«A responsabilidade criminal consiste na obrigação, em que se constitue

o auctor do facto ou da omissão (na portaria ha a omissão e o facto) de

submetter-se a certas penas decretadas na lei, as quaes são a reparação

do damno causado á sociedade na ordem moral. A responsabilidade civil

consiste na obrigação, em que se constitue o auctor do facto ou da

omissão, de restituir o lesado ao estado anterior á lesão, e de

satisfazer as perdas e damnos que lhe haja causado.»

Um só caso previsto no codigo pode relevar o sr. Barros e Cunha da

responsabilidade civil e da responsabilidade criminal da portaria que

perpetrou. Esse caso é o de completa embriaguez ou de provada demencia.

* * * * *

Cumpre notar que o cidadão João Burnay sobre quem pesa uma tal offensa

não é um empreiteiro vulgar, um especulador de concursos ficticios

simulados para apadrinhar intrigantes. João Burnay é um engenheiro de

primeira classe, um mathematico distincto, uma intelligencia largamente

cultivada, um caracter de uma honestidade inviolavel. Como trabalhador

elle é o mais elevado exemplo que se pode propor á mocidade portugueza.

Nenhum outro homem da geração moderna espalhou como elle em volta de si

pelo puro exercicio das suas faculdades creadoras uma tão grande e tão

preciosa actividade. É o proprietario e o chefe de uma grande officina

modelo do seu genero. Pelo exforço do seu talento extrae da natureza os

elementos que fazem subsistir honradamente na sociedade de Lisboa alguns

centenares de familias. Todo o paiz em movimento de civilisação se

lisongearia de o poder contar entre os seus filhos mais prestanles e

mais benemeritos, porque é por meio da iniciativa de homens como elle

que os estados se moralisam e se enriquecem.

Na nossa sociedade estagnada pela indolencia e pela corrupção elle é

impunemente estorvado, calumniado, atraiçoado na mais legitima das suas

aspirações--a aspiração do trabalho, por um ministro filho da intriga

constitucional, sahido do parlamentarismo mais banal e mais chato, não

exercendo nunca o trabalho nem sendo capaz de o respeitar em quem o

exerce, tendo vivido sempre no parasitismo da politica, não produzindo

coisa alguma, não tendo finalmente servido aos seus similhantes para

outra cousa que não seja empobrocel-os quando come e corrompel-os quando

governa.

* * * * *

Todavia não queremos mal ao sr. Barros e Cunha. Elle é simplesmente o

producto fatal do seu meio. Inspira-nos um interesse sympathico a triste

maneira de acabar que o está esperando. Os seus erros successivos

offerecerão á critica e ao ataque uma vasta superficie exploravel. As

suas faculdades não lhe permittirão defender-se.

D'aqui lhe fazemos uma prophecia: será medonhamente batido e

deploravelmente derrotado, não porque offendeu o direito na pessoa de um

trabalhador obscuro, o engenheiro João Burnay, não porque foi injusto,

mas sim porque é inhabil e porque é fraco. É isto, e não aquillo, o que

nunca lhe perdoarão os partidos politicos com os quaes irá dentro em

pouco achar-se em hostilidade. Será o alvo das retaliações mais

violentas, dos discursos mais acerbos na camara, dos artigos mais

explosivos na imprensa. Hão de cercal-o como cercam os cães um javardo

condemnado á morte. O improperio ha de se lhe aferrar ás espaduas e ha

de mordel-o na nuca. A ironia ha de rir-lhe no nariz com uma gargalhada

feroz, mostrando-lhe os dentes anavalhados e agudos,--de jacaré. A

logica ha de lançar-lhe ao pescoço a sua golilha forrada de puas de

ferro e hade leval-o de rastos por um grilhão atraz d'ella. A pilheria

ha-de pôr-lhe rabos. A chalaça ha-de pegal-o com breu á cadeira de

ministro. A chufa ha de coser-lhe as abas da casaca a um trambolho. A

pulha ha-de deitar-lhe pós de sapatos. A laracha ha-de esguichal-o com

tinta de campeche. A chacota ha-de fazer-lhe sair do nariz bandeirolas e

baralhos de cartas. A troça ha-de dar-lhe no ventre estrondosas palmadas

de zabumba em theatro de feira.

E nós apiedar-nos-hemos, por que nos magoam os espectaculos em que se

destroe para sempre a dignidade de um homem. É por isso que damos ao sr.

