Por indolencia, Carlos ficou. E pouco a pouco, aquelle preto de que os

seus olhos se não podiam despegar, alli enthronisado na poltrona de reps

verde da Gouvarinho, com a manga da jaqueta plantada no rebordo onde

costumava alvejar um lindo braço,--foi-lhe arrastando, a seu pesar, a

imaginação para a pessoa d'ella; relembrou _toilettes_ com que ella alli

estivera; e nunca lhe pareceram tão picantes, como agora que os não via,

os seus cabellos ruivos, côr de braza ás luzes, d'um encrespado forte,

como crestados da chamma interna. A carapinha do preto, essa, em logar

de risca tinha um sulco cavado á thesoura na massa de lã espessa. Quem

seriam, por que estavam alli, aquelles africanos de perfil trombudo?

--Tu já reparaste n'esta extraordinaria carapinha, Cruges?

O outro, que se não mexera da sua attitude de estatua tumular, grunhiu

da sombra um monosyllabo surdo.

Carlos respeitou-lhe os nervos.

De repente, ao desafinar mais aspero d'um coro, Cruges deu um salto.

--Isto só a pontapé... Que empreza esta! rugio elle, envergando

furiosamente o paletot.

Carlos foi leval-o no coupé á rua das Flores, onde elle morava com a mãe

e uma irmã; e até ao Ramalhete não cessou de lamentar comsigo o seu

serão d'estudo perdido.

O creado de Carlos, o Baptista, (familiarmente, o _Tista_) esperava-o,

lendo o jornal, na confortavel antecamara dos «quartos do menino»,

forrada de velludo côr de cereja, ornada de retratos de cavallos e

panoplias de velhas armas, com divans do mesmo velludo, e muito

allumiada a essa hora por dois candieiros de globo pousados sobre

columnas de carvalho, onde se enrolavam lavores de ramos de vide.

Carlos tinha desde os onze annos este creado de quarto, que viera com o

Brown para S.^{ta} Olavia, depois de ter servido em Lisboa, na Legação

ingleza, e ter acompanhado o ministro, sir Hercules Morrisson, varias

vezes a Londres. Foi em Coimbra, nos Paços de Cellas, que Baptista

começou a ser um personagem: Affonso correspondia-se com elle de S.^{ta}

Olavia. Depois viajou com Carlos; enjoaram nos mesmos paquetes,

partilharam dos mesmos _sandwiches_ no buffete das gares; Tista

tornou-se um confidente. Era hoje um homem de cincoenta annos,

desempenado, robusto, com um collar de barba grisalha por baixo do

queixo, e o ar excessivamente _gentleman_. Na rua, muito direito na sua

sobrecasaca, com o par de luvas amarellas espetado na mão, a sua bengala

de cana da India, os sapatos bem envernisados, tinha a consideravel

apparencia de um alto funccionario. Mas conservava-se tão fino e tão

desembaraçado, como quando em Londres aprendera a walsar e a _boxar_ na

rude balburdia dos salões-dançantes, ou como quando mais tarde, durante

as ferias de Coimbra, acompanhava Carlos a Lamego e o ajudava a saltar o

muro do quintal do sr. escrivão de fazenda--aquelle que tinha uma mulher

tão garota.

Carlos foi buscar um livro ao gabinete d'estudo, entrou no quarto,

estendeu-se, cançado, n'uma poltrona. Á luz opalina dos globos, o leito

entre-aberto mostrava, sob a seda dos cortinados, um luxo effeminado de

bretanhas, bordados e rendas.

--Que ha hoje no _Jornal da Noite_? perguntou elle bocejando, em quanto

Baptista o descalçava.

--Eu li-o todo, meu senhor, e não me pareceu que houvesse cousa alguma.

Em França continúa socego... Mas a gente nunca póde saber, porque estes

jornaes portuguezes imprimem sempre os nomes estrangeiros errados.

--São umas bestas. O sr. Ega hoje estava furioso com elles...

