Carlos ria-se d'esta idéa do Ega. Tres mulheres de gosto e de luxo, em

Lisboa, para adornar um cenaculo! Lamentavel illusão de um homem de

Celorico! O marquez de Souzella tinha tentado, e para uma vez só, uma

cousa bem mais simples--um jantar no campo com actrizes. Pois fôra o

escandalo mais engraçado e mais caracteristico: uma não tinha creada e

queria levar comsigo para a festa uma tia e cinco filhos; outra temia

que, acceitando, o brazileiro lhe tirasse a mezada; uma consentiu, mas o

amante, quando soube, deu-lhe uma cóça. Esta não tinha vestido para ir;

aquella pretendia que lhe garantissem uma libra; houve uma que se

escandalisou com o convite como com um insulto. Depois, os chulos, os

queridos, os pôlhos, complicaram medonhamente a questão; uns exigiam ser

convidados, outros tentavam desmanchar a festa; houve partidos,

fizeram-se intrigas,--emfim esta cousa banal, um jantar com actrizes,

resultou em o Tarquinio do Gymnasio levar uma facada...

--E aqui tens tu Lisboa.

--Emfim, exclamou o Ega, se não apparecerem mulheres, importam-se, que é

em Portugal para tudo o recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis,

idéas, philosophias, theorias, assumptos, estheticas, sciencias, estylo,

industrias, modas, maneiras, pilherias, tudo nos vem em caixotes pelo

paquete. A civilisação custa-nos carissima com os direitos da alfandega:

e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas...

Nós julgamo-nos civilisados como os negros de S. Thomé se suppõem

cavalheiros, se suppõem mesmo _brancos_, por usarem com a tanga uma

casaca velha do patrão... Isto é uma choldra torpe. Onde puz eu a

charuteira?

Desembaraçado da magestade que lhe dava a pelissa o antigo Ega

reapparecia, perorando com os seus gestos aduncos de Mephistopheles em

verve, lançando-se pela sala como se fosse voar ao vibrar as suas

grandes phrases, n'uma lucta constante com o monocolo, que lhe caía do

olho, que elle procurava pelo peito, pelos hombros, pelos rins,

retorcendo-se, deslocando-se, como mordido por bichos. Carlos animava-se

tambem, a fria sala aquecia; discutiam o Naturalismo, Gambetta, o

Nihilismo; depois, com ferocidade e á uma, malharam sobre o paiz...

Mas o relogio ao lado bateu quatro horas; immediatamente Ega saltou

sobre a pelissa, sepultou-se n'ella, aguçou o bigode ao espelho,

verificou a _pose_, e, encouraçado nos seus alamares, sahio com um

arsinho de luxo e d'aventura.

--John, disse Carlos que o achava esplendido e o ia seguindo ao patamar,

onde estás tu?

--No _Universal_, esse sanctuario!

Carlos abominava o _Universal_, queria que elle viesse para o Ramalhete.

--Não me convém...

--Em todo o caso vaes hoje lá jantar, vêr o avô.

--Não posso. Estou compromettido com a besta do Cohen... Mas vou lá

ámanhã almoçar.

Já nos degraus da escada, voltou-se, entalou o monocolo, gritou para

cima:

--Tinha-me esquecido dizer-te, vou publicar o meu livro!

--O quê! está prompto? exclamou Carlos, espantado.

--Está esboçado, á brocha larga...

O _Livro do Ega_! Fôra em Coimbra, nos dois ultimos annos, que elle

começára a fallar do seu livro, contando o plano, soltando titulos de

capitulos, citando pelos cafés phrases de grande sonoridade. E entre os

amigos do Ega discutia-se já o livro do Ega como devendo iniciar, pela

fórma e pela idéa, uma evolução litteraria. Em Lisboa (onde elle vinha

passar as ferias e dava ceias no Silva) o livro fôra annunciado como um

acontecimento. Bachareis, contemporaneos ou seus condiscipulos, tinham

levado de Coimbra, espalhado pelas provincias e pelas ilhas a fama do

livro do Ega. Já de qualquer modo essa noticia chegára ao Brazil... E

sentindo esta anciosa espectativa em torno do seu livro--o Ega

decidira-se emfim a escrevel-o.

