--Tem-me esquecido de lhe contar, Villaça, o Carlos sabe que o pae que

se matou...

Villaça arredondou os olhos d'espanto. Era verdade. Uma manhã

entrara-lhe pela livraria, e dissera-lhe:--ó vovô, o papá matou-se com

uma pistola!--Naturalmente algum creado que lh'o contara...

--E vossa excellencia?

--Eu... Que havia de fazer? Disse-lhe que sim. Em tudo tenho obedecido

ao que Pedro me pediu, n'essas quatro ou cinco linhas da carta que me

deixou. Quiz ser enterrado em S.{ta} Olavia, ahi está. Não queria que o

filho jámais soubesse da fuga da mãe; e por mim, de certo, nunca o

saberá. Quiz que dois retratos que havia d'ella em Arroios fossem

destruidos; como você sabe, obtiveram-se e destruiram-se. Mas não me

pedio que occultasse ao rapaz o seu fim. E por isso, disse ao pequeno a

verdade: disse-lhe que n'um momento de loucura, o papá tinha dado um

tiro em si...

--E elle?

--E elle, replicou Affonso sorrindo, perguntou-me quem lhe tinha dado a

pistola, e torturou-me toda uma manhã para lhe dar tambem uma pistola...

E ahi está o resultado d'essa revelação: é que tive de mandar vir do

Porto uma pistóla de vento...

Mas, sentindo Carlos em baixo, aos berros ainda pelo avó, os dois

apressaram-se a ir admirar a corujazinha.

Villaça ao outro dia partiu para Lisboa.

Passadas duas semanas, Affonso recebia uma carta do administrador,

trasendo-lhe, com a _adresse_ da Monforte, uma revelação imprevista.

Tinha voltado a casa do Alencar; e o poeta, recordando outros incidentes

da sua visita a M.^{me} de l'Estorade, contara-lhe que no _boudoir_

d'ella havia um adoravel retrato de creança, de olhos negros, cabello

d'azeviche, e uma pallidez de nacar. Esta pintura ferira-o, não só por

ser d'um grande pintor inglez, mas por ter, pendente sob o caixilho como

um voto funerario, uma linda coroa de flores de cera brancas e roxas.

Não havia outro quadro no _boudoir_: e elle perguntara á Monforte se era

um retrato ou uma phantasia. Ella respondera que era o retrato da filha

que lhe morrera em Londres. «Estão assim dissipadas todas as duvidas,

accrescentava o Villaça. O pobre anjinho está n'uma patria. melhor. E

para ella, _bem melhor_!»

Affonso, todavia, escreveu a André de Noronha. A resposta tardou. Quando

o primo André procurara M.^{me} de l'Estorade, havia semanas que ella

partira para Allemanha, depois de vender mobilia e cavallos. E no _Club

Imperial_, a que elle pertencia, um amigo que conhecia bem M.^{me} de

l'Estorade e a vida galante de Paris, contara-lhe que a doida fugira com

um certo Catanni, acrobata do Circo d'Inverno nos Campos Elyseos, homem

de fórmas magnificas, um Appolo de feira, que todas as cocottes se

disputavam e que a Monforte empolgára. Naturalmente corria agora a

Allemanha com a companhia de cavallinhos.

Affonso da Maia, enojado, remetteu esta carta ao Villaça sem um

commentario. E o honrado homem respondeu: «Tem V. Ex.^a rasão, é atroz:

e mais vale suppor que todos morreram, e não gastar mais cera com tão

ruins defuntos...» E depois n'um post-scriptum accrescentava: «Parece

certo abrir-se em breve o caminho de ferro até ao Porto: em tal caso,

com permissão de V. Ex.^a, ahi irei e o meu rapaz a pedirmos-lhe alguns

dias d'hospitalidade.»

