anno passou. Chegára esse outono de 1875: e o avô installado emfim no
Ramalhete esperava por elle anciosamente. A ultima carta de Carlos viera
de Inglaterra, onde andava, dizia elle, a estudar a admiravel
organisação dos hospitaes de crianças. Assim era: mas passeava tambem
por Brighton, apostava nas corridas de Goodwood, fazia um idyllio
errante pelos lagos da Escocia, com uma senhora hollandeza, separada de
seu marido, veneravel magistrado da Haya, uma M.^{me} Rughel, soberba
creatura de cabellos d'ouro fulvo, grande e branca como uma nympha de
Rubens.
Depois começaram a chegar, dirigidas ao Ramalhete, caixas successivas de
livros, outras de instrumentos e apparelhos, toda uma bibliotheca e todo
um laboratorio--que trazia o Villaça, manhãs inteiras, aturdido pelos
armazens da alfandega.
--O meu rapaz vem com grandes idéas de trabalho, dizia Affonso aos
amigos.
Havia quatorze mezes que elle o não via, o «seu rapaz», a não ser n'uma
photographia mandada de Milão, em que todos o acharam magro e triste. E
o coração batia-lhe forte, na linda manhã de outono, quando do terraço
do Ramalhete, de binoculo na mão, viu assomar vagarosamente, por traz do
alto predio fronteiro, um grande paquete do _Royal Mail_ que, lhe trazia
o seu neto.
Á noite os amigos da casa, o velho Sequeira, D. Diogo Coutinho, o
Villaça--não se fartavam d'admirar «o bem que a viagem fizera a Carlos».
Que differença da photographia! Que forte, que saudavel!
Era decerto um formoso e magnifico moço, alto, bem feito, de hombros
largos, com uma testa de marmore sob os anneis dos cabellos pretos, e os
olhos dos Maias, aquelles irresistiveis olhos do pai, de um negro
liquido, ternos como os d'elle e mais graves. Trazia a barba toda, muito
fina, castanho-escura, rente na face, aguçada no queixo--o que lhe dava,
com o bonito bigode arqueado aos cantos da boca, uma physionomia de
bello cavalleiro da Renascença. E o avô, cujo olhar risonho e humido
transbordava d'emoção, todo se orgulhava de o vêr, de o ouvir, n'uma
larga veia, fallando da viagem, dos bellos dias de Roma, do seu mau
humor na Prussia, da originalidade de Moscow, das paizagens da
Hollanda...
--E agora? perguntou-lhe o Sequeira, depois de um momento de silencio em
que Carlos estivera bebendo o seu cognac e soda. Agora que tencionas tu
fazer?
--Agora, general? respondeu Carlos, sorrindo e pousando o copo.
Descançar primeiro e depois passar a ser uma gloria nacional!
Ao outro dia, com effeito, Affonso veiu encontral-o na sala de
bilhar--onde tinham sido collocados os caixotes--a despregar, a
desempacotar, em mangas de camisa e assobiando com enthusiasmo. Pelo
chão, pelos sophás, alastrava-se toda uma litteratura em rumas de
volumes graves; e aqui e além, por entre a palha, através das lonas
descozidas, a luz faiscava n'um crystal, ou reluziam os vernizes, os
metaes polidos de apparelhos. Affonso pasmava em silencio para aquelle
pomposo apparato do saber.
--E onde vaes tu accommodar este museo?
Carlos pensara em arranjar um vasto laboratorio alli perto no bairro,
com fornos para trabalhos chimicos, uma sala disposta para estudos
anatomicos e physiologicos, a sua bibliotheca, os seus apparelhos, uma
concentração methodica de todos os instrumentos de estudo...
Os olhos do avô illuminavam-se ouvindo este plano grandioso.
--E que não te prendam questões de dinheiro, Carlos! Nós fizemos n'estes
ultimos annos de Santa Olavia algumas economias...
--Boas e grandes palavras, avô! Repita-as ao Villaça.
