Deante do canapé das senhoras lá se achava tambem o fiel amigo, o dr.

delegado, grave e digno homem, que havia cinco annos andava ponderando e

meditando o casamento com a Silveira viuva, sem se

decidir--contentando-se em comprar todos os annos mais meia duzia de

lençoes, ou uma peça mais de bretanha, para arredondar o bragal. Estas

compras eram discutidas em casa das Silveiras, á brazeira: e as allusões

recatadas, mas inevitaveis, ás duas fronhasinhas, ao tamanho dos

lençoes, aos cobertores de papa para os conchegos de janeiro--em logar

de inflammar o magistrado, inquietavam-n'o. Nos dias seguintes apparecia

preoccupado--como se a perspectiva da santa consummação do matrimonio

lhe désse o arrepio de uma façanha a emprehender, o ter de agarrar um

toiro, ou nadar nos cachões do Douro. Então, por qualquer rasão

especiosa, adiava-se o casamento até ao S. Miguel seguinte. E alliviado,

tranquillo, o respeitavel Dr. continuava a acompanhar as Silveiras a

chás, festas de egreja ou pezames, vestido de preto, affavel, serviçal,

sorrindo a D. Eugenia, não desejando mais prazeres que os d'essa

convivencia paternal.

Apenas Affonso entrou na sala deram-lhe logo noticia do contratempo: o

dr. juiz de direito e a senhora não podiam vir, por que o magistrado

tivera a dôr; e as Brancos tinham mandado recado a desculpar-se,

coitadas, que era dia de tristeza em casa, por fazer desesete annos que

morrera o mano Manuel...

--Bem, disse Affonso, bem. A dôr, a tristeza, o mano Manuel... Fazemos

nós um voltaretesinho de quatro. Que diz o nosso dr. delegado?

O excellente homem dobrou a sua fronte calva, murmurando que «estava ás

ordens.»

--Então ao dever, ao dever! exclamou logo o abbade, esfregando as mãos,

no ardor já da partida.

Os parceiros dirigiram-se á saleta do jogo--que um reposteiro de damasco

separava da sala, franzido agora, deixando ver a mesa verde, e nos

circulos de luz que cahiam dos _abat-jour_ os baralhos abertos em leque.

D'ahi a um momento o dr. delegado voltou, risonho, dizendo que «os

deixara para um roquesinho de tres»; e retomou o seu logar ao lado de D.

Eugenia, cruzando os pés debaixo da cadeira e as mãos em cima do ventre.

As senhoras estavam fallando da dôr do dr. juiz de direito. Costumava

dar-lhe todos os tres mezes: e era condemnavel a sua teima em não querer

consultar medicos. Quanto mais que elle andava acabado, ressequindo,

amarellando--e a D. Augusta, a mulher, a nutrir á larga, a ganhar

côres!... A Viscondessa, enterrada em toda a sua gordura ao canto do

canapé, com o leque aberto sobre o peito, contou que em Hespanha vira um

caso egual: o homem chegara a parecer um esqueleto, e a mulher uma pipa;

e ao principio fôra o contrario; até sobre isso se tinham feito uns

versos...

--Humores, disse com melancolia o dr. delegado.

Depois fallou-se nas Brancos; recordou-se a morte de Manuel Branco,

coitadinho, na flor de idade! E que perfeição de rapaz! E que rapaz de

juizo! D. Anna Silveira não se esquecera, como todos os annos, de lhe

accender uma lamparina por alma, e de lhe resar tres padre-nossos. A

viscondessa pareceu toda afflicta por se não ter lembrado... E ella que

tinha o proposito feito!

--Pois estive para t'o mandar dizer! exclamou D. Anna. E as Brancos que

tanto o agradecem, filha!

--Ainda está a tempo, observou o magistrado.

D. Eugenia deu uma malha indolente no _crochet_ de que nunca se

separava, e murmurou com um suspiro:

--Cada um tem os seus mortos.