Depois, em quanto Baptista preparava com esmero um _grog_ quente, Carlos

já deitado, aconchegado, abriu preguiçosamente o livro, voltou duas

folhas, fechou-o, tomou uma cigarette, e ficou fumando com as palpebras

cerradas, n'uma immensa beatitude. Atravéz das cortinas pesadas

sentia-se o sudoeste que batia o arvoredo, e os aguaceiros alagando os

vidros.

--Tu conheces os srs. condes de Gouvarinho, Tista?

--Conheço o Pimenta, meu senhor, que é creado de quarto do sr. conde...

Creado de quarto e serve a meza.

--E que diz então esse Tormenta? perguntou Carlos, n'uma voz indolente,

depois d'um silencio.

--Pimenta, meu senhor! O Manuel é Pimenta. O sr. Gouvarinho chama-lhe

Romão, por que estava acostumado ao outro creado que era Romão. E já

isto não é bonito, porque cada um tem o seu nome. O Manuel é Pimenta. O

Pimenta não está contente...

E Baptista, depois de collocar junto da cabeceira a salva com o _grog_,

o assucareiro, as cigarettes, transmittiu as revelações do Pimenta. O

conde de Gouvarinho, além de muito massador e muito pequinhento, não

tinha nada de cavalheiro: dera um fato de cheviot claro ao Romão (ao

Pimenta), mas tão coçado e tão cheio de riscas de tinta, de limpar a

penna á perna e ao hombro, que o Pimenta deitou o presente fóra. O conde

e a senhora não se davam bem: já no tempo do Pimenta, uma occasião, á

mesa, tinham-se pegado de tal modo que ella agarrou do copo e do prato,

e esmigalhou-os no chão. E outra qualquer teria feito o mesmo; por que o

sr. conde, quando começava a repisar, a remoer, não se podia aturar. As

questões eram sempre por causa de dinheiro. O Tompson velho estava farto

de abrir os cordões á bolsa...

--Quem é esse Tompson velho, que nos apparece agora, a esta hora da

noite? perguntou Carlos, a seu pesar interessado.

--O Tompson velho é o pae da sr.^a condessa. A sr.^a condessa era uma

miss Tompson, dos Tompson do Porto. O sr. Tompson não tem querido

ultimamente emprestar nem mais um real ao genro: de sorte que, uma vez,

já no tempo do Pimenta tambem, o sr. conde, furioso, disse á senhora que

ella e o pae se deviam lembrar que eram gente de commercio e que fora

elle que fizera d'ella uma condessa; e com perdão de v. ex.^a, a senhora

condessa ali mesmo á mesa mandou o condado á tabúa... Estas cousas não

estão no genero do Pimenta.

Carlos bebeu um gole de grog. Bailava-lhe nos labios uma pergunta, mas

hesitava. Depois reflectiu na puerilidade de tão rigidos escrupulos, a

respeito d'uma gente, que ao jantar, diante do escudeiro, quebrava a

porcelana, mandava á tabua o titulo dos antepassados. E perguntou:

--Que diz o sr. Pimenta da senhora condessa, Baptista? Ella diverte-se?

--Creio que não, meu senhor. Mas a creada de confiança d'ella, uma

escosseza, essa é desobstinada. E não fica bem á senhora condessa ser

assim tão intima com ella...

Houve um silencio no quarto, a chuva cantou mais forte nos vidros.

--Passando a outro assumpto, Baptista. Vamos a saber, ha quanto tempo,

não escrevo eu a madame Rughel?

Baptista tirou do bolso interior da sua casaca um livro de apontamentos,

aproximou-se da luz, encavalou a luneta no nariz, e verificou, com

methodo, estas datas:--«Dia 1 de janeiro, telegramma expedido com

felicitações do começo d'anno a madame Rughel, Hotel d'Albe, Champs

Élyseés, Paris. Dia 3, telegramma recebido de madame Rughel,

reciprocando comprimentos, exprimindo amizade, annunciando partida para

Hamburgo. Dia 15, carta lançada ao correio, para madame Rughel,

_William-Strasse, Hamburgo, Allemagne_. Depois--mais nada. De modo que

havia já cinco semanas que o menino não escrevia a madame Rughel...

