--Tudo isto é o menino. Fez reviver o patrão!

O Teixeira riu respeitosamente. O menino realmente era a alegria da

casa...

--Olá! Quem toca por cá? exclamou Villaça, parando nos degraus da

escada, ao ouvir em cima um afinar gemente de rebeca.

--É o sr. Brown, o inglez, o preceptor do menino... Muito habilidoso, é

um regalo ouvil-o; toca ás vezes á noite na sala, o sr. juiz de direito

acompanha-o na concertina... Aqui, sr. Villaça, o quarto de v. s.^a...

--Muito bonito, sim senhor!

O verniz dos moveis novos brilhava na luz das duas janellas, sobre o

tapete alvadio semeado de florsinhas azues: e as bambinellas, os

reposteiros de cretóne, repetiam as mesmas folhagens azuladas sobre

fundo claro. Este conforto fresco e campestre deleitou o bom Villaça.

Foi logo apalpar os cretónes, esfregou o marmore da commoda, provou a

solidez das cadeiras. Eram as mobilias compradas no Porto, hein? Pois,

elegantes. E, realmente, não tinham sido caras. Nem elle fazia idéa!

Ficou ainda em bicos de pés a examinar duas aguarellas inglezas

representando vaccas de luxo, deitadas na relva, á sombra de ruinas

romanticas. O Teixeira, observou-lhe, com o relogio na mão:

--Olhe que v. s.^a tem só dez minutos... O menino não gosta de esperar.

Então o Villaça decidiu-se a desenrolar o cache-nez; depois tirou o seu

pesado collete de malha de lã; e pela camisa entreaberta via-se ainda

uma flanella escarlate por causa dos rheumatismos, e os bentinhos de

seda bordada. O Teixeira desapertava as correias da maleta; ao fundo do

corredor, a rebeca atacara o _Carnaval de Veneza_; e atravez das

janellas fechadas sentia-se o grande ar, a frescura, a paz dos campos,

todo o verde d'abril.

Villaça, sem oculos, um pouco arripiado, passava a ponta da toalha

molhada pelo pescoço, por traz da orelha, e ia dizendo:

--Então, o nosso Carlinhos não gosta de esperar, hein? Já se sabe, é

elle quem governa... Mimos e mais mimos, naturalmente...

Mas o Teixeira muito grave, muito serio, desilludiu o sr. administrador.

Mimos e mais mimos, dizia s. s.^a? Coitadinho d'elle, que tinha sido

educado com uma vara de ferro! Se elle fosse a contar ao sr. Villaça!

Não tinha a creança cinco annos já dormia n'um quarto só, sem lamparina;

e todas as manhãs, zás, para dentro d'uma tina d'agua fria, ás vezes a

gear lá fóra... E outras barbaridades. Se não se soubesse a grande

paixão do avô pela creança, havia de se dizer que a queria morta. Deus

lhe perdoe, elle, Teixeira, chegara a pensal-o... Mas não, parece que

era systema inglez! Deixava-o correr, cair, trepar ás arvores,

molhar-se, apanhar soalheiras, como um filho de caseiro. E depois o

rigor com as comidas! Só a certas horas e de certas cousas... E ás vezes

a creancinha, com os olhos abertos, a aguar! Muita, muita dureza.

E o Teixeira accrescentou:

--Emfim era a vontade de Deus, saiu forte. Mas que nós approvassemos a

educação que tem levado, isso nunca approvámos, nem eu, nem a Gertrudes.

Olhou outra vez o relogio, preso por uma fita negra sobre o collete

branco, deu alguns passos lentos pelo quarto: depois, tomando de sobre a

cama a sobrecasaca do procurador, foi-lhe passando a escova pela gola,

de leve e por amabilidade, em quanto dizia, junto ao toucador onde o

Villaça acamava as duas longas repas sobre a calva:

--Sabe v. s.^a, apenas veiu o mestre inglez, o que lhe ensinou? A remar!

