dia seguinte em Bemfica. E Pedro, logo que se recolheram, fallou a Maria
em «irem fazer a grande scena ao papá.» Ella, porém, recusou, e com as
razões mais imprevistas, as mais sensatas. Tinha cogitado muito!
Reconhecia agora que um dos motivos d'aquella teima do papá--ultimamente
chamava-lhe sempre o papá--era essa extraordinaria existencia de
Arroios...
--Mas filha, disse Pedro, escuta, nós não vivemos tambem em plena
orgia... Alguns amigos que veem.
Pois sim, pois sim... Mas, realmente, estava decidida a ter um interior
mais calmo e mais domestico. Era mesmo melhor p'ra os bébés. Pois bem,
queria que o papá estivesse convencido d'essa transformação, para que as
pazes fossem mais faceis e eternas.
--Deixa passar dois ou tres mezes... Quando elle souber como nós vivemos
quietinhos, eu o trarei, socega... É bom tambem que seja quando meu pae
partir para as aguas, para os Pyrineos. Que o pobre papá, coitado, tem
medo do teu... Filho, não achas assim melhor?
--És um anjo, foi a resposta de Pedro, beijando-lhe ambas as mãos.
Toda a antiga maneira de Maria pareceu com effeito ir mudando.
Suspendera as _soirées_. Começou a passar as noites muito recolhidas,
com alguns intimos, no seu _boudoir_ azul. Já não fumava; abandonara o
bilhar; e vestida de preto, com uma flôr nos cabellos, fazia _crochet_
ao pé do candieiro. Estudava-se musica classica quando vinha o velho
Cazoti. O Alencar, que, imitando a sua dama, entrara tambem na
gravidade, recitava traducções de Klopstock. Fallava-se com sisudez de
politica; Maria era muito regeneradora.
E todas essas noites, Tancredo lá estava, indolente e bello, desenhando
alguma flôr para ella bordar, ou tangendo à guitarra canções populares
de Napoles. Todos alli o adoravam; mas ninguem mais que o velho
Monforte, que passava horas, enterrado na sua alta gravata, contemplando
o Principe com enternecimento. Depois, de repente, erguia-se,
atravessava a sala, ia-se debruçar sobre elle, palpal-o, sentil-o,
respiral-o, murmurando no seu francez de embarcadiço:
--_Ça aller bien... Hein? Beaucoup bien..._ Ora estimo...
E estas correntes bruscas de affecto communicavam-se decerto, porque
n'esse momento Maria tinha sempre um dos seus lindos sorrisos para o
papá ou vinha beijal-o na testa.
De dia occupava-se de cousas serias. Organisara uma util associação de
caridade, a _Obra pia dos cobertores_, com o fim de fazer no inverno ás
familias necessitadas distribuições de agasalhos; e presidia no salão de
Arroios, com uma campainha, as reuniões em que se elaboravam os
estatutos. Visitava os pobres. Ia tambem amiudadas vezes a uma devoção
ás Egrejas, toda vestida de preto, a pé, com um véo muito espesso no
rosto.
O esplendor da sua belleza apparecia agora velado por uma sombra tocante
de ternura grave: a Deusa idealisava-se em Madona; e não era raro
ouvil-a de repente suspirar sem razão.
Ao mesmo tempo a sua paixão pela filha crescia. Tinha então dois annos e
estava realmente adoravel; vinha todas as noites um momento á sala,
vestida com um luxo de princeza; e as exclamações, os extasis de
Tancredo não findavam! Fizera-lhe o retrato a carvão, a esfuminho, a
aguarella; ajoelhava-se para lhe beijar a mãosinha côr de rosa, como ao
_bambino_ sagrado. E Maria, agora, apesar dos protestos de Pedro, dormia
sempre com ella entre os braços.
Ao começo d'esse setembro o velho Monforte partiu para os Pyrineos.
Maria chorou, dependurada do pescoço do velho, como se elle largasse de
novo para as travessias de Africa.