--É necessario escrever ámanhã, disse Carlos..

Baptista tomou uma nota.

Depois, entre uma fumaça languida, a voz de Carlos ergueu-se de novo na

paz dormente do quarto:

--Madame Rughel era muito bonita, não é verdade, Baptista? É a mulher

mais bonita que tu tens visto na tua vida!

O velho creado metteu o livro no bolso da casaca, e respondeu, sem

hesitar, muito certo de si:

--Madame Rughel era uma senhora de muita vista. Mas a mulher mais linda

em que tenho posto os olhos, se o menino dá licença, era aquella senhora

do coronel de hussards que vinha ao quarto do hotel em Vienna.

Carlos atirou a cigarette para a salva--e escorregando pela roupa

abaixo, todo invadido por uma onda de recordações alegres, exclamou da

profundidade do seu conforto, no antigo tom de emphase bohemia dos Paços

de Cellas.

--O sr. Baptista não tem gosto nenhum! Madame Rughel era uma nympha de

Rubens, senhor! Madame Rughel tinha o explendor d'uma deusa da

Renascença, senhor! Madame Rughel devia ter dormido no leito imperial de

Carlos Quinto...--Retire-se, senhor!

Baptista entalou mais o _couvre-pieds_, relanceou pelo quarto um olhar

solicito, e, contente, da ordem em que as cousas adormeciam, saíu,

levando o candieiro. Carlos não dormia: e não pensava na coronela de

hussards, nem em madame Rughel. A figura que no escuro dos cortinados

lhe apparecia, n'um vago dourado que provinha do reflexo de seus

cabellos soltos, era a Gouvarinho--a Gouvarinho que não tinha o

explendor d'uma deusa da Renascença como madame Rughel, nem era a mulher

mais linda em que Baptista pozera os seus olhos como a coronela de

hussards: mas, com o seu nariz petulante e a sua boca grande, brilhava

mais e melhor que todas na imaginação de Carlos--porque elle esperara-a

essa noite e ella não tinha apparecido.

Na terça-feira promettida Ega não veiu buscar Carlos para se irem

_gouvarinhar_. E foi Carlos que d'ahi a dias, entrando como por acaso no

_Universal_, perguntou rindo ao Ega:

--Então quando nos _gouvarinhamos_?

N'essa noite, em S. Carlos, n'um entre-acto dos _Huguenotes_, Ega

apresentou-o ao sr. conde de Gouvarinho, no corredor das frizas. O

conde, muito amavel, lembrou logo que já tivera, mais de uma vez, o

prazer de passar pela porta de S.^{ta} Olavia, quando ia vêr os seus

velhos amigos, os Tedins, a Entre-Rios--uma formosa vivenda tambem.

Fallaram então do Douro, da Beira, compararam outras paisagens. Para o

conde, nada havia, no nosso Portugal, como os campos do Mondego: mas a

sua parcialidade era perdoavel, pois n'esses ferteis vales nascera e se

creara: e fallou um momento de Formozelha, onde tinha casa, onde vivia

edosa e doente sua mãe, a sr.^a condessa viuva...

Ega, que affectara beber as palavras do conde, começou então uma

controversia, sustentando como se se tratasse dos dogmas d'uma fé, a

belleza superior do Minho, «esse paraiso idillico.» O conde sorria: via

ali, como elle observou a Carlos, batendo amavelmente no hombro do Ega,

a rivalidade das duas provincias. Emulação fecunda, de resto, no seu

pensar...

--Ahi está, por exemplo, dizia elle, o ciume entre Lisboa e Porto. É uma

verdadeira dualidade como a que existe entre a Hungria e a Austria...

Ouço por ali lamental-a. Pois bem, eu, se fosse poder, instigal-a-hia,

acirral-a-hia, se v. ex.^{as} me permittem a expressão. N'esta lucta das

duas grandes cidades do reino, podem outros vêr despeitos mesquinhos, eu

vejo elementos de progresso. Vejo civilisação!