A remar, sr. Villaça, como um barqueiro! Sem contar o trapesio, e as

habilidades de palhaço; eu n'isso nem gosto de fallar... Que eu sou o

primeiro a dizel-o: o Brown é boa pessoa, calado, asseado, excellente

musico. Mas é o que eu tenho repetido á Gertrudes: póde ser muito bom

para inglez, não é para ensinar um fidalgo portuguez... Não é. Vá v.

s.^a fallar a esse respeito com a sr.^a D. Anna Silveira...

Bateram de manso á porta, o Teixeira emmudeceu. Um escudeiro entrou, fez

um signal ao mordomo, tirou-lhe do braço respeitosamente a sobrecasaca,

e ficou com ella junto do toucador, onde o Villaça, vermelho e

apressado, luctava ainda com as repas rebeldes.

O Teixeira, da porta, disse com o relogio na mão:

--É o jantar. Tem v. s.^a dois minutos, sr. Villaça.

E o administrador d'ahi a um momento abalava tambem, abotoando ainda o

casaco pelas escadas.

Os senhores já estavam todos na sala. Junto do fogão, onde as achas

consumidas morriam na cinza branca, o Brown percorria o _Times_. Carlos,

a cavallo nos joelhos do avô, contava-lhe uma grande historia de rapazes

e de bulhas; e ao pé o bom abbade Custodio, com o lenço de rapé

esquecido nas mãos, escutava, de bocca aberta, n'um riso paternal e

terno.

--Olhe quem alli vem, abbade, disse-lhe Affonso.

O abbade voltou-se, e deu uma grande palmada na côxa:

--Esta é nova! Então é o nosso Villaça? E não me tinham dito nada!

Venham de lá esses ossos, homem!...

Carlos pulava nos joelhos do avô, muito divertido com aquelles longos

abraços que juntavam as duas cabeças dos velhos--uma com as repas

achatadas sobre a calva, outra com uma grande corôa aberta n'uma matta

de cabello branco. E como elles, de mãos dadas, continuavam a

admirar-se, a estudarem um no outro as rugas dos annos, Affonso disse:

--Villaça! a sr.^a viscondessa...

O administrador porém procurou-a debalde, com os olhos abertos pela

sala. Carlos ria, batendo as mãos:--e Villaça descobriu-a emfim a um

canto, entre o aparador e a janella, sentada n'uma cadeirinha baixa,

vestida de preto, timida e queda, com os braços rechonchudos pousados

sobre a obesidade da cinta. O rosto anafado e molle, branco como papel,

as roscas do pescoço, cobriram-se-lhe subitamente de rubor; não achou

uma palavra para dizer ao Villaça, e estendeu-lhe a mão papuda e

pallida, com um dedo embrulhado n'um pedaço de seda negra. Depois ficou

a abanar-se com um grande leque de lentejoulas, o seio a arfar, os olhos

no regaço, como exhausta d'aquelle esforço.

Dois escudeiros tinham começado a servir a sopa, o Teixeira esperava,

perfilado por traz do alto espaldar da cadeira de Affonso.

Mas Carlos cavalgava ainda o avô, querendo acabar outra historia. Era o

Manuel, trazia uma pedra na mão... Elle primeiro pensára ir ás boas; mas

os dois rapazes começaram a rir... De maneira que os correu a todos...

--E maiores que tu?

--Tres rapagões, vôvô, póde perguntar á tia Pedra... Ella viu, que

estava na eira. Um d'elles trazia uma foice...

--Está bom, senhor, está bom, ficamos inteirados... Vá, desmonte, que

está a sopa a esfriar. Upa! upa!

E o velho, com o seu aspecto resplandecente de patriarcha feliz, veiu

sentar-se ao alto da meza, sorrindo e dizendo:

--Já se vae fazendo pesado, já não está para collo...

Mas reparou então no Brown, e tornando a erguer-se fez a apresentação do

procurador.

--O sr. Brown, o amigo Villaça... Peço perdão, descuidei-me, foi culpa

d'aquelle cavalheiro lá ao fundo da meza, o sr. D. Carlos de mata-sete!

