--E porque, Villaça? O rapaz quererá dinheiro, quererá dar presentes á

creatura... O amor é um luxo caro, Villaça.

--Deus queira que seja isso, meu senhor, Deus o ouça!

E aquella confiança tão nobre de Affonso da Maia no orgulho patricio,

nos brios de raça de seu filho, chegava a tranquillisar Villaça.

D'ahi a dias, Affonso da Maia viu emfim Maria Monforte. Tinha jantado na

quinta do Sequeira ao pé de Queluz, e tomavam ambos o seu café no

mirante, quando entrou pelo caminho estreito que seguia o muro a caleche

azul com os cavallos cobertos de redes. Maria, abrigada sob uma

sombrinha escarlate, trazia um vestido côr de rosa cuja roda, toda em

folhos, quasi cobria os joelhos de Pedro sentado ao seu lado: as fitas

do seu chapéo, apertadas n'um grande laço que lhe enchia o peito, eram

tambem côr de rosa: e a sua face, grave e pura como um marmore grego,

apparecia realmente adoravel, illuminada pelos olhos d'um azul sombrio,

entre aquelles tons rosados. No assento defronte, quasi todo tomado por

cartões de modista, encolhia-se o Monforte, de grande chapéo panamá,

calça de ganga, o mantelete da filha no braço, o guarda sol entre os

joelhos. Iam callados, não viram o mirante; e, no caminho verde e

fresco, a caleche passou com balanços lentos, sob os ramos que roçavam a

sombrinha de Maria. O Sequeira ficara com a chavena de café junto aos

labios, de olho esgazeado, murmurando:

--Caramba! É bonita!

Affonso não respondeu: olhava cabisbaixo aquella sombrinha escarlate,

que agora se inclinava sobre Pedro, quasi o escondia, parecia envolvel-o

todo--como uma larga mancha de sangue alastrando a caleche sob o verde

triste das ramas.

O outono passou, chegou o inverno, frigidissimo. Uma manhã, Pedro entrou

na livraria onde o pae estava lendo junto ao fogão; recebeu-lhe a

benção, passou um momento os olhos por um jornal aberto, e voltando-se

bruscamente para elle:

--Meu pae,--disse, esforçando-se por ser claro e decidido--venho

pedir-lhe licença para casar com uma senhora que se chama Maria

Monforte.

Affonso pousou o livro aberto sobre os joelhos, e n'uma voz grave e

lenta:

--Não me tinhas fallado d'isso... Creio que é a filha d'um assassino,

d'um negreiro, a quem chamam tambem a _negreira_...

--Meu pae!...

Affonso ergueu-se diante d'elle, rigido e inexoravel como a encarnação

mesma da honra domestica.

--Que tens a dizer-me mais? Fazes-me corar de vergonha.

Pedro, mais branco que o lenço que tinha na mão, exclamou todo a tremer,

quasi em soluços:

--Pois póde estar certo, meu pae, que hei de casar!

Sahiu, atirando furiosamente com a porta. No corredor gritou pelo

escudeiro, muito alto para que o pae ouvisse, e deu-lhe ordem para levar

as suas malas ao hotel da Europa.

Dois dias depois Villaça entrou em Bemfica, com as lagrimas nos olhos,

contando que o menino casára n'essa madrugada--e segundo lhe dissera o

Sergio, procurador do Monforte, ia partir com a noiva para a Italia.

Affonso da Maia sentára-se n'esse instante á mesa do almoço, posta ao pé

do fogão: ao centro, um ramo esfolhava-se n'um vaso do Japão, á chamma

forte da lenha: e junto ao talher de Pedro estava o numero da

_Grinalda_, jornal de versos que elle costumava receber... Affonso ouviu

o procurador, grave e mudo, continuando a desdobrar lentamente o seu

guardanapo.

--Já almoçou, Villaça?

O procurador, assombrado d'aquella serenidade, balbuciou:

--Já almocei, meu senhor...