Proferia estas cousas como do alto d'um pedestal, muito acima dos

homens, deixando-as providamente caír dos thesouros do seu intellecto á

maneira de dons inestimaveis. A voz era lenta e rotunda; os cristaes da

sua luneta d'ouro faiscavam vistosamente; e no bigode encerado, na pera

curta, havia ao mesmo tempo alguma cousa de doutoral e de casquilho.

Carlos dizia: «Tem v. ex.^a razão, sr. conde.» O Ega dizia: «Você vê

essas cousas d'alto, Gouvarinho». Elle cruzara as mãos por baixo das

abas da casaca--e estavam todos tres muito serios.

Depois o conde abriu a porta da friza, Ega desappareceu. E d'ahi a um

momento, Carlos, apresentado como «visinho de camarote», recebia da

sr.^a condessa um grande _shake-hand_, em que tilintaram uma infinidade

d'aros de prata e de _blangles_ indios sobre a sua luva preta de doze

botões.

A sr.^a condessa, um pouco corada, ligeiramente nervosa, lembrou logo a

Carlos que o vira no verão passado em Paris, no salão baixo do Café

Inglez: até por signal estava n'essa noite um velho abominavel com duas

garrafas vazias diante de si, e contando alto, para uma meza defronte,

historias horrorosas do sr. Gambetta: um sujeito ao lado protestou; o

outro não fez caso, era o velho duque de Grammont. O conde passou os

dedos lentos pela testa, com um ar quasi angustioso: não se lembrava de

nada d'isso! Queixou-se logo amargamente da sua falta de memoria. Uma

cousa tão indispensavel em quem segue a vida publica, a memoria! e elle

desgraçadamente, não possuia nem um atomo. Por exemplo, lera (como todo

o homem devia lêr) os vinte volumes da _Historia Universal de Cesar

Cantu_; lêra-os com attenção, fechado no seu gabinete, absorvendo-se na

obra. Pois, senhores, escapara-lhe tudo--e ali estava sem saber

historia!

--V. ex.^a tem boa memoria, sr. Maia?

--Tenho uma rasoavel memoria.

--Inapreciavel bem de que goza!

A condessa voltara-se para a platéa, coberta com o leque, com o ar

constrangido, como se aquellas palavras pueris do marido a diminuissem,

a desfeiassem... Carlos então fallou da opera. Que bello escudeiro

huguenote fazia o Pandolli! A condessa não aturava o Corcelli, o tenor,

com as suas notas asperas e aquella obesidade que o tornava _buffo_. Mas

tambem (lembrava Carlos) onde havia hoje tenores? Passara essa grande

raça dos Marios, homens de belleza, de inspiração, realisando os grandes

typos lyricos. Nicolini era já uma degeneração... Isto fez lembrar a

Patti. A condessa adorava-a, e a sua graça de fada, e a sua voz

semelhante a uma chuva d'ouro!...

Os olhos brilhavam-lhe, diziam mil cousas; em certos movimentos, o

cabello crespamente ondeado, tomava tons de oiro vermelho: e em torno

d'ella errava, no calor do gaz e da enchente, um aroma exagerado de

verbena. Estava de preto, com uma gargantilha, de rendas negras, á

Valois, affogando-lhe o pescoço onde pousavam duas rosas escarlates. E

toda a sua pessoa tinha um arsinho de provocação e de ataque. De pé,

callado, grave, o conde batia a coxa com a claque fechada.

O quarto acto começara, Carlos ergueu-se; e os seus olhos encontraram

defronte, na frisa do Cohen, o Ega, de binoculo, observando-o, mirando a

condessa e fallando a Rachel, que sorria, movia o leque com um ar

dolente e vago.

--Nós recebemos ás terças feiras, disse a condessa a Carlos--e o resto

da phrase perdeu-se n'um murmurio e n'um sorriso.

O conde acompanhou-o fóra, ao corredor.

--É sempre uma honra para mim, dizia elle caminhando ao lado de Carlos,

fazer o conhecimento das pessoas que valem alguma cousa n'este paiz ...