Esta carta foi recebida em S.^{ta} Olavia um domingo, ao jantar. Affonso

lera alto o P. S. Todos se alegraram, na esperança de ver o bom Villaça

em breve na quinta; e fallou-se mesmo em arranjar um grande pic-nic, rio

acima.

Mas, terça feira á noite, chegava um telegramma de Manuel Villaça

annunciando que o pae morrera, n'essa manhã, d'uma apoplexia: dois dias

depois vinham mais longos e tristes pormenores. Fora depois do almoço

que, de repente, Villaça se sentira muito suffocado, e com tonturas:

ainda tivera forças d'ir ao quarto respirar um pouco d'ether: mas ao

voltar á sala cambaleava, queixava-se de vêr tudo amarello, e caiu de

bruços, como um fardo, sobre o canapé. O seu pensamento, que se

extinguia para sempre, ainda n'esse momento se occupou da casa que ha

trinta annos administrava: balbuciou, a respeito d'uma venda de cortiça,

recomendações que o filho já não poude perceber: depois deu um grande

ai; e só tornou a abrir os olhos, para murmurar no derradeiro sopro

estas derradeiras palavras: _Saudades ao patrão!_

Affonso da Maia ficou profundamente afectado, e em S.^{ta} Olavia, mesmo

entre os creados, a morte de Villaça foi como um lucto domestico. Uma

d'essas tardes, o velho, muito melancolico, estava na livraria com um

jornal esquecido nas mãos, os olhos cerrados--quando Carlos, que ao lado

rabiscava carantonhas n'um papel, veio passar-lhe um braço pelo pescoço,

e como comprehendendo os seus pensamentos perguntou-lhe se o Villaça não

voltaria a vel-os à quinta.

--Não filho, nunca mais. Nunca mais o tornamos a vêr.

O pequeno, entre os joelhos e os braços do velho, olhava o tapete, e,

como recordando-se, murmurou tristemente:

--O Villaça, coitado... Dava estalinhos com os dedos... Oh vovô, para

onde o levaram?

--Para o cemiterio, filho, para debaixo da terra.

Então Carlos desprendeu-se devagar do abraço do avô, e muito sério, com

os olhos n'elle:

--Ó vovô! porque não lhe mandas fazer uma capellinha bonita, toda de

pedra, com uma figura, como tem o papá?

O velho achegou-o ao peito, beijou-o, commovido:

--Tens razão, filho. Tens mais coração que eu!

Assim o bom Villaça teve no cemiterio dos Prazeres o seu jazigo--que

fôra a alta ambição da sua existência modesta.

Outros annos tranquillos passaram sobre Santa Olavia.

Depois uma manhã de julho, em Coimbra, Manuel Villaça (agora

administrador da casa) trepava as escadas do Hotel Mondego, onde Affonso

se hospedára com o neto, e entrava-lhe pela sala, vermelho, suando,

berrando:

--_Neminè! Neminè!_

Fizera Carlos o seu primeiro exame! E que exame! Teixeira que tinha

acompanhado os senhores de Santa Olavia correu á porta, abraçou-se quasi

chorando no menino, agora mais alto que elle, e muito formoso na sua

batina nova.

Em cima no quarto, Manuel Villaça, soprando ainda, limpando as bagas de

suor, exclamava:

--Ficou tudo espantado, snr. Affonso da Maia! Os lentes até estavam

commovidos. Ih Jesus! que talento! Vem a ser um grande homem, é o que

todo o mundo disse... E que faculdade vai elle seguir, meu senhor?

Affonso, que passeava, todo tremulo, respondeu com um sorriso:

--Não sei, Villaça... Talvez nos formemos ambos em Direito.

Carlos assomou á porta, radiante, seguido do Teixeira e do outro

escudeiro--que trazia _champagne_ n'uma salva.

--Então venha cá, seu maroto, disse Affonso muito branco, com os braços

abertos. Bom exame, hein?... Eu...

Mas não pôde proseguir: as lagrimas, duas a duas, corriam-lhe pela barba

branca.