Devia ser uma epopêa em prosa, como elle dizia, dando, sob episodios

symbolicos, a historia das grandes phases do Universo e da Humanidade.

Intitulava-se _Memorias d'um Atomo_, e tinha a fórma d'uma

autobiographia. Este atomo (o atomo do Ega, como se lhe chamava a serio

em Coimbra) apparecia no primeiro capitulo, rolando ainda no vago das

Nebuloses primitivas: depois vinha embrulhado, faisca candente, na massa

de fogo que devia ser mais tarde a Terra: emfim, fazia parte da primeira

folha de planta que surgiu da crosta ainda molle do globo. Desde então,

viajando nas incessantes transformações da substancia, o atomo do Ega

entrava na rude structura do Orango, pae da humanidade--e mais tarde

vivia nos labios de Platão. Negrejava no burel dos santos, refulgia na

espada dos heroes, palpitava no coração dos poetas. Gota de agua nos

lagos de Galiléa, ouvira o fallar de Jesus, aos fins da tarde, quando os

apostolos recolhiam as redes; nó de madeira na tribuna da Convenção,

sentira o frio da mão de Robespierre. Errara nos vastos anneis de

Saturno; e as madrugadas da terra tinham-n'o orvalhado, petala

resplandecente de um dormente e languido lyrio. Fôra omnipresente, era

omnisciente. Achando-se finalmente no bico da penna do Ega, e cançado

d'esta jornada atravez do Ser, repousava--escrevendo as suas

_Memorias_... Tal era este formidavel trabalho--de que os admiradores do

Ega, em Coimbra, diziam, pensativos e como esmagados de respeito:

--É uma Biblia!

V

No escriptorio de Affonso da Maia ainda durava, apesar de ser tarde, a

partida de whist. A mesa estava ao lado da chaminé, onde a chamma morria

nos carvões escarlates, no seu recanto costumado, abrigada pelo biombo

japonez, por causa da bronchite de D. Diogo e do seu horror ao ar.

Esse velho dandy,--a quem as damas de outras eras chamavam o «Lindo

Diogo», gentil toureiro que dormira n'um leito real--acabava justamente

de ter um dos seus accessos de tosse, cavernosa, aspera, dolorosa, que o

sacudiam como uma ruina, que elle abafava no lenço, com as veias

inchadas, rôxo até á raiz dos cabellos.

Mas passára. Com a mão ainda tremula, o decrepito leão limpou as

lagrimas que lhe embaciavam os olhos avermelhados, compoz a rosa de

musgo na botoeira da sobrecasaca, tomou um golo da sua agua chasada, e

perguntou a Affonso, seu parceiro, n'uma voz rouca e surda:

--Paus, hein?

E de novo, sobre o panno verde, as cartas foram cahindo n'um d'aquelles

silencios que se seguiam ás tosses de D. Diogo. Sentia-se só a

respiração assobiada, quasi silvante, do general Sequeira, muito infeliz

essa noite, desesperado com o Villaça seu parceiro, resingão, e com todo

o sangue na face.

Um tom fino retiniu, o relogio Luiz XV foi ferindo. alegremente,

vivamente, a meia noite;--depois a toada argentina do seu minuete vibrou

um momento e morreu. Houve de novo um silencio. Uma renda vermelha

recobria os globos de dois grandes candieiros Carcel; e a luz assim

coada, cahindo sobre os damascos vermelhos das paredes, dos assentos,

fazia como uma doce refracção côr de rosa, um vaporoso de nuvem em que a

sala se banhava e dormia: só, aqui e além, sobre os carvalhos sombrios

das estantes, rebrilhava em silencio o ouro d'um Sèvres, uma pallidez de

marfim, ou algum tom esmaltado de velha majolica.