V. ex.^a é d'esse numero, bem raro infelizmente.

Carlos protestou, risonho. E o outro, na sua voz lenta e rotunda:

--Não o lisongeio. Eu nunca lisongeio... Mas a v. ex.^a podem-se dizer

estas cousas, porque pertence á _elite_: a desgraça de Portugal é a

falta de gente, Isto é um paiz sem pessoal. Quer-se um bispo? Não ha um

bispo. Quer-se um economista? Não ha um economista. Tudo assim! Veja v.

ex.^a mesmo nas profissões subalternas. Quer-se um bom estofador? Não ha

um bom estofador...

Um cheio de instrumentos e vozes, d'um tom sublime, passando pela porta

da frisa entreaberta, cortou-lhe umas ultimas palavras sobre a

defficiencia dos photographos... Escutou, com a mão no ar:

--É o _coro dos punhaes_, não? Ah vamos a ouvir... Ouve-se sempre isto

com proveito. Ha philosophia n'esta musica... É pena que lembre tão

vivamente os tempos da intolerancia religiosa, mas ha alli

incontestavelmente philosophia!

VI

Carlos, n'essa manhã, ia visitar de surpreza a casa do Ega, a famosa

«Villa Balzac», que esse phantasista andára meditando e dispondo desde a

sua chegada a Lisboa, e onde se tinha emfim installado.

Ega dera-lhe esta denominação litteraria, pelos mesmos motivos porque a

alugára n'um suburbio longiquo, na solidão da Penha de França,--para que

o nome de Balzac, seu padroeiro, o silencio campestre, os ares limpos,

tudo alli fosse favoravel ao estudo, ás horas d'arte e d'ideal. Por que

ia fechar-se lá, como n'um claustro de lettras, a findar as _Memorias

d'um Atomo!_ Sómente, por causa das distancias, tinha tomado ao mez um

coupé da companhia.

Carlos teve difficuldades em encontrar a «Villa Balzac»: não era, como

tinha dito Ega no Ramalhete, logo adiante do largo da Graça um

_chaletsinho_ retirado, fresco, assombreado, sorrindo entre arvores.

Passava-se primeiro a Cruz dos Quatro Caminhos; depois penetrava-se

n'uma vereda larga, entre quintaes, descendo pelo pendor da collina, mas

accessivel a carruagens; e ahi, n'um recanto, ladeada de muros,

apparecia emfim uma cazota de paredes enxovalhadas, com dois degraus de

pedra á porta, e transparentes novos d'um escarlate estridente.

N'essa manhã, porém, debalde Carlos deu puxões desesperados á corda da

campainha, martellou a aldrava da porta, gritou a toda a voz por cima do

muro do quintal e das copas das arvores o nome do Ega:--a «Villa Balzac»

permaneceu muda, como deshabitada, no seu retiro rustico. E todavia

pareceu a Carlos que, justamente antes de bater, ouvira o estalar de

rolhas de _Champagne_.

Quando Ega soube esta tentativa, mostrou-se indignado com os criados,

que assim abandonavam a casa, lhe davam um ar suspeito de Torre de

Nesle...

--Vae lá ámanhã, se ninguem responder, escala as janellas, pega fogo ao

predio, como se fossem apenas as Tulherias.

Mas no dia seguinte, quando Carlos chegou, já a «Villa Balzac» o

esperava, toda em festa: á porta «o pagem», um garoto de feições

horrívelmente viciosas, perfilava-se na sua jaqueta azul de botões de

metal, com uma gravata muito branca e muito teza; as duas janellas em

cima, abertas, mostrando o reps verde das bambinellas, bebiam á larga

todo o ar do campo e o sol de inverno: e no topo da estreita escada,

tapetada de vermelho, Ega, n'um prodigioso robe-de-chambre, de um estofo

adamascado do seculo dezoito, vestido de côrte de alguma das suas avós,

exclamou dobrando a fronte ao chão:

--Bem vindo, meu principe, ao humilde tegurio do philosopho!