O perceptor, solidamente abotoado na sua longa sobrecasaca militar, deu

toda a volta á meza, rigido e teso, para vir sacudir o Villaça n'um

tremendo _shake-hands_; depois, sem uma palavra, reoccupou o seu logar,

desdobrou o guardanapo, cofiou os formidaveis bigodes, e foi então que

disse ao Villaça, com o seu forte accento inglez:

--_Muito bello dia... glorioso!_

--Tempo de rosas, respondeu o Villaça, comprimentando, intimidado diante

d'aquelle athleta.

Naturalmente, n'esse dia, fallou-se da jornada de Lisboa, do bom serviço

da malla-posta, do caminho de ferro que se ia abrir... O Villaça já

viera no comboyo até ao Carregado.

--De causar horror, hein? perguntou o abbade, suspendendo a colher que

ia levar á bocca.

O excellente homem nunca saira de Resende; e todo o largo mundo, que

ficava para além da penumbra da sua sachristia e das arvores do seu

passal, lhe dava o terror d'uma Babel. Sobre tudo essa estrada de ferro,

de que tanto se fallava...

--Faz arripiar um bocado, affirmou com experiencia Villaça. Digam o que

disserem, faz arripiar!

Mas o abbade assustava-se sobre tudo com as inevitaveis desgraças

d'essas machinas!

O Villaça então lembrou os desastres da mala-posta. No de Alcobaça,

quando tudo se virou, ficaram esmagadas duas irmãs de caridade! Emfim de

todos os modos havia perigos. Podia-se quebrar uma perna a passear no

quarto...

O abbade gostava do progresso... Achava até necessario o progresso. Mas

parecia-lhe que se queria fazer tudo á lufa-lufa... O paiz não estava

para essas invenções; o que precisava eram boas estradinhas...

--E economia! disse o Villaça, puxando para si os pimentões.

--Bucellas? murmurou-lhe sobre o hombro o escudeiro.

O administrador ergueu o copo, depois de cheio, admirou-lhe á luz a côr

rica, provou-o com a ponta do labio, e piscando o olho para Affonso:

--É do nosso!

--Do velho, disse Affonso. Pergunte ao Brown... Hein, Brown, um bom

nectar?

--_Magnificente!_ exclamou o perceptor com uma energia fogosa.

Então Carlos, estendendo o braço por cima da meza, reclamou tambem

Bucellas. E a sua razão era haver festa por ter chegado o Villaça. O avô

não consentiu; o menino teria o seu calice de Collares, como de costume,

e um só. Carlos crusou os braços sobre o guardanapo que lhe pendia do

pescoço, espantado de tanta injustiça! Então nem para festejar o Villaça

poderia apanhar uma gotinha de Bucellas? Ahi estava uma linda maneira de

receber os hospedes na quinta... A Gertrudes dissera-lhe que como viera

o sr. administrador, havia de pôr á noite para o chá o fato novo de

velludo. Agora observavam-lhe que não era festa, nem caso para

Bucellas... Então não entendia.

O avô, que lhe bebia as palavras, enlevado, fez subitamente um carão

severo.

--Parece-me que o senhor está palrando de mais. As pessoas grandes é que

palram à meza.

Carlos recolheu-se logo ao seu prato, murmurando muito mansamente:

--Está bom, vovô, não te zangues. Esperarei para quando for grande...

Houve um sorriso em volta da meza. A propria viscondessa, deleitada,

agitou preguiçosamente o leque: o abbade, com a sua boa face banhada em

extasi para o menino, apertava as mãos cabelludas contra o peito, tanto

aquillo lhe parecia engraçado: e Affonso tossia por traz do guardanapo,

como limpando as barbas--a esconder o riso, a admiração que lhe brilhava

nos olhos.

Tanta vivacidade surprehendeu tambem Villaça. Quiz ouvir mais o menino,

e pousando o seu talher:

--E diga-me, Carlinhos, já vae adiantado nos seus estudos?