Barros e Cunha um conselho amigavel. S. ex.ª póde ser ainda um cidadão

util e respeitavel. O que não póde é alliar esses titulos com o de

ministro e secretario de estado dos negocios das obras publicas,

commercio e industria.

Ha uma cousa mil vezes mais meritoria do que ser um mau ministro, é ser

modestamente um bom homem. S. ex.ª póde ser bom homem. Seja-o. Seja-o

para honra sua e dos seus similhantes. Demitta-se. Vá para sua casa.

Ser um ministro do genero de s. ex.ª é facil. Não o ser, porém não é

mais difficil. Vá para casa. Dizem-nos que é rico. É além d'isso

anglomano. Vá para casa cultivar esmeradamente a sua anglomania, sem

desdouro para si nem para a especie de que faz parte. A exiguidade do

seu craneo, cuja circumferencia mede uma quantidade de centimetros

extremamente inferior á que a sciencia anthropologica exige para a

elaboração das grandes e fortes idéas, não o impede ainda assim de ser,

por exemplo, um cultivador modesto e prestante. Os chapeus do fallecido

sr. Thiers, do sr. Disraelli, do sr. de Bismark cahem até o pescoço de

s. ex.ª e deixam a sua pobre cabecinha tanto á larga dentro d'elles como

um ovo dentro d'um sino. Mas ninguem tem obrigação de possuir

precisamente o cerebro d'um reorganisador e d'um estadista.

A massa cephalica de que s. ex.ª dispõe habilita-o perfeitamente para

ser muito util, dirigindo a cultura da celebre batata-rim, tão rara, tão

preciosa, tão procurada no mercado de Londres. S. ex.ª poderia ainda

tentar nas suas vastas propriedades a creação em grande escala dos

coelhos, á moda ingleza, o fabrico da manteiga, a queijaria, a

piscicultura, o aperfeiçoamento das raças lanigeras, o estabelecimento

das pateiras e das capoeiras-modelos, etc. Se s. ex.ª applicasse as

forças do seu nervosismo a prestar á humanidade esses serviços modestos

mas valiosos, s. ex.ª teria as grandes alegrias, as profundas

satisfações tranquillas das naturezas harmonicas, e o seu nome seria

querido e abençoado como o d'um cidadão prestadio e d'um homem de bem.

Persistindo em ser um politico, s. ex.ª deixará apenas na terra o

desprezo com que a humanidade castiga aquelles que, imaginando servil-a,

não fizeram senão prejudical-a.

Assim como a ferocidade, a incompetencia tem tambem os seus Attilas. A

differença é, que uns requeimam a herva, os outros comem-a. O estrago é

o mesmo.

* * * * *

O registo das producções musicaes portuguezas foi enriquecido durante o

periodo a que se refere este volume com tres novas obras, qual d'ellas

mais caracteristica e mais monumental. Passamos a consagrar a cada uma a

attenção que lhe é devida.

* * * * *

_As Cutiladas do Passeio Publico_ é o titulo de uma polka refutativa dos

principios estheticos por onde os doutos costumavam até hoje determinar

as fontes da inspiração artística.

Aos elementos que concorrem para a gestação de uma obra d'arte, a

orientação ethnologica, a tradição nacional, o solo, o clima, os

aspectos da paizagem, temos de accrescentar uma nova força geradora:--a

força da pancadaria.

Na occasião em que os bons e pacificos burguezes de Lisboa tomavam o

fresco de uma noite de julho no Passeio Publico do Rocio, do qual elles

são os legitimos e directos senhores, a policia invade o alludido

passeio e a pretexto de não estar plenamente liquidada a questão

juridica de quem deve accender os candieiros e fechar as portas, a

policia expulsa violentamente do seu passeio os burguezes e as suas

respectivas mulheres, as suas mães, as suas irmãs e as suas filhas.

Á saida do passeio, uma força de soldados da guarda municipal que

acudira em reforço da policia, encontra-se de frente com os burguezes

que saem do jardim publico e procura recalcal-os para cima dos sabres

policiaes que do lado opposto lhes veem picando os rins. N'esta

conjunctura o publico, sentindo-se tanto á sua vontade como se o

quizessem atarrachar entre as duas laminas de uma prensa, pergunta, por

onde é que se lhe permitte que fuja. A municipal considera indiscreta

essa pergunta, e desembainhando os seus sabres acutila os burguezes e as

suas familias com o ardôr bellicoso de um exercito encarregado da

transformar o paiz n'uma almondega.

Os restos do picado feito pela guarda municipal para alimento da ordem

clamam vingança a altos brados. O acaso fornece-lhes armas, que elles

regeitam. As cadeiras em que estavam sentados no jardim poderiam com

vantagem desarticular alguns dos ossos mais importantes da força

publica. As bengalas a que se apoiavam os chefes de familia, brandidas

com intima convicção, chegariam talvez a introduzir alguma porção de

cana da India e de sentimentos piedosos nos cerebros da soldadesca.

Finalmente alguns bons socos applicados com arte não deixariam de fazer

render as costellas e o espirito das tropas a uma conciliação amigavel.

As sobras da chacina marcial da porta do Passeio acham porem

insufficientes para o seu despique todos esses recursos. Os briosos

canhos, vingadores da bordoada recebida á chucha calada, recolhem-se a

suas casas pedindo ás furias punição para os algozes e arnica para as

victimas.

Ao cabo de uma semana de recolhimento e de agua de vegeto, o desforço

popular rebentou finalmente, inexoravel e tremendo, sob a forma de

polka.

Expulso ás cutiladas e aos cachações de um jardim que é seu, cuja

propriedade e cuja posse elle pagou e repagou muitas vezes com impostos

e contribuições municipaes, o povo de Lisboa vinga-se da carnificina que

o estropia e da violação que o esbulha de uma propriedade que é tão

legitimamente sua como a mesa a que janta ou a cama em que dorme, pondo

o caso em musica e em dansa de roda!

Ó Lisboa! Lisboa! como tu estás demudada do que foste! Nos periodos

ainda os mais vergonhosos da tua velha historia, no tempo d'esse fraco

rei que fez fraca a forte gente, tu tinhas ainda um Fernão Vasques,

simples remendão, que á frente de alguns populares reptava o proprio

soberano a vir á igreja de S. Domingos dar-lhe satisfação dos seus

actos mais intimos, da propria solução de seus amores. Hoje levas

pontapés de um sargento na mesma parte do corpo que nobilitaste no

presente seculo sentando-te nas cadeiras da representação nacional; e

tendo feito um codigo dos teus inviolaveis direitos, tendo promulgado

uma constituição, possuindo uma carta, um parlamento, uma imprensa,

todas as garantias da liberdade, tu, que na idade gothica, chegavas com

o teu braço poderoso á corôa de um rei absoluto, não chegas hoje, na era

nova do direito, ás orelhas de um cabo de esquadra!

Ao pé da mesma igreja para onde ha quinhentos annos tu emprasavas o

chefe augusto do Estado, levas agora tapona do policia Antunes, e a nada

mais o emprasas senão a propinar-te uma segunda sova quando reajas á

primeira!

Misera Lisboa! lastima a tua sorte: os teus remendões acabaram. Chora,

cidade de marmore e de lixo, que os teus remendões morreram!

Aquelles que no vão de uma escada cosiam calças ou talhavam gibões, que

não queriam ser vereadores, nem deputados, nem funccionarios publicos,

que eram simplesmente o povo, bruto mas digno, não sabendo intrigar mas

sabendo bater, não tendo a imprensa nem a policia correccional, mas

tendo ao canto da porta um cacete ou um chuço, esses taes, que eram a

arraia miuda, umas vezes soffredora e mansa, outras vezes vingadora e

terrivel, esses desappareceram. Já não tens rudes filhos da plebe, tens

delicados filhos de Minerva e de Thalia. A cultura moderna fez-te

philarmonica. Substituiste a força da união pela _União e Capricho_.

Quando te não chegam ao pello tocas o hymno. A phrase _levar para o

tabaco_ ha de modificar-se para teu uso na nova fórmula--_levar para a

musica_.

Agora, como te abriram a cabeça um pouco mais profundamente que o

costume, despicaste-te com uma polka especial.

As trombetas das tuas quarenta philarmonicas populares, que trombeteiam

indistinctamente por tudo, que trombeteiam pelas instituições e pelos

santos, pela carta e pelo Senhor dos Passos da Graça, pela restauração

de 1640 e pelo enterro do bacalhau, pela real familia e pelo cyrio da

Atalaia, por Garibaldi e por Santo Antonio de Padua, essas trombetas

que expressavam alegremente o prurido dos teus jubilos principiam a

expressar de um modo egualmente alegre o prurido das tuas confusões.

Violam desaforadamente a tua propriedade e a tua pessoa e tu collocas

essa questão de direito e de dignidade no terreno patusco dos bailes

campestres! Expulsam-te do teu jardim adiante dos bicos das botas do

habil Antunes ou do habil Castello Branco; trincham-te a cabeça com a

semceremonia com que se trincham os melões; e tu danças a polka, a tua

polka brilhante, _As cutiladas do Passeio Publico!_

O que receamos por ti, ó querida Lisboa, é que na proxima tosa que te

appliquem, além de te quebrarem os ossos, te quebrem tambem os

instrumentos musicaes, privando-te assim dos meios de flauteares a

vingança monumental e tremenda. Occorre-nos lembrar aos grandes centros

democraticos da capital a conveniencia de fundar uma reserva de

clarinetes para que nunca se encontre desarmada perante a prepotencia da

tyrannia a vindicta dos povos.

Emquanto á dignidade humana... lalarilolé... e emquanto á liberdade,

ao direito e á civilisação... lariléliló... que nos importa isso?...

Com as cabeças retalhadas pelos sabres policiaes o que nós queremos é

panno adesivado...lólaró... e fios... trolarilolé!

Como o philpsopho Diogenes a unica coisa que pedimos aos grandes da

terra, além de unguentos, é que nos não interceptem o _sol... e dó!_

* * * * *

O sr. Padre Conceição Borges fez cantar no theatro da Trindade uma

operetta de que o dito clerigo compoz ao mesmo tempo o libretto e a

partitura. O publico, pateando enthusiasticamente ambas as coisas, poz a

peça fóra da scena á primeira recita, privando-nos do prazer de assistir

ao notavel espectaculo, de que hoje nos resta apenas o titulo--_Vamos a

ellas_!

Quem são _ellas? Ellas_, na bocca, no pensamento, na intenção do sr.

Padre Conceição Borges, cremos que não podem ser senão as missas.

Mergulhamos como Curcio até o fundo de todas as hypotheses que esse

perigoso problema nos suggere e não vemos que, sem offensa do grave

caracter sacerdotal do sr. Padre Borges, se possa admittir que _ellas_

não sejam as missas para serem qualquer outra coisa.

Ora sendo para as missas quo o sr. Padre Conceição quer ir e sendo para

as missas que nós somos convocados a acompanhal-o, segundo a unica

interpretação que pode ter o seu titulo, parece-nos que Sua

Reverendissima torceu bastante caminho e que iria muito mais direito ao

seu fito se, em vez de ter mettido pelo palco da Trindade com o seu

spartito em punho, fosse directamente com a sua batina--para a sacristia

das Mercês.

* * * * *

_A Roma! a Roma!_ é o titulo de uma valsa annunciada ao publico pelo

periodico religioso _A Nação_, e destinada a servir os mesmos designios

piedosos que levaram o sr. Conceição Borges _a ellas! a ellas!_

Nada mais commodo do que esta intervenção da valsa nas praticas da

penitencia e no regimen depurativo das almas para a mais elevada

comprehensão dos interesses espirituaes e dos destinos eternos! Ir para

Deus não pelas escabrosidades do martyrio mas pelas cadencias do

cotillon é um dos mais notaveis serviços que a arte podia prestar á

alliança da religião e do _chic_.

Affirmar o dogma dansando é uma ideia que vae revolucionar

completamente os usos das salas. Nos bailes do proximo inverno

inclinar-nos-hemos deante das meninas religiosas e diremos:

--Quererá v. ex.ª, minha senhora, ajudar esta alma a sahir do abysmo da

impiedade conferindo-lhe a honra da proxima valsa?

E a menina a quem um homem se dirigir n'esses termos responderá erguendo

os olhos ao céu.

--Sim pelas sete dôres da Virgem Immaculada.

E iremos em seguida para a verdade sacrosanta e eterna, aos pares

deslisando em gyros ondulantes sobre os _parquets_ polidos, cingindo com

o braço direito os espartilhos palpitantes e electricos, segurando na

mão esquerda um pulso delicado e macio, calçado em luvas perfumadas que

chegam ao cotovello. Respiraremos o aroma penetrante do Iris de Florença

exhalado das rendas aquecidas no seio do nosso par, sentiremos nas

pontas agudas do bigode o contacto dos seus cabellos seccos e frisados,

e no hombro o leve peso tepido e carinhoso do seu corpo d'ave. E

conversaremos:

--Como a religião é boa! como é ineffavel!... Eu sinto a voz do meu

coração contricto e humilhado exclamar como esta valsa: a Roma! a Roma!

--E começa a ter crenças?

--Oh! sim!... com impaciência! com frenesi! com delirio!...

Esqueçamo-nos do mundo vil! Bem hajas tu que me chamaste para a fé!...

Tu, minha candida pomba da arca!... Tu, minha estrella dos Magos!... Tu,

meu anjo da guarda!...

--Bemdito e louvado seja Nosso Senhor, que me permittiu a mim, sua

indigna serva, o encaminhar para o gremio da nossa Santa Madre Igreja

uma alma que ia perder-se! Acredita na infallibilidade do nosso Summo

Pontifice, não acredita?

--Acredito com furia, com raiva, com epilepsia! Não sente como o meu

coração bate?... É pelos dogmas, é pelos concilios, que elle assim bate!

Oh! maldito seja o seculo com os seus erros! maldito seja o mundo com os

seus enganos! Amanhã precisamente tinha eu que fazer na secretaria dos

Extrangeiros: não vou! não estou para isso! Para onde eu vou é para o

mez de Maria. Que me demittam, se quizerem! que me ponham na

disponibilidade! Que me importam a mim os bens terrenos? Prefiro

perdel-os a encontrar-me no ministerio com o addido italiano que

blasfema, que bebe a sua agua de Nossa Senhora de Lourdes...

--Oh! se é um sacrilegio, cale-se por Deus! Podem ouvir-nos os pares que

nos seguem... Dariamos escandalo no meio da sacratissima valsa!

--Que eu lh'o diga ao ouvido, na sua pequenina orelha que parece uma

joia de marfim cinzelada por Benvenuto Cellini para ornamento da

cabecinha de uma Notre Dame de Lorette!... Elle bebe-a ao almoço...

--Deus do céu!

--Entre a costelleta e a omelette...

--Virgem Maria!

--Misturada com vinho de Pauillac...

--Santos e Santas da côrte celeste!

--Em partes eguaes, metade vinho, metade agua...

--Mas vae para o inferno essa alma!

--Está claro que sim. E é bem feito!

--Se não houvesse o inferno e o purgatorio elles ficavam-se a rir.

--Mas lá está o castigo, olá! O fogo eterno e o ranger dos dentes por

todos os seculos dos seculos sem fim não é uma chimera. Hão-de

amargal-as, que ha de ser um consolo--para nós!

--Amen! Amen, Jesus Maria José!

Assim conversarão elles e ellas durante a piedosa valsa _A Roma! a

Roma_! Pela escada de Jacob d'essa musica sagrada as almas alar-se-hão

ao empyreo, e irão pela via lactea fóra, sempre valsando, a demandarem a

entrada para os salões de baile de Jehovah, prolongação logica das

nossas soirées ao divino.

* * * * *

Aos srs. advogados

Meus caros senhores.--Escrevo-lhes estas linhas de cima de um boi, para

onde resolvi vir habitar durante o mez corrente e o mez seguinte.

Separa-me do amavel e discreto ruminante um tenue sobrado. Eu oiço-o

mastigar pausadamente com a regularidade do tic-tac do meu cuco, elle

ouve-me o ranger da penna, e raramente batemos para cima ou para baixo a

pedir qualquer coisa um ao outro. A respiração d'elle é perfumada com o

aroma do feno. Nunca cheira a caçarola suja nem a cano, como os predios

da baixa. Não escreve obscenidades na parede da escada, e--coisa que lhe

perguntei antes de o vir habitar--não toca piano.

De quando em quando, pela sesta, calço os sapatos ferrados, pégo no

cajado que nos está ouvindo áquelle canto, accendo um charuto e saio de

cima do boi para percorrer as montanhas circumvisinhas.

Em alguns casaes amigos permittem-me a troco do preço de meio alqueire

de farinha o prazer de amassar eu mesmo o meu pão, de o enrolar, de o

metter ao forno e de o trazer ás costas para casa, d'ahi a dez minutos,

embrulhado n'um guardanapo, que ato pelas quatro pontas e que enfio no

meu varapau.

Nas eiras collaboro na debulha, tomando as redeas de esparto das duas

velhas eguas intonsas e ossudas e pondo-nos a trotar todos tres, ellas

adiante de mim e eu atraz d'ellas, por cima da palha.

Tenho tambem relações nos moinhos, e cultivo a convivencia de moleiros

obsequiosos que, quando lhes assobio, veem em mangas de camisa ao

postiguinho, e conversam para baixo comigo ácerca do vento provavel

para o outro dia.

É n'estas excursões em torno do boi sobre que resido que eu tenho ouvido

os casos que me levam a dirigir aos srs. advogados estas humildes

regras.

* * * * *

Em toda a circumferencia rustica a que serve de centro o meu boi, no

mais extenso raio a que teem chegado os pregos dos meus sapatos, não ha

familia que não tenha contribuído com algumas libras para o cofre dos

srs. advogados. Sempre que algum dente das multiplas engrenagens do

machinismo administrativo roça pelo ser de um pobre homem do campo,

elle, aterrado com a ameaça da coisa odiosa que o obrigaram a reconhecer

como a prepotencia mais implacavel sob o nome de justiça, vae ao

advogado para que este o illucide.

Os principios geraes da organisação social que nenhum cidadão devia

ignorar n'um paiz representativo são para a maioria dos portuguezes o

mysterio mais profundo e mais insondavel. O homem do campo,

especialmenie, não tem idéa alguma das attribuições dos poderes a que

elle se acha subordinado como um dos membros do corpo collectivo que se

chama o paiz. Não sabe senão de um modo deploravelmente vago e ambiguo o

que é a camara municipal, a juiz de paz, o juiz de direito, o escrivão

da fazenda, o administrador do concelho, a junta de parochia, o conselho

do districto, a commissão do recenseamento, o delegado de saude, a

policia, etc. De sorte que, em cada acto da vida civil em que o

desgraçado se acha sob a acção de uma d'essas formas porque lhe apparece

o principio da auctoridade, recorre ao letrado.

--Cá está comnosco a justiça! diz elle á mulher ao receber qualquer

papel official.

--Seja pelas cinco chagas de Christo! suspira a mulher com as lagrimas

nos olhos, atando as mãos na cabeça.

--Má raios partam a justiça e mais aquelle que a inventou, que se o

apanhasse a geito, rachava-o de meio a meio com o sacho ceboleiro! e

tinha alma de lhe beber o sangue!

Que o aviso recebido seja uma intimação para limpar o poço, para remover

a estrumeira, para pagar um relaxe, para ser jurado, para mandar um

filho á inspecção, para comparecer na camara, no tribunal, na

administração ou na recebedoria, os lamentos são os mesmos, as mesmas

pragas, a mesma deliberação final de perder o trabalho de um dia, de

fazer a barba de vespera, de vestir o fato novo, de metter o pé de meia

com os fundos de reserva na algibeira da japona e de ir de manhã cedo

para a cidade a consultar um doutor. Como os mais pobres são tambem os

mais ignorantes, são os pobres os que mais consultam e os que mais

pagam. O procurador ou dá um simples conselho e custa isso cinco

tostões, ou faz um requerimento e custa mil réis, ou redige um recurso e

custa uma libra, ou toma conta da questão e pede dinheiro adiantado para

as primeiras despesas, e custa vinte mil réis.

Acontece muitas vezes que o consultante não tem dinheiro e pediu

emprestado o fundo do pé de meia. A necessidade porém de consultar o

letrado é para elle uma fatalidade como a necessidade de consultar o

medico. Com uma differença: Todos os medicos teem uma hora por dia em

que dão consultas gratuitas aos pobres doentes. Os advogados não teem

egual caridade com os ignorantes pobres. Além do soccorro

desinteressado de todos os medicos, os doentes têem ainda o banco dos

hospitaes. Para os ignorantes não ha recurso nenhum. A escola é

inteiramente inutil para lhes acudir, porque a escola portugueza não

ensina aos cidadãos quaes são os seus direitos nem quaes os meios de

defesa perante a violação d'elles. E no emtanto a sociedade tem muito

maior responsabilidade no facto da ignorancia do que no facto da doença.

O Estado, que tem consultorios gratuitos para a saude, deveria com

dobrada rasão ter consultorios egualmente gratuitos para a justiça. Os

advogados pela sua parte, não contribuindo como contribuem os medicos

para prestar á sociedade na maxima amplitude os serviço desinteressados

que a sciencia Ihe deve, dão-nos dos sentimenaltruistas da sua classe,

por tantos outros titulos respeitavel, uma idéa bem triste.

As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes, (1877-08/09) · 第 2 / 4 段