoresco, sob o sol de abril. Mas agora se podesse desfazer-se do que
tinha, ia dedicar-se então a formar uma collecção homogenea e compacta
d'arte do seculo desoito.
--Aqui nos Olivaes?
--Não. N'uma quinta que tenho ao pé do Porto, junto mesmo ao rio.
Entravam então no peristilo do Hotel Central--e n'esse momento um coupé
da Companhia, chegando a largo trote do lado da rua do Arsenal, veiu
estacar á porta.
Um esplendido preto, já grisalho, de casaca e calção, correu logo á
portinhola; de dentro um rapaz muito magro, de barba muito negra,
passou-lhe para os braços uma deliciosa cadelinha escosseza, de pellos
esguedelhados, finos como seda e côr de prata; depois apeando-se,
indolente e _poseur_, offereceu a mão a uma senhora alta, loura, com um
meio véo muito apertado e muito escuro que realçava o explendor da sua
carnação eburnea. Craft e Carlos affastaram-se, ella passou diante
d'elles, com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita,
deixando atraz de si como uma claridade, um reflexo de cabellos d'ouro,
e um aroma no ar. Trazia um casaco collante de velludo branco de Genova,
e um momento sobre as lages do peristillo brilhou o verniz das suas
bottinas. O rapaz ao lado, esticado n'um fato de xadresinho inglez,
abria negligentemente um telegramma; o preto seguia com a cadelhinha nos
braços. E no silencio a voz de Craft murmurou:
--_Trés chic_.
Em cima, no gabinete que o creado lhes indicou, Ega esperava, sentado no
divan de marroquim, e conversando com um rapaz baixote, gordo, frisado
como um noivo de provincia, de camelia ao peito e plastron azul celeste.
O Craft conhecia-o; Ega apresentou a Carlos o sr. Damaso Salcêde, e
mandou servir vermouth, por ser tarde, segundo lhe parecia, para esse
requinte litterario e satanico do _absintho_...
Fôra um dia d'inverno suave e luminoso, as duas janellas estavam ainda
abertas. Sobre o rio, no céu largo, a tarde morria, sem uma aragem,
n'uma paz elysea, com nuvensinhas muito altas, paradas, tocadas de côr
de rosa; as terras, os longes da outra banda já se iam affogando n'um
vapor avelludado, do tom de violeta; a agoa jazia liza e luzidia como
uma bella chapa d'aço novo; e aqui e alem, pelo vasto ancoradouro,
grossos navios de carga, longos paquetes estrangeiros, dois couraçados
inglezes, dormiam, com as mastreações immoveis, como tomados de
preguiça, cedendo ao affago do clima doce...
--Vimos agora lá em baixo, disse Craft indo sentar-se no divan, uma
esplendida mulher, com uma esplendida cadellinha _griffon_, e servida
por um esplendido preto!
O sr. Damaso Salcêde, que não despegava os olhos de Carlos, acudiu logo:
--Bem sei! Os Castro Gomes... Conheço-os muito... Vim com elles de
Bordeus... Uma gente muito chic que vive em Paris.
Carlos voltou-se, reparou mais n'elle, perguntou-lhe, affavel e
interessando-se:
--O senhor Salcêde chegou agora de Bordeus?
Estas palavras pareceram deleitar Damaso como um favor celeste:
ergueu-se immediatamente, approximou-se do Maia, banhado n'um sorriso:
--Vim aqui ha quinze dias, no _Orenoque_. Vim de Paris... Que eu em
podendo é lá que me pilham! Esta gente conheci-a em Bordeus. Isto é,
verdadeiramente conheci-a a bordo. Mas estavamos todos no _Hotel de
Nantes_... Gente muito chic: creado de quarto, governanta ingleza para a
filhita, femme de chambre, mais de vinte malas... Chic a valer! Parece
incrivel, uns brazileiros... Que ella na voz não tem _sutaque_ nenhum,
falla como nós. Elle sim, elle muito _sutaque_... Mas elegante tambem,
v. ex.^a não lhe pareceu?
--Vermouth? perguntou-lhe o creado, offerecendo a salva.
--Sim, uma gotinha para o appetite. V. ex.^a não toma, sr. Maia? Pois
eu, assim que posso, é direitinho para Paris! Aquillo é que é terra!
Isto aqui é um chiqueiro... Eu, em não indo lá todos os annos, acredite
v. ex.^a, até começo a andar doente. Aquelle _boulevarsinho_, hein!...
Ai, eu goso aquillo!... E sei gosar, sei gosar, que eu conheço aquillo a
palmo... Tenho até um tio em Paris.