O rapaz, sem o olhar, repoltreou-se, mergulhou as mãos pelo cós das

flanellas, e respondeu com um tom superior:

--Já faço ladear a _Brigida_.

Então o avô, sem se conter, largou a rir, cahido para o espaldar da

cadeira:

--Essa é boa! Eh! Eh! Já faz ladear a _Brigida_! E é verdade, Villaça,

já a faz ladear... Pergunte ao Brown; não é verdade, Brown? E a eguasita

é uma piorrita, mas fina...

--Oh vovô, gritou Carlos já excitado, dize ao Villaça, anda. Não é

verdade que eu era capaz de governar o _dog-cart_?

Affonso reassumio um ar severo.

--Não o nego... Talvez o governasse, se lh'o consentissem. Mas faça-me

favor de se não gabar das suas façanhas, porque um bom cavalleiro deve

ser modesto... E sobre tudo não enterrar assim as mãos pela barriga

abaixo...

O bom Villaça, no entanto, dando estalinhos aos dedos, preparava uma

observação. Não se podia de certo ter melhor prenda que montar a cavallo

com as regras... Mas elle queria dizer se o Carlinhos já entrava com o

seu Phedro, o seu Tito Liviosinho...

--Villaça, Villaça, advertiu o abbade, de garfo no ar e um sorriso de

santa malicia, não se deve fallar em latim aqui ao nosso nobre amigo...

Não admitte, acha que é antigo... Elle, antigo é...

--Ora sirva-se d'esse fricassé, ande abbade, disse Affonso, que eu sei

que é o seu fraco, e deixe lá o latim...

O abbade obedeceu com deleite; e escolhendo no molho rico os bons

pedaços de ave, ia murmurando:

--Deve-se começar pelo latimsinho, deve-se começar por lá... É a base; é

a basesinha!

--Não! latim mais tarde! exclamou o Brown, com um gesto possante.

Prrimeiro forrça! Forrça! Musculo...

E repetio, duas vezes, agitando os formidaveis punhos:

--Prrimeiro musculo, musculo!...

Affonso appoiava-o, gravemente. O Brown estava na verdade. O latim era

um luxo d'erudito... Nada mais absurdo que começar a ensinar a uma

creança n'uma lingua morta quem foi Fabio, rei dos Sabinos, o caso dos

Grachos, e outros negocios d'uma nação extincta, deixando-o ao mesmo

tempo sem saber o que é a chuva que o molha, como se faz o pão que come,

e todas as outras cousas do Universo em que vive...

--Mas emfim os classicos, arriscou timidamente o abbade.

--Qual classicos! O primeiro dever do homem é viver. E para isso é

necessario ser são, e ser forte. Toda a educação sensata consiste

n'isto: crear a saude, a força e os seus habitos, desenvolver

exclusivamente o animal, armal-o d'uma grande superioridade physica. Tal

qual como se não tivesse alma. A alma vem depois... A alma é outro luxo.

É um luxo de gente grande...

O abbade coçava a cabeça, com o ar arripiado.

--A instrucçãosinha é necessaria, disse elle. Você não acha, Villaça?

Que v. ex^a, sr. Affonso da Maia, tem visto mais mundo do que eu... Mas

emfim a instrucçãosinha...

--A instrucção para uma creança não é recitar _Tityre, tu patulae

recubans_... É saber factos, noções, cousas uteis, cousas praticas...

Mas suspendeu-se: e, com o olho brilhante, n'um signal ao Villaça,

mostrou-lhe o neto que palrava inglez com o Brown. Eram de certo feitos

de força, uma historia de briga com rapazes que elle lhe estava a

contar, animado e jogando com os punhos. O perceptor approvava,

retorcendo os bigodes. E á mesa os senhores com os garfos suspensos, por

traz os escudeiros de pé e guardanapo no braço, todos, n'um silencio

reverente, admiravam o menino a fallar inglez.

--Grande prenda, grande prenda, murmurou Villaça, inclinando-se para a

Viscondessa.

