Mas era tarde, ía-se agasalhar, recolher, depois de acabar a sua

chasada. O marquez ainda se demorou, preguiçando no sophá, enchendo

lentamente o cachimbo, dando um olhar áquella sala que o encantava com o

seu luxo Luiz XV, os seus florídos e os seus dourados, as cerimoniosas

poltronas de Beauvais feitas para a amplidão das anquinhas, as

tapeçarias de Gobelins de tons desmaiados, cheias de galantes pastoras,

longes de parques, laços e lãs de cordeiros, sombras d'idyllios mortos,

transparecendo n'uma trama de seda... Áquella hora, no adormecimento que

ía pesando, sob a luz suave e quente das velas que findavam, havia ali a

harmonia e o ar de um outro seculo: e o marquez reclamou do Cruges um

minuete, uma gavotta, alguma cousa que evocasse Versalhes, Maria

Antonietta, o rythmo das bellas maneiras e o aroma dos empoados. Cruges

deixou morrer sob os dedos a melodia vaga que estava diluindo em

suspiros, preparou-se, alargou os braços--e atacou, com um pedal

solemne, o _Hymno da Carta_. O marquez fugiu.

Villaça e Euzebiozinho conversavam no corredor, sentados n'uma das arcas

baixas de carvalho lavrado.

--A fazer politica? perguntou-lhes o marquez ao passar.

Ambos sorriram; Villaça respondeu jocosamente:

--É necessario salvar a patria!

Eusebio pertencia tambem ao centro progressista, aspirava a influencia

eleitoral no circulo de Resende, e alli ás noites no Ramalhete faziam

conciliabulos. N'esse momento porém fallavam dos Maias: Villaça não

duvidava confiar ao Silveirinha, homem de propriedade, visinho de

S.^{ta} Olavia, quasi creado com Carlos, certas cousas que lhe

desagradavam na casa, onde a auctoridade da sua palavra parecia

diminuir; assim, por exemplo, não podia approvar o ter Carlos tomado uma

frisa de assignatura.

--Para que, exclamava o digno procurador, para que, meu caro senhor?

Para lá não pôr os pés, para passar aqui as noites... Hoje diz que ha

enthusiasmo, e elle ahi esteve. Tem ido lá, eu sei? duas ou três

vezes... E para isto dá cá uns poucos de centos de mil réis. Podia fazer

o mesmo com meia duzia de libras! Não, não é governo. No fim a frisa é

para o Ega, para o Taveira, para o Cruges... Olhe, eu não me utiliso

d'ella; nem o amigo. É verdade, que o amigo está de luto.

Eusebio pensou, com despeito, que se podia metter para o fundo da

frisa--se tivesse sido convidado. E murmurou, sem conter um sorriso

molle:

--Indo assim, até se podem encalacrar...

Uma tal palavra, tão humilhante, applicada aos Maias, á casa que elle

administrava, escandalisou Villaça. Encalacrar! Ora essa!

--O amigo não me comprehendeu... Ha despezas inuteis, sim, mas, louvado

Deus, a casa póde bem com ellas! É verdade que o rendimento gasta-se

todo, até o ultimo ceitil; os cheques voam, voam, como folhas seccas; e

até aqui o costume da casa foi pôr de lado, fazer bolo, fazer reserva.

Agora o dinheiro derrete-se...

Eusebio rosnou algumas palavras sobre os trens de Carlos, os nove

cavallos, o cocheiro inglez, os grooms... O procurador acudiu:

--Isso, amigo, é de razão. Uma gente d'estas deve ter a sua

representação, as suas cousas bem montadas. Ha deveres na sociedade... É

como o sr. Affonso... Gasta muito, sim, come dinheiro. Não é com elle,

que lhe conheço aquelle casaco ha vinte annos... Mas são esmolas, são

pensões, são emprestimos que nunca mais vê...

--Desperdicios...

--Não lh'o censuro... É o costume da casa; nunca da porta dos Maias, já

meu pae dizia, sahiu ninguem descontente... Mas uma frisa, de que

ninguem usa! só para o Cruges, só para o Taveira!...