As semanas foram passando n'estes planos de installação. Carlos trazia
realmente resoluções sinceras de trabalho: a sciencia como mera
ornamentação interior do espirito, mais inutil para os outros que as
proprias tapessarias do seu quarto, parecia-lhe apenas um luxo de
solitario: desejava ser util. Mas as suas ambições fluctuavam, intensas
e vagas; ora pensava n'uma larga clinica; ora na composição macissa de
um livro iniciador; algumas vezes em experiencias physiologicas,
pacientes e reveladoras... Sentia em si, ou suppunha sentir, o tumulto
de uma força, sem lhe discernir a linha d'applicação. «Alguma cousa de
brilhante,» como elle dizia: e isto para elle, homem de luxo e homem
d'estudo, significava um conjuncto de representação social e de
actividade scientifica; o remecher profundo de idéas entre as
influencias delicadas da riqueza; os elevados vagares da philosophia
entremeados com requintes de _sport_ e de gosto; um Claude Bernard que
fosse tambem um Morny... No fundo era um _dilletante_.
Villaça fôra consultado sobre a localidade propria para o laboratorio; e
o procurador, muito lisongeado, jurou uma diligencia incançavel.
Primeira cousa a saber, o nosso doutor tencionava fazer clinica?...
Carlos não decidira fazer _exclusivamente_ clinica: mas desejava de
certo dar consultas, mesmo gratuitas, como caridade e como pratica.
Então Villaça suggeriu que o consultorio estivesse separado do
laboratorio.
--E a minha razão é esta: a vista de apparelhos, machinas, cousas, faz
esmorecer os doentes...
--Tem você razão, Villaça! exclamou Affonso. Já meu pae dizia: poupe-se
ao boi a vista do malho.
--Separados, separados, meu senhor, affirmou o procurador n'um tom
profundo.
Carlos concordou. E Villaça bem depressa descobriu, para o laboratorio,
um antigo armazem, vasto e retirado, ao fundo de um pateo, junto ao
largo das Necessidades.
--E o consultorio, meu senhor, não é aqui, nem acolá; é no Rocio, alli
em pleno Rocio!
Esta idéa do Villaça não era desinteressada. Grande enthusiasta da
_Fusão_, membro do Centro progressista, Villaça Junior aspirava a ser
vereador da camara, e mesmo em dias de satisfação superior (como quando
o seu anniversario natalicio vinha annunciado no _Illustrado_, ou quando
no Centro citava com applauso a Belgica) parecia-lhe que tantas aptidões
mereciam do seu partido uma cadeira em S. Bento. Um consultorio
gratuito, no Rocio, o consultorio do dr. Maia, «do seu Maia» reluziu-lhe
logo vagamente como um elemento de influencia. E tanto se agitou, que
d'ahi a dois dias tinha lá alugado um primeiro andar d'esquina.
Carlos mobilou-o com luxo. N'uma antecamara, guarnecida de banquetas de
marroquim, devia estacionar, á franceza, um creado de libré. A sala de
espera dos doentes alegrava com o seu papel verde de ramagens prateadas,
as plantas em vasos de Rouen, quadros de muita côr, e ricas poltronas
cercando a jardineira coberta de collecções do _Charivari_, de vistas
estereoscopicas, d'albuns de actrizes semi-nuas; para tirar inteiramente
o ar triste de consultorio até um piano mostrava o seu teclado branco.
O gabinete de Carlos ao lado era mais simples, quasi austero, todo em
velludo verde-negro, com estantes de pau preto. Alguns amigos que
começavam a cercar Carlos, Taveira, seu contemporaneo e agora visinho do
Ramalhete, o Cruges, o marquez de Souzellas, com quem percorrera a
Italia--vieram vêr estas maravilhas. O Cruges correu uma escala no piano
e achou-o abominavel; Taveira absorveu-se nas photographias d'actrizes;
e a unica approvação franca veiu do marquez, que depois de contemplar o
divan do gabinete, verdadeiro movel de serralho, vasto, voluptuoso,
fôfo, experimentou-lhe a doçura das molas e disse, piscando o olho a
Carlos:
--A calhar.