Ao jantar, porém, chegou já consolada e radiante; e Pedro voltou a
fallar da reconciliação, parecendo-lhe bom o momento de ir a Bemfica
recuperar para sempre aquelle papá tão teimoso...
--Ainda não, disse ella reflectindo, olhando o seu calice de Bordeus.
Teu pae é uma especie de santo, ainda o não merecemos... Mais para o
inverno.
Uma sombria tarde de dezembro, de grande chuva, Affonso da Maia estava
no seu escriptorio lendo, quando a porta se abriu violentamente, e,
alçando os olhos do livro, viu Pedro deante de si. Vinha todo enlameado,
desalinhado, e na sua face livida, sob os cabellos revoltos, luzia um
olhar de loucura. O velho ergueu-se aterrado. E Pedro sem uma palavra
atirou-se aos braços do pae, rompeu a chorar perdidamente.
--Pedro! que succedeu, filho?
Maria morrera, talvez! Uma alegria cruel invadiu-o, á idéa do filho
livre para sempre dos Monfortes, voltando-lhe, trazendo á sua solidão os
dois netos, toda uma descendencia para amar! E repetia, tremulo tambem,
desprendendo-o de si com grande amor:
--Socega, filho, que foi?
Pedro então cahiu para o canapé, como cae um corpo morto; e levantando
para o pae um rosto devastado, envelhecido, disse, palavra a palavra,
n'uma voz surda:
--Estive fóra de Lisboa dois dias... Voltei esta manhã... A Maria tinha
fugido de casa com a pequena... Partiu com um homem, um italiano... E
aqui estou!
Affonso da Maia ficou deante do filho, quedo, mudo, como uma figura de
pedra; e a sua bella face, onde todo o sangue subira enchia-se pouco a
pouco, de uma grande colera. Viu, n'um relance, o escandalo, a cidade
galhofando, as compaixões, o seu nome pela lama. E era aquelle filho
que, despresando a sua auctoridade, ligando-se a essa creatura,
estragara o sangue da raça, cobria agora a sua casa de vexame. E alli
estava! alli jazia sem um grito, sem um furor, um arranque brutal de
homem trahido! Vinha atirar-se para um sophá, chorando miseravelmente!
Isto indignou-o, e rompeu a passeiar pela sala, rigido e aspero,
cerrando os labios para que não lhe escapassem as palavras de ira e de
injuria que lhe enchiam o peito em tumulto...--Mas era pae: ouvia, alli
ao seu lado, aquelle soluçar de funda dôr; via tremer aquelle pobre
corpo desgraçado que elle outr'ora emballara nos braços;--parou junto de
Pedro, tomou-lhe gravemente a cabeça entre as mãos, e beijou-o na testa,
uma vez, outra vez, como se elle fosse ainda creança, restituindo-lhe
alli e para sempre a sua ternura inteira.
--Tinha razão, meu pae, tinha razão, murmurava Pedro entre lagrimas.
Depois ficaram callados. Fóra, as pancadas successivas da chuva batiam a
casa, a quinta, n'um clamor prolongado; e as arvores, sob as janellas,
ramalhavam n'um vasto vento de inverno.
Foi Affonso que quebrou o silencio:
--Mas para onde fugiram, Pedro? Que sabes tu, filho? Não é só chorar...
--Não sei nada, respondeu Pedro n'um longo esforço. Sei que fugiu. Eu
sahi de Lisboa na segunda feira. N'essa mesma noite, ella partiu de casa
n'uma carruagem, com uma maleta, o cofre de joias, uma creada italiana
que tinha agora, e a pequena. Disse á governante e á ama do pequeno que
ia ter comigo. Ellas estranharam, mas que haviam de dizer?... Quando
voltei, achei esta carta.
Era um papel já sujo, e desde essa manhã de certo muitas vezes relido,
amarrotado com furia. Continha estas palavras:
«É uma fatalidade, parto para sempre com Tancredo, esquece-me que não
sou digna de ti, e levo a Maria que me não posso separar d'ella.»
--E o pequeno, onde está o pequeno? exclamou Affonso.
