Ao principio os emigrados liberaes, Palmella e a gente do _B

*Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste

texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso

de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final

deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.

Na versão original, esta obra é uma compilação de dois volumes, com

capítulos e paginação independentes, publicadas numa só obra.

Respeitando o original, compilámos num só ficheiro ambas as partes:

Primeiro Volume

Segundo Volume

Rita Farinha (Agosto 2012)

Porto: Typ. de A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 70

EÇA DE QUEIROZ

OS MAIAS

EPISODIOS DA VIDA ROMANTICA

VOLUME I

PORTO

Livraria Internacional de Ernesto Chardron

CASA EDITORA

LUGAN & GENELIOUX, Successores

1888

Todos os direitos reservados

OBRAS DO MESMO AUCTOR

O Crime do Padre Amaro, edição inteiramente refundida, recomposta,

e differente na fórma e na acção da edição primitiva. 1 grosso vol.

1$200

O Primo Bazilio. 3.^a edição. 1 grosso vol. 1$000

O Mandarim. 2.^a edição. 1 vol. 500

A Reliquia. 1 grosso vol. 1$000

OS MAIAS

VOLUME I

OS MAIAS

I

A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era

conhecida na visinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o

bairro das Janellas Verdes, pela _casa do Ramalhete_ ou simplesmente o

_Ramalhete_. Apesar d'este fresco nome de vivenda campestre, o

_Ramalhete_, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de

estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma timida

fila de janellinhas abrigadas á beira do telhado, tinha o aspecto

tristonho de Residencia Ecclesiastica que competia a uma edificação do

reinado da sr.^a D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo

assimilhar-se-hia a um Collegio de Jesuitas. O nome de Ramalhete

provinha de certo d'um revestimento quadrado de azulejos fazendo painel

no logar heraldico do Escudo d'Armas, que nunca chegara a ser collocado,

e representando um grande ramo de girasoes atado por uma fita onde se

distinguiam letras e numeros d'uma data.

Longos annos o Ramalhete permanecera deshabitado, com teias d'aranha

pelas grades dos postigos terreos, e cobrindo-se de tons de ruina. Em

1858 Monsenhor Buccarini, Nuncio de S. Santidade, visitara-o com idéa

d'installar lá a Nunciatura, seduzido pela gravidade clerical do

edificio e pela paz dormente do bairro: e o interior do casarão

agradara-lhe tambem, com a sua disposição apalaçada, os tectos

apainelados, as paredes cobertas de _frescos_ onde já desmaiavam as

rosas das grinaldas e as faces dos Cupidinhos. Mas Monsenhor, com os

seus habitos de rico prelado romano, necessitava na sua vivenda os

arvoredos e as agoas d'um jardim de luxo: e o Ramalhete possuia apenas,

ao fundo d'um terraço de tijolo, um pobre quintal inculto, abandonado ás

hervas bravas, com um cypreste, um cedro, uma cascatasinha secca, um

tanque entulhado, e uma estatua de marmore (onde Monsenhor reconheceu

logo Venus Citherêa) ennegrecendo a um canto na lenta humidade das

ramagens silvestres. Além d'isso, a renda que pedio o velho Villaça,

procurador dos Maias, pareceu tão exagerada a Monsenhor, que lhe

perguntou sorrindo se ainda julgava a Egreja nos tempos de Leão X.

Villaça respondeu--que tambem a nobreza não estava nos tempos do sr. D.

João V. E o Ramalhete continuou deshabitado.

Este inutil pardieiro (como lhe chamava Villaça Junior, agora por morte

de seu pae administrador dos Maias) só veio a servir, nos fins de 1870,

para lá se arrecadaram as mobilias e as louças provenientes do palacete

de familia em Bemfica, morada quasi historica, que, depois de andar

annos em praça, fôra então comprada por um commendador brazileiro.

N'essa occasião vendera-se outra propriedade dos Maias, a _Tojeira_; e

algumas raras pessoas que em Lisboa ainda se lembravam dos Maias, e

sabiam que desde a Regeneração elles viviam retirados na sua quinta de

Santa Olavia, nas margens do Douro, tinham perguntado a Villaça se essa

gente estava atrapalhada.

--Ainda teem um pedaço de pão, disse Villaça sorrindo, e a manteiga para

lhe barrar por cima.

Os Maias eram uma antiga familia da Beira, sempre pouco numerosa, sem

linhas collateraes, sem parentellas--e agora reduzida a dois varões, o

senhor da casa, Affonso da Maia, um velho já, quasi um antepassado, mais

edoso que o seculo, e seu neto Carlos que estudava medicina em Coimbra.

Quando Affonso se retirara definitivamente para Santa Olavia, o

rendimento da casa excedia já cincoenta mil cruzados: mas desde então

tinham-se accumulado as economias de vinte annos de aldêa; viera tambem

a herança d'um ultimo parente, Sebastião da Maia, que desde 1830 vivia

em Napoles, só, occupando-se de numismatica;--e o procurador podia

certamente sorrir com segurança quando fallava dos Maias e da sua fatia

de pão.

A venda da _Tojeira_ fôra realmente aconselhada por Villaça: mas nunca

elle approvara que Affonso se desfizesse de Bemfica--só pela rasão

d'aquelles muros terem visto tantos desgostos domesticos. Isso, como

dizia Villaça, acontecia a todos os muros. O resultado era que os Maias,

com o Ramalhete inhabitavel, não possuiam agora uma casa em Lisboa; e se

Affonso n'aquella edade amava o socego de Santa Olavia, seu neto, rapaz

de gosto e de luxo que passava as ferias em Paris e Londres, não

quereria, depois de formado, ir sepultar-se nos penhascos do Douro. E

com effeito, mezes antes de elle deixar Coimbra, Affonso assombrou

Villaça annunciando-lhe que decidira vir habitar o Ramalhete! O

procurador compoz logo um relatorio a enumerar os inconvenientes do

casarão: o maior era necessitar tantas obras e tantas despezas; depois,

a falta d'um jardim devia ser muito sensivel a quem sahia dos arvoredos

de Santa Olavia; e por fim alludia mesmo a uma lenda, segundo a qual

eram sempre fataes aos Maias as paredes do Ramalhete, «ainda que

(acrescentava elle n'uma phrase meditada) até me envergonho de mencionar

taes frioleiras n'este seculo de Voltaire, Guisot e outros philosophos

liberaes...»

Affonso riu muito da phrase, e respondeu que aquellas razões eram

excellentes--mas elle desejava habitar sob tectos tradiccionalmente

seus; se eram necessarias obras, que se fizessem e largamente; e

emquanto a lendas e agoiros, bastaria abrir de par em par as janellas e

deixar entrar o sol.

S. ex.^a mandava:--e, como esse inverno ia secco, as obras começaram

logo, sob a direcção d'um Esteves, architecto, politico, e compadre de

Villaça. Este artista enthusiasmára o procurador com um projecto de

escada apparatosa, flanqueada por duas figuras symbolisando as

conquistas da Guiné e da India. E estava ideando tambem uma cascata de

louça na sala de jantar--quando, inesperadamente, Carlos appareceu em

Lisboa com um architecto-decorador de Londres, e, depois de estudar com

elle á pressa algumas ornamentações e alguns tons de estofos,

entregou-lhe as quatro paredes do Ramalhete, para elle ali crear,

exercendo o seu gosto, um interior confortavel, de luxo intelligente e

sobrio.

Villaça resentiu amargamente esta desconsideração pelo artista nacional;

Esteves foi berrar ao seu Centro politico que isto era um paiz perdido.

E Affonso lamentou tambem que se tivesse despedido o Esteves, exigiu

mesmo que o encarregassem da construcção das cocheiras. O artista ia

acceitar--quando foi nomeado governador civil.

Ao fim d'um anno, durante o qual Carlos viera frequentemente a Lisboa

collaborar nos trabalhos, «dar os seus retoques estheticos»--do antigo

Ramalhete só restava a fachada tristonha, que Affonso não quizera

alterada por constituir a phisionomia da casa. E Villaça não duvidou

declarar que Jones Bule (como elle chamava ao inglez) sem despender

despropositadamente, aproveitando até as antigualhas de Bemfica, fizera

do Ramalhete «um museu.»

O que surprehendia logo era o pateo, outr'ora tão lobrego, nú, lageado

de pedregulho--agora resplandecente, com um pavimento quadrilhado de

marmores brancos e vermelhos, plantas decorativas, vazos de Quimper, e

dois longos bancos feudaes que Carlos trouxera de Hespanha, trabalhados

em talha, solemnes como córos de cathedral. Em cima, na antecamara,

revestida como uma tenda de estofos do Oriente, todo o rumor de passos

morria: e ornavam-n'a divans cobertos de tapetes persas, largos pratos

mouriscos com reflexos metalicos de cobre, uma harmonia de tons severos,

onde destacava, na brancura immaculada do marmore, uma figura de

rapariga friorenta, arripiando-se, rindo, ao metter o pésinho n'agoa.

D'ahi partia um amplo corredor, ornado com as peças ricas de Bemfica,

arcas gothicas, jarrões da India, e antigos quadros devotos. As melhores

salas do Ramalhete abriam para essa galeria. No salão nobre, raramente

usado, todo em brocados de velludo côr de musgo d'outono, havia uma

bella téla de Constable, o retrato da sogra de Affonso, a condessa de

Runa, de tricorne de plumas e vestido escarlate de caçadora ingleza,

sobre um fundo de paisagem enevoada. Uma sala mais pequena, ao lado,

onde se fazia musica, tinha um ar de seculo XVIII com seus moveis

enramelhetados d'ouro, as suas sedas de ramagens brilhantes: duas

tapeçarias de Gobelins, desmaiadas, em tons cinzentos, cobriam as

paredes de pastores e d'arvoredos.

Defronte era o bilhar, forrado d'um couro moderno trazido por Jones

Bule, onde, por entre a desordem de ramagens verde-garrafa, esvoaçavam

cegonhas prateadas. E, ao lado, achava-se o _fumoir_, a sala mais

commoda do Ramalhete: as ottomanas tinham a fôfa vastidão de leitos; e o

conchego quente, e um pouco sombrio dos estofos escarlates e pretos era

alegrado pelas cores cantantes de velhas faienças hollandezas.

Ao fundo do corredor ficava o escriptorio de Affonso, revestido de

damascos vermelhos como uma velha camara de prelado. A macissa meza de

pau preto, as estantes baixas de carvalho lavrado, o solemne luxo das

encadernações, tudo tinha ali uma feição austera de paz

estudiosa--realçada ainda por um quadro attribuido a Rubens, antiga

reliquia da casa, um Christo na Cruz, destacando a sua nudez de athleta

sobre um ceu de poente revolto e rubro. Ao lado do fogão Carlos

arranjara um canto para o avô com um biombo japonez bordado a ouro, uma

pelle d'urso branco, e uma veneravel cadeira de braços, cuja tapeçaria

mostrava ainda as armas dos Maias no desmaio da trama de sêda.

No corredor do segundo andar, guarnecido com retratos de familia,

estavam os quartos de Affonso. Carlos despozera os seus, n'um angulo da

casa, com uma entrada particular, e janellas sobre o jardim: eram tres

gabinetes a seguir, sem portas, unidos pelo mesmo tapete: e, os recostos

acolchoados, a sêda que forrava as paredes, faziam dizer ao Villaça que

aquillo não eram aposentos de medico--mas de dançarina!

A casa, depois de arranjada, ficou vazia emquanto Carlos, já formado,

fazia uma longa viagem pela Europa;--e foi só nas vesperas da sua

chegada, n'esse lindo outono de 1875, que Affonso se resolveu emfim a

deixar Santa Olavia e vir installar-se no Ramalhete. Havia vinte e cinco

annos que elle não via Lisboa; e, ao fim de alguns curtos dias,

confessou ao Villaça que estava suspirando outra vez pelas suas sombras

de Santa Olavia. Mas, que remedio! Não queria viver muito separado do

neto; e Carlos agora, com idéas sérias de carreira activa, devia

necessariamente habitar Lisboa... De resto, não desgostava do Ramalhete,

apezar de Carlos, com o seu fervor pelo luxo dos climas frios, ter

prodigalisado de mais as tapeçarias, os pesados reposteiros, e os

velludos. Agradava-lhe tambem muito a visinhança, aquella dôce quietação

de suburbio adormecido ao sol. E gostava até do seu quintalejo. Não era

de certo o jardim de Santa Olavia: mas tinha o ar sympathico, com os

seus girasoes perfilados ao pé dos degraus do terraço, o cypreste e o

cedro envelhecendo juntos como dois amigos tristes, e a Venus Cytherêa

parecendo agora, no seu tom claro de estatua de parque, ter chegado de

Versalhes, do fundo do grande seculo... E desde que a agoa abundava, a

cascatasinha era deliciosa, dentro do nicho de conchas, com os seus tres

pedregulhos arranjados em despenhadeiro bucolico, melancolisando aquelle

fundo de quintal soalheiro com um pranto de nayade domestica, esfiado

gota a gota na bacia de marmore.

O que desconsolara Affonso, ao principio, fôra a vista do

terraço--d'onde outr'ora, de certo, se abrangia até ao mar. Mas as casas

edificadas em redor, nos ultimos annos, tinham tapado esse horizonte

explendido. Agora, uma estreita tira de agoa e monte que se avistava

entre dois predios de cinco andares, separados por um córte de rua,

formava toda a paizagem defronte do Ramalhete. E, todavia, Affonso

terminou por lhe descobrir um encanto intimo. Era como uma téla marinha,

encaixilhada em cantarias brancas, suspensa do céu azul em face do

terraço, mostrando, nas variedades infinitas de côr e luz, os episodios

fugitivos d'uma pacata vida de rio: ás vezes uma véla de barco da

Trafaria fugindo airosamente á bolina; outras vezes uma galera toda em

panno, entrando n'um favor da aragem, vagarosa, no vermelho da tarde; ou

então a melancolia d'um grande paquete, descendo, fechado e preparado

para a vaga, entrevisto um momento, desapparecendo logo, como já

devorado pelo mar incerto; ou ainda durante dias, no pó d'ouro das

sestas silenciosas, o vulto negro de um couraçado inglez... E sempre ao

fundo o pedaço de monte verde-negro, com um moinho parado no alto, e

duas casas brancas ao rez d'agoa, cheias de expressão--ora faiscantes e

despedindo raios das vidraças accezas em braza; ora tomando aos fins de

tarde um ar pensativo, cobertas dos rosados tenros de poente, quasi

similhantes a um rubor humano; e d'uma tristeza arripiada nos dias de

chuva, tão sós, tão brancas, como nuas, sob o tempo agreste.

O terraço communicava por tres portas envidraçadas com o escriptorio--e

foi n'essa bella camara de prelado que Affonso se acostumou logo a

passar os seus dias, no recanto aconchegado que o neto lhe preparara

ternamente, ao lado do fogão. A sua longa residencia em Inglaterra

dera-lhe o amor dos suaves vagares junto do lume. Em Santa Olavia as

chaminés ficavam accezas até Abril; depois ornavam-se de braçadas de

flôres, como um altar domestico; e era ainda ahi, n'esse aroma e n'essa

frescura, que elle gozava melhor o seu cachimbo, o seu Tacito, ou o seu

querido Rabelais.

Todavia, Affonso ainda ia longe, como elle dizia, de ser um velho

borralheiro. N'aquella edade, de verão ou de inverno, ao romper do sol,

estava a pé, sahindo logo para a quinta, depois da sua boa oração da

manhã que era um grande mergulho na agoa fria. Sempre tivera o amor

supersticioso da agoa; e costumava dizer que nada havia melhor para o

homem--que sabor d'agoa, som d'agoa, e vista d'agoa. O que o prendera

mais a Santa Olavia fôra a sua grande riqueza d'agoas vivas, nascentes,

repuxos, tranquillo espelhar d'agoas paradas, fresco murmurio de agoas

regantes... E a esta viva tonificação da agoa attribuia elle o ter vindo

assim, desde o começo do seculo, sem uma dôr e sem uma doença, mantendo

a rica tradição de saude da sua familia, duro, resistente aos desgostos

e annos--que passavam por elle, tão em vão, como passavam em vão, pelos

seus robles de Santa Olavia, annos e vendavaes.

Affonso era um pouco baixo, macisso, de hombros quadrados e fortes: e

com a sua face larga de nariz aquilino, a pelle córada, quasi vermelha,

o cabello branco todo cortado á escovinha, e a barba de neve aguda e

longa--lembrava, como dizia Carlos, um varão esforçado das edades

heroicas, um D. Duarte de Menezes ou um Affonso d'Albuquerque. E isto

fazia sorrir o velho, recordar ao neto, gracejando, quanto as

apparencias illudem!

Não, não era Menezes, nem Albuquerque; apenas um antepassado bonacheirão

que amava os seus livros, o conchego da sua poltrona, o seu _whist_ ao

canto do fogão. Elle mesmo costumava dizer, que era simplesmente um

egoista:--mas nunca, como agora na velhice, as generosidades do seu

coração tinham sido tão profundas e largas. Parte do seu rendimento

ia-se-lhe por entre os dedos, esparsamente, n'uma caridade enternecida.

Cada vez amava mais o que é pobre e o que é fraco. Em Santa Olavia, as

creanças corriam para elle, dos portaes, sentindo-o acariciador e

paciente. Tudo o que vive lhe merecia amor:--e era dos que não pisam um

formigueiro, e se compadece da sêde d'uma planta.

Villaça costumava dizer que lhe lembrava sempre o que se conta dos

patriarchas, quando o vinha encontrar ao canto da chaminé, na sua coçada

quinzena de velludilho, sereno, risonho, com um livro na mão, o seu

velho gato aos pés. Este pesado e enorme angorá, branco com malhas

louras, era agora (desde a morte de _Tobias_, o soberbo cão de S.

Bernardo) o fiel companheiro de Affonso. Tinha nascido em Santa Olavia,

e recebera então o nome de Bonifacio: depois, ao chegar á edade do amor

e da caça, fora-lhe dado o appellido mais cavalheiresco de D. Bonifacio

de Calatrava: agora, dorminhoco e obeso, entrara definitivamente no

remanso das dignidades ecclesiasticas, e era o Reverendo Bonifacio...

Esta existencia nem sempre assim correra com a tranquillidade larga e

clara d'um bello rio de verão. O antepassado, cujos olhos se enchiam

agora d'uma luz de ternura diante das suas rosas, e que ao canto do lume

relia com gosto o seu Guisot, fôra, na opinião de seu pae, algum tempo,

o mais feroz Jacobino de Portugal! E todavia, o furor revolucionario do

pobre moço consistira em lêr Rousseau, Volney, Helvetius, e a

Encyclopedia; em atirar foguetes de lagrimas á Constituição; e ir, de

chapeu á liberal e alta gravata azul, recitando pelas lojas maçonicas

Odes abominaveis ao Supremo Architecto do Universo. Isto, porém, bastára

para indignar o pae. Caetano da Maia era um portuguez antigo e fiel que

se benzia ao nome de Robespierre, e que, na sua apathia de fidalgo beato

e doente, tinha só um sentimento vivo--o horror, o odio ao Jacobino,

aquem attribuia todos os males, os da patria e os seus, desde a perda

das colonias até ás crises da sua gota. Para extirpar da nação o

Jacobino, déra elle o seu amor ao sr. infante D. Miguel, Messias forte e

Restaurador providencial... E ter justamente por filho um Jacobino,

parecia-lhe uma provação comparavel só ás de Job!