Não pareciam acreditar n'estes preparativos. E todavia eram sinceros.
Carlos até fizera annunciar o consultorio nos jornaes; quando viu porem
o seu nome em letras grossas, entre o de uma engommadeira á Boa Hora e
um reclamo de casa de hospedes,--encarregou Villaça de retirar o
annuncio.
Occupava-se então mais do laboratorio, que decidira installar no
armazem, ás Necessidades. Todas as manhãs, antes de almoço, ía visitar
as obras. Entrava-se por um grande pateo, onde uma bella sombra cobria
um poço, e uma trepadeira se mirrava nos ganchos de ferro que a prendiam
ao muro. Carlos já decidira transformar aquelle espaço em fresco
jardinete inglez; e a porta do casarão encantava-o, ogival e nobre,
resto de fachada d'ermida, fazendo um accesso veneravel para o seu
sanctuario de sciencia. Mas dentro os trabalhos arrastavam-se sem fim;
sempre um vago martellar preguiçoso n'uma poeira alvadia; sempre as
mesmas coifas de ferramentas jazendo nas mesmas camadas de aparas! Um
carpinteiro esgouroviado e triste parecia estar alli, desde seculos,
aplainando uma taboa eterna com uma fadiga langorosa; e no telhado os
trabalhadores que andavam alargando a claraboia, não cessavam de
assobiar, no sol d'inverno, alguma lamuria de fado.
Carlos queixava-se ao sr. Vicente, o mestre d'obras, que lhe asseverava
invariavelmente «como d'ahi a dois dias havia de s. ex.^a vêr a
differença.» Era um homem de meia edade, risonho, de fallar doce, muito
barbeado, muito lavado, que morava ao pé do Ramalhete, e tinha no bairro
fama de republicano. Carlos, por sympathia, como visinho, apertava-lhe
sempre a mão: e o sr. Vicente, considerando-o por isso um «avançado», um
democrata, confiava-lhe as suas esperanças. O que elle desejava primeiro
que tudo era um 93, como em França...
--O que, sangue? dizia Carlos, olhando a fresca, honrada, e roliça face
do demagogo.
--Não, senhor, um navio, um simples navio...
--Um navio?
--Sim, senhor, um navio fretado á custa da nação, em que se mandasse
pela barra fóra o rei, a familia real, a _cambada_ dos ministros, dos
politicos, dos deputados, dos intrigantes, etc. e etc.
Carlos sorria, ás vezes argumentava com elle.
--Mas está o sr. Vicente bem certo, que apenas a _cambada_, como tão
exactamente diz, desapparecesse pela barra fóra, ficavam resolvidas
todas as cousas e tudo atolado em felicidade?
Não, o sr. Vicente não era tão «burro» que assim pensasse. Mas,
supprimida a cambada, não via s. ex.^a? Ficava o paiz desatravancado; e
podiam então começar a governar os homens de saber e de progresso...
--Sabe v. ex.^a qual é o nosso mal? Não é má vontade d'essa gente; é
muita somma de ignorancia. Não sabem. Não sabem nada. Elles não são
maus, mas são umas cavalgaduras!
--Bem, então essas obras, amigo Vicente, dizia-lhe Carlos, tirando o
relogio e despedindo-se d'elle com um valente _shakehands_, veja se me
andam. Não lh'o peço como proprietario, é como correligionario.
--D'aqui a dois dias ha de v. ex.^a vêr a differença, respondia o mestre
d'obras, desbarretando-se.
No Ramalhete, pontualmente ao meio dia, tocava a sineta do almoço.
Carlos encontrava quasi sempre o avô já na sala de jantar, acabando de
percorrer algum jornal junto ao fogão, onde a tepida suavidade d'aquelle
fim de outono não permittia accender lume, mas verdejando todo de
plantas d'estufa.