Teve de se callar. Justamente ao fundo do corredor assomava o Taveira,

abafado até aos olhos na gola d'uma ulster, d'onde sahiam as pontas d'um

_cachenez_ de seda clara. O escudeiro desembaraçou-o dos agasalhos; e

elle, de casaca e collete branco, limpando o bonito bigode humido da

geada, veiu apertar a mão ao caro Villaça, ao amigo Eusebio, arrepiado,

mas achando o frio elegante, desejando a neve e o seu _chic_...

--Nada, nada, dizia Villaça todo amavel, cá o nosso solzinho portuguez

sempre é melhor...

E foram entrando no _fumoir_, onde se ouviam as vozes do marquez, de

Carlos, n'uma das suas sabias e prolixas cavaqueiras sobre cavallos e

sport.

--Então? que tal? A mulher? foi a interrogação que acolheu o Taveira.

Mas antes de dar noticia da estreia da Morelli, a dama nova, Taveira

reclamou alguma cousa quente. E enterrado n'uma poltrona junto do fogão,

com os sapatos de verniz estendidos para as brazas, respirando o aroma

do punch, saboreando uma cigarette, declarou emfim que não tinha sido um

_fiasco_.

--Que ella, a meu vêr, é uma insignificancia, não tem nada, nem voz, nem

escola. Mas, coitada, estava tão atrapalhada, que nos fez pena. Houve

indulgencia, deram-se-lhe umas palmas... Quando fui ao palco, ella

estava contente...

--Vamos a saber, Taveira, que tal é ella? inquiria o marquez.

--Cheia, dizia o Taveira collocando as palavras como pinceladas; alta;

muito branca; bons olhos; bons dentes...

--E o pésinho?--E o marquez, já com os olhos accesos, passava de vagar a

mão pela calva.

Taveira não reparara no pé. Não era amador de pés...

--Quem estava? perguntou Carlos, indolente e bocejando.

--A gente do costume... É verdade, sabes quem tomou a frisa ao lado da

tua? Os Gouvarinhos. Lá appareceram hoje...

Carlos não conhecia os Gouvarinhos. Em redor explicaram-lhe: o conde de

Gouvarinho, o par do reino, um homem alto, de lunetas, _poseur_... E a

condessa, uma senhora inglesada, de cabello côr de cenoura, muito bem

feita... Emfim, Carlos não conhecia.

Villaça encontrava o conde no centro progressista, onde elle era uma

columna do partido. Rapaz de talento, segundo o Villaça. O que o

espantava é que elle podesse ter assim frisa de assignatura, atrapalhado

como estava: ainda não havia tres mezes lhe tinham protestado uma letra

de oitocentos mil réis, no tribunal do commercio...

--Um asno, um caloteiro! disse o marquez com nojo.

--Passa-se lá bem, ás terças feiras...--disse Taveira, mirando a sua

meia de seda.

Depois fallou-se do duello do Azevedo da _Opinião_ com o Sá Nunes,

auctor d'_El-Rei Bolacha_, a grande magica da Rua dos Condes, e

ultimamente ministro da marinha: tinham-se tratado furiosamente nos

jornaes de _pulhas_ e de _ladrões_: e havia dez interminaveis dias que

estavam desafiados e que Lisboa, em pasmaceira, esperava o sangue.

Cruges ouvira que Sá Nunes não se queria bater, por estar de luto por

uma tia; dizia-se tambem que o Azevedo partira precipitadamente para o

Algarve. Mas a verdade, segundo Villaça, era que o ministro do reino,

primo do Azevedo, para evitar o recontro, conservava a casa dos dois

cavalheiros bloqueada pela policia...

--Uma canalha! exclamou o marquez com um dos seus resumos brutaes que

varriam tudo.

--O ministro não deixa de ter razão, observou Villaça. Isto ás vezes, em

duellos, póde bem succeder uma desgraça...

Houve um curto silencio. Carlos, que caía de somno, perguntou ao

Taveira, atravez d'outro bocejo, se vira o Ega no theatro.