Pedro pareceu recordar-se:
--Está lá dentro com a ama, trouxe-o na sege.
O velho correu, logo; e d'ahi a pouco apparecia, erguendo nos braços o
pequeno, na sua longa capa branca de franjas e a sua touca de rendas.
Era gordo, de olhos muito negros, com uma adoravel bochecha fresca e côr
de rosa. Todo elle ria, grulhando, agitando o seu guiso de prata. A ama
não passou da porta, tristonha, com os olhos no tapete e uma trouxasinha
na mão.
Affonso sentou-se lentamente na sua poltrona, e accommodou o neto no
collo. Os olhos enchiam-se-lhe de uma bella luz de ternura; parecia
esquecer a agonia do filho, a vergonha domestica; agora só havia ali
aquella facesinha tenra, que se lhe babava nos braços...
--Como se chama elle?
--Carlos Eduardo, murmurou a ama.
--Carlos Eduardo, hein?
Ficou a olhal-o muito tempo, como procurando n'elle os signaes da sua
raça: depois tomou-lhe na sua as duas mãosinhas vermelhas que não
largavam o guiso, e muito grave, como se a creança o percebesse,
disse-lhe:
--Olha bem para mim. Eu sou o avô. É necessario amar o avô!
E áquella forte voz, o pequeno, com effeito, abriu os seus lindos olhos
para elle, serios de repente, muito fixos, sem medo das barbas
grisalhas: depois rompeu a pular-lhe nos braços, desprendeu a mãosinha,
e martellou-lhe furiosamente a cabeça com o guiso.
Toda a face do velho sorria áquella viçosa alegria; apertou-o ao seu
largo peito muito tempo, poz-lhe na face um beijo longo, consolado,
enternecido, o seu primeiro beijo d'avô; depois, com todo o cuidado, foi
collocal-o nos braços da ama.
--Vá, ama, vá... A Gertrudes já lá anda a arranjar-lhe o quarto, vá vêr
o que é necessario.
Fechou a porta, e veiu sentar-se junto do filho que se não movera do
canto do sophá, nem despregára os olhos do chão.
--Agora desabafa, Pedro, conta-me tudo... Olha que nos não vemos ha tres
annos, filho...
--Ha mais de tres annos, murmurou Pedro.
Ergueu-se, allongou a vista á quinta, tão triste sob a chuva; depois,
derramando-a morosamente pela livraria, considerou um momento o seu
proprio retrato, feito em Roma aos doze annos, todo de velludo azul, com
uma rosa na mão. E repetia ainda amargamente:
--Tinha razão, meu pae, tinha razão...
E pouco a pouco, passeiando e suspirando, começou a fallar d'aquelles
ultimos annos, o inverno passado em Paris, a vida em Arroios, a
intimidade do italiano na casa, os planos de reconciliação, por fim
aquella carta infame, sem pudor, invocando a fatalidade,
arremessando-lhe o nome do outro!... No primeiro momento tivera só idéas
de sangue e quizera perseguil-os. Mas conservava um clarão de razão.
Seria ridiculo, não é verdade? De certo a fuga fora d'antemão preparada,
e não havia de ir correndo as estalagens da Europa á busca de sua
mulher... Ir lamentar-se á policia, fazel-os prender? Uma imbecillidade;
nem impedia que ella fosse já por esses caminhos fóra dormindo com
outro... Restava-lhe sómente o desprezo. Era uma bonita amante que
tivera alguns annos, e fugira com um homem. Adeus! Ficava-lhe um filho,
sem mãe, com um mau nome. Paciencia! Necessitava esquecer, partir para
uma longa viagem, para a America talvez; e o pae veria, havia de voltar
consolado e forte.
Dizia estas cousas sensatas, passeiando devagar, com o charuto apagado
nos dedos, n'uma voz que se calmava. Mas de repente parou deante do pae,
com um riso secco, um brilho-feroz nos olhos.
--Sempre desejei ver a America, e é boa occasião agora... É uma occasião
famosa, hein? Posso até naturalisar-me, chegar a presidente, ou
rebentar... Ah! Ah!