Em redor, nos aparadores de carvalho lavrado, rebrilhavam suavemente, no
seu luxo macisso e sobrio, as baixellas antigas; pelas tapeçarias ovaes
dos muros apainelados corriam scenas de ballada, caçadores medivaes
soltando o falcão, uma dama entre pagens alimentando os cysnes de um
lago, um cavalleiro de viseira callada seguindo ao longo d'um rio; e
contrastando com o tecto escuro de castanho entalhado a meza
resplandecia com as flôres entre os crystaes.
O reverendo Bonifacio, que desde que se tornara dignatario da Egreja
comia com os senhores, lá estava já, magestosamente sentado sobre a
alvura nevada da toalha, á sombra de algum grande ramo. Era alli, no
aroma das rosas, que o veneravel gato gostava de lamber, com o seu vagar
estupido, as sopas de leite servidas n'um covilhete de Strasburgo,
depois agachava-se, traçava por diante do peito a fofa pluma da sua
cauda, e, de olhos cerrados, os bigodes tesos, todo elle uma bola
entufada de pello branco malhado de ouro, gosava de leve uma sesta
macia.
Affonso,--como confessava, sorrindo e humilhado--ía-se tornando com a
velhice um _gourmet_ exigente; e acolhia, com uma concentração de
critico, as obras d'arte do _chef_ francez que tinham agora, um
cavalheiro de mau genio, todo bonapartista, muito parecido com o
imperador, e que se chamava Mr. Theodore. Os almoços no Ramalhete eram
sempre delicados e longos; depois, ao café, ficavam ainda conversando; e
passava da uma hora, da hora e meia, quando Carlos, com uma exclamação,
precipitando-se sobre relogio, se lembrava do seu consultorio. Bebia um
calice de Chartreuse, accendia á pressa um charuto:
--Ao trabalho, ao trabalho! exclamava.
E o avô, enchendo de vagar o seu cachimbo, invejava-lhe aquella
occupação, emquanto elle ficava alli a vadiar toda a manhã...
--Quando esse eterno laboratorio estiver acabado, talvez vá para lá
passar um bocado, occupar-me de chimica.
--E ser talvez um grande chimico. O avô tem já a feitio.
O velho sorria.
--Esta carcassa já não dá nada, filho. Está pedindo eternidade!
--Quer alguma cousa da Baixa, de Babylonia? perguntava Carlos, abotoando
á pressa as suas luvas de governar.
--Bom dia de trabalho.
--Pouco provavel...
E no _dog-cart_, com aquella linda egoa, a _Tunante_, ou no _phaeton_
com que maravilhava Lisboa, Carlos lá partia em grande estylo para a
Baixa, para «o trabalho.»
O seu gabinete, no consultorio, dormia n'uma paz tepida entre os
espessos velludos escuros, na penumbra que faziam as stores de seda
verde corridas. Na sala, porém, as tres janellas abertas bebiam á farta
a luz; tudo alli parecia festivo; as poltronas em torno da jardineira
estendiam os seus braços, amaveis e convidativas; o teclado branco do
piano ria e esperava, tendo abertas por cima as _Canções de Gounod_; mas
não apparecia jámais um doente. E Carlos,--exactamente como o creado
que, na ociosidade da antecamara, dormitava sobre o _Diario de
Noticias_, acaçapado na banqueta--accendia um cigarro Laferme, tomava
uma Revista, e estendia-se no divan. A prosa porém dos artigos estava
como embebida do tedio moroso do gabinete: bem depressa bocejava,
deixava caír o volume.