--Podera! La estava de serviço, no seu posto, na frisa dos Cohens, todo

puxado...

--Então essa cousa do Ega com a mulher do Cohen, disse o marquez, parece

clara...

--Transparente, diaphana! um crystal!...

Carlos, que se erguera a accender uma cigarette para despertar, lembrou

logo a grande maxima de D. Diogo: essas cousas nunca se sabiam, e era

preferivel não se saberem! Mas o marquez, a isto, lançou-se em

considerações pesadas. Estimava que o Ega _se atirasse_; e via ahi um

facto de represalia social, por o Cohen ser judeu e banqueiro. Em geral

não gostava de judeus; mas nada lhe offendia tanto o gosto e a razão

como a especie _banqueiro_. Comprehendia o salteador de clavina, n'um

pinheiral; admittia o communista, arriscando a pelle sobre uma

barricada. Mas os argentarios, os _Fulanos e C.^{as}_ faziam-n'o

encavacar... E achava que destruir-lhes a paz domestica era acto

meritorio!

--Duas horas e um quarto! exclamou Taveira, que olhara o relogio. E eu

aqui, empregado publico, tendo deveres para com o Estado, logo ás dez

horas da manhã.

--Que diabo, se faz no tribunal de contas? perguntou Carlos. Joga-se?

Cavaquea-se?

--Faz-se um bocado de tudo, para matar tempo... Até contas!

Affonso da Maia já estava recolhido. Sequeira e Steinbroken tinham

partido; e D. Diogo, no fundo da sua velha traquitana, lá fôra tambem a

tomar ainda gemada, a pôr ainda o emplastro, sob o olho solicito da

Margarida, sua cozinheira e seu derradeiro amor. E os outros não

tardaram a deixar o Ramalhete. Taveira, de novo sepultado na _ulster_,

trotou até casa, uma vivendasinha perto com um bonito jardim. O marquez

conseguiu levar Cruges no _coupé_, para lhe ir fazer musica a casa, no

orgão, até ás tres ou quatro horas, musica religiosa e triste, que o

fazia chorar, pensando nos seus amores e comendo frango frio com fatias

de salame. E o viuvo, o Eusebiosinho, esse, batendo o queixo, tão morosa

e soturnamente como se caminhasse para a sua propria sepultura, lá se

dirigiu ao lupanar onde tinha uma _paixão_.

O laboratorio de Carlos estava prompto--e muito convidativo, com o seu

soalho novo, fornos de tijolo fresco, uma vasta meza de marmore, um

amplo divan de clina para o repouso depois das grandes descobertas, e em

redor, por sobre peanhas e prateleiras, um rico brilho de metaes e

crystaes; mas as semanas passavam, e todo esse bello material de

experimentação, sob a luz branca da claraboia, jazia virgem e ocioso. Só

pela manhã um servente ía ganhar o seu tostão diario, dando lá uma volta

preguiçosa com um espanador na mão.

Carlos realmente não tinha tempo de se occupar do laboratorio; e

deixaria a Deus mais algumas semanas o privilegio exclusivo de saber o

segredo das cousas--como elle dizia rindo ao avô. Logo pela manhã cedo

ía fazer as suas duas horas d'armas com o velho Randon; depois via

alguns doentes no bairro onde se espalhara, com um brilho de legenda, a

cura da Marcellina--e as garrafas de Bordeus que lhe mandara Affonso.

Começava a ser conhecido como medico. Tinha visitas no

consultorio--ordinariamente bachareis, seus contemporaneos, que

sabendo-o rico o consideravam gratuito, e lá entravam, murchos e com má

cara, a contar a velha e mal disfarçada historia de ternuras funestas.