--O que! ainda encarniçados! exclamou Carlos que abrira o reposteiro,

entrava, e com elle o rumor distante de bolas de bilhar.

Affonso, que recolhia a sua vasa, voltou logo a cabeça, a perguntar com

interesse:

--Como vae ella? Está socegada?

--Está muito melhor!

Era a primeira doente grave de Carlos, uma rapariga de origem

alsacianna, casada com o Marcellino padeiro, muito conhecida no bairro

pelos seus bellos cabellos, loiros, e penteados sempre em tranças

soltas. Tinha estado á morte com uma pneumonia; e apesar de melhor, como

a padaria ficava defronte, Carlos ainda ás vezes á noite atravessava a

rua para a ir vêr, tranquillisar o Marcellino, que, defronte do leito e

de gabão pelos hombros, suffocava soluços d'amante, escrevinhando no

livro de contas.

Affonso interessara-se anciosamente por aquella pneumonia; e agora

estava realmente agradecido á Marcellina por ter sido salva por Carlos.

Fallava d'ella commovido; gabava-lhe a linda figura, o aceio alsacianno,

a prosperidade que trouxera á padaria... Para a convalescença, que se

approximava, já lhe mandára até seis garrafas de Chateau-Margaux.

--Então fóra de perigo, inteiramente fóra de perigo?--perguntou Villaça,

com os dedos na caixa do rapé, sublinhando muito a sua sollicitude.

--Sim, quasi rija--disse Carlos, que se approximara da chaminé,

esfregando as mãos, arrepiado.

É que a noite, fóra, estava regelada! Desde o anoitecer geava, d'um céu

fino e duro, transbordando de estrellas que rebrilhavam como pontas

afiadas d'aço; e nenhum d'aquelles cavalheiros, desde que se entendia,

conhecera jámais o thermometro tão baixo. Sim, Villaça lembrava-se d'um

janeiro peor no inverno de 64...

--É necessario carregar no _punch_, hein, general!--exclamou Carlos,

batendo galhofeiramente nos hombros macissos do Sequeira.

--Não me opponho, rosnou o outro, que fixava com concentração e rancor

um valete de copas sobre a meza.

Carlos, ainda com frio, remexeu, esfuracou os carvões: uma chuva d'oiro

cahiu por baixo, uma chamma mais forte ressaltou, rugiu, alegrando tudo,

avermelhando em redor as pelles de urso onde o Reverendo Bonifacio,

espapado, torrava ao calor, ronronava de gôso.

--O Ega deve estar radiante, dizia Carlos com os pés á chamma. Tem,

emfim, justificada a pellissa. A proposito, algum dos senhores tem visto

o Ega estes ultimos dias?

Ninguem respondeu, no interesse subito que causava a cartada. A longa

mão de D. Diogo recolhia de vagar a vasa--e languidamente, no mesmo

silencio, soltou uma carta de paus.

--Ó Diogo! ó Diogo! gritou Affonso, estorcendo-se, como se o

trespassasse um ferro.

Mas conteve-se. O general, cujos olhos despediam faiscas, collocou o seu

valete; Affonso, profundamente infeliz, separou-se do rei de paus;

Villaça bateu de estalo com o az. E immediatamente foi em redor uma

discussão tremenda sobre a puchada de D. Diogo--em quanto Carlos, a quem

as cartas sempre enfastiavam, se debruçava a coçar o ventre fofo do

veneravel Reverendo.

--Que perguntavas tu, filho? disse emfim Affonso erguendo-se, ainda

irritado, a buscar tabaco para o cachimbo, sua consolação nas derrotas.

O Ega? Não, ninguem o viu, não tornou a apparecer! Está tambem um bom

ingrato, esse John...

Ao nome do Ega, Villaça, parando de baralhar as cartas, erguera a face

curiosa:

--Então sempre é certo que elle vae montar casa?

Foi Affonso que respondeu, sorrindo e accendendo o cachimbo:

--Montar casa, comprar _coupé_, deitar libré, dar _soirées_ litterarias,

publicar um poema, o diabo!

--Elle esteve lá no escriptorio, dizia Villaça recomeçando a baralhar.

Esteve lá a indagar o que tinha custado o consultorio, a mobilia de

velludo, etc. O velludo verde deu-lhe no gôto... Eu, como é um amigo da

casa, lá lhe prestei informações, até lhe mostrei as contas.--E

respondendo a uma pergunta do Sequeira:--Sim, a mãe tem dinheiro, e

creio que lhe dá o bastante. Que em quanto a mim, elle vem-se metter na

politica. Tem talento, falla bem, o pae já era muito regenerador... Alli

ha ambição.

--Alli ha mulher, disse D. Diogo, collocando com peso esta decisão e

accentuando-a com uma caricia languida á ponta frisada dos bigodes

brancos. Lê-se-lhe na cara, basta vêr-lhe a cara... Alli ha mulher.

Carlos sorria, gabando a penetração de D. Diogo, o seu fino olho á

Balzac; e Sequeira, logo, franco como velho soldado, quiz saber quem era

a Dulcinea. Mas o velho dandy declarou, da profundidade da sua

experiencia, que essas cousas nunca se sabiam, e era preferivel não se

saberem. Depois passando os dedos magros e lentos pela face, deixou

cahir d'alto e com condescendencia este juizo:

--Eu gosto do Ega, tem apresentação; sobretudo tem _degagè_...

Tinham recebido as cartas, fez-se um silencio na meza. O general, vendo

o seu jogo, soltou um grunhido surdo, arrebatou o cigarro do cinzeiro, e

puxou-lhe uma fumaça furiosa.

--Os senhores são muito viciosos, vou vêr a gente do bilhar, disse

Carlos. Deixei o Steinbroken engalfinhado com o marquez, a perder já

quatro mil réis. Querem o _punch_ aqui?

Nenhum dos parceiros respondeu.

E em torno do bilhar Carlos encontrou o mesmo silencio de solemnidade. O

marquez, estirado sobre a tabella, com a perna meia no ar, o começo de

calva alvejando á luz crua que cahia dos _abat-jours_, de porcelana,

preparava a carambola decisiva. Cruges, que apostára por elle, deixára o

divan, o cachimbo turco, e, coçando com um gesto nervoso a grenha crespa

que lhe ondeava até á gola do jaquetão, vigiava a bola inquieto, com os

olhinhos piscos, o nariz espetado. Do fundo da sala, destacando em

preto, o Silveirinha, o Eusebiosinho de S.^{ta} Olavia, estendia tambem

o pescoço, affogado n'uma gravata de viuvo de merino negro e sem

collarinho, sempre macambuzio, mais mollengo que outr'ora, com as mãos

enterradas nos bolsos--tão funebre que tudo n'elle parecia complemento

do luto pesado, até o preto do cabello chato, até o preto das lunetas de

fumo. Junto ao bilhar, o parceiro do marquez, o conde Steinbroken,

esperava: e apesar do susto, da emoção d'homem do norte aferrado ao

dinheiro, conservava-se correcto, encostado ao taco, sorrindo, sem

desmanchar a sua linha britanica,--vestido como um inglez, inglez

tradicional d'estampa, com uma sobrecasaca justa de manga um pouco

curta, e largas calças de xadrez sobre sapatões de tacão raso.

--Hurrah! gritou de repente Cruges. Os dez tostõesinhos para cá,

Silveirinha!

O marquez carambolára, ganhando a partida, e triumphava tambem:

--Você trouxe-me a sorte, Carlos!