Ergueu, com um gesto rasgado, um reposteiro de reps verde, d'um verde

feio e triste, e introduziu o «principe» na sala onde tudo era verde

tambem: o reps que recobria uma mobilia de nogueira, o tecto de taboado,

as listas verticaes do papel da parede, o pano franjado da mesa, e o

reflexo d'um espelho redondo, inclinado sobre o sophá.

Não havia um quadro, uma flôr, um ornato, um livro--apenas sobre a

jardineira uma estatueta de Napoleão I, de pé, equilibrado sobre o orbe

terrestre, n'essa conhecida attitude em que o heroe, com um ar pansudo e

fatal, esconde uma das mãos por traz das costas, e enterra a outra nas

profundidades do seu collete. Ao lado uma garrafa de _Champagne_,

encarapuçada de papel dourado, esperava entre dois copos esguios.

--Para que tens tu aqui Napoleão, John?

--Como alvo de injurias, disse Ega. Exercito-me sobre elle a fallar dos

tyrannos...

Esfregou as mãos, radiante. Estava n'essa manhã em alegria e em verve. E

quiz immediatamente mostrar a Carlos o seu quarto de cama: ahi reinava

um cretone de ramagens alvadias sobre fundo vermelho; e o leito enchia,

esmagava tudo. Parecia ser o motivo, o centro da «Villa Balzac»; e

n'elle se esgotara a imaginação artistica do Ega. Era de madeira, baixo

como um divan, com a barra alta, um roda-pé de renda, e d'ambos os lados

um luxo de tapetes de felpo escarlate; um largo cortinado de seda da

India avermelhada envolvia-o n'um apparato de tabernaculo; e dentro, á

cabeceira, como n'um lupanar, reluzia um espelho.

Carlos, muito seriamente, aconselhou-lhe que tirasse o espelho. Ega deu

a todo o leito um olhar silencioso e dôce, e disse depois de passar uma

pontinha de lingua pelo beiço:

--Tem seu chic...

Sobre a mesinha de cabeceira erguia-se um montão de livros: a _Educação_

de Spencer ao lado de Beaudelaíre, a _Logica_ de Stuart Mill por cima do

_Cavalleiro da Casa Vermelha_. No marmore da commoda havia outra garrafa

de Champagne entre dous copos; o toucador, um pouco em desordem,

mostrava uma enorme caixa de pó d'arroz no meio de plastrons e gravatas

brancas do Ega, e um masso de ganchos do cabello ao lado de ferros de

frisar.

--E onde trabalhas tu, Ega, onde fazes tu a grande arte?

--Alli! disse o Ega, alegremente, apontando para o leito.

Mas foi mostrar logo o seu recantosinho estudioso, formado por um

biombo, ao lado da janella, e tomado todo por uma mesa de pé de gallo,

onde Carlos assombrado descobriu, entre o bello papel de cartas do Ega,

um _Diccionario de Rimas_...

E a visita á casa continuou.

Na sala de jantar, quasi nua, caiada de amarello, um armario de pinho

envidraçado abrigava melancolicamente um serviço barato de louça nova; e

do fecho da janella pendia um vestuario vermelho, que parecia roupão de

mulher.

--É sobrio e simples--exclamou o Ega--como compete áquelle que se

alimenta d'uma codea d'Ideal e duas garfadas de Philosophia. Agora, á

cosinha!...

Abriu uma porta. Uma frescura de campos entrava pelas janellas abertas;

e entreviam-se arvores de quintal, um verde de terrenos vagos, depois lá

em baixo o branco de casarias rebrilhando ao sol; uma rapariga muito

sardenta e muito forte sacudiu o gato do collo, ergueu-se, com o _Jornal

de Noticias_ na mão. Ega apresentou-a, n'um tom de farça:

--A sr.^a Josepha, solteira, de temperamento sanguineo, artista

culinaria da «Villa Balzac», e como se póde observar pelo papel que lhe

pende das garras, cultora das boas letras!

A moça sorria, sem embaraço, habituada de certo a estas familiaridades

bohemias.

--Eu hoje não janto cá, senhora Josepha, continuava o Ega no mesmo tom.