Salvara d'um garrotilho a filha d'um brazileiro, ao Aterro--e ganhara

ahi a sua primeira libra, a primeira que pelo seu trabalho ganhava um

homem da sua familia. O dr. Barbedo convidara-o a assistir a uma

operação ovariotomica. E emfim (mas esta consagração não a esperava

realmente Carlos tão cedo) alguns dos seus bons collegas, que até ahi,

vendo-o só a governar os seus cavallos inglezes, fallavam do «talento do

Maia»--agora percebendo-lhe estas migalhas de clientella, começavam a

dizer «que o Maia era um asno.» Carlos já fallava a serio da sua

carreira. Escrevera, com laboriosos requintes d'estylista, dois artigos

para a _Gazeta Medica_; e pensava em fazer um livro d'idéas geraes, que

se devia chamar _Medicina Antiga e Moderna_. De resto occupava-se sempre

dos seus cavallos, do seu luxo, do seu bric-a-brac. E atravez de tudo

isto, em virtude d'essa fatal dispersão de curiosidade que, no meio do

caso mais interessante de pathologia, lhe fazia voltar a cabeça, se

ouvia fallar d'uma estatua ou d'um poeta, attrahia-o singularmente a

antiga idéa do Ega, a creação d'uma Revista, que dirigisse o gosto,

pezasse na politica, regulasse a sociedade, fosse a força pensante de

Lisboa...

Era porém inutil lembrar ao Ega este bello plano. Abria um olho vago,

respondia:

--Ah, a Revista... Sim, está claro, pensar n'isso! Havemos de fallar, eu

apparecerei...

Mas não apparecia no Ramalhete, nem no consultorio; apenas se avistavam,

ás vezes, em S. Carlos, onde o Ega, todo o tempo que não passava no

camarote dos Cohens, vinha invariavelmente refugiar-se no fundo da frisa

de Carlos, por trás de Taveira ou do Cruges; d'onde podesse olhar de vez

em quando Rachel Cohen--e ali ficava, silencioso, com a cabeça appoiada

ao tabique, repousando e como saturado de felicidade...

O dia (dizia elle) tinha-o todo tomado: andava procurando casa, andava

estudando mobilias... Mas era facil encontral-o pelo Chiado e pelo

Loreto, a rondar e a farejar--ou então no fundo de tipoias de praça,

batendo a meio galope, n'um espalhafato de aventura.

O seu dandysmo requintava; arvorara, com o desplante soberbo d'um

Brummel, casaca de botões amarellos sobre collete de setim branco; e

Carlos entrando uma manhã cedo no _Universal_, deu com elle pallido de

colera, a despropositar com um creado, por causa d'uns sapatos mal

envernisados. Os seus companheiros constantes, agora, eram um Damaso

Salcede, amigo do Cohen, e um primo da Rachel Cohen, mocinho imberbe,

d'olho esperto e duro, já com ares de emprestar a trinta por cento.

Entre os amigos, no Ramalhete, sobretudo na frisa, discutia-se ás vezes

Rachel, e as opiniões discordavam. Taveira achava-a «deliciosa!»--e

dizia-o rilhando o dente: ao marquez não deixava de parecer appetitosa,

para uma vez, aquella carnezinha _faisandée_ de mulher de trinta annos:

Cruges chamava-lhe uma «lambisgoia relamboria». Nos jornaes, na secção

do _High-life_, ella era «uma das nossas primeiras elegantes»: e toda a

Lisboa a conhecia, e a sua luneta d'ouro presa por um fio d'ouro, e a

sua caleche azul com cavallos pretos. Era alta, muito pallida, sobre

tudo ás luzes, delicada de saude, com um quebranto nos olhos pisados,

uma infinita languidez em toda a sua pessoa, um ar de romance e de lyrio

meio murcho: a sua maior belleza estava nos cabellos, magnificamente

negros, ondeados, muito pesados, rebeldes aos ganchos, e que ella

deixava habilmente cahir n'uma massa meia solta sobre as costas, como

n'um desalinho de nudez. Dizia-se que tinha litteratura, e fazia

phrases. O seu sorriso lasso, pallido, constante, dava-lhe um ar de

insignificancia. O pobre Ega adorava-a.

Conhecera-a na Foz, na Assembléa; n'essa noite, cervejando com os

rapazes, ainda lhe chamou _camelia melada_; dias depois já adulava o

marido; e agora esse demagogo, que queria o massacre em massa das

classes medias, soluçava muita vez por causa d'ella, horas inteiras,

cahido para cima da cama.