Do Rocio, o ruido das carroças, os gritos errantes de pregões, o rolar
dos americanos, subiam, n'uma vibração mais clara, por aquelle ar fino
de novembro: uma luz macia, escorregando docemente do azul ferrete,
vinha doirar as fachadas enxovalhadas, as cópas mesquinhas das arvores
de municipio, a gente vadiando pelos bancos: e essa sussurração lenta de
cidade preguiçosa, esse ar avelludado de clima rico, pareciam ir
penetrando pouco a pouco n'aquelle abafado gabinete e resvelando pelos
velludos pesados, pelo verniz dos moveis, envolver Carlos n'uma
indolencia e n'uma dormencia... Com a cabeça na almofada, fumando, alli
ficava, n'essa quietação de sesta, n'um scismar que se ía desprendendo,
vago e tenue, como o tenuo e leve fumo que se eleva d'uma brazeira meia
apagada; até que com um esforço sacudia este torpor, passeiava na sala,
abria aqui e além pelas estantes um livro, tocava no piano dois
compassos de walsa, espriguiçava-se--e, com os olhos nas flores do
tapete, terminava por decidir que aquellas duas horas de consultorio
eram estupidas!
--Está ahi o carro? ía perguntar ao creado.
Accendia bem depressa outro charuto, calçava as luvas, descia, bebia um
largo sorvo de luz e ar, tomava as guias e largava, murmurando comsigo:
--Dia perdido!
Foi uma d'essas manhãs que preguiçando assim no sophá com a _Revista dos
Dois Mundos_ na mão, elle ouviu um rumor na antecamara, e logo uma voz
bem conhecida, bem querida, que dizia por trás do reposteiro:
--Sua Alteza Real está visivel?
--Oh Ega! gritou Carlos, dando um salto do sophá.
E cahiram nos braços um do outro, beijando-se na face, enternecidos.
--Quando chegaste tu?
--Esta manhã. Caramba! exclamava Ega, procurando pelo peito, pelos
hombros, o seu quadrado de vidro, e entalando-o emfim no olho. Caramba!
Tu vens esplendido d'esses Londres, d'essas civilisações superiores.
Estás com um ar Renascença, um ar Valois... Não ha nada como a barba
toda!
Carlos ria, abraçando-o outra vez.
--E d'onde vens tu, de Celorico?
--Qual Celorico! Da Foz. Mas doente, menino, doente... O figado, o baço,
uma infinidade de visceras compromettidas. Emfim, doze annos de vinhos e
aguas ardentes...
Depois fallaram das viagens de Carlos, do Ramalhete, da demora do Ega em
Lisboa... Ega vinha para sempre. Tinha dito do alto da diligencia, ás
varzeas de Celorico, o adeus de eternidade.
--Imagina tu, Carlos, amigo, a historia deliciosa que me succede com
minha mãe... Depois de Coimbra, naturalmente, sondei-a a respeito de vir
viver para Lisboa, confortavelmente, com uns dinheiros largos. Qual, não
caíu! Fiquei na quinta, fazendo epigrammas ao padre Seraphim e a toda a
côrte do céu. Chega julho, e apparece nos arredores uma epidemia de
anginas. Um horror, creio que vocês lhe chamam diphtericas... A mamã
salta immediatamente à conclusão que é a minha presença, a presença do
atheo, do demagogo, sem jejuns e sem missa, que offendeu Nosso Senhor e
attrahiu o flagello. Minha irmã concorda. Consultam o padre Seraphim. O
homem, que não gosta de me vêr na quinta, diz que é possivel que haja
indignação do Senhor--e minha mãe vem pedir-me quasi de joelhos, com a
bolsa aberta, que venha para Lisboa, que a arruine, mas que não esteja
alli chamando a ira divina. No dia seguinte bati para a Foz...
--E a epidemia...
--Desappareceu logo, disse o Ega, começando a puxar devagar dos dedos
magros uma longa luva côr de canario.
Carlos mirava aquellas luvas do Ega; e as polainas de casemira; e o
cabello que elle trazia crescido com uma mecha frisada na testa; e na
gravata de setim uma ferradura de opalas! Era outro Ega, um Ega dandy,
vistoso, paramentado, artificial e com pó d'arroz--e Carlos deixou emfim
escapar a exclamação impaciente que lhe bailava nos labios:
--Ega, que extraordinario casaco!
Por aquelle sol macio e morno de um fim de outono portuguez, o Ega, o
antigo bohemio de batina esfarrapada, trazia uma pelliça, uma sumptuosa
pelliça de principe russo, agasalho de trenò e de neve, ampla, longa,
com alamares trespassados á Brandeburgo, e pondo-lhe em torno do pescoço
esganiçado e dos pulsos de thisico uma rica e fôfa espessura de pelles
de marta.
--É uma boa pelliça, hein? disse elle logo, erguendo-se, abrindo-a,
exhibindo a opulencia do forro. Mandei-a vir pelo Strauss... Beneficios
da epidemia.
--Como podes tu supportar isso?
--É um bocado pesada, mas tenho andado constipado.
Tornou a recostar-se no sophá, adiantando o sapato de verniz muito
bicudo, e, de monocolo no olho, examinou o gabinete.
--E tu que fazes? conta-me lá... Tens isto explendido!
Carlos fallou dos seus planos, de altas idéas de trabalho, das obras do
laboratorio...
--Um momento, quanto te custou tudo isto? exclamou o Ega
interrompendo-o, erguendo-se para ir apalpar o velludo dos reposteiros,
mirar os torneados da secretária de pau preto.
--Não sei. O Villaça é que deve saber...
E Ega, com as mãos enterradas nos vastos bolsos da pelliça,
inventariando o gabinete, fazia considerações:
--O velludo dá seriedade... E o verde escuro é a côr suprema, é a côr
esthetica... Tem a sua expressão propria, enternece e faz pensar...
Gosto d'este divan. Movel de amor...
Foi entrando para a sala dos doentes, de vagar, de luneta no olho,
estudando os ornatos.
--Tu és o grandioso Salomão, Carlos! O papel é bonito... E o
cretonesinho agrada-me.
Apalpou-o tambem. Uma begonia, manchada da sua ferrugem de prata, n'um
vaso de Rouen, interessou-o. Queria saber o preço de tudo; e diante do
piano, olhando o livro de musica aberto, as _Canções de Gounod_, teve
uma surpreza enternecida:
--Homem, é curioso... Cá me apparece! A _Barcarolla_! É deliciosa,
hein?...
Dites, la jeune belle,
Ou voulez-vous aller?
La voile...
Estou um bocado rouco... Era a nossa canção na Foz!
Carlos teve outra exclamação, e crusando os braços diante d'elle:
--Tu estás extraordinario, Ega! Tu és outro Ega!... A proposito da
Foz... Quem é essa Madame Cohen, que estava tambem na Foz, de quem tu,
em cartas successivas, verdadeiros poemas, que recebi em Berlin, na
Haia, em Londres, me fallavas como os arrobos do _Cantico dos Canticos_?
Um leve rubor subiu ás faces do Ega. E limpando negligentemente o
monocolo ao lenço de seda branca:
--Uma judia. Por isso usei o lyrismo biblico. É a mulher do Cohen, has
de conhecer, um que é director do _Banco Nacional_... Démos-nos
bastante. É sympathica... Mas o marido é uma besta... Foi uma
_flitartion_ de praia. _Voila tout_.
Isto era dito aos bocados, passeiando, puchando o lume ao charuto, e
ainda córado.
--Mas conta-me tu, que diabo, que fazem vocês no Ramalhete? O avô
Affonso? Quem vae por lá?...
No Ramalhete, o avô fazia o seu _whist_ com os velhos parceiros. Ia o D.
Diogo, o decrepito leão, sempre de rosa ao peito, e frisando ainda os
bigodes... Ia o Sequeira, cada vez mais atarracado, a estoirar de
sangue, á espera da sua apoplexia... Ia o conde de Steinbroken...
--Não conheço. Refugiado?... Polaco?...
--Não, ministro da Filandia... Queria-nos alugar umas cocheiras e
complicou esta simples transacção com tantas finuras diplomaticas,
tantos documentos, tantas cousas com o sello real da Filandia, que o
pobre Villaça aturdido, para se desembaraçar, remetteu-o ao avô. O avô,
desnorteado tambem, offereceu-lhe as cocheiras de graça. Steinbroken
considera isto um serviço feito ao rei da Filandia, á Filandia, vae
visitar o avô, em grande estado, com o secretario da legação, o consul,
o vice-consul...
--Isso é sublime!
--O avô convida-o a jantar... E como o homem é muito fino, um gentleman,
enthusiasta da Inglaterra, grande entendedor de vinhos, uma auctoridade
no wisth, o avô adopta-o. Não sae do Ramalhete.
--E de rapazes?
De rapazes, apparecia Taveira, sempre muito correcto, empregado agora no
Tribunal de Contas: um Cruges, que o Ega não conhecia, um diabo
adoidado, maestro, pianista, com uma pontinha de genio; o marquez de
Souzellas...
--Não ha mulheres?
--Não ha quem as receba. É um covil de solteirões. A viscondessa,
coitada...
--Bem sei. Um apopleté...
--Sim, uma hemorragia cerebral. Ah, temos tambem o Silveirinha,
chegou-nos ultimamente o Silveirinha...
--O de Resende, o cretino?
--O cretino. Enviuvou, vem da Madeira, ainda um bocado thisico, todo
carregado de luto... Um funebre.
O Ega, repoltreado, com aquelle ar de tranquilla e solida felicidade que
Carlos já notara, disse puchando lentamente os punhos:
--É necessario reorganisar essa vida. Precisamos arranjar um cenaculo,
uma bohemiasinha dourada, umas _soirées_ de inverno, com arte, com
litteratura... Tu conheces o Craft?
--Sim, creio que tenho ouvido fallar...
Ega teve um grande gesto. Era indispensavel conhecer o Craft! O Craft
era simplesmente a melhor cousa que havia em Portugal...
--É um inglez, uma especie de doido?...
Ega encolheu os hombros. Um doido!... Sim, era essa a opinião da rua dos
Fanqueiros; o indigena, vendo uma originalidade tão forte como a de
Craft, não podia explical-a senão pela doidice. O Craft era um rapaz
extraordinario!... Agora tinha elle chegado da Suecia, de passar tres
mezes com os estudantes de Upsala. Estava tambem na Foz... Uma
individualidade de primeira ordem!
--É um negociante do Porto, não é?
--Qual negociante do Porto! exclamou o Ega erguendo-se, franzindo a
face, enojado de tanta ignorancia. O Craft é filho d'um _clergiman_ da
egreja ingleza do Porto. Foi um tio, um negociante de Calcutá ou
d'Australia, um Nababo, que lhe deixou a fortuna. Uma grande fortuna.
Mas não negoceia, nem sabe o que isso é. Dá largas ao seu temperamento
byroneano, é o que faz. Tem viajado por todo o universo, collecciona
obras d'arte, bateu-se como voluntario na Abyssinia e em Marrocos, emfim
vive, _vive_ na grande, na forte, na heroica accepção da palavra. É
necessario conhecer o Craft. Vaes-te babar por elle... Tens razão,
caramba, está calor.
Desembaraçou-se da opulenta pelliça, e appareceu em peitilho de camisa.
--O que! tu não trazias nada por baixo? exclamou Carlos. Nem collete?
--Não; então não a podia aguentar... Isto é para o effeito moral, para
impressionar o indigena... Mas, não ha negal-o, é pesada!
E immediatamente voltou á sua idéa: apenas Craft chegasse do Porto
relacionavam-se, organisava-se um Cenaculo, um Decameron d'arte e
dilletantismo, rapazes e mulheres--tres ou quatro mulheres para
cortarem, com a graça dos decotes, a severidade das philosophias...