A excellente senhora córou, atravez d'um sorriso. Parecia assim mais

gorda, toda acaçapada na cadeira, silenciosa, comendo sempre; e, a cada

gole de Bucellas, refrescava-se languidamente com o seu grande leque

negro e lentejoulado.

Quando o Teixeira serviu o vinho do Porto, Affonso fez uma _saude_ ao

Villaça. Todos os copos se ergueram n'um rumor de amizade. Carlos quiz

gritar _Hurrah!_ O avô, com um gesto reprehensivo, immobilisou-o; e na

pausa satisfeita que se fez, o pequeno disse com uma grande convicção:

--Oh avô, eu gosto do Villaça. O Villaça é nosso amigo.

--Muito, e ha muitos annos, meu senhor! exclamou o velho procurador, tão

commovido que mal podia erguer o calice na mão.

O jantar findava. Fóra, o sol deixára o terrasso e a quinta verdejava na

grande doçura do ar tranquillo, sob o azul ferrete. Na chaminé só

restava uma cinza branca: os lilazes das jarras exhalavam um aroma vivo,

a que se misturava o do creme queimado, tocado de um fio de limão: os

creados, de colletes brancos, moviam o serviço d'onde se escapava algum

som argentino: e toda a alva toalha adamascada desapparecia sob a

confusão da sobremesa onde os tons dourados do vinho do Porto brilhavam

entre as compoteiras de crystal. A Viscondessa affogueada abanava-se.

Padre Custodio enrolava devagar o guardanapo, a sua batina coçada luzia

nas pregas das mangas.

Então Affonso, sorrindo ternamente, fez a ultima saude.

--Viva v. s.^a, snr. Carlos de Matta-sete!

--Sr. Vôvô! dizia o pequeno escorropichando o copo.

A cabeçinha de cabellos negros, a velha face de barbas de neve,

saudavam-se das extremidades da mesa--em quanto todos sorriam, no

enternecimento d'aquella cerimonia. Depois o abbade, de palito na bocca,

murmurou as _graças_. A Viscondessa, cerrando os olhos, juntou tambem as

mãos. E Villaça que tinha crenças religiosas não gostou de vêr Carlos,

sem se importar com as graças, saltar da cadeira, vir atirar-se ao

pescoço do avô, fallar-lhe ao ouvido.

--Não senhor! não senhor! dizia o velho.

Mas o rapaz, abraçando-o mais forte, dava-lhe grandes razões, n'um

murmurio de mimo dôce como um beijo, que ia pondo na face do velho uma

fraqueza indulgente.

--É por ser festa, disse elle emfim vencido. Mas veja lá, veja lá...

O rapaz pulou, bateu as palmas, agarrou Villaça pelos braços, fêl-o

redemoinhar, e foi cantando n'um rythmo seu:

--Fizeste bem em vir, bem, bem, bem!... Vou buscar a Therezinha, inha,

inha, inha!

--É a noiva, disse o avô, erguendo-se da mesa. Já tem amores, é a

pequena das Silveiras... O café para o terraço, Teixeira.

O dia fóra convidava, adoravel, d'um azul suave, muito puro e muito

alto, sem uma nuvem. Defronte do terraço os geranios vermelhos estavam

já abertos; as verduras dos arbustos, muito tenras ainda, d'uma

delicadeza de renda, pareciam tremer ao menor sopro; vinha por vezes um

vago cheiro de violetas, misturado ao perfume adocicado das flôres do

campo; o alto repuxo cantava; e nas ruas do jardim, bordadas de buxos

baixos, a areia fina faiscava de leve áquelle sol timido de primavera

tardia, que ao longe envolvia os verdes da quinta, adormecida a essa

hora de sesta n'uma luz fresca e loura.

Os tres homens sentaram-se á mesa do café. Defronte do terraço, o Brown,

de bonet escossez posto ao lado e grande cachimbo na bocca, puchava ao

alto a barra do trapezio para Carlos se balouçar. Então o bom Villaça

pedio para voltar as costas. Não gostava de vêr gymnasticas; bem sabia

que não havia perigo; mas mesmo nos cavallinhos, as cabriolas, os arcos,

atordoavam-n'o; sahia sempre com o estomago embrulhado...

--E parece-me imprudente, sobre o jantar...

--Qual! é só balouçar-se... Olhe para aquillo!

Mas Villaça não se moveu, com a face sobre a chavena.

O abbade, esse, admirava, de labios entreabertos, e o pires cheio de

café esquecido na mão.

--Olhe para aquillo Villaça, repetio Affonso. Não lhe faz mal, homem!

O bom Villaça voltou-se, com esforço. O pequeno muito alto no ar, com as

pernas retesadas contra a barra do trapezio, as mãos ás cordas, descia

sobre o terraço, cavando o espaço largamente, com os cabellos ao vento;

depois elevava-se, serenamente, crescendo em pleno sol; todo elle

sorria; a sua blusa, os calções enfunavam-se á aragem; e via-se passar,

fugir, o brilho dos seus olhos muito negros e muito abertos.

--Não está mais na minha mão, não gosto, disse o Villaça. Acho

imprudente!

Então Affonso bateu as palmas, o abbade gritou _bravo, bravo_. Villaça

voltou-se para applaudir, mas Carlos tinha já desapparecido; o trapezio

parava, em oscillações lentas; e o Brown, retomando o _Times_ que pozera

ao lado sobre o pedestal d'um busto, foi descendo para a quinta

envolvido n'uma nuvem de fumo do cachimbo.

--Bella cousa, a gymnastica! exclamou Affonso da Maia, accendendo com

satisfação outro charuto.

Villaça já ouvira que enfraquecia muito o peito. E o abbade, depois de

dar um sorvo ao café, de lamber os beiços, soltou a sua bella phrase,

arranjada em maxima:

--Esta educação faz athletas mas não faz christãos. Já o tenho dito...

--Já o tem dito abbade, já! exclamou Affonso alegremente. Diz-m'o todas

as semanas... Quer você saber, Villaça? O nosso Custodio matta-me o

bicho do ouvido para que eu ensine a cartilha ao rapaz. A cartilha!...

Custodio ficou um momento a olhar Affonso, com uma face desconsolada e a

caixa de rapé aberta na mão; a irreligião d'aquelle velho fidalgo,

senhor de quasi toda a freguezia, era uma das suas dôres:

--A cartilha, sim meu senhor, ainda que v. ex.^a o diga assim com esse

modo escarnica... A cartilha. Mas já não quero fallar na cartilha... Ha

outras cousas. E se o digo tantas vezes, sr. Affonso da Maia, é pelo

amor que tenho ao menino.

E recomeçou a discussão, que voltava sempre ao café, quando Custodio

jantava na quinta.

O bom homem achava horroroso que n'aquella edade um tão lindo moço,

herdeiro d'uma casa tão grande, com futuras responsabilidades na

sociedade, não soubesse a sua doutrina. E narrou logo ao Villaça a

historia da D. Cecilia Macedo: esta virtuosa senhora, mulher do

escrivão, tendo passado deante do portão da quinta, avistara o

Carlinhos, chamara-o, carinhosa e amiga de creanças como era, e

pedira-lhe que lhe dissesse o _acto de contricção_. E que respondeu o

menino? _Que nunca em tal ouvira fallar!_ Estas cousas entristeciam. E o

sr. Affonso da Maia achava-lhe graça, ria-se! Ora alli estava o amigo

Villaça que podia dizer se era caso para jubilar. Não, o sr. Affonso da

Maia tinha muito saber, e correra muito mundo; mas d'uma cousa não o

podia convencer, a elle pobre padre que nem mesmo o Porto vira ainda, é

que houvesse felicidade e bom comportamento na vida sem a moral do

cathecismo.