--Sim, mais tarde, depois pensarás n'isso, filho, accudiu o velho
assustado.
N'esse momento a sineta do jantar começou a tocar lentamente, ao fundo
do corredor.
--Ainda janta cedo, hein? disse Pedro.
Teve um suspiro cançado e lento, murmurou:
--Nós jantavamos ás sete...
Quiz então que o pae fosse para a mesa. Não havia motivo para que se não
jantasse. Elle ia um bocado acima, ao seu antigo quarto de solteiro...
Ainda lá tinha a cama, não é verdade? Não, não queria tomar nada...
--O Teixeira que me leve um calice de genebra... Ainda cá está o
Teixeira, coitado!
E vendo Affonso sentado, repetiu, já impaciente:
--Vá jantar meu pae, vá jantar, pelo amor de Deus...
Saiu. O pae ouviu-lhe os passos por cima, e o ruido de janellas
desabridamente abertas. Foi então andando para a sala de jantar, onde os
criados que pela ama sabiam de certo o desgosto se moviam em pontas de
pés, com a lentidão contristada d'uma casa onde ha morte. Affonso
sentou-se á mesa só; mas já lá estava outra vez o talher de Pedro; rosas
de inverno esfolhavam-se n'um vaso do Japão; e o velho papagaio agitado
com a chuva mexia-se furiosamente no poleiro. '
Affonso tomou uma colher de sopa, depois rolou a sua poltrona para junto
do fogão; e ali ficou envolvido pouco a pouco n'aquelle melancolico
crepusculo de dezembro, com os olhos no lume, escutando o sudoeste
contra as vidraças, pensando em todas as cousas terriveis que assim
invadiam n'um tropel pathetico á sua paz de velho. Mas no meio da sua
dôr, funda como era, elle percebia um ponto, um recanto do seu coração
onde alguma cousa de muito doce, de muito novo, palpitava com uma
frescura de renascimento, como se algures, no seu ser, estivesse
rompendo, burbulhando uma nascente rica de alegrias futuras; e toda a
sua face sorria á chama alegre, revendo a bochechinha rosada, sob as
rendas brancas da touca...
Pela casa no entanto tinham-se accendido as luzes. Já inquieto subiu ao
quarto do filho; estava tudo escuro, tão humido e frio, como se a chuva
caisse dentro. Um arrepio confrangeu o velho, e quando chamou, a voz de
Pedro veiu do negro da janella; estava lá, com a vidraça aberta, sentado
fóra na varanda, voltado para a noite brava, para o sombrio rumor das
ramagens, recebendo na face o vento, a agua, toda a invernia agreste.
--Pois estás aqui filho! exclamou Affonso. Os criados hão de querer
arranjar o quarto, desce um momento... Estás todo molhado, Pedro!
Apalpava-lhe os joelhos, as mãos regeladas. Pedro ergueu-se com um
estremeção, desprendeu-se, impaciente d'aquella ternura do velho.
--Querem arranjar o quarto, hein? Faz-me bem o ar, faz-me tão bem!
O Teixeira trouxe luzes, e atraz d'elle appareceu o criado de Pedro, que
chegára n'esse momento de Arroios, com um largo estojo de viagem
recoberto de oleado. As malas tinha-as deixado em baixo; e o cocheiro
viera tambem, como nenhum dos senhores estava em casa...
--Bem, bem, interrompeu Affonso. O sr. Villaça lá irá amanhã, e elle
dará as ordens.
O criado então, em bicos de pés, foi depôr o estojo sobre o marmore da
commoda: ainda lá restavam antigos frascos de toilette de Pedro: e os
castiçaes sobre a meza allumiavam o grande leito triste de solteiro com
os colxões dobrados ao meio.
A Gertrudes toda atarefada entrara com os braços carregados de roupa de
cama; o Teixeira bateu vivamente os travesseiros; o criado d'Arroios
pousando o chapéo a um canto, e sempre em ponta de pés, veiu ajudal-os
tambem. Pedro no entanto, como somnambulo, voltara para a varanda, com a
cabeça á chuva, attraido por aquella treva da quinta que se cavava em
baixo com um rumor de mar bravo.