Steinbroken depozera logo o taco, e alinhava já sobre a tabella,

lentamente, uma a uma, as quatro placas perdidas.

Mas o marquez, de giz na mão, reclamava-o para outras refregas,

esfaimado d'ouro filandez.

--Nada mach!... Vôcê hoje 'stá têrivêl! dizia o diplomata, no seu

portuguez fluente, mas de accento barbaro.

O marquez insistia, plantado diante d'elle, de taco ao hombro como uma

vara de campino, dominando-o com a sua macissa, desempenada estatura. E

ameaçava-o de destinos medonhos n'uma voz possante habituada a ressoar

nas lezirias; queria-o arruinar ao bilhar, forçal-o a empenhar aquelles

bellos anneis, leval-o elle, ministro da Filandia e representante d'uma

raça de reis fortes, a vender senhas á porta da Rua dos Condes!

Todos riam; e Steinbroken tambem, mas com um riso franzido e difficil,

fixando no marquez o olhar azul-claro, claro e frio, que tinha no fundo

da sua myopia a dureza d'um metal. Apesar da sua sympathia pela illustre

casa de Souzella, achava estas familiaridades, estas tremendas chalaças,

incompativeis com a sua dignidade e com a dignidade da Filandia. O

marquez, porém, coração d'ouro, abraçava-o já pela cinta, com expansão:

--Então se não quereis mais bilhar, um bocadinho de canto, Steinbroken

amigo!

A isto o ministro accedeu, affavel, preparando-se logo, dando caricias

ligeiras ás suissas, e aos anneis do cabello d'um loiro de espiga

desbotada.

Todos os Steinbrokens, de paes a filhos (como elle dissera a Affonso)

eram bons barytonos: e isso trouxera á familia não poucos proventos

sociaes. Pela voz captivara seu pae o velho rei Rudolpho III, que o

fizera chefe das caudelarias, e o tinha noites inteiras nos seus

quartos, ao piano, cantando psalmos lutheranos, coraes escolares, sagas

da Dallecarlia--em quanto o taciturno monarcha cachimbava e bebia, até

que saturado de emoção religiosa, saturado de cerveja preta, tombava do

sophá, soluçando e babando-se. Elle mesmo, Steinbroken, levara parte da

sua carreira ao piano, já como addido, já como segundo secretario. Feito

chefe de missão, absteve-se: foi só quando vio o _Figaro_ celebrar

repetidamente as walsas do principe Artoff, embaixador da Russia em

Paris, e a voz de _basso_ do conde de Baspt, embaixador d'Austria em

Londres, que elle, seguindo tão altos exemplos, arriscou, aqui e alem,

em _soirées_ mais intimas, algumas melodias filandezas. Emfim cantou no

Paço. E desde então exerceu com zelo, com formalidades, com praxes, o

seu cargo de «barytono plenipotenciario,» como dizia o Ega. Entre

homens, e com os reposteiros corridos, Steinbroken não duvidava todavia

cantarolar o que elle chamava «cançonetas brejêras»--o _Amant d'Amanda_,

ou uma certa ballada ingleza:

On the Serpentine,

Oh my Caroline...

Oh!

Este _oh_! como elle o expellia, gemido, bem puxado, n'um movimento de

batuque, expressivo e todavia digno... Isto entre rapazes e com os

reposteiros fechados.

N'essa noite, porém, o marquez, que o conduzia pelo braço á sala do

piano, exigia uma d'aquellas canções da Filandia, de tanto sentimento e

que lhe faziam tão bem á alma...

--Uma que tem umas palavrinhas de que eu gosto, _frisk_, _gluzk_... La

ra lá, lá, lá!

--A Primavera, disse o diplomata sorrindo.