Então Affonso, apontando para o talher de Pedro, disse ao escudeiro:

--Póde tirar d'alli esse talher, Teixeira. D'aqui por diante ha só um

talher á mesa... Sente-se, Villaça, sente-se.

O Teixeira, ainda novo na casa, levantou com indifferença o talher do

menino. Villaça sentára-se. Tudo em redor era correto e calmo como nas

outras manhãs em que almoçara em Bemfica. Os passos do escudeiro não

faziam ruido no tapete fofo; o lume estalava alegremente, pondo retoques

d'ouro nas pratas polidas; o sol discreto que brilhava fóra no azul

d'inverno fazia scintillar crystaes de geada nas ramas seccas; e á

janella o papagaio, muito patulêa e educado por Pedro, rosnava injurias

aos Cabraes.

Por fim Affonso ergueu-se; esteve olhando abstrahidamente a quinta, os

pavões no terrasso; depois ao sahir da sala tomou o braço de Villaça,

apoiou-se n'elle com força, como se lhe tivesse chegado a primeira

tremura da velhice, e no seu abandono sentisse alli uma amizade segura.

Seguiram o corredor, callados. Na livraria Affonso foi occupar a sua

poltrona ao pé da janella, começou a encher de vagar o seu cachimbo.

Villaça, de cabeça baixa, passeava ao comprido das altas estantes, nas

pontas dos pés, como no quarto d'um doente. Um bando de pardaes veiu

gralhar um momento nos ramos d'uma alta arvore que roçava a varanda.

Depois houve um silencio, e Affonso da Maia disse:

--Então, Villaça, o Saldanha lá foi demittido do Paço?...

O outro respondeu, vaga e machinalmente:

--É verdade, meu senhor, é verdade...

E não se fallou mais de Pedro da Maia.

II

Pedro e Maria, no entanto, n'uma felicidade de novella, iam descendo a

Italia, a pequenas jornadas, de cidade em cidade, n'essa via sagrada que

vae desde as flores e das messes da planicie lombarda até ao molle paiz

de romanza, Napoles, branca sob o azul. Era lá que tencionavam passar o

inverno, n'esse ar sempre tepido junto a um mar sempre manso, onde as

preguiças de noivado teem uma suavidade mais longa... Mas um dia, em

Roma, Maria sentiu o appetite de Paris. Parecia-lhe fatigante o viajar

assim, aos balouços das caleças, só para ir ver _lazzaroni_ engolir fios

de macarrão. Quanto melhor seria habitar um ninho acolchoado nos Campos

Elyseos, e gozarem alli um lindo inverno de amor! Paris estava seguro,

agora, com o principe Luiz Napoleão... Além d'isso, aquella velha Italia

classica enfastiava-a já: tantos marmores eternos, tantas _madonas_

começavam (como ella dizia pendurada languidamente do pescoço de Pedro)

a dar tonturas á sua pobre cabeça! Suspirava por uma boa loja de modas,

sob as chammas do gaz, ao rumor do boulevard... Depois tinha medo da

Italia onde todo mundo conspirava.

Foram para França.

Mas por fim aquelle Paris ainda agitado, onde parecia restar um vago

cheiro de polvora pelas ruas, onde cada face conservava um calor de

batalha, desagradou a Maria. De noite accordava com a _Marselheza_;

achava um ar feroz á policia; tudo permanecia triste; e as duquezas,

pobres anjos, ainda não ousavam vir ao _Bois_, com medo dos operarios,

corja insaciavel! Emfim demoraram-se lá até a primavera, no ninho que

ella sonhára, todo de velludo azul, abrindo sobre os Campos Elyseos.

Depois principiou a fallar-se de novo em revolução, em golpe d'estado. A

admiração absurda de Maria pelos novos uniformes da _garde-mobile_ fazia

Pedro nervoso. E quando ella appareceu gravida, anciou por a tirar

d'aquelle Paris batalhador e fascinante, vir abrigal-a na pacata Lisboa

adormecida ao sol.