Affonso, então, puxou-lhe o braço quasi com aspereza.
--Pedro! Deixa arranjar o quarto! Desce um momento.
Elle seguiu maquinalmente o pae á livraria, mordendo o charuto apagado
que desde tarde conservava na mão. Sentou-se longe da luz, ao canto do
sophá, ali ficou mudo e entorpecido. Muito tempo só os passos lentos do
velho, ao comprido das altas estantes, quebraram o silencio em que toda
a sala ia adormecendo. Uma braza morria no fogão. A noite parecia mais
aspera. Eram de repente vergastadas d'agua contra as vidraças, trazidas
n'uma rajada, que longamente, n'um clamor teimoso, faziam escoar um
diluvio dos telhados; depois havia uma calma tenebroza, com uma
susurração distante de vento fugindo entre ramagens: n'esse silencio as
goteiras punham um pranto lento; e logo uma corda de vendaval corria
mais furioso, envolvia a casa n'um bater de janellas, redomoinhava,
partia com silvos desolados.
--Está uma noite de Inglaterra, disse Affonso, debruçando-se a espertar
o lume.
Mas a esta palavra Pedro erguera-se, impetuosamente. De certo o ferira a
idéa de Maria, longe, n'um quarto alheio, agazalhando-se-lhe no leito do
adulterio entre os braços do outro. Apertou um instante a cabeça nas
mãos, depois veiu junto do pae, com o passo mal firme, mas a voz muito
calma.
--Estou realmente cançado, meu pae, vou-me deitar. Boa noite... Amanhã
conversaremos mais.
Beijou-lhe a mão e saiu de vagar.
Affonso demorou-se ainda ali, com um livro na mão, sem ler, attento só a
algum rumor que viesse de cima; mas tudo jazia em silencio.
Deram dez horas. Antes de se recolher foi ao quarto onde se fizera a
cama da ama. A Gertrudes o criado de Arroios, o Teixeira, estavam lá
cochichando ao pé da commoda, na penumbra que dava um folio posto deante
do candieiro; todos se esquivaram em pontas de pés quando lhe sentiram
os passos, e a ama continuou a arrumar em silencio os gavetões. No vasto
leito, o pequeno dormia como um Menino Jesus cançado, com o seu guiso
apertado na mão. Affonso não ousou beijal-o, para o não acordar com as
barbas asperas; mas tocou-lhe na rendinha da camisa, entalou a roupa
contra a parede, deu um geito ao cortinado, enternecido, sentindo toda a
sua dôr calmar-se n'aquella sombra de alcova onde o seu neto dormia.
--É necessario alguma cousa, ama? perguntou, abafando a voz.
--Não, meu senhor...
Então, sem ruido, subiu ao quarto de Pedro. Havia uma fenda clara,
entreabriu a porta. O filho escrevia, á luz de duas vellas, com o estojo
aberto ao lado. Pareceu espantado de ver o pae: e na face que ergueu,
envelhecida e livida, dois sulcos negros faziam-lhe os olhos mais
refulgentes e duros.
--Estou a escrever, disse elle.
Esfregou as mãos, como arripiado da friagem do quarto, e accrescentou:
--Amanhã cedo é necessario que o Villaça vá a Arroios... Estão lá os
criados, tenho lá dois cavalos meus, emfim uma porção de arranjos. Eu
estou-lhe a escrever. É numero 32 a casa d'elle, não é? O Teixeira ha de
saber... Boas noites, papá, boas noites.
No seu quarto, ao lado da livraria, Affonso não poude socegar, n'uma
oppressão, uma inquietação que a cada momento o faziam erguer sobre o
travesseiro escutar: agora, no silencio da casa e do vento que calmara,
ressoavam por cima lentos e continuos os passos de Pedro.