Mas antes de entrar na sala, o marquez soltou o braço de Steinbroken,

fez um signal ao Silveirinha para o fundo do corredor--e ahi, sob um

sombrio painel de _Santa Magdalena no deserto_ penitenciando-se e

mostrando nudezas ricas de nympha lubrica, interpellou-o quasi com

aspereza:

--Vamos nós a saber. Então, decide-se ou não?

Era uma negociação que havia semanas se arrastava entre elles, a

respeito d'uma parelha d'egoas. Silveirinha nutria o desejo de montar

carruagem; e o marquez procurava vender-lhe umas egoas brancas, a que

elle dizia «ter tomado enguiço, apesar de serem dois nobres animaes».

Pedia por ellas um conto e quinhentos mil réis. Silveirinha fôra avisado

pelo Sequeira, por Travassos, por outros entendedores, que era _uma

espiga_: o marquez tinha a sua moral propria para negocios de gado, e

exultaria em _intrujar um pichote_. Apesar de advertido, Eusebio cedendo

á influencia da grossa voz do marquez, da robustez do seu phisico, da

antiguidade do seu titulo, não ousava recusar. Mas hesitava; e n'essa

noite deu a resposta usual de forreta, coçando o queixo, cosido ao muro:

--Eu verei, marquez... Um conto e quinhentos é dinheiro...

O marquez ergueu dois braços ameaçadores como duas trancas:

--Homem, sim ou não! Que diabo... Dois animaes que são duas estampas...

Irra! Sim ou não!

Eusebio ageitou as lunetas, rosnou:

--Eu verei... Elle é dinheiro. Sempre é dinheiro...

--Queria você, talvez, pagal-as com feijões? Você leva-me a commetter um

excesso!

O piano resoou, em dois accordes cheios, sob os dedos do Cruges; e o

marquez, baboso por musica, immediatamente largou a questão das egoas,

recolheu em pontas de pés. Eusebiosinho ainda ficou a remoer, a coçar o

queixo; emfim, ás primeiras notas de Steinbroken, veiu pousar como uma

sombra silenciosa entre a hombreira e o reposteiro.

Afastado do piano segundo o seu costume, curvado, com a cabelleira como

pousada ás costas, Cruges feria o acompanhamento, d'olhos cravados no

livro de _Melodias Filandezas_. Ao lado, empertigado, quasi official,

com o lenço de seda na mão, a mão fincada contra o peito, Steinbroken

soltava um canto festivo, n'um movimento de tarantella triumphante, em

que passavam, como um entrechocar de seixos, esses bocados de palavras

de que o marquez gostava, _frisk_, _slécht_, _clikst_, _glukst_. Era a

_Primavera_--fresca e silvestre, primavera do norte em paiz de

montanhas, quando toda uma aldêa dança em córos sob os fuscos abetos, a

neve se derrete em cascatas, um sol pallido avelluda os musgos, e a

brisa traz o aroma das resinas... Nos graves e cheios, as cantoneiras de

Steinbroken ruborisavam-se, inchavam. Nos tons agudos todo elle se ía

alçando sobre a ponta dos pés, como levado no compasso vivo; despegava

então a mão do peito, alargava um gesto, as bellas joias dos seus anneis

faiscavam.

O marquez, com as mãos esquecidas nos joelhos, parecia beber o canto. Na

face de Carlos passava um sorriso enternecido pensando em Madame Rughel,

que viajara na Filandia, e cantava ás vezes aquella _Primavera_ nas suas

horas de sentimentalismo flamengo...

Steinbroken soltou um _stacato_ agudo, isolado como uma voz n'um

alto,--e immediatamente, afastando-se do piano, passou o lenço sobre as

fontes, sobre o pescoço, rectificou com um puchão a linha da

sobrecasaca, e agradeceu o acompanhamento ao Cruges n'um silencioso

_shake-hands_.

--Bravo! bravo! berrava o marquez, batendo as mãos como malhos.

E outros applausos resoaram á porta, dos parceiros do whist, que tinham

findado a partida. Quasi immediatamente os escudeiros entravam com um

serviço frio de croquettes e sandwiches, offerecendo St. Emilion ou

Porto; e sobre uma meza, entre os renques de calices, a puncheira

fumegou n'um aroma doce e quente de cognac e limão.

--Então, meu pobre Steinbroken, exclamou Affonso, vindo-lhe bater

amavelmente no hombro, ainda dá d'esses bellos cantos a estes bandidos,

que o maltratam assim ao bilhar?

--Fui essfôladito, si, essfôladito. Agradecido, nô, prefiro um copita

Porto...

--Hoje fomos nós as victimas, disse-lhe o general respirando com delicia

o seu punch.

--Você tãbem, meu genêral?

--Sim, senhor, tambem me cascaram...

E que dizia o amigo Steinbroken ás noticias da manhã? perguntava

Affonso. A queda de Mac-Mahon, a eleição de Grevy... O que o alegrava

n'isto, era o desapparecimento definitivo do antipathico senhor de

Broglie e da sua _clique_. A impertinencia d'aquelle academico estreito,

querendo impôr a opinião de dois ou tres salões doutrinarios á França

inteira, a toda uma Democracia! Ah, o _Times_ cantava-lh'as!

--E o _Punch_? Não viu o _Punch_? Oh, delicioso!...

O ministro pousara o calice, e esfregando cautelosamente as mãos disse

n'uma meia voz grave a sua phrase, a phrase definitiva com que julgava

todos os acontecimentos que apparecem em telegrammas:

--É gràve... É eqsessivemente gràve...

Depois fallou-se de Gambetta; e como Affonso lhe attribuia uma dictadura

proxima, o diplomata tomou mysteriosamente o braço de Sequeira, murmurou

a palavra suprema com que definia todas as personalidades superiores,

homens d'estado, poetas, viajantes ou tenores.

--É um hom[~e] mûto forte. É um hom[~e] eqsessivemente forte!

--O que elle é, é um ronha! exclamou o general, escorropichando o seu

calice.

E todos tres deixaram a sala, discutindo ainda a republica--em quanto

Cruges continuava ao piano, vagueando por Mendelsshon e por Choppin,

depois de ter devorado um prato de croquettes.

O marquez e D. Diogo, sentados no mesmo sophà, um com a sua chasada

d'invalido, outro com um copo de S.^t Emilion, a que aspirava o

_bouquet_, fallavam tambem de Gambetta. O marquez gostava de Gambetta:

fôra o unico que durante a guerra mostrara ventas de homem; lá que

tivesse «comido» ou que «quizesse comer» como diziam,--não sabia nem lhe

importava. Mas era teso! E o sr. Grevy tambem lhe parecia um cidadão

serio, optimo para chefe do Estado...

--Homem de sala? perguntou languidamente o velho leão.

O marquez só o vira na Assembléa, presidindo e muito digno...

D. Diogo murmurou, com um melancolico desdem na voz, no gesto, no olhar:

--O que eu queria a toda essa canalha era a saude, marquez!

O marquez consolou-o, galhofeiro e amavel. Toda essa gente, parecendo

forte por se occupar de cousas fortes, no fundo tinha asthma, tinha

pedra, tinha gota... E o Dioguinho era um Hercules...

--Um Hercules! O que é, é que você apaparica-se muito... A doença é um

mau habito em que a gente se põe. É necessario reagir... Você devia

fazer gymnastica, e muita agua fria por essa espinha. Você, na

realidade, é de ferro!

--Enferrujadote, enferrujadote...--replicou o outro, sorrindo e

desvanecido.

--Qual enferrujadote! Se eu fosse cavallo ou mulher, antes o queria a

você que a esses badamecos que por ahi andam meio podres... Já não ha

homens da sua tempera, Dioguinho!

--Já não ha nada, disse o outro grave e convencido, e como o derradeiro

homem nas ruinas d'um mundo.

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 8 / 53 段