Antes de partir porém escreveu ao pae.

Fôra um conselho, quasi uma exigencia de Maria. A recusa de Affonso da

Maia ao principio desesperara-a. Não a affligia a desunião domestica:

mas aquelle _não_ affrontoso de fidalgo puritano marcara muito

publicamente, muito brutalmente, a sua origem suspeita! Odiou o velho: e

tinha apressado o casamento, aquella partida triumphante para Italia,

para lhe mostrar bem que nada valiam genealogias, avós godos, brios de

familia--deante dos seus braços nus... Agora porém que ia voltar a

Lisboa, dar _soirées_, crear côrte, a reconciliação tornava-se

indispensavel; aquelle pae retirado em Bemfica, com o rigido orgulho de

outras edades, faria lembrar constantemente, mesmo entre os seus

espelhos e os seus estofos, o brigue _Nova Linda_ carregado de negros...

E queria mostrar-se a Lisboa pelo braço d'esse sogro tão nobre e tão

ornamental, com as suas barbas de Viso-rei.

--Dize-lhe que já o adoro, murmurava ella curvada sobre a escrivaninha

acariciando os cabellos de Pedro. Dize-lhe que se tiver um pequeno lhe

hei de pôr o nome d'elle... Escreve-lhe uma carta bonita, hein!

E foi bonita, foi terna a carta de Pedro ao papá. O pobre rapaz amava-o.

Fallou-lhe commovido da esperança de ter um filho varão; as

desintelligencias deviam findar em torno do berço d'aquelle pequeno Maia

que alli vinha, morgado e herdeiro do nome... Contava-lhe a sua

felicidade, com uma effusão de namorado indiscreto: a historia da

bondade de Maria, das suas graças, da sua instrucção, enchia duas

paginas: e jurava-lhe que apenas chegasse não tardaria uma hora em ir

atirar-se aos seus pés...

Com effeito, apenas desembarcou, correu n'um trem a Bemfica. Dois dias

antes o pae partira para S.^{ta} Olavia: isto pareceu-lhe uma

desfeita--e feriu-o acerbamente.

Fez-se então entre o pae e o filho uma grande separação. Quando lhe

nasceu uma filha Pedro não lh'o participou--dizendo dramaticamente ao

Villaça «que já não tinha pae!» Era uma linda bébé, muito gorda, loira e

côr de rosa, com os bellos olhos negros dos Maias. Apesar do desejo de

Pedro, Maria não a quiz crear; mas adorava-a com phrenesi; passava dias

de joelhos ao pé do berço, em extasi, correndo as suas mãos cheias de

pedrarias pelas carninhas tenras; pondo-lhe beijos de devota nos

pésinhos, na rosquinha das côxas, balbuciando-lhe n'um enlevo nomes de

grande amor, e perfumando-a já, enchendo-a já de laçarotes.

E n'estes delirios pela filha, brotava, mais amarga, a sua colera contra

Affonso da Maia. Considerava-se então insultada em si mesma e n'aquelle

cherubim que lhe nascera. Injuriava o velho grosseiramente, chamava-lhe

o _D. Fuas_, o _Barbatanas_...

Pedro um dia ouviu isto, e escandalisou-se: ella replicou

desabridamente: e deante d'aquella face abrazada, onde entre lagrimas os

olhos azues pareciam negros de colera, elle só poude balbuciar

timidamente:

--É meu pae, Maria...

Seu pae! E á face de toda a Lisboa tratava-a então como uma concubina!

Podia ser um fidalgo, as maneiras eram de villão. Um _D. Fuas_, um

_Barbatanas_, nada mais!...

Arrebatou a filha, e abraçada n'ella, romperam as queixas por entre os

prantos:

--Ninguem nos ama, meu anjo! Ninguem te quer! Tens só a tua mãe!

Tratam-te como se fosses bastarda!

A bebé, sacudida nos braços da mãe, desatou a gritar. Pedro correu,

envolveu-as ambas no mesmo abraço, já enternecido, já humilde; e tudo

terminou n'um longo beijo.

E elle, por fim, no seu coração, justificava aquella colera de mãe que

vê desprezado o seu anjo. De resto, mesmo alguns amigos de Pedro, o

Alencar, o D. João da Cunha, que começavam agora a frequentar Arroios,

riam d'aquella obstinação de pae gothico, amuado na provincia, porque

sua nora não tivera avós mortos em Aljubarrota! E onde havia outra em

Lisboa, com aquellas _toilettes_, aquella graça, recebendo tão bem? Que

diabo, o mundo marchara, sahira-se já das attitudes empertigadas do

seculo XVI!

E o proprio Villaça, um dia que Pedro lhe fôra mostrar a pequerruchinha

adormecida entre as rendas do seu berço, sensibilisou-se, veio-lhe uma

das suas faceis lagrimas, declarou, com a mão no coração, que aquillo

era uma caturrice do sr. Affonso da Maia!

--Pois peior para elle! não querer ver um anjo d'estes! disse Maria,

dando deante do espelho um lindo geito ás flores do cabello. Tambem não

faz cá falta...

E não fazia falta. N'esse outubro, quando a pequena completou o seu

primeiro anno, houve um grande baile na casa de Arroios, que elles agora

occupavam toda, e que fôra ricamente remobilada. E as senhoras que

outr'ora tinham horror á _negreira_, a D. Maria da Gama que escondia a

face por traz do leque, lá vieram todas, amaveis e decotadas, com o

beijinho prompto, chamando-lhe «querida», admirando as grinaldas de

camelias que emmolduravam os espelhos de quatrocentos mil réis, e

gozando muito os gelados.

Começara então uma existencia festiva e luxuosa, que, segundo dizia o

Alencar, o intimo da casa, o cortesão de Madame, «tinham um saborsinho

d'orgia _distinguée_ como os poemas de Byron.» Eram realmente as

_soirées_ mais alegres de Lisboa: ceiava-se á uma hora com Champagne;

talhava-se até tarde um _monte_ forte; inventavam-se quadros vivos, em

que Maria se mostrara soberanamente bella sob as roupagens classicas de

Helena ou no luxo sombrio do luto oriental de Judith. Nas noites mais

intimas, ella costumava vir fumar com os homens uma cigarrilha

perfumada. Muitas vezes, na sala de bilhar, as palmas estalaram, vendo-a

bater á carambola franceza D. João da Cunha, o grande taco da epoca.

E no meio d'esta festança, atravessada pelo sopro romantico da

Regeneração, lá se via sempre, taciturno e encolhido, o papá Monforte,

d'alta gravata branca, com as mãos atraz das costas, rondando pelos

cantos, refugiado pelos vãos das janellas, mostrando-se só para salvar

alguma bobèche que ía estalar--e não desprendendo nunca da filha o olho

embevecido e senil.

Nunca Maria fôra tão formosa. A maternidade dera-lhe um esplendor mais

copioso; e enchia verdadeiramente, dava luz áquellas altas salas de

Arroios, com a sua radiante figura de Juno loira, os diamantes das

tranças, o eburneo e o lacteo do collo nu, e o rumor das grandes sedas.

Com rasão, querendo ter, á maneira das damas da Renascença, uma flôr que

a symbolisasse, escolhera a tulipa real opulenta e ardente.

Citavam-se os requintes do seu luxo, roupas brancas, rendas do valor de

propriedades!... Podia fazel-o! o marido era rico, e ella sem escrupulo

arruinal-o-hia, a elle e ao papá Monforte...