Este formoso mancebo que me acompanha, duque do Ramalhete, e principe de

Santa Olavia, dá hoje de papar ao seu amigo e philosopho... E, como

quando eu recolher, talvez a senhora Josepha esteja entregue ao somno da

innocencia, ou á vigilia da devassidão, aqui lhe ordeno que me tenha

amanhã para meu _lunch_ duas formosas perdizes.

E subitamente, n'uma outra voz, com um olhar que ella devia perceber:

--Duas perdizesinhas bem assadas e bem córadinhas. Frias, está claro...

O costume.

Travou do braço de Carlos, voltaram á sala.

--Com franqueza, Carlos, que te parece a «Villa Balzac»?

Carlos respondeu como a respeito do episodio da _Hebrea_:

--Está ardente.

Mas elogiou o aceio, a vista da casa e a frescura dos cretones. De

resto, para um rapaz, para uma cella de trabalho...

--Eu, dizia o Ega, passeiando pela sala, com as mãos enterradas nos

bolsos do seu prodigioso robe de chambre, eu não tolero o _bibelot_, o

_bric-à-brac_, a cadeira archeologica, essas mobilias d'arte... Que

diabo, o movel deve estar em harmonia com a idéa e o sentir do homem que

o usa! Eu não penso, nem sinto como um cavalleiro do seculo XVI, para

que me hei de cercar de cousas do seculo XVI? Não ha nada que me faça

tanta melancolia, como ver n'uma sala um veneravel contador do tempo de

Francisco I recebendo pela face conversas sobre eleições e altas de

fundos. Faz-me o effeito d'um bello heroe de armadura d'aço, viseira

cahida e crenças profundas no peito, sentado a uma mesa de voltarete a

jogar copas. Cada seculo tem o seu genio proprio e a sua attitude

propria. O seculo XIX concebeu a Democracia e a sua attitude é

esta...--E enterrando-se d'estalo n'uma poltrona, espetou as pernas

magras para o ar.--Ora esta attitude é impossivel n'um escabello do

tempo do Prior do Crato. Menino, toca a beber o _Champagne_.

E como Carlos olhava a garrafa desconfiado, Ega accudiu:

--É excellente, que pensas tu? Vem directamente da melhor casa

d'Epernay, arranjou-m'o o Jacob.

--Que Jacob?

--O Jacob Cohen, o Jacob.

Ia cortar as guitas da rolha, quando o atravessou uma subita recordação,

e pousando a garrafa outra vez, entalando o monocolo no olho:

--É verdade! Então, n'outro dia, que tal, em casa dos Gouvarinhos? Eu

infelizmente não poude ir.

Carlos contou a _soirée_. Havia dez pessoas, espalhadas pelas duas

salas, n'um zum-zum dormente, á meia luz dos candieiros. O conde

massara-o indiscretamente com a politica, admirações idiotas por um

grande orador, um deputado de Mesão Frio, e explicações sem fim sobre a

reforma da instrucção. A condessa, que estava muito constipada,

horrorisou-o, dando sobre a Inglaterra, apesar de ingleza, as opiniões

da rua de Cedofeita. Imaginava que a Inglaterra é um paiz sem poetas,

sem artistas, sem ideaes, occupando-se só de amontoar libras... Emfim,

seccara-se.

--Que diabo! murmurou o Ega n'um tom de viva desconsolação.

A rolha estalou, elle encheu os copos em silencio; e n'uma _saude_ muda

os dois amigos beberam o _Champagne_--que Jacob arranjara ao Ega, para o

Ega se regalar com Rachel.

Depois, de pé, com os olhos no tapete, agitando de vagar o copo

novamente cheio onde a espuma morria, Ega tornou a murmurar, n'aquella

entoação triste de inesperado desapontamento:

--Que ferro!...

E após um momento:

--Pois menino, pensei que a Gouvarinho te appetecía...

Carlos confessou que nos primeiros dias, quando Ega lhe fallara d'ella,

tivera um caprichosinho, interessara-se por aquelles cabellos côr de

brasa...

--Mas agora, mal a conheci, o capricho foi-se...

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 10 / 53 段