A madrugada clareava, Affonso ia adormecendo--quando de repente um tiro
atroou a casa. Precipitou-se do leito, despido e gritando: um creado
acudia tambem com uma lanterna. Do quarto de Pedro ainda entreaberto
vinha um cheiro de polvora; e aos pés da cama, caido de bruços, n'uma
poça de sangue que se ensopava no tapete, Affonso encontrou seu filho
morto, apertando uma pistola na mão.
Entre as duas vélas que se extinguiam, com fogachos lividos, deixára-lhe
uma carta lacrada com estas palavras sobre o enveloppe, n'uma letra
firme: _Para o papá_.
D'ahi a dias fechou-se a casa de Bemfica. Affonso da Maia partia com o
neto e com todos os criados para a quinta de S.^{ta} Olavia.
Quando Villaça, em fevereiro, foi lá acompanhar o corpo de Pedro, que ia
ser depositado no jazigo de familia, não pôde conter as lagrimas ao
avistar aquella vivenda onde passára tão alegres nataes. Um baetão preto
recobria o brazão d'armas, e esse panno de esquife parecia ter
distingido todo o seu negrume sobre a fachada muda, sobre os
castanheiros que ornavam o pateo; dentro os criados abafavam a voz,
carregados de luto; não havia uma flor nas jarras; o proprio encanto de
S.^{ta} Olavia, o fresco cantar das aguas vivas por tanques e repuchos,
vinha agora com a cadencia saudosa de um choro. E Villaça foi encontrar
Affonso na livraria, com as janellas cerradas ao lindo sol de inverno,
caido para uma poltrona, a face cavada sob os cabellos crescidos e
brancos, as mãos magras e ociosas sobre os joelhos.
O procurador veiu dizer para Lisboa que o velho não durava um anno.
III
Mas esse anno passou, outros annos passaram.
Por uma manhã de abril, nas vesperas de Paschoa, Villaça chegava de novo
a S.^{ta} Olavia.
Não o esperavam tão cedo; e como era o primeiro dia bonito d'essa
primavera chuvosa os senhores andavam para a quinta. O mordomo, o
Teixeira, que ia já embranquecendo, mostrou-se todo satisfeito de ver o
sr. administrador com quem ás vezes se correspondia, e conduziu-o á sala
de jantar onde a velha governante, a Gertrudes, tomada de surpreza,
deixou cair uma pilha de guardanapos e para lhe saltar ao pescoço.
As tres portas envidraçadas estavam abertas para o terraço, que se
estendia ao sol, com a sua balustrada de marmore coberta de trepadeiras:
e Villaça, adiantando-se para os degraus que desciam ao jardim, mal
poude reconhecer Affonso da Maia n'aquelle velho de barba de neve, mas
tão robusto e corado, que vinha subindo a rua de romanzeiras com o seu
neto pela mão.
Carlos, ao avistar no terraço um desconhecido, de chapéo alto, abafado
n'um cache-nez de pelucia, correu a miral-o, curioso--e achou-se
arrebatado nos braços do bom Villaça, que largara o guarda sol, o
beijava pelo cabello, pela face, balbuciando:
--Oh meu menino, meu querido menino! Que lindo que está! que crescido
que está...
--Então, sem avisar, Villaça? exclamava Affonso da Maia, chegando de
braços abertos. Nós só o esperavamos para a semana, creatura!
Os dois velhos abraçaram-se; depois um momento os seus olhos
encontraram-se, vivos e humidos, e tornaram a apertar-se commovidos.
Carlos ao lado, muito serio, todo esbelto, com as mãos enterradas nos
bolsos das suas largas bragas de flanella branca, o casquete da mesma
flanella posta de lado sobre os bellos anneis do cabello
negro--continuava a mirar o Villaça, que com o beiço tremulo, tendo
tirado a luva, limpava os olhos por baixo dos oculos.
--E ninguem a esperal-o, nem um criado lá em baixo no rio! dizia
Affonso. Emfim, cá o temos, é o essencial... E como você está rijo,
Villaça!
--E v. ex.^a meu senhor! balbuciou o administrador, engulindo um soluço.