Todos os amigos de Pedro, naturalmente, a amavam. O Alencar esse

proclamava-se com alarido seu «cavalleiro e seu poeta». Estava sempre em

Arroios, tinha lá o seu talher: por aquellas salas soltava as suas

phrases ressoantes, por esses sophás arrastava as suas _poses_ de

melancolia. Ia dedicar a Maria (e nada havia mais extraordinario que o

tom langoroso e plangente, o olho turvo, fatal, com que elle pronunciava

este nome--Maria!) ia dedicar-lhe o seu poema, tão annunciado, tão

esperado--Flor de Martyrio! E citavam-se as estrophes que lhe fizera ao

gosto cantante do tempo:

Vi-te essa noite no explendor das sallas

Com as loiras tranças volteando louca...

A paixão do Alencar era innocente: mas, dos outros intimos da casa, mais

d'um de certo balbuciara já a sua declaração no _boudoir_ azul em que

ella recebia ás tres horas, entre os seus vasos de tulipas; as suas

amigas porém, mesmo as peiores, affirmavam que os seus favores nunca

teriam passado de alguma rosa dada n'um vão de janella, ou de algum

longo e suave olhar por traz do leque. Pedro todavia começava a ter

horas sombrias. Sem sentir ciumes, vinha-lhe ás vezes, de repente, um

tedio d'aquella existencia de luxo e de festa, um desejo violento de

sacudir da sala esses homens, os seus intimos, que se atropellavam assim

tão ardentemente em volta dos hombros decotados de Maria.

Refugiava-se então n'algum canto, trincando com furor o charuto: e ahi,

era em toda a sua alma um tropel de cousas dolorosas e sem nome...

Maria sabia perceber bem na face do marido «estas nuvens», como ella

dizia. Corria para elle, tomava-lhe ambas as mãos, com força, com

dominio:

--Que tens tu, amor? Estás amuado!

--Não, não estou amuado...

--Olha então para mim!...

Collava o seu bello seio contra o peito d'elle; as suas mãos corriam-lhe

os braços n'uma caricia lenta e quente, dos pulsos aos hombros; depois,

com um lindo olhar, estendia-lhe os labios. Pedro colhia n'elles um

longo beijo, e ficava consolado de tudo.

Durante esse tempo Affonso da Maia não sahia das sombras de St.^a

Olavia, tão esquecido para lá como se estivesse no seu jazigo. Já se não

fallava d'élle; em Arroios, _D. Fuas_ estava roendo a teima. Só Pedro ás

vezes perguntava a Villaça «como ia o papá.» E as noticias do

administrador enfureciam sempre Maria: o papá estava optimo; tinha agora

um cosinheiro francez explendido; St.^a Olavia enchera-se de hospedes, o

Sequeira, André da Ega, D. Diogo Coutinho...

--O _Barbatanas_ trata-se! ia elle dizer ao pae com rancor.

E o velho negreiro esfregava as mãos, satisfeito de o saber assim feliz

em St.^a Olavia; porque nunca cessara de tremer á idéa de ver em

Arroios, deante de si, aquelle fidalgo tão severo e de vida tão pura.

Quando porém Maria teve outro filho, um pequeno, o socego que então se

fez em Arroios trouxe de novo muito vivamente ao coração de Pedro a

imagem do pae abandonado n'aquella tristeza do Douro. Fallou a Maria de

reconciliação, a medo, aproveitando a fraqueza da convalescença. E a sua

alegria foi grande, quando Maria, depois de ficar um momento pensativa,

respondeu:

--Creio que me havia de fazer feliz tel-o aqui...

Pedro, enthusiasmado com um assentimento tão inesperado, pensou em

abalar para St.^a Olavia. Mas ella tinha um plano melhor: Affonso,

segundo dizia o Villaça, devia recolher em breve a Bemfica; pois bem,

ella iria lá com o pequeno, toda vestida de preto, e de repente,

atirando-se-lhe aos pés, pedir-lhe-hia a benção para seu neto! Não podia

falhar! Não podia, realmente; e Pedro viu alli uma alta inspiração de

maternidade...