Em Lisboa, entre o Gremio e a Casa Havaneza, já se começava a fallar «do

arranjinho do Ega». Elle todavia procurava pôr a sua felicidade ao

abrigo de todas as suspeitas humanas. Havia nas suas complicadas

precauções tanta sinceridade como prazer romantico do mysterio: e era

nos sitios mais desageitados, fóra de portas, para os lados do

Matadouro, que ía furtivamente encontrar a creada que lhe trazia as

cartas d'ella... Mas em todos os seus modos (mesmo no disfarce affectado

com que espreitava as horas) transbordava a immensa vaidade d'aquelle

adulterio elegante. De resto sentia bem que os seus amigos conheciam a

gloriosa aventura, o sabiam em pleno drama: era mesmo talvez por isso,

que, diante de Carlos e dos outros, nunca até ahi mencionara o nome

d'ella, nem deixara jámais escapar um lampejo de exaltação.

Uma noite, porém, acompanhando Carlos até ao Ramalhete, noite de lua

calma e branca, em que caminhavam ambos callados, Ega, invadido decerto

por uma onda interior de paixão, soltou desabafadamente um suspiro,

alargou os braços, declamou com os olhos no astro, um tremor na voz:

Oh! laisse-toi donc aimer, oh! l'amour c'est la vie!

Isto fugira-lhe dos labios como um começo de confissão; Carlos ao lado

não disse nada, soprou ao ar o fumo do charuto.

Mas Ega sentiu-se decerto ridiculo, porque se calmou, refugiou-se

immediatamente no puro interesse litterario:

--No fim de contas, menino, digam lá o que disserem, não ha senão o

velho Hugo...

Carlos, comsigo, lembrava furores naturalistas do Ega, rugindo contra

Hugo, chamando-lhe «saco-roto de espiritualismo», «boca-aberta de

sombra», «avôsinho lyrico», injurias peiores.

Mas n'essa noite o grande phraseador continuou:

--Ah o velho Hugo! o velho Hugo é o campeão heroico de verdades

eternas... É necessario um bocado d'ideal, que diabo!... De resto o

ideal póde ser real...

E foi, com esta palinodia, acordando os silencios do Aterro.

Dias depois Carlos, no consultorio, acabava de despedir um doente, um

Viegas, que todas as semanas vinha alli fazer a fastidiosa chronica da

sua dyspepsia--quando do reposteiro da sala d'espera lhe surgiu o Ega,

de sobrecasaca azul, luva _gris-perle_ e um rolo de papel na mão.

--Tens que fazer, doutor?

--Não, ía a sahir, janota!

--Bem. Venho-te impingir prosa... Um bocado do _Atomo_... Senta-te ahi.

Ouve lá.

Immediatamente abancou, afastou papeis e livros, desenrolou o

manuscripto, espalmou-o, deu um puxão ao collarinho--e Carlos, que se

pousara á borda do divan, com a face espantada e as mãos nos joelhos,

achou-se quasi sem transição transportado dos rugidos do ventre do

Viegas para um rumor de populaça, n'um bairro de judeus, na velha cidade

de Heidelberg.

--Mas espera lá! exclamou elle. Deixa-me respirar. Isso não é o começo

do livro! Isso não é o cahos...

Ega então recostou-se, desabotoou a sobrecasaca, respirou tambem.

--Não, não é o primeiro episodio... Não é o cahos. É já no seculo XV...

Mas n'um livro d'estes póde-se começar pelo fim... Conveiu-me fazer este

episodio: chama-se a _Hebrea_.

A Cohen! pensou Carlos.

Ega tornou a alargar o collarinho--e foi lendo, animando-se, ferindo as

palavras para as fazer viver, soltando grandes cheios de voz nas

sonoridades finaes dos periodos. Depois da sombria pintura d'um bairro

medival de Heidelberg, o famoso Atomo, o _Atomo do Ega_, apparecia

alojado no coração do esplendido principe Franck, poeta, cavalleiro, e

bastardo do imperador Maximiliano. E todo esse coração de heroe

palpitava pela judia Esther, perola maravilhosa do Oriente, filha do

velho rabbino Salomão, um grande doutor da Lei, perseguido pelo odio

theologico do Geral dos Dominicanos.

Isto contava-o o Atomo n'um monologo, tão recamado d'imagens como um

manto da Virgem está recamado d'estrellas--e que era uma declaração

d'elle, Ega, á mulher do Cohen. Depois abria-se um intermedio

pantheista: rompiam coros de flores, coros de astros, cantando na

linguagem da luz, ou na eloquencia dos perfumes, a belleza, a graça, a

pureza, a alma celeste de Esther--e de Rachel... Emfim, chegava o negro

drama da perseguição: a fuga da familia hebraica, atravéz de bosques de

bruxas e brutas aldêas feudaes; a apparição, n'uma encrusilhada, do

principe Franck que vem proteger Esther, de lança alta, no seu grande

corcel; o tropel da turba fanatica, correndo a queimar o rabbino e os

seus livros herejes; a batalha, e o principe atravessado pelo chuço d'um

_reitre_, indo morrer no peito d'Esther, que morre com elle n'um beijo.

Tudo isto se precipitava como um sonoro e tumultuoso soluço; e era

tratado com as maneiras modernas d'estylo, o esforço atormentado

inchando a expressão, as camadas de côr atiradas á larga para fazer

ressaltar o tom de vida...

Ao findar o _Atomo_ exclamava, com a vasta solemnidade d'um cheio

d'orgão:--«assim arrefeceu, parou, aquelle coração de heroe que eu

habitava; e evaporado o principio de vida, eu, agora livre, remontei aos

astros, levando comigo a essencia pura d'esse amor immortal.»

--Então?...--disse Ega, esfalfado, quasi tremulo.

Carlos só poude responder:

--Está ardente.

Depois elogiou a serio alguns lances, o coro das florestas, a leitura do

_Ecclesiastes_, de noite, entre as ruinas da torre d'Othon, certas

imagens d'um grande vôo lyrico.

Ega, que tinha pressa, como sempre, enrolou o manuscripto, reabotoou a

sobrecasaca, e já de chapéu na mão:

--Então, parece-te apresentavel?...

--Vaes publicar?

--Não, mas emfim...--e ficou n'esta reticencia, fazendo-se corado.

Carlos comprehendeu tudo dias depois, encontrando na _Gazeta do Chiado_

uma descripção «da leitura feita em casa do ex.^{mo} sr. Jacob Cohen,

pelo nosso amigo João da Ega, de um dos mais brilhantes episodios do seu

livro--_As memorias d'um atomo_.» E o jornalista accrescentava, dando a

sua impressão pessoal: «é uma pintura dos sofrimentos porque passaram,

nos tempos da intolerancia religiosa, aquelles que seguem a Lei

d'Israel. Que poder de imaginação! Que fluencia d'estylo! O effeito foi

extraordinario, e quando o nosso amigo fechou o manuscripto ao succumbir

da protagonista--vimos lagrimas em todos os olhos da numerosa e

estimavel colonia hebraica!»

Oh, furor do Ega! Rompeu n'essa tarde pelo consultorio, pallido,

desorientado...

--Estas bestas! Estas bestas d'estes jornalistas! Leste? _Lagrimas em

todos os olhos da numerosa e estimavel colonia hebraica!_ Faz cahir a

cousa em ridiculo... E depois a _fluencia d'estylo_. Que burros! Que

idiotas!

Carlos, que cortava as folhas d'um livro, consolou-o. Aquella era a

maneira nacional de fallar d'obras d'arte... Não valia a pena bramar...

--Não, palavra, tinha vontade de quebrar a cara áquelle folliculario!

--E porque lh'a não quebras?

--É um amigo dos Cohens.

E foi grunhindo improperios contra a imprensa, a passos de tigre pelo

gabinete. Por fim irritado com a indifferença de Carlos:

--Que diabo estás tu ahi a ler? _Nature parasitaire des accidents de

l'impaludisme_... Que blague, a medicina! Dize-me uma cousa. Que diabo

serão umas picadas que me veem aos braços, sempre que vou a

adormecer?...