IV

Carlos ia formar-se em Medicina. E como dizia o dr. Trigueiros houvera

sempre n'aquelle menino realmente uma «vocação para Esculapio».

A «vocação» revelára-se bruscamente um dia que elle descobriu no sotão,

entre rumas de velhos alfarrabios, um rolo manchado e antiquado de

estampas anatomicas; tinha passado dias a recortal-as, pregando pelas

paredes do quarto figados, liaças de intestinos, cabeças de perfil «com

o recheio á mostra». Uma noite mesmo rompera pela sala em triumpho, a

mostrar ás Silveiras, ao Euzebio, a pavorosa lithographia de um feto de

seis mezes no utero materno. D. Anna recuou, com um grito, collando o

leque á face: e o dr. delegado, escarlate tambem, arrebatou

prudentemente Euzebiosinho para entre os joelhos, tapou-lhe a face com a

mão. Mas o que escandalisou mais as senhoras foi a indulgencia de

Affonso.

--Então que tem, então que tem? dizia elle sorrindo.

--Que tem, snr. Affonso da Maia!? exclamou D. Anna. São indecencias!

--Não ha nada indecente na natureza, minha rica senhora. Indecente é a

ignorancia... Deixar lá o rapaz. Tem curiosidade de saber como é esta

pobre machina por dentro, não ha nada mais louvavel...

D. Anna abanava-se, suffocada. Consentir taes horrores nas mãos da

criança!... Carlos começou a apparecer-lhe como um libertino «que já

sabia coisas»; e não consentiu mais que a Therezinha brincasse só com

elle pelos corredores de Santa Olavia.

As pessoas sérias porém, o dr. juiz de direito, o proprio abbade,

lamentando, sim, que não houvesse mais recato, concordavam que aquillo

mostrava no pequeno uma grande queda para a medicina.

--Se péga, dizia então com um gesto prophetico o dr. Trigueiros, temos

d'alli coisa grande!

E parecia pegar.

Em Coimbra, estudante do Lyceu, Carlos deixava os seus compendios de

logica e rhetorica para se occupar de anatomia: n'umas ferias, ao abrir

das malas, a Gertrudes fugiu espavorida vendo alvejar entre as dobras

d'um casaco o riso d'uma caveira: e se algum criado da quinta adoecia,

lá estava Carlos logo revolvendo o caso em velhos livros de medicina da

livraria, sem lhe largar a beira do catre, fazendo diagnosticos que o

bom dr. Trigueiros escutava respeitoso e pensativo. Diante do avô já

chamava mesmo ao menino «o seu talentoso collega».

Esta inesperada carreira de Carlos (pensára-se sempre que elle tomaria

capello em Direito) era pouco approvada entre os fieis amigos de Santa

Olavia. As senhoras sobretudo lamentavam que um rapaz que ia crescendo

tão formoso, tão bom cavalleiro, viesse a estragar a vida receitando

emplastros, e sujando as mãos no jorro das sangrias. O dr. juiz de

direito confessou mesmo um dia a sua descrença de que o snr. Carlos da

Maia quizesse «ser medico a sério».

--Ora essa! exclamou Affonso. E porque não ha de ser medico a sério? Se

escolhe uma profissão é para a exercer com sinceridade e com ambição,

como os outros. Eu não o educo para vadio, muito menos para amador;

educo-o para ser util ao seu paiz...

--Todavia, arriscou o dr. juiz de direito com um sorriso fino, não lhe

parece a v. exc.^a que ha outras coisas, importantes tambem, e mais

proprias talvez, em que seu neto se poderia tornar util?...

--Não vejo, replicou Affonso da Maia. N'um paiz em que a occupação geral

é estar doente, o maior serviço patriotico é incontestavelmente saber

curar.

--V. exc.^a tem resposta para tudo, murmurou respeitosamente o

magistrado.

E o que justamente seduzia Carlos na medicina era essa vida «a sério»,

pratica e util, as escadas de doentes galgadas á pressa no fogo de uma

vasta clinica, as existencias que se salvam com um golpe de bisturí, as

noites veladas á beira de um leito, entre o terror de uma familia, dando

grandes batalhas á morte. Como em pequeno o tinham encantado as fórmas

pittorescas das vísceras--attrahiam-no agora estes lados militantes e

heroicos da sciencia.

Matriculou-se realmente com enthusiasmo. Para esses longos annos de

quieto estudo o avô preparára-lhe uma linda casa em Cellas, isolada, com

graças de cottage inglez, ornada de persianas verdes, toda fresca entre

as arvores. Um amigo de Carlos (um certo João da Ega) poz-lhe o nome de

«Paços de Cellas», por causa de luxos então raros na Academia, um tapete

na sala, poltronas de marroquim, panoplias d'armas, e um escudeiro de

libré.

Ao principio este esplendor tornou Carlos venerado dos fidalgotes, mas

suspeito aos democratas; quando se soube porém que o dono d'estes

confortos lia Proudhon, Augusto Comte, Herbert Spencer, e considerava

tambem o paiz uma _choldra ignobil_--os mais rigidos revolucionarios

começaram a vir aos Paços de Cellas tão familiarmente como ao quarto do

Trovão, o poeta bohemio, o duro socialista, que tinha apenas por mobilia

uma enxerga e uma Biblia.

Ao fim d'alguns mezes, Carlos, sympathico a todos, conciliára Dandys e

Philosophos: e trazia muitas vezes no seu _break_, lado a lado, o Serra

Torres, um monstro que já era addido honorario em Berlim e todas as

noites punha casaca, e o famoso Craveiro que meditava a _Morte de

Satanaz_, encolhido no seu gabão d'Aveiro, com o seu grande barrete de

lontra.

Os Paços de Cellas, sob a sua apparencia preguiçosa e campestre,

tornaram-se uma fornalha de actividades. No quintal fazia-se uma

gymnastica scientifica. Uma velha cozinha fôra convertida em sala

d'armas--porque n'aquelle grupo a esgrima passava como uma necessidade

social. Á noite, na sala de jantar, moços sérios faziam um _whist_

sério: e no salão, sob o lustre de crystal, com o _Figaro_, o _Times_ e

as _Revistas_ de Paris e de Londres espalhadas pelas mesas, o Gamacho ao

piano tocando Chopin ou Mozart, os litteratos estirados pelas

poltronas--havia ruidosos e ardentes cavacos, em que a Democracia, a

Arte, o Positivismo, o Realismo, o Papado, Bismark, o Amor, Hugo e a

Evolução, tudo por seu turno flammejava no fumo do tabaco, tudo tão

ligeiro e vago como o fumo. E as discussões metaphysicas, as proprias

certezas revolucionarias adquiriam um sabor mais requintado com a

presença do criado de farda desarrolhando a cerveja, ou servindo

croquettes.

Carlos, naturalmente, não tardou a deixar pelas mesas, com as folhas

intactas, os seus expositores de medicina. A Litteratura e a Arte, sob

todas as fórmas, absorveram-no deliciosamente. Publicou sonetos no

_Instituto_--e um artigo sobre o Parthenon: tentou, n'um _atelier_

improvisado, a pintura a oleo: e compoz contos archeologicos, sob a

influencia da _Salammbô_. Além d'isso todas as tardes passeava os seus

dois cavallos. No segundo anno levaria um _R_ se não fosse tão conhecido

e rico. Tremeu, pensando no desgosto do avô: moderou a dissipação

intellectual, acantoou-se mais na sciencia que escolhera: immediatamente

lhe deram um _accessit_. Mas tinha nas veias o veneno do dilettantismo:

e estava destinado, como dizia João da Ega, a ser um d'esses medicos

litterarios que inventam doenças de que a humanidade papalva se presta

logo a morrer!

O avô, ás vezes, vinha passar uma, duas semanas a Cellas. Nos primeiros

tempos a sua presença, agradavel aos cavalheiros da partilha de _whist_,

desorganisou o cavaco litterario. Os rapazes mal ousavam estender o

braço para o copo da cerveja; e os _vossa excellencia_ isto, _vossa

excellencia_ aquillo, regelavam a sala. Pouco a pouco, porém, vendo-o

apparecer em chinelas e de cachimbo na boca, estirar-se na poltrona com

ares sympathicos de patriarcha bohemio, discutir arte e litteratura,

contar anecdotas do seu tempo d'Inglaterra e d'Italia, começaram a

consideral-o como um camarada de barbas brancas. Diante d'elle já se

fallava de mulheres e de estroinices. Aquelle velho fidalgo, tão rico,

que lêra Michelet e o admirava--chegou mesmo a enthusiasmar os

democratas. E Affonso gozava alli tambem horas felizes, vendo o seu

Carlos centro d'aquelles moços de estudo, de ideal e de veia.

Carlos passava as ferias grandes em Lisboa, ás vezes em Paris ou

Londres; mas por Nataes e Pascoas vinha sempre a Santa Olavia, que o avô

mais só se entretinha a embellezar com amor. As salas tinham agora

soberbos pannos d'Arraz, paizagens de Rousseau e Daubigny, alguns moveis

de luxo e d'arte. Das janellas a quinta offerecia aspectos nobres de

parque inglez: através dos macios taboleiros de relva, davam curvas

airosas as ruas areadas: havia marmores entre as verduras; e gordos

carneiros de luxo dormiam sob os castanheiros. Mas a existencia n'este

meio rico não era agora tão alegre: a viscondessa, cada dia mais

nutrida, cahia em somnos congestivos logo depois do jantar; o Teixeira

primeiro, a Gertrudes depois, tinham morrido, ambos de pleurizes, ambos

no entrudo: e já se não via tambem á mesa a bondosa face do abbade, que

lá jazia sob uma cruz de pedra, entre os goivos e as rosas de todo o

anno. O dr. juiz de direito com a sua concertina passára para a Relação

do Porto; D. Anna Silveira, muito doente, nunca sahia; a Therezinha

fizera-se uma rapariguinha feia, amarella como uma cidra; o

Euzebiosinho, mollengão e tristonho, já sem vestigios sequer do seu

primeiro amor aos alfarrabios e ás letras, ia casar na Regoa. Só o dr.

delegado, esquecido n'aquella comarca, estava o mesmo, mais calvo

talvez, sempre affavel, amando sempre a pachorrenta Eugenia. E quasi

todas as tardes, o velho Trigueiros se apeava da sua egoa branca ao

portão para vir cavaquear com o collega.

As ferias, realmente, só eram divertidas para Carlos quando trazia para

a quinta o seu intimo, o grande João da Ega, a quem Affonso da Maia se

affeiçoára muito, por elle e pela sua originalidade, e por ser sobrinho

d'André da Ega, velho amigo da sua mocidade e, muitas vezes outr'ora,

hospede tambem em Santa Olavia.

Ega andava-se formando em Direito, mas devagar, muito pausadamente--ora

reprovado, ora perdendo o anno. Sua mãi, rica, viuva e beata, retirada

n'uma quinta ao pé de Celorico de Basto com uma filha, beata, viuva e

rica tambem, tinha apenas uma noção vaga do que o Joãozinho fizera, todo

esse tempo, em Coimbra. O capellão affirmava-lhe que tudo havia de

acabar a contento, e que o menino seria um dia doutor como o papá e como

o titi: e esta promessa bastava á boa senhora, que se occupava sobretudo

da sua doença de entranhas e dos confortos d'esse padre Seraphim.

Estimava mesmo que o filho estivesse em Coimbra, ou algures, longe da

quinta, que elle escandalisava com a sua irreligião e as suas facecias

hereticas.

João da Ega, com effeito, era considerado não só em Celorico, mas tambem

na Academia que elle espantava pela audacia e pelos ditos, como o maior

atheu, o maior demagogo, que jámais apparecera nas sociedades humanas.

Isto lisonjeava-o: por systema exagerou o seu odio á Divindade, e a toda

a Ordem social: queria o massacre das classes-médias, o amor livre das

ficções do matrimonio, a repartição das terras, o culto de Satanaz. O

esforço da intelligencia n'este sentido terminou por lhe influenciar as

maneiras e a physionomia; e, com a sua figura esgrouviada e sêcca, os

pêllos do bigode arrebitados sob o nariz adunco, um quadrado de vidro

entalado no olho direito--tinha realmente alguma coisa de rebelde e de

satanico. Desde a sua entrada na Universidade renovára as tradições da

antiga Bohemia: trazia os rasgões da batina cozidos a linha branca;

embebedava-se com carrascão; á noite, na Ponte, com o braço erguido,

atirava injurias a Deus. E no fundo muito sentimental, enleado sempre em

amores por meninas de quinze annos, filhas de empregados, com quem ás

vezes ia passar a soirée, levando-lhes cartuchinhos de dôce. A sua fama

de fidalgote rico tornava-o appetecido nas familias.

Carlos escarnecia estes idyllios futricas; mas tambem elle terminou por

se enredar n'um episodio romantico com a mulher d'um empregado do

governo civil, uma lisboetasinha, que o seduziu pela graça d'um corpo de

boneca e por uns lindos olhos verdes. A ella o que a fanatisára fôra o

luxo, o _groom_, a egoa ingleza de Carlos. Trocaram-se cartas; e elle

viveu semanas banhado na poesia aspera e tumultuosa do primeiro amor

adultero. Infelizmente a rapariga tinha o nome barbaro de Hermengarda; e

os amigos de Carlos, descoberto o segredo, chamavam-lhe já _Eurico o

presbytero_, dirigiam para Cellas missivas pelo correio com este nome

odioso.

Um dia Carlos, andava tomando o sol na Feira, quando o empregado do

governo civil passou junto d'elle com o filhinho pela mão. Pela primeira

vez via tão de perto o marido de Hermengarda. Achou-o enxovalhado e

macilento. Mas o pequerrucho era adoravel, muito gordo, parecendo mais

roliço por aquelle dia de janeiro sob os agasalhos de lã azul,

tremelicando nas pobres perninhas rôxas de frio, e rindo na clara

luz--rindo todo elle, pelos olhos, pelas covinhas do queixo, pelas duas

rosas das faces. O pae amparava-o; e o encanto, o cuidado com que o

rapaz ia assim guiando os passos do seu filho, impressionou Carlos. Era

no momento em que elle lia Michelet--e enchia-lhe a alma a veneração

litteraria da santidade domestica. Sentiu-se canalha em andar alli de

cima do seu _dog-cart_, a preparar friamente a vergonha, e as lagrimas

d'aquelle pobre pae tão inoffensivo no seu paletot coçado! Nunca mais

respondeu ás cartas em que Hermengarda lhe chamava _seu ideal_. Decerto

a rapariga se vingou, intrigando-o; porque o empregado do governo civil,

d'ahi por diante, dardejava sobre elle olhares sangrentos.

Mas a grande «topada sentimental de Carlos», como disse o Ega, foi

quando elle, ao fim d'umas ferias, trouxe de Lisboa uma soberba rapariga

hespanhola, e a installou n'uma casa ao pé de Cellas. Chamava-se

Encarnacion. Carlos alugou-lhe ao mez uma vittoria com um cavallo branco

e Encarnacion fanatisou Coimbra como a apparição d'uma _Dama das

Camelias_, uma flôr de luxo das civilisações superiores. Pela Calçada,

pela estrada da Beira, os rapazes paravam, pallidos de emoção, quando

ella passava, reclinada na vittoria, mostrando o sapato de setim, um

pouco da meia de sêda, languida e desdenhosa, com um cãosinho branco no

regaço.

Os poetas da Academia fizeram-lhe versos em que Encarnacion foi chamada

_Lirio d'Israel_, _Pomba da Arca_, e _Nuvem da Manhã_. Um estudante de

theologia, rude e sebento transmontano, quiz casar com ella. Apesar das

instancias de Carlos, Encarnacion recusou; e o theologo começou a rondar

Cellas, com um navalhão, para «beber o sangue» ao Maia. Carlos teve de

lhe dar bengaladas.

Mas a creatura, desvanecida, tornou-se intoleravel, fallando sem cessar

d'outras paixões que inspirára em Madrid e em Lisboa, do muito que lhe

dera o conde de tal, o marquez sicrano, da grande posição da sua familia

ainda aparentada com os Medina-C[oe]li: os seus sapatos de setim verde

eram tão antipathicos como a sua voz estridula: e quando tentava

elevar-se ás conversações que ouvia, rompia a chamar ladrões aos

republicanos, a celebrar os tempos de D. Isabel, a sua _gracia_, o seu

_salero_--sendo muito conservadora como todas as prostitutas. João da

Ega odiava-a. E Craveiro declarou que não voltava aos Paços de Cellas

emquanto por lá apparecesse aquelle montão de carne, pago ao arratel,

como a de vacca.

Emfim, uma tarde Baptista, o famoso criado de quarto de Carlos

surprehendeu-a com um Juca que fazia de dama no Theatro Academico. Ahi

estava, emfim, um pretexto! E, convenientemente paga, a parenta dos

Medina-C[oe]li, o _Lirio d'Israel_, a admiradora dos Bourbons, foi

recambiada a Lisboa e á rua de S. Roque, seu elemento natural.

Em agosto, no acto da formatura de Carlos, houve uma alegre festa em

Cellas. Affonso viera de Santa Olavia, Villaça de Lisboa; toda a tarde

no quintal, d'entre as acacias e as bella-sombras, subiram ao ar mólhos

de foguetes; e João da Ega, que levára o seu ultimo _R_ no seu ultimo

anno, não descansou, em mangas de camisa, pendurando lanternas

venezianas pelos ramos, no trapesio e em roda do poço, para a

illuminação da noite. Ao jantar, a que assistiam lentes, Villaça,

enfiado e tremulo, fez um _speech_; ia citar o nosso _immortal Castilho_

quando sob as janellas rompeu, a grande ruido de tambor e pratos, o

_Hymno Academico_. Era uma serenata.--Ega, vermelho, de batina

desabotoada, a luneta para traz das costas, correu á sacada, a perorar:

--Ahi temos o nosso Maia, Carolus Eduardus ab Maia, começando a sua

gloriosa carreira, preparado para salvar a humanidade enferma--ou acabar

de a matar, segundo as circumstancias! A que parte remota d'estes reinos

não chegou já a fama do seu genio, do seu _dog-cart_, do sebaceo

_accessit_ que lhe ennodôa o passado, e d'este vinho do Porto,

contemporaneo dos heroes de 20, que eu, homem de revolução e homem de

carraspana, eu, João da Ega, Johanes ab Ega...

O grupo escuro em baixo desatou aos _vivas_. A philarmonica, outros

estudantes, invadiram os Paços. Até tarde, sob as arvores do quintal, na

sala atulhada de pilhas de pratos, os criados correram com salvas de

dôce, não cessou d'estalar o _champagne_. E Villaça, limpando a testa, o

pescoço, abafado de calor, ia dizendo a um, a outro, a si mesmo tambem:

--Grande coisa, ter um curso!

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 6 / 53 段