Para abrandar desde jà o papá, Pedro quiz dar ao pequeno o nome de

Affonso. Mas n'isso Maria não consentiu. Andava lendo uma novella de que

era heroe o ultimo Stuart, o romanesco principe Carlos Eduardo; e,

namorada d'elle, das suas aventuras e desgraças, queria dar esse nome a

seu filho... Carlos Eduardo da Maia! Um tal nome parecia-lhe conter todo

um destino de amores e façanhas.

O baptisado teve de ser retardado; Maria adoecera com uma angina. Foi

muito benigna porém; e d'ahi a duas semanas Pedro podia já sahir para

uma caçada na sua quinta da _Tojeira_, adiante d'Almada. Devia

demorar-se dois dias. A partida arranjara-se unicamente para obsequiar

um italiano, chegado por então a Lisboa, distincto rapaz que lhe fôra

apresentado pelo secretario da Legação Ingleza, e com quem Pedro

sympathisara vivamente; dizia-se sobrinho dos Principes de Soria; e

vinha fugido de Napoles, onde conspirára contra os Bourbons e fôra

condemnado á morte. O Alencar e D. João Coutinho iam tambem á caçada--e

a partida foi de madrugada.

N'essa tarde, Maria jantava só no seu quarto, quando sentiu carruagens

parando á porta, um grande rumor encher a escada; quasi immediatamente

Pedro apparecia-lhe tremulo e enfiado:

--Uma grande desgraça, Maria!

--Jesus!

--Feri o rapaz, feri o napolitano!...

--Como?

Um desastre estupido!... Ao saltar um barranco, a espingarda

dispara-se-lhe, e a carga, zás, vae cravar-se no napolitano! Não era

possivel fazer curativos na _Tojeira_, e voltaram logo a Lisboa. Elle

naturalmènte não consentira que o homem que tinha ferido recolhesse ao

hotel: trouxera-o para Arroios, para o quarto verde por cima, mandara

chamar o medico, duas enfermeiras para o velar, e elle mesmo lá ia

passar a noite...

--E elle?

--Um heroe!... Sorri, diz que não é nada, mas eu vejo-o pallido como um

morto. Um rapaz adoravel! Isto só a mim, Senhor! E então o Alencar que

ia mesmo ao pé d'elle... Podia antes ter ferido o Alencar, um rapaz

intimo, de confiança! até a gente se ria. Mas não, zás, logo o outro, o

de cerimonia...

Uma sege, n'esse instante, entrava o pateo.

--É o medico!

E Pedro abalou.

Voltou, d'ahi a pouco mais tranquillo. O Dr. Guedes quasi rira d'aquella

bagatella, uma chumbada no braço, e alguns grãos perdidos nas costas.

Promettera-lhe que d'ahi a duas semanas podia caçar outra vez na

_Tojeira_; e o principe estava já fumando o seu charuto. Bello rapaz!

Parecia sympathisar com o papá Monforte...

Toda essa noite Maria dormiu mal, na excitação vaga que lhe dava aquella

idéa d'um principe enthusiasta, conspirador, condemnado á morte, ferido

agora por cima do seu quarto.

Logo de manhã cedo--apenas Pedro sahira a fazer transportar, elle mesmo,

do hotel, as bagagens do napolitano--Maria mandou a sua criada franceza

de quarto, uma bella moça d'Arles, acima, saber da parte d'ella como S.

Alteza passara, e «ver que figura tinha». A arlesiana appareceu, com os

olhos brilhantes, a dizer á senhora, nos seus grandes gestos de

Provençal, que nunca vira um homem tão formoso! Era uma pintura de Nosso

Senhor Jesus Christo! Que pescoço, que brancura de marmore! Estava muito

pallido ainda; agradecia enternecido os cuidados de Madame Maia; e

ficara a ler o jornal encostado aos travesseiros...