Nem uma ruga! Branco sim, mas uma cara de moço... Eu nem o conhecia!...
Quando me lembro, a ultima vez que o vi... E cá isto! cá esta linda
flor!...
Ia abraçar Carlos outra vez enthusiasmado, mas o rapaz fugiu-lhe com uma
bella risada, saltou do terraço, foi pendurar-se d'um trapesio armado
entre as arvores, e ficou lá, balançando-se em cadencia, forte e airoso,
gritando: «tu és o Villaça!»
O Villaça, de guarda sol debaixo do braço, contemplava-o embevecido.
--Está uma linda creança! Faz gosto! E parece-se com o pae. Os mesmos
olhos, olhos dos Maias, o cabello encaracolado... Mas ha de ser muito
mais homem!
--É são, é rijo, dizia o velho risonho, anediando as barbas. E como
ficou o seu rapaz, o Manuel? Quando é esse casamento? Venha você cá para
dentro, Villaça, que ha muito que conversar...
Tinham entrado na sala de jantar, onde um lume de lenha na chaminé de
azulejo esmorecia na fina e larga luz de abril; porcelanas e pratas
resplandeciam nos aparadores de pau santo; os canarios pareciam doudos
de alegria.
A Gertrudes, que ficára a observar, acercou-se, com as mãos cruzadas sob
o avental branco, familiar, terna.
--Então, meu senhor, aqui está um regalo, vêr outra vez este ingrato em
S.^{ta} Olavia!
E, com um clarão de sympathia na face, alva e redonda como uma velha
lua, ornada já de um buço branco:
--Ah! sr. Villaça, isto agora é outra cousa! Até os canarios cantam! E
tambem eu cantava, se ainda podesse...
E foi saindo, subitamente commovida, já com vontade de chorar.
O Teixeira esperava, com um riso superior e mudo que lhe ia d'uma á
outra ponta dos seus altos collarinhos de mordomo.
--Eu creio que prepararam o quarto azul ao sr. Villaça, hein? disse
Affonso. No quarto em que você costumava ficar dorme agora a
viscondessa...
Então o Villaça apressou-se a perguntar pela sr.^a viscondessa. Era uma
Runa, uma prima da mulher de Affonso, que, no tempo em que os poetas de
Caminha a cantavam, casára com um fidalgote gallego, o sr. visconde de
Urigo-de-la-Sierra, um borracho, um brutal que lhe batia: depois, viuva
e pobre, Affonso recolhera-a por dever de parentella, e para haver uma
senhora em S.^{ta} Olavia.
Ultimamente passara mal... Mas, olhando o relogio, Affonso interrompeu a
relação d'esses achaques.
--Villaça, vá-se arranjar, depressa, que d'aqui a pouco é o jantar.
O administrador surprehendido olhou tambem o relogio, depois a mesa já
posta, os seis talheres, o cesto de flores, as garrafas de Porto.
--Então v. ex.^a agora janta de manhã? Eu pensei que era o almoço...
--Eu lhe digo, o Carlos necessita ter um regimen. De madrugada está já
na quinta; almoça ás sete; e janta á uma hora. E eu, emfim, para vigiar
as maneiras do rapaz...
--E o sr. Affonso da Maia, exclamou Villaça, a mudar de habitos, n'essa
edade! O que é ser avô, meu senhor!
--Tolice! não é isso... É que me faz bem. Olhe que me faz bem!... Mas
avie-se Villaça, avie-se que Carlos não gosta de esperar... Talvez
tenhamos o abbade.
--O Custodio? Rica cousa! Então, se v. ex.^a me dá licença...
Apenas no corredor, o mordomo, ancioso por conversar com o sr.
administrador, perguntou-lhe, desembaraçando-o do guarda sol e do
chale-manta:
--Com franqueza, como nos acha por cá, pela quinta sr. Villaça?
--Estou contente, Teixeira, estou contente. Pode-se vir por gosto a
S.^{ta} Olavia.
E, pousando familiarmente a mão no hombro do escudeiro, piscando o olho
ainda humido: