Os srs. advogadosa dizem-se os protectores do orphão e da viuva, o que

nãos os impede de protegerem pelo mesmo preço os que opprimem a viuva e

os que tyrannisam o orphão.

Os srs. advogados são com o ardor mais convicto e mais eloquente os

defensores da causa da justiça e do direito e bem assim da causa

contraria.

Os raptos de eloquencia por meio dos quaes os srs. advogados fulminam

com heroica imparcialidade tanto o crime como a innocencia, são

conscienciosamente tarifados para que o publico escolha segundo o preço

que deseja pagar.

Entre os movimentos oratorios mais caros ha o grito estridente, a

punhada cava no peito, as lagrimas bailando nos olhos, a _commoção que

se apodera do proprio orador_, o desfallecimento, a syncope, etc.

O tempo preciso para expôr a questão e para levar a evidencia ao

espirito do auditorio depende tambem do accordo previo, segundo a

tabella dos preços. Como tempo é dinheiro, quem quer mais tempo paga

mais caro. Quando o réu é abastado ou opulento a questão não se

esclarece senão á noite, e o jury tem de jantar no tribunal. Quando o

réu é pobre bastam quinze ou vinte minutos para elle ir socegado para a

cadeia. O que escreve estas linhas já ouviu esta concisa oração de

defesa: «Srs. jurados eu não tenho que dizer senão duas palavras: Esse

selvagem (apontando para o réu) estava bebado.» Assim se justificava o

crime de um homem que não tinha pago as circumstancias attenuantes ao

defensor.

* * * * *

Não será util que, assim como fazem os medicos, os srs. advogados

restrinjam o campo, que offereccem ás correrias do epigramma,

introduzindo alguma caridade nas suas relações com os pobres? Não

poderia cada um de s. ex.'as, destinar algumas horas d'um dia ou dois

por semana, para dar consellhos gratuitos? Eis o que se nos offerece

lembrar aos srs. advogados para que, no interesse da sua classe, s.

ex.'as se dignem de o considarar em algum dos seus momentos d'ocio.

* * * * *

Os jornaes do mez passado trasbordaram de annuncios e de noticias pouco

mais ou menos do teor seguinte:

* * * * *

«Mais um florão acaba de ser acrescentado á corôa da sr.ª D. Jeronyma,

directora do bem conhecido e acreditado collegio de _Nossa Senhora da

Santíssima Purificação,_ rua de tal, numero tal, quarto andar, lado

esquerdo. Foi hontem examinada em instrucção primaria e approvada com

dez valores, no lyceu nacional, a menina Elvira Fernandes, alumna do

referido collegio. O nosso amigo Polycarpo Fernandes, extremoso pae da

jovem examinanda, profundamente grato ao zelo da sr.ª D. Jeronyma e aos

carinhos dos examinadores de sua debil e tímida menina, a todos

consagra, por este meio, seus indeleveis agradecimentos.»

* * * * *

A inundação dos artigos d'este genero prova que o exame publico no lyceu

nacional começa a tornar-se um fim na educação ministrada ás meninas nos

collegios de Lisboa.

A pedagoga sr.ª D. Jeronyma envida toda a honra da sua taboleta, todas

as idéas da sua cuia e toda a actividade dos seus chinelos de trazer nas

classes para dotar com o maior numero de exames as alumnas confiadas ás

_réclames_ das suas distribuições de premios.

Este anno a menina Fernandes foi approvada em instrucção primaria. Para

o anno proximo será approvada em francez. D'aqui a tres annos obterá

egual exito com relação á lingua ingleza.

O sr. Fernandes, cada vez mais reconhecido, terá publicado a esse tempo

dez ou doze agradecimentos ao esclarecido zelo da sr.ª D. Jeronyma, e

recobrará completamente educada a sua filha. A infatigavel e benemerita

professora _dá-a por prompta_ para entrar na sociedade mais escolhida.

Ella sabe as linguas, toca o piano e tem, segundo o programma da sr.ª D.

Jeronyma, _as prendas de mãos proprias do seu sexo_. Estas prendas

consistem em fabricar palmitos de papel e em bordar entes fabulosos, de

uma monstruosidade mythologica, feitos a lãs, a matis, ou a missanga,

com olhos de vidro, beiços de vidro, e lagrimas tambem de vidro, sobre

um retalho de panno que se encaixilha e que tem por baixo, a oiro, a

data da confecção do monstro feita em cruz, e em formosas letras de

bastardinho, egualmente a canotilho de ouro:

_Elvira Fernandez me fecit._

* * * * *

Ao fim de um anno de vida domestica D. Elvira esqueceu as linguas, das

quaes aprendeu precisamente o indispensavel para _escapar_, caindo-lhe

um thema facil e um examinador _carinhoso_, como muito bem dizia

Polycarpo nos seus annuncios de agradecimento. Esqueceu as linguas

porque as não pratica na conversação ou no estudo, e não sabe uma

palavra das leis da linguistica, que fixam e systematisam os

conhecimentos theoricos da formação das palavras.

Resta-lhe a faculdade de patinhar no piano a _Prière d'une vierge_ ou

_Les cloches du village_, e de continuar a bordar em seda ou em casimira

os abortos que derramam compungidamente o seu choro de vidrilhos nas

almofadas do salão, aos cantos do sofá, e sobre os assentos das

poltronas.

Polycarpo reconhecerá então--demasiado tarde, ai de mim! ou antes «ai

d'elle!» ou melhor ainda «ai de nós todos!»--que D. Elvira possue, no

estado mais exemplarmente encyclopedico, a ignorancia cabal de tudo

quanto precisa de saber a mulher para ser na casa uma das rodas em que

versa a familia sensata e dignamente constituida, na qual Elvira tem a

sua difficil funcção que exercer como filha, como irmã, mais tarde como

esposa, e finalmente como mãe.

* * * * *

De tal modo os exames das meninas no lyceu nacional, compromettem

absolutamente os fins da educação, desviam-a do verdadeiro ponto de

vista pedagogico, são uma ostentação ridicula, offendem o bom gosto,

desprimoram a delicadeza e a dignidade senhoril, assopram o pedantismo,

incham a frivolidade e incapacitam a mulher para a missão a que ella é

chamada na familia.

* * * * *

Entendemos portanto que--desde o momento em que Fernandes é bastante

obtuso para não prever os perigos da falsa educação ministrada a sua

filha, e não só não protesta contra o programma absurdo de D. Jeronyma,

mas antes lhe enderessa applausos de um enthusiasmo inexcedivel,--ao

Estado cumpre intervir; não se tornar solidario das illusões de

Fernandes; e proteger Elvira. Como? Retirando a Fernandes e a D.

Jeronyma o direito de a levarem a exame.

* * * * *

_Levar a exame_! Só a palavra é um ultrage

da dignidade feminil. Submetter pelo despotismo

do direito paterno tudo quanto ha mais delicado,

mais melindroso, mais susceptivel de corromper-se--o

espirito virginal de uma menina,--ao

interrogatorio official de um mestre que durante

vinte minutos vae exercer sobre aquella

alma a tyrannia espiritual de um confessor! Um

tal inquerito, um tal julgamento, póde ser desculpavel

na educação de um rapaz, para quem

o exame é uma habilitação legal para a sua carreira

civil; na educação de uma menina portugueza

similhante prova é inadmissivel e equivale

a uma amputação do decoro.

Ora se nenhuma mestra e se nenhum pae tem o direito de cortar as orelhas

a uma creança para a tornar mais bonita, assim nenhum pae e nenhuma

mestra podem ter a auctoridade de fazer examinar uma menina para a

tornar mais educada.

Pelo que, a obrigação do Estado seria prohibir os exames da instrucção

primaria e de instrucção secundaria para todas as pessoas do sexo

feminino que não juntem ao requerimento de matricula attestado de

maioridade e de emancipação legal.

* * * * *

Em um exame de instrucção primaria n'um dos nossos lyceus deu-se este

dialogo:

_O examinador_--Que faz a menina quando se vae deitar?

_A examinanda_--Quando me vou deitar...

_O examinador_--Sim! Quando se vae deitar o que faz? Diga.

_A examinanda_(córando até á raiz do cabello e baixando os

olhos)--Quando me vou deitar... dispo-me.

_O examinador_--E depois de se despir?... Responda! Depois de se despir

o que faz?... A menina não ouve?... Ou finge que não ouve?... O que faz

depois de se despir?

_A examinanda_--Tenho vergonha...

_O examinador_--Não tenha vergonha. Responda para diante!

_A examinanda_--Depois de me despir o que eu faço é...

E n'este ponto a examinanda, com a face afogueada pelo rubor do pejo,

com os olhos cheios das lagrimas do terror, na lingua adoravel dos cinco

annos, n'essa lingua que os homens só fallam ás suas mães na pureza da

innocencia primitiva, n'esse dialecto infantil ainda mais casto do que

as linguas mortas, traduziu a locução de Plinio: _urinam ex se

emittere_.

O professor a que nos referimos foi intimado a não proseguir pelo

presidente da mesa, o sr. Augusto Soromenho, cujo testemunho invocamos.

É assim que nos exames de instrucção primaria se averigua se as alumnas

sabem ou não «civilidade».

* * * * *

Se a sr.ª D. Jeronyma carece das noções precisas para dirigir a educação

de uma menina, é preciso dar-lhe essas noções, ou prohibil-a de educar,

restringindo-lhe o direito de corromper a intelligencia da infancia.

A reforma da instrucção das mulheres é em Portugal ainda mais urgente

que a da instrucção dos homens.

As linguas não constituem instrucção, porque não ministram

conhecimentos, são apenas meios de os adquirir.

Esses conhecimentos indispensaveis á mulher deveriam constar, na

educação elementar, dos seguintes ramos de ensino:

1.° Curso de aceio e de arranjo;

2.° Curso de cozinha (chimica culinaria).

3.° Contabilidade, escripturação e economia domestica.

* * * * *

No curso do primeiro anno dos collegios toda a menina aprenderia,

juntamente com as necessarias habilitações litterarias para adquirir

idéas, as seguintes noções praticas:

Os processos scientificos mais perfeitos de lavar e de enxugar a roupa

branca, o fato, as rendas finas, os tulles, as sedas, os tapetes, as

esponjas, as escovas; de conservar e concertar todos os objectos do uso

domestico; de regular o uso do banho, de lavar o cabello, de fazer os

melhores pós de dentes, a melhor pomada, a melhor agua de _toilette_; de

arejar e de desinfectar os aposentos; de polir os metaes e as madeiras;

de encerar os soalhos; de limpar os vidros e as laminass dos espelhos;

de envernisar os quadros; de concertar os livros e as estampas.

Aprenderia ainda os methodos mais hygienicos ou mais racionais: de

escolher os aposentos de uma casa, segundo o fim a que cada um d'elles

se destina; de dispor os moveis; de pendurar os quadros; de collocar a

bateria das caçarolas; de montar a despensa e a garrafeira; de fazer os

inventarios e os roes; de dobrar e guardar a roupa branca e a roupa de

mesa em lotes numerados; de pôr a mesa para os grandes e para os

pequenos jantares.

Este curso completar-se-ia com algumas noções accessorias: dos

differentes generos de mobilia e do seu estylo caracteristico nas épocas

mais notaveis da historia da arte ornamental; das principaes louças,

vidros, crystaes, tecidos empregados nos estofos da mobilia e no

vestuario, e historia da fabricação d'esses estofos.

No curso de chimica culinaria, do segundo anno do collegio, a menina

aprenderia, primeiro que tudo, a fazer um caldo.

O caldo é a base do toda a alimentação sabiamente dirigida, não porque o

caldo de per si só constitua um alimento importante, mas porque é o

caldo bem feito que estimula o systema intestinal e o habilita para uma

boa digestão.

Toda a mulher que não sabe fazer um caldo, deveria ser prohibida de

dirigir uma casa. Sobre a ignorancia culinaria da maior parte das

senhoras portuguezas pesa a responsabilidade tremenda da dyspepsia

nacional.

Não temos estomagos sãos porque não temos mulheres instruidas. Esta

affirmação póde parecer uma phantasia do estylo; é uma pura verdade

physiologica e é um facto social. Em Lisboa ignora-se completamente o

que é um caldo, porque esse delicado producto chimico só o sabem

preparar os cozinheiros de 5:000 francos de ordenado. As familias que

não podem aggregar-se funccionarios d'esse preço e que não são dirigidas

por senhoras que saibam o seu officio, tomam, em vez de caldo, um

liquido gorduroso e opaco, mais ou menos condimentado e indigesto. A

condição essencial do caldo bem feito é que elle contenha a maxima

quantidade de materias odoriferas extraídas da carne, (vid. Liebig), que

não tenha o minimo vestigio de gordura, que seja aromatico e

perfeitamente transparente.

Se tivessemos alguma esperança de que a sr.ª D. Jeronyma o ensinasse ás

suas educandas, dir-lhe-iamos como um caldo se faz. Mas a sr.ª D.

Jeronyma acha mais util ensinar o que é o _substantivo_. Como se alguem

no mundo precisasse, para o que quer que fosse, de saber o que o

_substantivo_ é! Como se immensas pessoas (em cujo numero nos contamos),

não estivessem mesmo convencidas de que jámais existiu na natureza o

_substantivo_, e que elle é uma pura chimera menos interessante que o

papão!

Ha todavia no mundo quem não seja inteiramente da opinião da sr.ª D.

Jeronyma. Um dos sabios mais eminentes do mundo actual, o sr. Wirchow,

demonstrava ha pouco tempo em Berlim que a intima correlação que existe

no seio de uma sociedade entre a condição das mulheres e o progresso da

civilisação depende de uma outra correlação não menos intima que existe

entre a mulher e a cozinha. O principal agente do temperamento de um

povo, do seu caracter, da formação das suas idéas, é a sua alimentação.

É principalmente pela sua inflencia na cozinha que a mulher civilisada

governa o mundo e determina o destino das sociedades.

Em Londres os mais importantes jornaes, como a _Quaterly Review_, teem

chamado para este assumpto a attenção dos poderes publicos e da

iniciativa particular por meio de muitos artigos successivos ácerca da

regeneração da cozinha, da arte de jantar, do estudo comparativo das

cozinhas dos differentes póvos, etc.

A Inglaterra comprehendeu finalmente que a circumstancia de não saberem

as suas mulheres fazer bom caldo constituia uma inferioridade nacional e

compromettia o destino do povo inglez. Para remediar este mal, que

obstava ao desenvolvimento e ao aperfeiçoamento physico e moral dos seus

habitantes, a Inglaterra fundou, em 1876, um notavel estabelecimento

publico de educação feminina intitulado _Escola nacional de cozinha_. O

numero das alumnas matriculadas na nova escola subiu rapidamente a cerca

de duas mil. Para satisfazer as necessidades do ensino foi preciso

estabelecer não menos de vinte e nove succursaes da escola de

cozinheiras. Entre as alumnas que frequentam essas escolas figuram

meninas das mais aristocraticas familias da Inglaterra. Algumas estão

inscriptas como simples ouvintes e assistem aos trabalhos tomando as

competentes notas nos seus cadernos; muitas outras atam o avental e

descem aos processos indo trabalhar alegremente á banca das operações,

ou junto do fogão, vigiando a cassarola e o espeto.

Um só facto basta para evidenciar a vantagem d'esta especie de ensino na

economia domestica: As classes de cosinha da instituição britanica estão

divididas em varias secções dependentes do orçamento a que as familias

teem de cingir as suas despezas; ha uma secção destinada a ensinar os

meios de alimentar do modo mais hygienico e mais agradavel uma familia

que não possa applicar á cozinha mais que uma verba de 1$600 réis por

semana! Em Portugal tão descurado está este importante assumpto que, não

obstante a fertilidade do nosso solo e a benignidade do nosso clima, é

inteiramente impossivel estabelecer com 1$600 réis por semana um

conveniente regimen alimenticio para uma familia de quatro pessoas.

O curso de cozinha nos collegios portuguezes deveria ser organisado

praticamente como na Inglaterra, ensinando-se ás alumnas o valor chimico

das principaes substancias empregadas na alimentação, o seu preço

ordinario no mercado, a sua acção physiologica sobre o nosso organismo,

o modo de variar os jantares segundo as occupações de cada dia, segundo

o temperamento de quem tem de os assimilar, e segundo as estações do

anno em que elles houverem de ser feitos.

* * * * *

No curso de contabilidade do terceiro anno dos collegios, as alumnas

deveriam aprender a escripturar methodicamente a receita e a despeza da

familia, suppostos dados rendimentos, desde os mais estreitos até os

mais avultados, calculando desde o principio do anno o modo de manter o

balanço entre as posses e os gastos, lançando em conta de receita todos

os proventos e fixando-se nas verbas de despeza proporcional nos

differentes capitulos orçamentaes: a renda da casa, a acquisição e os

reparos da mobilia, o vestuario, o serviço, a illuminação, a lavagem, as

despezas imprevistas, e o _fundo de reserva_--verba essencial,

indispensavel em todo o orçamento, grande ou pequeno, de toda a casa

sabiamente dirigida.

* * * * *

Fortalecida com a educação feita n'estas bases, esboçadamente expostas,

a mulher terá dado o primeiro passo, mas o passo definitivo para a sua

verdadeira emancipação. Porque emancipar-nos não é em ultimo resultado

mais do que isto: habilitamo-nos a prestar na sociedade serviços

equivalentes ou superiores áquelles que recebemos. Com a mulher

invencivelmente armada com as aptidões que requisitamos para que ella

seja a alma do governo domestico, o casamento deixa de ser a ruina com

que nos ameaça o proloquio vulgar: _uma casa é uma loba._ Não; a casa,

dirigida como a mulher deveria aprender a dirigil-a, é a ordem, é o

methodo, é a economia, é a estabilidade, é a fixação do destino, é o

baluarte do homem. A funcção da mulher bem educada é essencialmente

protectora. Na lucta da vida por meio da alliança conjugal e da ligação

domestica, o homem é a espada, a mulher é o escudo. O fim da educação

feminina é compenetrar a mulher da responsabilidade da sua missão e

fortificar-lhe o braço que tem de ser o nosso amparo querido, o nosso

doce refugio.

Se a mulher imagina que o casamento, seu natural destino, é um facto

dependente dos encantos da sua belleza e do seu agrado, a mulher

engana-se deploravalmente. Os modernos trabalhos estatisticos provam com

factos n'um periodo do cem annos que o numero dos casamentos está sempre

em relação constante com o preço dos trigos. Se o pão encarece os

casamentos diminuem. A' baixa no preço do pão corresponde pelo contrario

uma elevação proporcional no numero dos casamentos. O casamento,

portanto é um facto moral estreitamente ligado não a um phenomeno

esthetico mas a um phenomeno economico. A base do casamento é a

economia. A economia domestica é a primeira das aptidões com que deve

dotar-se a mulher.

* * * * *

Em todos os paizes civilisados, por toda a parte do mundo, a educação da

mulher está passando por uma revolução profunda suscitada pelos esforços

de todos os pensadores. A educação vulgar da mulher moderna

reconheceu-se que constituia um elemento dissolvente da dignidade e da

aspiração das sociedades contemporaneas. Na antiga Roma a doçura, a

graça, a ternura, todos os attractivos sentimentaes que ainda hoje vemos

cultivados na educação das mulheres honestas eram attributos exclusivos

das cortezãs. Um critico notou como nas comedias de Plauto as matronas

não conhecem as effusões e os arrebatamentos da paixão; não são timidas

nem scismadoras; têem o ar decidido, fallam em tom firme e viril. As

meninas ricas eram educadas em casa com seus irmãos por escravos

instruidos e letrados; recebiam as mesmas lições e estudavam nos mesmos

livros. As pobres iam ás escolas publicas, no Forum, juntamente com os

rapazes, como actualmente acontece nos Estados Unidos.

Na idade média, quando os bomens, dedicando-se inteiramente ao officio

das armas, não tinham tempo de cultivar o espirito pelo estudo, as

senhoras da alta sociedade, como vemos nas condessas de Champagne, na

mãe de Godofredo de Bulhões, na amante de Abeilard, recebiam a mais

esmerada educação litteraria. Sabiam o latim, conheciam os antigos

poetas e os moralistas e estudavam os elementos da physiologia e da

meteorologia nas obras dos arabes.

Em todas as civilisações a mulher bem educada se habilita para

desempenhar o papel que lhe cabe na harmonia social.

Na nossa época de fria analyse, de implacavel utilitarismo, a primeira

das obrigações da mulher consiste em tornar-se util. Ser util é para

ella o grande segredo de ser querida, de ser forte, de ser dominadora.

Toda a educação feminina tem de partir d'este principio.

* * * * *

A alta cultura do espirito, tão necessaria á mulher para que ella assuma

na sociedade a parte do poder a que tem direito, não se ministra nas

escolas, adquire-se pelo esforço e pela applicação individual dirigida

por um criterio, por um methodo, por uma disciplina, que a mulher só

póde adquirir na grande escola pratica da vida domestica. Todas as

noções que nos possa ministrar o estudo das sciencias mais superiores

estão subordinadas para a sua assimilação no nosso espirito a esta noção

previa: a noção da responsabilidade e do dever. Ora essa noção

primordial só a adquire a mulher nas praticas da vida domestica.

O aperfeiçoamento intellectual das mulheres não só não é incompativel,

como algumas julgam, com a perfeita direcção do _ménage_, mas antes

depende essencialmonte do grave estado de espirito que essa direcção

impõe.

Em Portugal, onde a sciencia do governo da casa é tão lastimosamente

ignorada, vejamos quaes são as producções do espirito feminino, quaes

são os fructos da educação litteraria desalliada da educação domestica.

Os almanachs da sr.ª D. Guiomar Torrezão têem o grande valor historico

de serem o repositorio d'esses fructos. É por esses almanachs que a

posteridade tem de julgar do valor intellectual das nossas

contemporaneas.

Acabamos de folhear do principio ao fim um numero do _Almanach das

Senhoras_, que temos presente. Temos tambem presente a _Gazeta das

Salas_, egualmente redigida por senhoras. Deus nos defenda de que

qualquer estrangeiro procure julgar sobre estas producções litterarias

do estado do espirito feminino na sociedade portugueza! Em todas estas

collecções dos trabalhos intellectuaes das nossas mulheres--sentimos

dizel-o--não ha um só artigo grave, serio, meditado, revelando

conhecimentos praticos, aspirações elevadas, pensamentos nobres. De

tantos problemas sociaes que affectam a condição da mulher na sociedade

contemporanea e que sollicitam a attenção d'ella, para serem resolvidos

pela parte mais interessada e mais compentente da humanidade, nem um só

foi julgado digno do estudo d'alguma das senhoras que fazem imprimir e

publicar os seus escriptos em Portugal! Estas senhoras produzem

versos--não como os de madame Hackerman, cujos poemas recentemente

publicados constituem uma revolução na poesia moderna e são o grito mais

profundo e mais lancinante que ainda expediu no mundo a alma mais

sedenta de verdade e de justiça,--mas sim trovas d'uma sentimentalidade

de segunda mão, sem ideal, sem paixão, d'uma pieguice grotesca.

Escrevem tambem pequenos contos ou novellas d'amores infelizes, cujos

personagens se tratam por excellencia e se requebram em artificios d'um

dandysmo, cuja legitimidade está longe de poder ser absolutamente

garantida, não dizemos já n'um congresso de _gentlemen_, mas n'um

simples tribunal de cabelleireiros. E é para nos dar estes lamentaveis

fructos da sua educação exclusivamente litteraria, que tanta menina

honesta sacrifica o tempo que devia consagrar aos nobres trabalhos do

_ménage_, tornando-se, em vez d'uma digna mulher util, apta para

acompanhar, para comprehender e para ajudar o homem, uma pobre e misera

creatura neutra, desorientada da vida real, incapaz de qualquer emprego

na vida pratica, cheia de falsas aspirações, de desenganos e de tedios

permanentes.

Compare-se o _Almanach das Senhoras_, com as collecções estrangeiras

collaboradas por mulheres. É esse o melhor modo de reconhecer como a

educação pratica da _ménagère_, eleva o espirito, como a educação

litteraria do collegio portuguez o deprime e avilta.

O _Jornal das donas de casa da Allemanha_, tem aperfeiçoado

profundamente os costumes e os habitos da vida domestica.

Na Inglaterra o texto da grande _Revista das mulheres inglezas_ consta

de artigos de critica litteraria ou de costumes, de philosophia, de

physiologia, de economia politica e de economia domestica, de narrativas

de viagens, relatorios, estatisticas, receitas culinarias, noções

praticas. Não ha um romance sentimental, nem uma poesia lyrica, nem uma

réclame de modas.

As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes, (1877-08/09) · 第 3 / 4 段