Maria, desde então, não pareceu interessar-se mais pelo ferido. Era

Pedro que vinha, a cada instante, fallar-lhe d'elle, enthusiasmado por

aquella existencia pathetica de principe conspirador, partilhando já o

seu odio aos Bourbons, encantado com a similitude de gostos que

encontrava n'elle, o mesmo amor da caça, dos cavallos, das armas. Agora

logo de manhã, subia para o quarto do Principe, de _robe-de-chambre_, e

cachimbo na boca, e passava lá horas n'uma camaradagem, fazendo _grogs_

quentes--permittidos pelo Dr. Guedes. Levava mesmo para lá os seus

amigos, o Alencar, o D. João da Cunha. Maria sentia-lhes por cima as

risadas. Ás vezes tocava-se viola. E o velho Monforte, pasmado para o

heroe, não cessava de lhe rondar o leito.

A Arlesiana, essa, tambem a cada momento apparecia lá a levar toalhas de

rendas, um assucareiro que ninguem reclamara, ou algum vaso com flores

para alegrar a alcova... Maria, por fim, perguntou a Pedro, muito seria,

se além de todos os amigos da casa, duas enfermeiras, dois escudeiros, o

papá e elle Pedro--era necessaria tambem constantemente a sua propria

criada no quarto de Sua Alteza!

Não era. Mas Pedro riu muito á idea de que a Arlesiana se tivesse

namorado do principe. N'esse caso Venus era-lhe propicia! O napolitano

tambem a achava picante: _un très joli brin de femme_, tinha elle dito.

A bella face de Maria impallideceu de colera. Julgava tudo isso de mau

gosto, grosseiro, impudente! Pedro fôra realmente um doido em trazer

assim para a intimidade de Arroios um estrangeiro, um fugido, um

aventureiro! Demais, aquella troça em cima, entre grogs quentes, com

guitarra, sem respeito por ella ainda toda nervosa, toda fraca da

convalescença, indignava-a! Apenas Sua Alteza podesse accommodar-se com

almofadas n'uma sege, queria-o fóra, na estalagem...

--O que ahi vae! Jesus! o que ahi vae!... disse Pedro.

--É assim.

E de certo foi muito severa tambem com a Arlesianna, por que n'essa

tarde Pedro encontrou a moça aos ais no corredor, limpando ao avental os

olhos affogueados.

D'ahi a dias, porém, o napolitano, já convalescente, quiz recolher ao

seu hotel. Não vira Maria: mas em agradecimento da sua hospitalidade

mandou-lhe um admiravel ramo, e, com uma galanteria de principe artista

da Renascença, um soneto em italiano enrolado entre as flores e tão

perfumado como ellas: comparava-a a uma nobre dama da Syria dando a gota

de agua da sua bilha ao cavalleiro arabe, ferido na estrada ardente;

comparava-a á Beatriz do Dante.

Isto affigurou-se a todos de uma rara distincção, e, como disse o

Alencar, um rasgo á Byron.

Depois, na _soirée_ do baptisado de Carlos Eduardo, dada d'ahi a uma

semana, o napolitano mostrou-se, e impressionou tudo. Era um homem

esplendido, feito como um Apollo, de uma pallidez de marmore rico: a sua

barba curta e frisada, os seus longos cabellos castanhos, cabellos de

mulher, ondeados e com reflexos de ouro, apartados á nazarena--davam-lhe

realmente, como dizia a Arlesianna, uma physionomia de bello Christo.

Dançou apenas uma contradança com Maria, e pareceu, na verdade, um pouco

taciturno e orgulhoso: mas tudo n'elle fascinava, a sua figura, o seu

mysterio, até o seu nome de Tancredo. Muitos corações de mulher

palpitavam quando elle, encostado a uma hombreira, de claque na mão, uma

melancolia na face, exhalando o encanto pathetico de um condemnado á

morte, derramava lentamente pela sala o langor sombrio do seu olhar de

velludo. A marqueza d'Alvenga, para o examinar de perto, pediu o braço a

Pedro, e foi applicar-lhe, como a um marmore de museo, a sua luneta de

ouro.

--É de appetite! exclamou ella. É uma imagem!... E são amigos, são

amigos, Pedro?

--Somos como dois irmãos d'armas, minha senhora.

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 2 / 53 段