E no silencio que se fez, saiu do canto do canapé outro suspiro, o da

viscondessa, que de certo se recordára do fidalgo d'Urigo de la Sierra,

e murmurava:

--Cada um tem os seus mortos...

E o digno dr. delegado terminou por dizer egualmente, depois de passar

reflectidamente a mão pela calva:

--Cada um tem os seus mortos!

Uma somnolencia ia pesando. Nas serpentinas douradas, sobre as consoles,

as chammas das velas erguiam-se altas e tristes. Eusebiosinho voltava

com cautella e arte as estampas dos _Costumes de todos os Povos_. E na

saleta de jogo, atravez do reposteiro aberto, sentia-se a voz já

arrenegada do abbade, rosnando com um rancor tranquillo, «passo, que é o

que tenho feito toda a santa noite!»

N'esse momento Carlos arremettia pela sala dentro arrastando a sua

noiva, a Theresinha, toda no ar e vermelha de brincar; e logo a grulhada

das suas vozes reanimou o canapé dormente.

Os noivos tinham chegado d'uma pittoresca e perigosa viagem, e Carlos

parecia descontente de sua mulher; comportara-se d'uma maneira atroz;

quando elle ia governando a mala-posta, ella quizera empoleirar-se ao pé

d'elle na almofada... Ora senhoras não viajam na almofada.

--E elle atirou-me ao chão, titi!

--Não é verdade! De mais a mais é mentirosa! Foi como quando chegámos á

estalagem... Ella quiz-se deitar, e eu não quiz... A gente, quando se

apeia de viagem, a primeira cousa que faz é tratar do gado... E os

cavallos vinham a escorrer...

A voz de D. Anna interrompeu, muito severa:

--Está bom, está bom, basta de tolices! Já cavallaram bastante. Senta-te

ahi ao pé da sr.^a Viscondessa, Thereza... Olhe essa travessa do

cabello... Que desproposito!

Sempre detestára ver a sobrinha, uma menina delicada de dez annos,

brincar assim com o Carlinhos. Aquelle bello e impetuoso rapaz, sem

doutrina e sem proposito, aterrava-a; e pela sua imaginação de

solteirona passavam sem cessar idéas, suspeitas de ultrages que elle

poderia fazer á menina. Em casa, ao agasalhal-a antes de vir para S.^ta

Olavia, recommendava-lhe com força que não fosse com o Carlos para os

recantos escuros! que o não deixasse mecher-lhe nos vestidos!... A

menina, que tinha os olhos muito langorosos, dizia: «Sim, titi.» Mas,

apenas na quinta, gostava de abraçar o seu maridinho. Se eram casados,

por que não haviam de fazer néné, ou ter uma loja e ganharem a sua vida

aos beijinhos? Mas o violento rapaz só queria guerras, quatro cadeiras

lançadas a galope, viagens a terras de nomes barbaros que o Brown lhe

ensinava. Ella, despeitada, vendo o seu coração mal comprehendido,

chamava-lhe _arrieiro_; elle ameaçava boxal-a, á ingleza;--e

separavam-se sempre arrenegados.

Mas quando ella se accomodou ao lado da Viscondessa, gravesinha e com as

mãos no regaço--Carlos veiu logo estirar-se ao pé d'ella, meio deitado

para as costas do canapé, bamboleando as pernas.

--Vamos, filho, tem maneiras, rosnou-lhe muito secca D. Anna.

--Estou cançado, governei quatro cavallos, replicou elle, insolente e

sem a olhar.

De repente porém, d'um salto, precipitou-se sobre o Eusebiosinho.

Queria-o levar á Africa, a combatter os selvagens: e puchava-o já pelo

seu bello _plaid_ de cavalleiro d'Escossia, quando a mamã accudiu

atterrada.

--Não, com o Eusebiosinho não, filho! Não tem saude para essas

cavalladas... Carlinhos, olhe que eu chamo o avô!

Mas o Eusebiosinho, a um repellão mais forte, rolara no chão, soltando

gritos medonhos. Foi um alvoroço, um levantamento. A mãe, tremula,

agachada junto d'elle, punha-o de pé sobre as perninhas molles,

limpando-lhe as grossas lagrimas, já com o lenço, já com beijos, quasi a

chorar tambem. O delegado, consternado, apanhara o bonet escossez, e

cofiava melancolicamente a bella pena de gallo. E a Viscondessa apertava

ás mãos ambas o enorme seio, como se as palpitações a suffocassem.

O Eusebiosinho foi então preciosamente collocado ao lado da titi; e a

severa senhora, com um fulgôr de colera na face magra, apertando o leque

fechado como uma arma, preparava-se a repellir o Carlinhos que, de mãos

atraz das costas e aos pulos em roda do canapé, ria, arreganhando para o

Eusebiosinho um labio feroz. Mas n'esse momento davam nove horas, e a

desempenada figura do Brown appareceu á porta.

Apenas o avistou, Carlos correu a refugiar-se por detraz da Viscondessa,

gritando:

--Ainda é muito cedo, Brown, hoje é festa, não me vou deitar!

Então Affonso da Maia, que se não movera aos uivos lacinantes do

Silveirinha, disse de dentro, da mesa do voltarete, com severidade:

--Carlos, tenha a bondade de marchar já para a cama.

--Oh vôvô, é festa, que está cá o Villaça!

Affonso da Maia pousou as cartas, atravessou a sala sem uma palavra,

agarrou o rapaz pelo braço, e arrastou-o pelo corredor--em quanto elle,

de calcanhares fincados no soalho, resistia, protestando com desespero:

--É festa, vôvô... É uma maldade!... O Villaça póde-se escandalisar...

Oh vôvô, eu não tenho somno!

Uma porta fechando-se abafou-lhe o clamor. As senhoras censuraram logo

aquella rigidez: ahi estava uma cousa incomprehensivel; o avô

deixava-lhe fazer todos os horrores, e recusava-lhe então o bocadinho da

soirée...

--Oh sr. Affonso da Maia, por que não deixou estar a creança?

--É necessario methodo, é necessario methodo, balbuciou elle, entrando,

todo pallido do seu rigor.

E á mesa do voltarete, apanhando as cartas com as mãos tremulas, repetia

ainda:

--É necessario methodo. Creanças á noite dormem.

D. Anna Silveira voltando-se para o Villaça--que cedera o seu lugar ao

dr. delegado e vinha palestrar com as senhoras--teve aquelle sorriso

mudo que lhe franzia os labios, sempre que Affonso da Maia fallava em

«methodos.»

Depois, reclinando-se para as costas da cadeira e abrindo o leque,

declarou, a transbordar d'ironia, que, talvez por ter a intelligencia

curta, nunca comprehendera a vantagem dos «methodos»... Era á ingleza,

segundo diziam: talvez provassem bem em Inglaterra; mas ou ella estava

enganada, ou S.^ta Olavia era no reino de Portugal...

E como Villaça inclinava timidamente a cabeça, com a sua pitada nos

dedos, a esperta senhora, baixo para que Affonso dentro não ouvisse,

desabafou. O sr. Villaça naturalmente não sabia, mas aquella educação do

Carlinhos nunca fôra approvada pelos amigos da casa. Já a presença do

Brown, um heretico, um protestante, como perceptor na familia dos Maias,

causara desgosto em Resende. Sobretudo quando o sr. Affonso tinha

aquelle santo do abbade Custodio, tão estimado, homem de tanto saber...

Não ensinaria á creança habilidades de acrobata; mas havia de lhe dar

uma educação de fidalgo, preparal-o para fazer boa figura em Coimbra.

N'esse momento, o abbade, suspeitando uma corrente d'ar, erguera-se da

mesa de jogo a fechar o reposteiro: então, como Affonso já não podia

ouvir, D. Anna ergueu a voz:

--E olhe que o Custodio teve desgosto, sr. Villaça. Que o Carlinhos,

coitadinho, nem uma palavra sabe de doutrina... Sempre lhe quero contar

o que succedeu com a Macedo.

Villaça já sabia.

--Ah já sabe? Lembras-te viscondessa? Com a Macedo, do acto de

contricção...

A viscondessa suspirou, erguendo um olhar mudo ao ceu atravez do tecto.

--Horroroso! continuou D. Anna. A pobre mulher chegou lá a nossa casa

embuchada... E eu fez-me impressão. Até sonhei com aquillo tres noites a

fio...

Calou-se um momento. Villaça, embaraçado, acanhado, fazia girar a caixa

de rapé nos dedos, com os olhos postos no tapete. Outro langor de

somnolencia passou na sala; D. Eugenia, com as palpebras pesadas, fazia

de vez em quando uma malha molle no _crochet_; e a noiva de Carlos,

estirada para o canto do sophá, já dormia, com a boquinha aberta, os

seus lindos cabellos negros caindo-lhe pelo pescoço.

D. Anna, depois de bocejar de leve, retomou a sua idéa:

--Sem contar que o pequeno está muito atrazado. A não ser um bocado de

inglez, não sabe nada... Nem tem prenda nenhuma!

--Mas é muito esperto, minha rica senhora! accudiu Villaça.

--É possivel, respondeu seccamente a intelligente Silveira.

E, voltando-se para Euzebiosinho, que se conservava ao lado d'ella,

quieto como se fosse de gesso:

--Oh filho, dize tu aqui ao sr. Villaça aquelles lindos versos que

sabes... Não sejas atado, anda!... Vá, Euzebio, filho, sê bonito...

Mas o menino, mollengão e tristonho, não se descollava das saias da

titi: teve ella de o pôr de pé, amparal-o, para que o tenro prodigio não

alluisse sobre as perninhas flacidas; e a mamã prometteu-lhe que, se

dissesse os versinhos, dormia essa noite com ella...

Isto decidio-o: abrio a bocca, e como d'uma torneira lassa veio de lá

escorrendo, n'um fio de voz, um recitativo lento e babujado:

É noite, o astro saudoso

Rompe a custo um plumbeo céu,

Tolda-lhe o rosto formoso

Alvacento, humido véo...

Disse-a toda--sem se mexer, com as mãosinhas pendentes, os olhos

mortiços pregados na titi. A mamã fazia o compasso com a agulha do

_crochet_; e a viscondessa, pouco a pouco, com um sorriso de quebranto,

banhada no langor da melopea, ia cerrando as palpebras.

--Muito bem, muito bem! exclamou o Villaça, impressionado, quando o

Euzebiosinho findou coberto de suor. Que memoria! Que memoria! É um

prodigio!...

Os creados entravam com o chá. Os parceiros tinham findado a partida; e

o bom Custodio, de pé, com a sua chavena na mão, queixava-se amargamente

da maneira porque aquelles senhores o tinham esfollado.

Como ao outro dia era domingo, e havia missa cedo, as senhoras

retiraram-se ás nove e meia. O serviçal dr. delegado dava o braço a D.

Eugenia; um creado da quinta allumiava adiante com o lampeão; e o moço

das Silveiras levava ao collo o Eusebiosinho que parecia um fardo

escuro, abafado em mantas, com um chale amarrado na cabeça.

Depois da ceia Villaça acompanhou ainda um momento Affonso da Maia á

livraria, onde, antes de recolher, elle tomava sempre á ingleza o seu

cognac e soda.

O aposento, a que as velhas estantes de pau preto davam um ar severo,

estava adormecido tepidamente, na penumbra suave, com as cortinas bem

fechadas, um resto de lume na chaminé, e o globo do candieiro pondo a

sua claridade serena na mesa coberta de livros. Em baixo, os repuchos

cantavam alto no silencio da noite.

Emquanto o escudeiro rolava para o pé da poltrona de Affonso, n'uma mesa

baixa, os crystaes e as garrafas de soda, Villaça, com as mãos nos

bolsos, de pé e pensativo, olhava a braza da acha que morria na cinza

branca. Depois ergueu a cabeça, para murmurar, como ao acaso:

--Aquelle rapazito é esperto...

--Quem? O Euzebiosinho? disse Affonso, que se accomodava junto ao fogão,

enchendo alegremente o cachimbo. Eu tremo de o ver cá, Villaça! O Carlos

não gosta d'elle, e tivemos ahi um desgosto horroroso... Foi já ha

mezes. Havia uma procissão e o Eusebiosinho ia de anjo... As Silveiras,

excellentes mulheres, coitadas, mandaram-n'o cá para o mostrar á

viscondessa, já vestido de anjo. Pois senhores, distrahimo-nos, e o

Carlos que o andava a rondar apodera-se d'elle, leva-o para o sotão, e,

meu caro Villaça... Em primeiro logar ia-o matando porque embirra com

anjos... Mas o peior não foi isso. Imagine você o nosso terror, quando

nos apparece o Eusebiosinho aos berros pela titi, todo desfrizado, sem

uma aza, com a outra a bater-lhe os calcanhares dependurada de um

barbante, a corôa de rosas enterrada até ao pescoço, e os galões de

ouro, os tulles, as lentejoulas, toda a vestimenta celeste em

frangalhos!... Emfim, um anjo depennado e sovado... Eu ia dando cabo do

Carlos.

Bebeu metade da sua soda, e passando a mão pelas barbas, accrescentou,

com uma satisfação profunda:

--É levado do diabo, Villaça!

O administrador, sentado agora á borda de uma cadeira, esboçou uma

risadinha muda; depois ficou calado, olhando Affonso, com as mãos nos

joelhos, como esquecido e vago. Ia abrir os labios, hesitou ainda,

tossio de leve; e continuou a seguir pensativamente as faiscas que

erravam sobre as achas.

Affonso da Maia, no entanto, com as pernas estiradas para o lume,

recomeçara a fallar do Silveirinha. Tinha tres ou quatro mezes mais que

Carlos, mas estava enfesado, estiolado, por uma educação á portugueza:

d'aquella edade ainda dormia no chôco com as criadas, nunca o lavavam

para o não constiparem, andava couraçado de rolos de flanellas! Passava

os dias nas saias da titi a decorar versos, paginas inteiras do

_Cathecismo de Perseverança_. Elle por curiosidade um dia abrira este

livreco e vira lá, «que o sol é que anda em volta da terra (como antes

de Galileu), e que Nosso Senhor todas as manhãs dá as ordens ao sol,

para onde ha d'ir e onde ha de parar, etc., etc.» E assim lhe estavam

arranjando uma almasinha de bacharel...

Villaça teve outra risadinha silenciosa. Depois, como subitamente

decidido, ergueu-se, fez estalar os dedos, disse estas palavras:

--V. Ex.^a sabe que appareceu a Monforte?

Affonso, sem mover a cabeça, reclinado para as costas da poltrona,

perguntou tranquillamente, envolvido no fumo do cachimbo:

--Em Lisboa?

--Não senhor, em Paris. Viu-a lá o Alencar, esse rapaz que escreve, e

que era muito de Arroios... Esteve até em casa d'ella.

E ficaram calados. Havia annos que entre elles se não pronunciara o nome

de Maria Monforte. Ao principio, quando se retirara para Santa Olavia, a

preoccupação ardente de Affonso da Maia fôra tirar-lhe a filha que ella

levara. Mas a esse tempo ninguem sabia onde Maria se refugiara com o seu

principe: nem pela influencia das legações, nem pagando regiamente a

policia secreta de Paris, de Londres, de Madrid, se poude descobrir a

«toca da fera» como disia então o Villaça. Ambos decerto tinham mudado

de nome; e, dadas essas naturezas bohemias, quem sabe se não errariam

agora pela America, pela India, em regiões mais exoticas? Depois, pouco

a pouco, Affonso da Maia descorçoado com aquelles esforços vãos, todo

occupado do neto que crescia bello e forte ao seu lado, no

enternecimento continuo que elle lhe dava foi esquecendo a Monforte e a

sua outra neta, tão distante, tão vaga, a quem ignorava as feições, de

quem mal sabia o nome. E agora de repente a Monforte apparecia outra vez

em Paris! e o seu pobre Pedro estava morto! e aquella creança que dormia

ao fundo do corredor nunca vira sua mãe...

Erguera-se, passeiava na livraria, pesado e lento, com a cabeça baixa.

Junto á mesa, ao pé do candieiro, o Villaça ia percorrendo um a um os

papeis da sua carteira.

--E está em Paris com o italiano? perguntou Affonso do fundo sombrio do

aposento.

O Villaça ergueu a cabeça de sobre a carteira, e disse:

--Não senhor, está com quem lhe paga.

E como Affonso se aproximava da mesa, sem uma palavra, Villaça,

dando-lhe um papel dobrado, accrescentou:

--Todas estas cousas são muito graves, sr. Affonso da Maia, e eu não

quiz fiar-me só na minha memoria. Por isso pedi ao Alencar, que é um

excellente rapaz, que me escrevesse n'uma carta tudo o que me contou.

Assim temos um documento. Eu não sei mais do que ahi está escripto. Póde

V. Ex.^a ler...

Affonso desdobrou as duas folhas de papel. Era uma historia simples, que

o Alencar, o poeta das _Vozes d'Aurora_, o estylista de _Elvira_, ornára

de flores e de galões dourados como uma capella em dia de festa.

Uma noite, ao sahir da _Maison d'Or_, elle vira a Monforte saltar d'um

_coupé_ com dois homens de gravata branca; tinham-se logo reconhecido; e

um momento ficaram hesitando, um defronte do outro, debaixo do candieiro

de gaz, no _trottoir_. Foi ella que, muito decidida, rindo, estendeu a

mão ao Alencar, pediu-lhe que a visitasse, deu-lhe a _adresse_, o nome

por que devia perguntar: M.^{me} de l'Estorade. E no seu _boudoir_, na

manhã seguinte a Monforte fallou largamente de si: vivera tres annos em

Vienna d'Austria com Tancredo, e com o papá que se lhes fôra reunir--e

que lá continuava de certo, como em Arroios, refugiando-se pelos cantos

das salas, pagando as _toilettes_ da filha, e dando palmadinhas ternas

no hombro do amante como outr'ora no hombro do marido. Depois tinham

estado em Monaco; e ahi, dizia o Alencar, «n'um drama sombrio de paixão

que ella me fez entrever» o napolitano fora morto em duello. O papá

morrera tambem n'esse anno, deixando apenas da sua fortuna uns magros

contos de réis, e a mobilia da casa em Vienna: o velho arruinara-se com

o luxo da filha, com as viagens, com as perdas de Tancredo ao

_baccarat_. Passára então um tempo em Londres: e d'ahi viera habitar

Paris, com Mr. de l'Estorade, um jogador, um espadachim, que acabou de a

arrasar, e que a abandonou legando-lhe esse nome de l'Estorade, que lhe

era a elle d'ora em diante inutil porque passava a adoptar outro mais

sonoro de _Vicomte de Manderville_. Emfim, pobre, formosa, doida,

excessiva, lançara-se na existencia d'aquellas mulheres de quem, dizia o

Alencar, «a pallida Margarida Gautier, a gentil _Dama das Camelias_ é o

typo sublime, o symbolo poetico, a quem muito será perdoado porque muito

amaram.» E o poeta terminava: «ella está ainda no esplendor da belleza,

mas as rugas virão, e então que avistará em redor de si? As rosas seccas

e ensanguentadas da sua coroa de esposa. Sahi d'aquelle _boudoir_

perfumado, com a alma dilacerada, meu Villaça! Pensava no meu pobre

Pedro, que lá jaz sob o raio de luar, entre as raizes dos cyprestes. E,

desilludido d'esta cruel vida, vim pedir ao absintho, no _boulevard_,

uma hora de esquecimento.»

Affonso da Maia deu um repellão á carta, menos enojado das torpezas da

historia, que d'aquelles lyrismos relambidos.

E recomeçou a passear, emquanto o Villaça recolhia religiosamente o

documento que tinha relido muitas vezes, na admiração do sentimento, do

estylo, do ideal d'aquella pagina.

--E a pequena? perguntou Affonso.

--Isso não sei. O Alencar não lhe fallaría na filha, nem elle mesmo sabe

que ella a levou. Ninguem o sabe em Lisboa. Foi um detalhe que passou

desapercebido no grande escandalo. Mas emquanto a mim, a pequena morreu.

Senão, siga V. Ex.^a o meu raciocinio... Se a menina fosse viva, a mãe

podia reclamar a legitima que cabe á creança... Ella sabe a casa que V.

Ex.^a tem; ha de haver dias, e são frequentes na vida d'essas mulheres,

em que lhe falte uma libra... Com o pretexto da educação da menina, ou

de alimentos, já nos tinha importunado... Escrupulos não tem ella. Se o

não faz é que a filha morreu. Não lhe parece a V. Ex.^a?

--Talvez, disse Affonso.

E accrescentou, parando deante de Villaça--que olhava outra vez a braza

morta tirando estalinhos dos dedos:

--Talvez... Sopônhamos que morreram ambas, e não se falle mais n'isso.

Estava dando meia noite, os dois homens recolheram-se. E durante os dias

que Villaça passou em S.^{ta} Olavia não se proferiu mais o nome de

Maria Monforte.

Mas, na vespera da partida do administrador para Lisboa, Affonso subio

ao quarto d'elle, a entregar-lha as amendoas da Paschoa que Carlos

mandava a Villaça Junior, um alfinete de peito com uma magnifica

saphira--e disse-lhe em quanto o outro, sensibilisado, balbuciava os

agradecimentos:

--Agora outra cousa, Villaça. Tenho estado a pensar. Vou escrever a meu

primo Noronha, ao André que vive em Paris como você sabe, pedir-lhe que

procure essa creatura, e que lhe offereça dez ou quinze contos de réis,

se ella me quizer entregar a filha... No caso, está claro, que esteja

viva... E quero que você saiba d'esse Alencar a morada da mulher em

Paris.

O Villaça não respondeu, occupado a metter entre as camisas, bem no

fundo da maleta, a caixinha com o alfinete. Depois, erguendo-se, ficou

deante d'Affonso, a coçar reflectidamente o queixo.

--Então que lhe parece, Villaça?

--Parece-me arriscado.

E deu as suas razões. A menina devia ir nos seus treze annos. Estava uma

mulher, com o seu temperamento formado, o caracter feito, talvez os seus

habitos... Nem fallaria o portuguez. As saudades da mãe haviam de ser

terriveis... Emfim, o sr. Affonso de Maia trazia uma extranha para

casa...

--Você tem rasão, Villaça. Mas a mulher é uma prostituta, e a pequena é

do meu sangue.

N'esse momento Carlos, cuja voz gritava no corredor pelo vovô,

precipitou-se no quarto, esguedelhado, escarlate como uma romã.--O Brown

tinha achado uma corujasinha pequena! Queria que o vovô viesse, ver,

andara a buscal-o por toda a casa... Era de morrer a rir... Muito

pequena, muito feia, toda pellada, e com dois olhos de gente grande! E

sabiam onde havia o ninho...

--Vem depressa, ó vovô! Depressa, que é necessario ir pol-a no ninho,

por causa da coruja velha que se póde affligir... O Brown está-lhe a dar

azeite. Oh Villaça vem ver! O vovô, pelo amor de Deus! Tem uma cara tão

engraçada! Mas depressa, depressa, que a coruja velha póde dar pela

falta!...

E impaciente com a lentidão risonha do vôvo, tanta indifferença pela

inquietação da coruja velha, abalou atirando com a porta.

--Que bom coração! exclamou o Villaça commovido. A pensar nas saudades

da coruja... A mãe d'elle é que não tem saudades! Sempre o disse, é uma

fera!

Afonso encolheu tristemente os hombros. Iam já no corredor quando elle,

parando um momento, baixando a voz:

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 5 / 53 段