Ao principio, na esperança que o menino se emendasse, contentou-se em

lhe mostrar um carão severo e chamar-lhe com sarcasmo--_cidadão_! Mas

quando soube que seu filho, o seu herdeiro, se misturara á turba que,

n'uma noite de festa civica e de luminarias, tinha apedrejado as

vidraças apagadas do sr. Legado d'Áustria, enviado da Santa

Alliança--considerou o rapaz um Marat e toda a sua colera rompeu. A gota

cruel, cravando-o na poltrona, não lhe deixou espancar o mação, com a

sua bengala da India, á lei de bom pae portuguez: mas decidiu expulsal-o

de sua casa, sem mezada e sem benção, renegado como um bastardo! Que

aquelle pedreiro livre não podia ser do seu sangue!

As lagrimas da mamã amolleceram-n'o; sobretudo as razões d'uma cunhada

de sua mulher, que vivia com elles em Bemfica, senhora irlandeza de alta

instrucção, Minerva respeitada e tutelar, que ensinara inglez ao menino

e o adorava como um bébé. Caetano da Maia limitou-se a desterrar o filho

para a quinta de Santa Olavia; mas não cessou de chorar no seio dos

padres, que vinham a Bemfica, a desgraça da sua casa. E esses santos lá

o consolavam, affirmando-lhe que Deus, o velho Deus d'Ourique, não

permittiria jámais que um Maia pactuasse com Belzebut e com a Revolução!

E, á falta de Deus Padre, lá estava Nossa Senhora da Soledade, padroeira

da casa e madrinha do menino, para fazer o bom milagre.

E o milagre fez-se. Mezes depois, o Jacobino, o Marat, voltava de Santa

Olavia um pouco contricto, enfastiado sobretudo d'aquella solidão, onde

os chás do brigadeiro Senna eram ainda mais tristes que o terço das

primas Cunhas. Vinha pedir ao pae a benção, e alguns mil cruzados, para

ir a Inglaterra, esse paiz de vivos prados e de cabellos d'ouro de que

lhe fallara tanto a tia Fanny. O pae beijou-o, todo em lagrimas, accedeu

a tudo fervorosamente, vendo ali a evidente, a gloriosa intercessão de

Nossa Senhora da Soledade! E o mesmo Frei Jeronymo da Conceição seu

confessor, declarou este milagre--não inferior ao de Carnaxide.

Affonso partiu. Era na primavera--e a Inglaterra toda verde, os seus

parques de luxo, os copiosos confortos, a harmonia penetrante dos seus

nobres costumes, aquella raça tão séria e tão forte--encantaram-n'o. Bem

depressa esqueceu o seu odio aos sorumbaticos padres da Congregação, as

horas ardentes passadas no café dos Romulares a recitar Mirabeau, e a

Republica que quizera fundar, classica e voltarianna, com um triumvirato

de Scipiões e festas ao Ente Supremo. Durante os dias da _Abrilada_

estava elle nas corridas d'Epsom, no alto d'uma sege de posta, com um

grande nariz postiço, dando _hurrahs_ medonhos--bem indifferente aos

seus irmãos de Maçonaria, que a essas horas o sr. infante espicaçava a

chuço, pelas viellas do Bairro Alto, no seu rijo cavallo d'Alter.

Seu pae morreu de subito, elle teve de regressar a Lisboa. Foi então que

conheceu D. Maria Eduarda Runa, filha do conde de Runa, uma linda

morena, mimosa e um pouco adoentada. Ao fim do luto casou com ella. Teve

um filho, desejou outros; e começou logo, com bellas idéas de patriarcha

moço, a fazer obras no palacete de Bemfica, a plantar em redor

arvoredos, preparando tectos e sombras á descendencia amada que lhe

encantaria a velhice.

Mas não esquecia a Inglaterra:--e tornava-lh'a mais appetecida essa

Lisboa miguelista que elle via, desordenada como uma Tunis barbaresca;

essa rude conjuração apostolica de frades e bolieiros, atroando tavernas

e capellas; essa plebe beata, suja e feroz, rolando do _lausperenne_

para o curro, e anciando tumultuosamente pelo principe que lhe encarnava

tão bem os vicios e as paixões...

Este espectaculo indignava Affonso da Maia; e muitas vezes, na paz do

serão, entre amigos, com o pequeno nos joelhos, exprimiu a indignação da

sua alma honesta. Já não exigia de certo, como em rapaz, uma Lisboa de

Catões e de Mucios-Scevolas. Já admittia mesmo o esforço d'uma nobreza

para manter o seu privilegio historico; mas então queria uma nobreza

intelligente e digna, como a Aristocracia tory (que o seu amor pela

Inglaterra lhe fazia idealisar), dando em tudo a direcção moral,

formando os costumes e inspirando a litteratura, vivendo com fausto e

fallando com gosto, exemplo de idéas altas e espelho de maneiras

patricias... O que não tolerava era o mundo de Queluz, bestial e

sordido.

Taes palavras, apenas soltas, voavam a Queluz. E quando se reuniram as

côrtes geraes, a policia invadiu Bemfica, «a procurar papeis e armas

escondidas.»

Affonso da Maia, com o seu filho nos braços e a mulher tremendo ao

lado--viu, impassivelmente e sem uma palavra, a busca, as gavetas

arrombadas pela coronha das escopetas, as mãos sujas do malsim

rebuscando os colxões do seu leito. O sr. juiz de fóra não descobriu

nada: acceitou mesmo na copa um calice de vinho, e confessou ao mordomo

«que os tempos iam bem duros...» Desde essa manhã as janellas do

palacete conservaram-se cerradas; não se abriu mais o portão nobre para

sahir o coche da senhora; e d'ahi a semanas, com a mulher e com o filho,

Affonso da Maia partia para Inglaterra e para o exilio.

Ahi installou-se, com luxo, para uma longa demora, nos arredores de

Londres, junto a Richmond, ao fundo d'um parque, entre as suaves e

calmas paisagens de Surrey.

Os seus bens, graças ao credito do conde de Runa, antigo mimoso de D.

Carlota Joaquina, hoje conselheiro rispido do sr. D. Miguel, não tinham

sido confiscados; e Affonso da Maia podia viver largamente.

Ao principio os emigrados liberaes, Palmella e a gente do _Belfast_,

ainda o vieram desassocegar e consumir. A sua alma recta não tardou a

protestar vendo a separação de castas, de gerarchias, mantidas ali na

terra estranha entre os vencidos da mesma idéa--os fidalgos e os

desembargadores vivendo no luxo de Londres á forra, e a plebe, o

exercito, depois dos padecimentos da Galliza, succumbindo agora á fome,

á vermina, á febre nos barracões de Plymouth. Teve logo conflictos com

os chefes liberaes; foi accusado de vintista e demagogo; descreu por fim

do liberalismo. Isolou-se então--sem fechar todavia a sua bolsa, d'onde

sahiam ás cincoenta, ás cem moedas... Mas quando a primeira expedição

partiu, e pouco a pouco se foram vasando os depositos de emigrados,

respirou emfim--e, como elle disse, pela primeira vez lhe soube bem o ar

d'Inglaterra!

Mezes depois sua mãe, que ficara em Bemfica, morria d'uma apoplexia: e a

tia Fanny veiu para Richmond completar a felicidade d'Affonso, com o seu

claro juizo, os seus caracóes brancos, os seus modos de discreta

Minerva. Alli estava elle pois no seu sonho, n'uma digna residencia

ingleza, entre arvores seculares, vendo em redor nas vastas relvas

dormirem ou pastarem os gados de luxo, e sentindo em torno de si tudo

são, forte, livre e solido,--como o amava o seu coração.

Teve relações; estudou a nobre e rica litteratura ingleza;

interessou-se, como convinha a um fidalgo em Inglaterra, pela cultura,

pela cria dos cavallos, pela pratica da caridade;--e pensava com prazer

em ficar ali para sempre n'aquella paz e n'aquella ordem.

Sómente Affonso sentia que sua mulher não era feliz. Pensativa e triste,

tossia sempre pelas salas. Á noite sentava-se ao fogão, suspirava e

ficava calada...

Pobre senhora! a nostalgia do paiz, da parentella, das egrejas, ia-a

minando. Verdadeira lisboeta, pequenina e trigueira, sem se queixar e

sorrindo pallidamente, tinha vivido desde que chegara n'um odio surdo

áquella terra d'herejes e ao seu idioma barbaro: sempre arripiada,

abafada em pelles, olhando com pavor os ceus fuscos ou a neve nas

arvores, o seu coração não estivera nunca alli, mas longe, em Lisboa,

nos adros, nos bairros batidos do sol. A sua devoção (a devoção dos

Runas!) sempre grande, exaltara-se, exacerbara-se áquella hostilidade

ambiente que ella sentia em redor contra os «papistas». E só se

satisfazia á noite, indo refugiar-se no sotão com as creadas

portuguezas, para resar o _terço_ agachada n'uma esteira--gosando ali,

n'esse murmurio _d'ave-marias_ em paiz protestante, o encanto de uma

conjuração catholica!

Odiando tudo o que era inglez, não consentira que seu filho, o Pedrinho,

fosse estudar ao collegio de Richmond. Debalde Affonso lhe provou que

era um collegio catholico. Não queria: aquelle catholicismo sem

romarias, sem fogueiras pelo S. João, sem imagens do Senhor dos Passos,

sem frades nas ruas--não lhe parecia a religião. A alma do seu Pedrinho

não abandonaria ella á heresia;--e para o educar mandou vir de Lisboa o

padre Vasques, capellão do Conde de Runa.

O Vasques ensinava-lhe as declinações latinas, sobretudo a cartilha: e a

face d'Affonso da Maia cobria-se de tristeza, quando ao voltar d'alguma

caçada ou das ruas de Londres, d'entre o forte rumor da vida

livre--ouvia no quarto dos estudos a voz dormente do reverendo,

perguntando como do fundo d'uma treva:

--Quantos são os inimigos da alma?

E o pequeno, mais dormente, lá ia murmurando:

--Tres. Mundo, Diabo e Carne...

Pobre Pedrinho! Inimigo da sua alma só havia alli o reverendo Vasques,

obeso e sordido, arrotando do fundo da sua poltrona, com o lenço do rapé

sobre o joelho...

Ás vezes Affonso, indignado, vinha ao quarto, interrompia a doutrina,

agarrava a mão do Pedrinho--para o levar, correr com elle sob as arvores

do Tamisa, dissipar-lhe na grande luz do rio o pesadume crasso da

cartilha. Mas a mamã accudia de dentro, em terror, a abafal-o n'uma

grande manta: depois lá fóra o menino, acostumado ao collo das creadas e

aos recantos estofados, tinha medo do vento e das arvores: e pouco a

pouco, n'um passo desconsolado, os dois iam pisando em silencio as

folhas seccas--o filho todo acobardado das sombras do bosque vivo, o pae

vergando os hombros pensativo, triste d'aquella fraqueza do filho...

Mas o menor esforço d'elle para arrancar o rapaz áquelles braços de mãe

que o amolleciam, áquella cartilha mortal do padre Vasques--trazia logo

á delicada senhora accessos de febre. E Affonso não se atrevia já a

contrariar a pobre doente, tão virtuosa, e que o amava tanto! Ia então

lamentar-se para o pé da tia Fanny: a sabia irlandeza mettia os oculos

entre as folhas do seu livro, tratado d'Addisson ou poema de Pope, e

encolhia melancolicamente os hombros. Que podia ella fazer!...

Por fim a tosse de Maria Eduarda foi augmentando--como a tristeza das

suas palavras. Já fallava da «sua ambição derradeira», que era ver o sol

uma vez mais! Por que não voltariam a Bemfica, ao seu lar, agora que o

sr. Infante estava tambem desterrado e que havia uma grande paz? Mas a

isso Affonso não cedeu: não queria ver outra vez as suas gavetas

arrombadas a coronhadas--e os soldados do sr. D. Pedro não lhe davam

mais garantias que os malsins do sr. D. Miguel.

Por esse tempo veio um grave desgosto á casa: a tia Fanny morreu, d'uma

pneumonia, nos frios de março; e isto ennegreceu mais a melancolia de

Maria Eduarda, que a amava muito tambem--por ser irlandeza e catholica.

Para a distrahir, Affonso levou-a para a Italia, para uma deliciosa

_villa_ ao pé de Roma. Ahi não lhe faltava o sol: tinha-o ponctual e

generoso todas as manhãs, banhando largamente os terraços, dourando

loureiraes e myrtos. E depois, lá em baixo, entre marmores, estava a

coisa preciosa e santa, o Papa!

Mas a triste senhora continuava a choramigar. O que realmente appetecia

era Lisboa, as suas novenas, os santos devotos do seu bairro, as

procissões passando n'um rumor de pachorrenta penitencia por tardes de

sol e de poeira...

Foi necessario calmal-a, voltar a Bemfica.

Ahi começou uma vida desconsolada. Maria Eduarda definhava lentamente,

todos os dias mais pallida, levando semanas immovel sobre um canapé, com

as mãos transparentes cruzadas sobre as suas grossas pelles

d'Inglaterra. O padre Vasques, apoderando-se d'aquella alma aterrada

para quem Deus era um amo feroz, tornára-se o grande homem da casa. De

resto Affonso encontrava a cada momento pelos corredores outras figuras

canonicas, de capote e solideo, em que reconhecia antigos franciscanos,

ou algum magro capuchinho parasitando no bairro; a casa tinha um bafio

de sachristia; e dos quartos da senhora vinha constantemente, dolente e

vago, um rumor de ladainha.

Todos aquelles santos varões comiam, bebiam o seu vinho do Porto na

copa. As contas do administrador appareciam sobrecarregadas com as

mesadas piedosas que dava a senhora: um Frei Patricio surripiára-lhe

duzentas missas de cruzado por alma do Sr. D. José I...

Esta carolice que o cercava ia lançando Affonso n'um atheismo rancoroso:

quereria as egrejas fechadas como os mosteiros, as imagens escavacadas a

machado, uma matança de reverendos... Quando sentia na casa a voz de

resas, fugia, ia para o fundo da quinta, sob as trepadeiras do mirante,

ler o seu Voltaire: ou então partia a desabafar com o seu velho amigo, o

coronel Sequeira, que vivia n'uma quinta a Queluz.

O Pedrinho no entanto estava quasi um homem. Ficara pequenino e nervoso

como Maria Eduarda, tendo pouco da raça, da força dos Maias; a sua linda

face oval d'um trigueiro calido, dois olhos maravilhosos e

irresistiveis; promptos sempre a humedecer-se, faziam-n'o assemelhar a

um bello arabe. Desenvolvera-se lentamente, sem curiosidades,

indifferente a brinquedos, a animaes, a flores, a livros. Nenhum desejo

forte parecera jámais vibrar n'aquella alma meia adormecida e passiva:

só ás vezes dizia que gostaria muito de voltar para a Italia. Tomára

birra ao Padre Vasques, mas não ousava desobedecer-lhe. Era em tudo um

fraco; e esse abatimento continuo de todo o seu ser resolvia-se a

espaços em crises de melancolia negra, que o traziam dias e dias mudo,

murcho, amarello, com as olheiras fundas e já velho. O seu unico

sentimento vivo, intenso, até ahi, fôra a paixão pela mãe.

Affonso quizera-o mandar para Coimbra. Mas, á idéa de se separar do seu

Pedro, a pobre senhora cahira de joelhos deante d'Affonso, balbuciando e

tremendo: e elle, naturalmente, lá cedeu perante essas mãos

supplicantes, essas lagrimas que cahiam quatro a quatro pela pobre face

de cera. O menino continuou em Bemfica dando os seus lentos passeios a

cavallo, de creado de farda atraz, começando já a ir beber a sua genebra

aos botequins de Lisboa... Depois foi despontando n'aquella organisação

uma grande tendencia amorosa: aos dezenove annos teve o seu

bastardosinho.

Affonso da Maia consolava-se pensando que, apesar de tão desgraçados

mimos, não faltavam ao rapaz qualidades: era muito esperto, são, e, como

todos os Maias, valente: não havia muito que elle só, com um chicote,

dispersara na estrada tres saloios de varapau que lhe tinham chamado

_palmito_.

Quando a mãe morreu, n'uma agonia terrivel de devota, debatendo-se dias

nos pavores do inferno, Pedro teve na sua dôr os arrebatamentos d'uma

loucura. Fizera a promessa hysterica, se ella escapasse, de dormir

durante um anno sobre as lageas do pateo: e levado o caixão, sahidos os

padres, cahio n'uma angustia soturna, obtusa, sem lagrimas, de que não

queria emergir, estirado de bruços sobre a cama n'uma obstinação de

penitente. Muitos mezes ainda não o deixou uma tristeza vaga: e Affonso

da Maia já se desesperava de ver aquelle rapaz, seu filho e seu

herdeiro, sahir todos os dias a passos de monge, lugubre no seu luto

pesado, para ir visitar a sepultura da mamã...

Esta dôr exagerada e morbida cessou por fim; e succedeu-lhe, quasi sem

transição, um periodo de vida dissipada e turbulenta, estroinice banal,

em que Pedro, levado por um romantismo torpe, procurava affogar em

lupanares e botequins as saudades da mamã. Mas essa exhuberancia anciosa

que se desencadeara tão subitamente, tão tumultuosamente, na sua

natureza desequilibrada, gastou-se depressa tambem.

Ao fim d'um anno de disturbios no Marrare, de façanhas nas esperas de

toiros, de cavallos esfalfados, de pateadas em S. Carlos, começaram a

reapparecer as antigas crises de melancolia nervosa; voltavam esses dias

taciturnos, longos como desertos, passados em casa a bocejar pelas

salas, ou sob alguma arvore da quinta todo estirado de bruços, como

despenhado n'um fundo de amargura. N'esses periodos tornava-se tambem

devoto: lia Vidas de Santos, visitava o Lausperenne: eram d'esses

bruscos abatimentos d'alma que outr'ora levavam os fracos aos mosteiros.

Isto penalisava Affonso da Maia: preferia saber que elle recolhera de

Lisboa, de madrugada, exhausto e bebedo,--do que vel-o, de ripanço

debaixo do braço, com um ar velho, marchando para a Egreja de Bemfica.

E havia agora uma idéa que, a seu pesar, às vezes o torturava:

descobrira a grande parecença de Pedro com um avô de sua mulher, um

Runa, de quem existia um retrato em Bemfica: este homem extraordinario,

com que na casa se mettia medo ás creanças, enlouquecera--e julgando-se

Judas enforcara-se n'uma figueira...

Mas um dia, excessos e crises findaram. Pedro da Maia amava! Era um amor

á Romeu, vindo de repente n'uma troca de olhares fatal e deslumbradora,

uma d'essas paixões que assaltam uma existencia, a assolam como um

furacão, arrancando a vontade, a rasão, os respeitos humanos e

empurrando-os de roldão aos abysmos.

N'uma tarde, estando no Marrare, vira parar defronte, á porta de M.^{me}

Levaillant, uma caleche azul onde vinha um velho de chapéo branco, e uma

senhora loira, embrulhada n'um chale de Cashmira.

O velho, baixote e reforçado, de barba muito grisalha talhada por baixo

do queixo, uma face tisnada d'antigo embarcadiço e o ar gôche, desceu

todo encostado ao trintanario como se um rheumatismo o tolhesse, entrou

arrastando a perna o portal da modista; e ella voltando de vagar a

cabeça olhou um momento o Marrare.

Sob as rosinhas que ornavam o seu chapeu preto os cabellos loiros, d'um

oiro fulvo, ondeavam de leve sobre a testa curta e classica: os olhos

maravilhosos illuminavam-n'a toda; a friagem fazia-lhe mais pallida a

carnação de marmore: e com o seu perfil grave de estatua, o modelado

nobre dos hombros e dos braços que o chale cingia--pareceu a Pedro

n'esse instante alguma cousa d'immortal e superior á terra.

Não a conhecia. Mas um rapaz alto, macilento, de bigodes negros, vestido

de negro, que fumava encostado á outra hombreira, n'uma _pose_ de

tedio--vendo o violento interesse de Pedro, o olhar acceso e perturbado

com que seguia a caleche trotando Chiado acima, veiu tomar-lhe o braço,

murmurou-lhe junto á face na sua voz grossa e lenta:

--Queres que te diga o nome, meu Pedro? O nome, as origens, as datas e

os feitos principaes? E pagas ao teu amigo Alencar, ao teu sequioso

Alencar, uma garrafa de Champagne?

Veiu o Champagne. E o Alencar, depois de passar os dedos magros pelos

anneis da cabelleira e pelas pontas do bigode, começou, todo recostado e

dando um puchão aos punhos:

--Por uma dourada tarde d'outomno...

--André, gritou Pedro ao creado, martellando o marmore da mesa, retira o

Champagne!

O Alencar bradou, imitando o actor Epiphanio:

--O quê! Sem saciar a avidez de meu labio?...

Pois bem, o Champagne ficaria: mas o amigo Alencar, esquecendo que era o

poeta das _Vozes d'Aurora_, explicaria aquella gente da caleche azul

n'uma linguagem christã e pratica!...

--Ahi vae, meu Pedro, ahi vae!

Havia dois annos, justamente quando Pedro perdera a mamã, aquelle velho,

o papá Monforte, uma manhã rompera subitamente pelas ruas e pela

sociedade de Lisboa n'aquella mesma caleche com essa bella filha ao seu

lado. Ninguem os conhecia. Tinham alugado a Arroios um primeiro andar no

palacete dos Vargas; e a rapariga principiou a apparecer em S. Carlos,

fazendo uma impressão--uma impressão de causar aneurismas, dizia o

Alencar! Quando ella atravessava o salão os hombros vergavam-se no

deslumbramento de auréola que vinha d'aquella magnifica creatura,

arrastando com um passo de Deusa a sua cauda de côrte, sempre decotada

como em noites de gala, e apesar de solteira resplandecente de joias. O

papá nunca lhe dava o braço: seguia atraz, entalado n'uma grande gravata

branca de mordomo, parecendo mais tisnado e mais embarcadiço na

claridade loira que sahia da filha, encolhido e quasi apavorado,

trazendo nas mãos o oculo, o _libretto_, um saco de _bonbons_, o leque e

o seu proprio guardachuva. Mas era no camarote, quando a luz cahia sobre

o seu collo eburneo e as suas tranças de oiro, que ella offerecia

verdadeiramente a encarnação d'um ideal da Renascença, um modelo de

Ticiano... Elle, Alencar, na primeira noite em que a vira, exclamara,

mostrando-a a ella e ás outras, ás trigueirotas da assignatura:

--Rapazes! é como um ducado de ouro novo entre velhos patacos do tempo

do Sr. D. João VI!

O Magalhães, esse torpe pirata, pozera o dito n'um folhetim do

_Portuguez_. Mas o dito era d'elle, Alencar!

Os rapazes, naturalmente, começaram logo a rondar o palacete de Arroios.

Mas nunca n'aquella casa se abria uma janella. Os criados interrogados

disseram apenas que a menina se chamava Maria, e que o senhor se chamava

Manoel. Emfim uma creada, amaciada com seis pintos, soltou mais: o homem

era taciturno, tremia deante da filha, e dormia n'uma rêde; a senhora,

essa, vivia n'um ninho de sedas todo azul-ferrête, e passava o seu dia a

ler novellas. Isto não podia satisfazer a sofreguidão de Lisboa. Fez-se

uma devassa methodica, habil, paciente... Elle, Alencar, pertencera á

devassa.

E souberam-se horrores. O papá Monforte era dos Açores; muito moço, uma

facada n'uma rixa, um cadaver a uma esquina tinham-n'o forçado a fugir a

bordo d'um brigue americano. Tempos depois um certo Silva, procurador da

casa de Taveira, que o conhecera nos Açores, estando na Havana a estudar

a cultura do tabaco que os Taveiras queriam implantar nas Ilhas

encontrára lá o Monforte (que verdadeiramente se chamava Forte) rondando

pelo caes, de chinellas de esparto, á procura de embarque para a

Nova-Orleans. Aqui havia uma treva na historia do Monforte. Parece que

servira algum tempo de feitor n'uma plantação da Virginia... Emfim,

quando reappareceu á face dos céos commandava o brigue _Nova Linda_, e

levava cargas de pretos para o Brazil, para a Havana e para a Nova

Orleans.

Escapara aos cruzeiros inglezes, arrancára uma fortuna da pelle do

africano, e agora rico, homem de bem, proprietario, ia ouvir a Corelli a

S. Carlos. Todavia esta terrivel chronica, como dizia o Alencar, obscura

e mal provada, claudicava aqui e além...

--E a filha? perguntou Pedro, que o escutara, serio e pallido.

Mas isso não o sabia o amigo Alencar. Onde a arranjara assim tão loira e

bella? Quem fôra a mamã? Onde estava? Quem a ensinara a embrulhar-se com

aquelle gesto real no seu chale de Cashmira?...

--Isso, meu Pedro, são

mysterios que jámais poude Lisboa

astuta devassar e só Deus sabe!

Em todo o caso quando Lisboa descobriu aquella legenda de sangue e

negros, o enthusiasmo pela Monforte calmou. Que diabo! Juno tinha sangue

de assassino, a _beltà_ do Ticiano era filha de negreiro! As senhoras,

deliciando-se em villipendiar uma mulher tão loira, tão linda e com

tantas joias, chamaram-lhe logo a _negreira_! Quando ella apparecia

agora no theatro, D. Maria da Gama affectava esconder a face detraz do

leque, porque lhe parecia ver na rapariga (sobretudo quando ella usava

os seus bellos rubis) o sangue das facadas que dera o papázinho! E

tinham-n'a calumniado abominavelmente. Assim, depois de passarem em

Lisboa o primeiro inverno, os Monfortes sumiram-se: pois disse-se logo,

com furor, que estavam arruinados, que a policia perseguia o velho, mil

perversidades... O excellente Monforte, que soffre de rheumatismos

articulares, achava-se tranquillamente, ricamente, tomando as aguas dos

Piryneus... Fora lá que o Mello os conhecera...

--Ah! o Mello conhece-os? exclamou Pedro.

--Sim, meu Pedro, o Mello os conhece.

Pedro d'ahi a um momento deixou o Marrare; e n'essa noite, antes de

recolher, apesar da chuva fria e miuda, andou rondando uma hora, com a

imaginação toda accesa, o palacete dos Vargas apagado e mudo. Depois,

d'ahi a duas semanas o Alencar, entrando em S. Carlos ao fim do primeiro

acto do _Barbeiro_, ficou assombrado ao ver Pedro da Maia installado na

frisa da Monforte, á frente, ao lado de Maria, com uma camelia escarlate

na casaca--egual ás d'um ramo pousado no rebordo de velludo.

Nunca Maria Monforte apparecera mais bella: tinha uma d'essas

_toilettes_ excessivas e theatraes que offendiam Lisboa, e faziam dizer

ás senhoras que ella se vestia «como uma comica». Estava de seda côr de

trigo, com duas rosas amarellas e uma espiga nas tranças, opalas sobre o

collo e nos braços; e estes tons de ceara madura batida do sol,

fundindo-se com o ouro dos cabellos, illuminando-lhe a carnação eburnea,

banhando as suas fórmas de estatua, davam-lhe o esplendor d'uma Ceres.

Ao fundo entreviam-se os grandes bigodes loiros do Mello, que conversava

de pé com o papá Monforte--escondido como sempre no canto negro da

frisa.

O Alencar foi observar «o caso» do camarote dos Gamas. Pedro voltára á

sua cadeira, e de braços cruzados contemplava Maria. Ella conservou

algum tempo a sua attitude de Deusa insensivel; mas, depois, no duetto

de Rosina e Lindor, duas vezes os seus olhos azues e profundos se

fixaram n'elle, gravemente e muito tempo. O Alencar, correu ao Marrare,

de braços ao ar, a berrar a novidade.

Não tardou de resto a fallar-se em toda a Lisboa da paixão de Pedro da

Maia pela _negreira_. Elle tambem namorou-a publicamente, á antiga,

plantado a uma esquina, defronte do palacete dos Vargas, com os olhos

cravados na janella d'ella, immovel e pallido d'extasi.

Escrevia-lhe todos os dias duas cartas em seis folhas de papel--poemas

desordenados que ia compôr para o Marrare: e ninguem lá ignorava o

destino d'aquellas paginas de linhas encruzadas que se accumulavam

deante d'elle sobre o taboleiro da genebra. Se algum amigo vinha á porta

do café perguntar por Pedro da Maia, os criados já respondiam muito

naturalmente:

--O sr. D. Pedro? Está a escrever á menina.

E elle mesmo, se o amigo se acercava, estendia-lhe a mão, exclamava

radiante, com o seu bello e franco sorriso:

--Espera ahi um bocado, rapaz, estou a escrever á Maria!

Os velhos amigos de Affonso da Maia que vinham fazer o seu _whist_ a

Bemfica, sobretudo o Villaça, o administrador dos Maias, muito zeloso da

dignidade da casa, não tardaram em lhe trazer a nova d'aquelles amores

do Pedrinho. Affonso já os suspeitava: via todos os dias um criado da

quinta partir com um grande ramo das melhores camelias do jardim; todas

as manhãs cedo encontrava no corredor o escudeiro, dirigindo-se ao

quarto do menino, a cheirar regaladamente o perfume d'um enveloppe com

sinete de lacre dourado;--e não lhe desagradava que um sentimento

qualquer, humano e forte, lhe fosse arrancando o filho á estroinice

bulhenta, ao jogo, ás melancolias sem rasão em que reapparecia o negro

ripanço...

Mas ignorava o nome, a existencia sequer dos Monfortes; e as

particularidades que os amigos lhe revelaram, aquella facada nos Açores,

o chicote de feitor na Virginia, o brigue _Nova Linda_, toda a sinistra

legenda do velho contrariou muito Affonso da Maia.

Uma noite que o coronel Sequeira, á mesa do _whist_, contava que vira

Maria Monforte e Pedro passeando a cavallo, «ambos muito bem e muito

_distingués_», Affonso, depois d'um silencio, disse com um ar

enfastiado:

--Emfim, todos os rapazes teem as suas amantes... Os costumes são assim,

a vida é assim, e seria absurdo querer reprimir taes cousas. Mas essa

mulher, com um pae d'esses, mesmo para amante acho má.

O Villaça suspendeu o baralhar das cartas, e ageitando os oculos d'ouro

exclamou com espanto:

--Amante! Mas a rapariga é solteira, meu senhor, é uma menina

honesta!...

Affonso da Maia enchia o seu cachimbo; as mãos começaram a tremer-lhe; e

voltando-se para o administrador, n'uma voz que tremia um pouco tambem:

--O Villaça de certo não suppõe que meu filho queira casar com essa

creatura...

O outro emmudeceu. E foi o Sequeira que murmurou:

--Isso não, está claro que não...

E o jogo continuou algum tempo em silencio.

Mas Affonso da Maia principiou a andar descontente. Passavam-se semanas

que Pedro não jantava em Bemfica. De manhã, se o via, era um momento,

quando elle descia ao almoço, já com uma luva calçada, apressado e

radiante, gritando para dentro se estava sellado o cavallo; depois,

mesmo de pé, bebia um gole de chá, perguntava a correr «se o papá queria

alguma cousa», dava um geito ao bigode deante do grande espelho de

Veneza sobre o fogão, e lá partia, enlevado. Outras vezes todo o dia não

sahia do quarto: a tarde descia, accendiam-se as luzes; até que o pae,

inquieto, subia, ia encontral-o estirado sobre o leito, com a cabeça

enterrada nos braços.

--Que tens tu?--perguntava-lhe.

--Enchaqueca,--respondia n'um tom surdo e rouco.

E Affonso descia indignado, vendo em toda aquella angustia covarde

alguma carta que não viera, ou talvez uma rosa offerecida que não fôra

posta nos cabellos...

Depois, por vezes, entre dois _robbers_ ou conversando em volta da

bandeja do chá, os seus amigos tinham observações que o inquietavam,

partindo d'aquelles homens que habitavam Lisboa, lhe conheciam os

rumores--emquanto elle passava alli, inverno e verão, entre os seus

livros e as suas rosas. Era o excellente Sequeira que perguntava porque

não faria Pedro uma viagem longa, para se instruir, á Allemanha, ao

Oriente? Ou o velho Luiz Runa, o primo d'Affonso, que, a proposito de

cousas indifferentes, rompia lamentando os tempos em que o Intendente da

policia podia livremente expulsar de Lisboa as pessoas importunas...

Evidentemente alludiam á Monforte, evidentemente julgavam-n'a perigosa.

No verão, Pedro partiu para Cintra; Affonso soube que os Monfortes

tinham lá alugado uma casa. Dias depois o Villaça appareceu em Bemfica,

muito preoccupado: na vespera Pedro visitara-o no cartorio, pedira-lhe

informações sobre as suas propriedades, sobre o meio de levantar

dinheiro. Elle lá lhe dissera que em setembro, chegando á sua

maioridade, tinha a legitima da mamã...

--Mas não gostei d'isto, meu senhor, não gostei d'isto...

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 1 / 53 段