--Pulgas, bichos, vermina...--murmurou Carlos com os olhos no livro.

--Animal! rosnou Ega, arrebatando o chapéu.

--Vaes-te, John?

--Vou, tenho que fazer!--E junto do reposteiro, ameaçando o céu com o

guarda-chuva, chorando quasi de raiva:--Estes burros d'estes

jornalistas! São a escoria da sociedade!

D'ahi a dez minutos reappareceu, bruscamente: e já com outra voz, n'um

tom de caso serio:

--Ouve cá. Tinha-me esquecido. Tu queres ser apresentado aos

Gouvarinhos?

--Não tenho um interesse especíal, respondeu Carlos, erguendo os olhos

do livro, depois de um silencio. Mas não tenho tambem uma repugnancia

especial.

--Bem, disse Ega. Elles desejam conhecer-te, sobretudo a condessa faz

empenho... Gente intelligente, passa-se lá bem... Então, decidido! Terça

feira vou-te buscar ao Ramalhete, e vamo-nos _gouvarinhar_.

Carlos ficou pensando n'aquella proposta do Ega, na maneira como elle

sublinhára o _empenho_ da condessa. Lembrava-se agora que ella era muito

intima da Cohen: e ultimamente, em S. Carlos, n'aquella facil visinhança

de frisa, surprehendera certos olhares d'ella... Mesmo, segundo o

Taveira, ella realmente _fazia-lhe um olhão_. E Carlos achava-a picante,

com os seus cabellos crespos e ruivos, o narizinho petulante, e os olhos

escuros, d'um grande brilho, dizendo mil cousas. Era deliciosamente bem

feita--e tinha uma pelle muito clara, fina e doce á vista, a que se

sentia mesmo de longe o setim.

Depois d'aquelle dia tristônho de aguaceiros, elle resolvera passar um

bom serão de trabalho, ao canto do fogão, no conforto do seu

robe-de-chambre. Mas ao café, os olhos da Gouvarinho começaram a

faiscar-lhe por entre o fumo do charuto, a fazer-lhe _um olhão_,

collocando-se tentadoramente entre elle e a sua noite d'estudo,

pondo-lhe nas veias um vivo calor de mocidade... Tudo culpa do Ega, esse

Mephistopheles de Celorico!

Vestiu-se, foi a S. Carlos. Ao sentar-se porém á boca da frisa,

preparado, de collete branco e perola negra na camisa,--em logar dos

cabellos crespos e ruivos, avistou a carapinha retinta de um preto, um

preto de doze annos, trombudo e lusidio, de grande collarinho á mamã

sobre uma jaqueta de botões amarellos; ao lado outro preto, mais

pequeno, com o mesmo uniforme de collegio, enterrava pela venta aberta o

dedo calçado de pellica branca. Ambos elles lhe relancearam os olhos

bogalhudos, côr de prata embaciada. A pessoa que os acompanhava,

escondida para o fundo, parecia ter um catharro ascoroso.

Dava-se a _Lucia_ em beneficio, com a segunda dama. Os Cohens não tinham

vindo--nem o Ega. Muitos camarotes estavam desertos, em toda a tristeza

do seu velho papel vermelho. A noite chuviscosa, com um bafo de

sudoeste, parecia penetrar alli, derramando o seu pesadume, a morna

sensação da sua humidade. Nas cadeiras, vasias, havia uma mulher

solitaria, vestida de setim claro; Edgardo e Lucia desafinavam; o gaz

dormia, e os arcos das rebecas, sobre as cordas, pareciam ir adormecendo

tambem.

--Isto está lugubre, disse Carlos ao amigo Cruges, que occupava o escuro

da frisa.

Cruges, amodorroado n'um accesso de _spleen_, com o cotovello sobre as

costas da cadeira, os dedos por entre a cabelleira, todo elle embrulhado

em crepes, sobrepostos de melancolia, respondeu, como do fundo d'um

sepulchro:

--Pesadote.

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 9 / 53 段