--E que tio! exclamou Ega, approximando-se. Intimo do Gambetta, governa
a França... O tio do Damaso governa a França, menino!
Damaso, escarlate, estourava de gôso.
--Ah, lá isso influencia tem. Intimo do Gambetta, tratam-se por tu, até
vivem quasi juntos... E não é só com o Gambetta; é com o Mac-Mahon, com
o Rochefort, com o outro de que me esquece agora o nome, com todos os
republicanos, emfim!... É tudo quanto elle queira. V. ex.^a não o
conhece? É um homem de barbas brancas... Era irmão de minha mãe,
chama-se Guimarães. Mas em Paris chamam-lhe Mr. de Guimaran...
N'esse momento a porta envidraçada abriu-se de golpe, Ega exclamou:
«Saude ao poeta»!
E appareceu um individuo muito alto, todo abotoado n'uma sobrecasaca
preta, com uma face escaveirada, olhos encovados, e sob o nariz
aquilino, longos, espessos, romanticos bigodes grisalhos: já todo calvo
na frente, os anneis fôfos d'uma grenha muito secca cahiam-lhe
inspiradamente sobre a golla: e em toda a sua pessoa havia alguma cousa
de antiquado, de artificial e de lugubre.
Estendeu silenciosamente dous dedos ao Damaso, e abrindo os braços
lentos para Craft, disse n'uma voz arrastada, cavernosa, atheatrada:
--Então és tu, meu Craft! Quando chegaste tu, rapaz? Dá-me cá esses
ossos honrados, honrado inglez!
Nem um olhar dera a Carlos. Ega adiantou-se, apresentou-os:
--Não sei se são relações. Carlos da Maia... Thomaz d'Alencar, o nosso
poeta...
Era elle! o illustre cantor das _Vozes d'Aurora_, o estylista de
_Elvira_, o dramaturgo do _Segredo do Commendador_. Deu dois passos
graves para Carlos, esteve-lhe apertando muito tempo a mão em
silencio--e sensibilisado, mais cavernoso:
--V. ex.^a, já que as etiquetas sociaes querem que eu lhe dê
excellencia, mal sabe a quem apertou agora a mão...
Carlos, surprehendido, murmurou:
--Eu conheço muito de nome...
E o outro com o olho cavo, o labio tremulo:
--Ao camarada, ao inseparavel, ao intimo de Pedro da Maia, do meu pobre,
do meu valente Pedro!
--Então, que diabo, abracem-se! gritou Ega. Abracem-se, com um berro,
segundo as regras...
Alencar já tinha Carlos estreitado ao peito, e quando o soltou,
retomando-lhe as mãos, sacudindo-lh'as, com uma ternura ruidosa:
--E deixemo-nos já de excellencias! que eu vi-te nascer, meu rapaz!
trouxe-te muito ao collo! sujaste-me muita calça! Co'os diabos, dá cá
outro abraço!
Craft olhava estas cousas vehementes, impassivel; Damaso parecia
impressionado; Ega apresentou um copo de _vermouth_ ao poeta:
--Que grande scena, Alencar! Jesus, Senhor! Bebe, para te recuperares da
emoção...
Alencar esgotou-o d'um trago: e declarou aos amigos que não era a
primeira vez que via Carlos. Já o admirara no seu phaeton, muitas vezes,
e aos seus bellos cavallos inglezes. Mas não se quizera dar a conhecer.
Elle nunca se atirava aos braços de ninguem, a não ser das mulheres...
Foi encher outro calice de _vermouth_, e com elle na mão, plantado
diante de Carlos, começou, n'um tom pathetico:
--A primeira vez que te vi, filho, foi no Pote das Almas! Estava eu no
Rodrigues, esquadrinhando alguma d'essa velha litteratura, hoje tão
despresada... Lembro-me até que era um volume das _Eclogas_ do nosso
delicioso Rodrigues Lobo, esse verdadeiro poeta da natureza, esse
rouxinol tão portuguez, hoje, está claro, mettido a um canto, desde que
para ahi appareceu o Satanismo, o Naturalismo e o Bandalhismo, e outros
esterquilinios em _ismo_... N'esse momento passaste, disseram-me quem
eras, e cahiu-me o livro da mão... Fiquei alli uma hora, acredita, a
pensar, a rever o passado...
E atirou o _vermouth_ ás goellas. Ega, impaciente, olhava o relogio. Um
creado, entrando, accendeu o gaz; a mesa surgiu da penumbra, com um
brilho de cristaes e louças, um luxo de camelias em ramos.
No entanto Alencar (que á luz viva parecia mais gasto e mais velho)
começara uma grande historia, e como fôra elle o primeiro que vira
Carlos depois de nascer, e como fôra elle que lhe dera o nome.
--Teu pae, dizia elle, o meu Pedro, queria-te pôr o nome d'Affonso,
d'esse santo, d'esse varão d'outras edades, Affonso da Maia! Mas tua mãe
que tinha lá as suas idéas teimou em que havias de ser Carlos. E
justamente por causa d'um romance que eu lhe emprestára; n'esses tempos
podiam-se emprestar romances a senhoras, ainda não havia a pustula e o
puz... Era um romance sobre o ultimo Stuart, aquelle bello typo do
principe Carlos Eduardo, que vocês, filhos, conhecem todos bem, e que na
Escossia, no tempo de Luiz XIV... Emfim, adiante! Tua mãe, devo dizel-o,
tinha litteratura e da melhor. Consultou-me, consultava-me sempre,
n'esse tempo eu era _alguem_, e lembro-me de lhe ter respondido...
(Lembro-me apesar de já lá irem vinte e cinco annos... Que digo eu?
Vinte e sete! Vejam vocês isto, filhos, vinte e sete annos!) Emfim,
voltei-me para tua mãe, e disse-lhe, palavras textuaes: «Ponha-lhe o
nome de Carlos Eduardo, minha rica senhora, Carlos Eduardo, que é o
verdadeiro nome para o frontespicio d'um poema, para a fama d'um
heroismo ou para o labio d'uma mulher!»
Damaso, que continuava a admirar Carlos, deu _bravos_ estrondosos; Craft
bateu ligeiramente os dedos; e o Ega, que rondava a porta, nervoso, de
relogio na mão, soltou de lá um _muito bem_ desenxabido.
Alencar, radiante com o seu effeito, derramava em roda um sorriso que
lhe mostrava os dentes estragados. Abraçou outra vez Carlos, atirou uma
palmada ao coração, exclamou:
--Caramba, filhos, sinto uma luz cá dentro!
A porta abriu-se, o Cohen entrou, todo apressado, desculpando-se logo da
sua demora--emquanto Ega, que se precipitara para elle, lhe ajudava a
despir o palletot. Depois apresentou-o a Carlos--a unica pessoa alli de
quem o Cohen não era intimo. E dizia, tocando o botão da campainha
electrica:
--O marquez não pôde vir, menino, e o pobre Steinbroken, coitado, está
com a sua gôtta, a gôtta de diplomata, de lord e de banqueiro... A gôtta
que tu has de ter, velhaco!
Cohen, um homem baixo, apurado, de olhos bonitos, e suissas tão pretas e
luzidias que pareciam ensopadas em verniz, sorria, descalçando as luvas,
dizendo, que, segundo os inglezes, havia tambem a gôtta de gente pobre;
e era essa naturalmente a que lhe competia a elle...
Ega, no entanto, travara-lhe do braço, collocara-o preciosamente á mesa,
á sua direita: depois offereceu-lhe um botão de camelia d'um ramo: o
Alencar florio-se tambem--e os creados serviram as ostras.
Fallou-se logo do crime da Mouraria, drama fadista que impressionava
Lisboa, uma rapariga com o ventre rasgado á navalha por uma companheira,
vindo morrer na rua em camisa, dois faias esfaqueando-se, toda uma
viella em sangue--uma _sarrabulhada_ como disse o Cohen, sorrindo e
provando o Bucellas.
Damaso teve a satisfação de poder dar detalhes; conhecera a rapariga, a
que dera as facadas, quando ella era amante do visconde da Ermidinha...
Se era bonita? Muito bonita. Umas mãos de duqueza... E como aquillo
cantava o _fado_! O peior era que mesmo no tempo do visconde, quando
ella era chic, já se empiteirava... E o visconde, honra lhe seja, nunca
lhe perdera a amisade; respeitava-a, mesmo depois de casado ía vel-a, e
tinha-lhe promettido que se ella quizesse deixar o _fado_ lhe punha uma
confeitaria para os lados da Sé. Mas ella não queria. Gostava d'aquillo,
do Bairro Alto, dos cafés de _lepes_, dos chulos...
Esse mundo de fadistas, de faias, parecia a Carlos merecer um estudo, um
romance... Isto levou logo a fallar-se do _Assommoir_, de Zola e do
realismo:--e o Alencar immediatmente, limpando os bigodes dos pingos de
sôpa, supplicou que se não discutisse, á hora aceada do jantar, essa
litteratura _latrinaria_. Alli todos eram homens d'aceio, de sala, hein?
Então, que se não mencionasse o _excremento_!