E Affonso da Maia respondia com bom humor:

--Então que lhe ensinava você, abbade, se eu lhe entregasse o rapaz? Que

se não deve roubar o dinheiro das algibeiras, nem mentir, nem maltratar

os inferiores, por que isso é contra os mandamentos da lei de Deus, e

leva ao inferno, hein? É isso?...

--Ha mais alguma cousa...

--Bem sei. Mas tudo isso que você lhe ensinaria que se não deve fazer,

por ser um peccado que offende a Deus, já elle sabe que se não deve

praticar, por que é indigno d'um cavalheiro e d'um homem de bem...

--Mas, meu senhor...

--Ouça abbade. Toda a differença é essa. Eu quero que o rapaz seja

virtuoso por amor da virtude e honrado por amor da honra; mas não por

medo ás caldeiras de Pero Botelho, nem com o engodo de ir para o reino

do céu...

E accrescentou, erguendo-se e sorrindo:

--Mas o verdadeiro dever de homens de bem, abbade, é quando vem, depois

de semanas de chuva, um dia d'estes, ir respirar pelos campos e não

estar aqui a discutir moral. Portanto arriba! e se o Villaça não está

muito cançado, vamos dar ahi um giro pelas fazendas...

O abbade suspirou como um santo que vê a negra impiedade dos tempos e

Belzebut arrebatando as melhores rezes do rebanho; depois olhou a

chavena e sorveu com delicias o resto do seu café.

Quando Affonso da Maia, Villaça e o abbade recolheram do seu passeio

pela freguezia, escurecera, havia luzes pelas salas, e tinham chegado já

as Silveiras, senhoras ricas da quinta da _Lagoaça_.

D. Anna Silveira, a solteira e mais velha, passava pela talentosa da

familia, e era em pontos de doutrina e de etiqueta uma grande

auctoridade em Resende. A viuva, D. Eugenia, limitava-se a ser uma

excellente e pachorrenta senhora, de agradavel nutrição, trigueirota e

pestanuda; tinha dois filhos, a Theresinha, a _noiva_ de Carlos, uma

rapariguinha magra e viva com cabellos negros como tinta, e o

morgadinho, o Eusebiosinho, uma maravilha muito fallada n'aquelles

sitios.

Quasi desde o berço este notavel menino revelara um edificante amor por

alfarrabios e por todas as coisas do saber. Ainda gatinhava e já a sua

alegria era estar a um canto, sobre uma esteira, embrulhado n'um

cobertor, folheando _in-folios_, com o craneosinho calvo de sabio

curvado sobre as lettras garrafaes de boa doutrina: depois de

crescidinho tinha tal proposito que permanecia horas immovel n'uma

cadeira, de perninhas bambas, esfuracando o nariz: nunca appetecera um

tambor ou uma arma: mas cosiam-lhe cadernos de papel, onde o precoce

letrado, entre o pasmo da mamã e da titi, passava dias a traçar

algarismos, com a lingoasinha de fora.

Assim na familia tinha a sua carreira destinada: era rico, havia de ser

primeiro bacharel, e depois desembargador. Quando vinha a Santa Olavia,

a tia Annica installava-o logo á mesa, ao pé do candieiro, a admirar as

pinturas d'um enorme e rico volume, os _Costumes de todos os Povos do

Universo_. Já lá estava essa noite, vestido como sempre de escossez, com

o _plaid_ de flamejante xadrez vermelho e negro posto a tiracollo e

preso ao hombro por uma dragona; para que conservasse o ar nobre d'um

Stuart, d'um valoroso cavalleiro de Walter Scott, nunca lhe tiravam o

bonet onde se arqueava com heroismo uma rutilante penna de gallo; e nada

havia mais melancolico que a sua facesinha trombuda, a que o excesso de

lombrigas dava uma molleza e uma amarellidão de manteiga, os seus

olhinhos vagos e azulados, sem pestanas como se a sciencia lh'as tivesse

já consummido, pasmando com sisudez para as camponesas da Sicilia, e

para os guerreiros ferozes do Montenegro appoiados a escupetas, em

pincaros de serranias.

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 4 / 53 段