Esperamos, com o safio ao lume e com o acatamento mais profu

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[Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]

RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ

AS FARPAS

CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

NOVA SERIE TOMO X

Agosto a Setembro 1877

Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,

da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das

sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da

politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande

universo, e da adoração de mim mesmo.

P. J. Proudhon

SUMMARIO

Alexandre Herculano. O escriptor e o solitario de Valle de Lobos. A

critica dos vivos e a critica dos mortos. A benevolencia e a justiça. A

influencia que teve e a que podia ter o grande escriptor. A missão dos

mestres O monumento da imprensa.--A recente viagem de suas magestades e

altezas. No Bussaco, em Vidago, no Porto. Algumas notas aos annaes

d'essa excursão.--Os attentados do sr. Barros e Cunha e a historia

d'este personagem. O poeta lyrico, o deputado, o leitor do _Times_, o

cortesão, o ministro. Diagnostico e prognostico.--Algumas producções

musicaes: _As cutiladas do Passeio Publico_, polka; _A Roma! a Roma!_

valsa.--Algumas palavras aos srs. advogados.--Os exames das meninas no

Lyceu Nacional. Os fins da educação. Um programma de ensino para o sexo

feminino. Como se prepara a emancipação da mulher. Duas catastrophes: o

estado da litteratura feminina e o estado da cosinha nacional. Grito

afflictivo do paiz: Menos odes e mais caldo.

O homem que teve na terra o nome glorioso de Alexandre Herculano

pertence ao dominio da posteridade desde as 10 horas da noite de hontem,

14 de setembro de 1877.

Os que houverem de julgar na historia essa poderosa personalidade terão

de considerar que dois cidadãos, inteiramente diversos, existiram na

terra, succedendo-se um ao outro no individuo d'aquelle nome.

Um d'esses cidadãos é o historiador da nacionalidade portugueza e da

inquisição em Portugal, o romancista do _Monasticon_, o poeta da _Harpa

do Crente_, o profundo pensador, o sabio archeologo, o paciente erudito,

o critico penetrante, o valoroso trabalhador, o grande artista, o

inimitavel mestre.

O segundo dos cidadãos que passaram no mundo sob o nome de Alexandre

Herculano é simplesmente o illustre solitario de Valle de Lobos.

* * * * *

Extranha evolução d'um mesmo ser! Aquelle que na primeira metade da

existencia representa todas as vivas energias por meio das quaes o

espirito póde actuar no impulso d'uma civilisação e no aperfeiçoamento

d'uma sociedade, não é no segundo periodo da sua vida senão o objecto

passivo e inerte d'uma designação ascetica, imposta pela banalidade

rhethorica dos noticiarios--o _solitario illustre!_

* * * * *

Como philosopho, como investigador, como critico, como poeta, Alexandre

Herculano cria em Portugal os estudos historicos; funda a mais

importante collecção dos modernos trabalhos litterarios--o _Panorama_;

enobrece a lingua com o seu stylo nitido e cortante em que a phrase tem

o lampejo e o golpe dos passes de espada; honra o officio das letras com

o porte rigido, austero e elegante de sua figura litteraria, em que se

denuncia o contorno do guerrilheiro portuense envolto no capote branco

dos romanticos de 1830, que elle sabia traçar com o garbo marcial

d'Alfred de Vigny; cria escola; agrupa em volta de si uma mocidade que o

admira e que o idolatra; espede o grito de guerra, que põe em armas a

nova geração que vem despontando atraz d'elle; chama á peleja o partido

ultramontano e desfecha elle mesmo os primeiros tiros que rompem as

hostilidades da liberdade com o clericalismo; lança finalmente as bases

do moderno movimento intellectual, suggere novas idéas, novas

aspirações, novos interesses moraes, impulsionando vigorosamente a sua

época por meio das fecundas agitações do espirito que acceleram nas

sociedades vivas a elaboração do progresso.

* * * * *

Como _illustre solitario de Valle de Lobos_, Herculano rescinde a

sacrosanta escriptura da responsabilidade universal, por via da qual o

genio do homem se obriga tacitamente com a natureza a servil-a, como

sendo elle mesmo a mais poderosa das forças de que dispõe o grande

universo; desdiz com o seu repentino silencio todas as affirmações da

sua grande voz; abjura da luz diffundida pelas suas palavras á sombra

projectada pelas suas oliveiras; nega o movimento que creou pela inacção

em que caiu; desdá finalmente todos os laços de solidariedade que o

prendiam aos seus compatriotas e aos seus similhantes, que vinculavam o

seu destino intellectual aos destinos da patria e da humanidade.

O dia do nosso grande lucto nacional não é aquelle em que expirou o

solitario illustre, mas sim aquelle em que deixou de existir para o

vertiginoso bulicio da vida publica o ardente escriptor, que no seio da

multidão fluctuante, estrepitosa, leviana, indifferente, perfida,

traiçoeira, ingrata, lançava ás praças e ás ruas publicas, lamacentas e

sordidas, as suas idéas de cada dia, nobres, castas, desinteressadas,

aladas pelo alphabeto typographico, adejando sobre as immundicias e

sobre as dejecções da cidade, como douradas abelhas impollutas, que vão

de alma em alma sacudindo das azas luminosas em pollen diamantino a

divina verdade.

* * * * *

A isolação de Herculano no remanso esteril do dilettantismo bucolico,

comprometteu o destino mental d'uma geração inteira. Pelo intenso poder

das suas faculdades reflexivas, pela eminencia do seu talento, pela

auctoridade da sua palavra, pela popularidade do seu nome, pela

reputação nunca discutida da sua honestidade, elle era o homem

naturalmente indicado para assumir o pontificado intellectual do seu

tempo. A ausencia d'essa auctoridade do espirito sobre o espirito foi

uma catastrophe para a geração moderna.

Tudo se resentiu na sociedade portugueza, com o desapparecimento d'esse

alto poder moderador, destinado a ser o nucleo do seu governo moral.

Á tribuna parlamentar nunca mais tornou a subir um homem cuja voz

firme, sonora e vibrante levasse até os quatro cantos do paiz a

expressão viril das grandes convicções inflexiveis, dos altos e potentes

enthusiasmos ou dos profundos e implacaveis desdens. Essa pobre tribuna

deserta degradou-se successivamente até não ser hoje mais do que uma

prateleira mal engonçada com algum lixo e o respectivo copo d'agoa.

A imprensa decaiu como decaiu a tribuna. Assaltada pelas mediocridades

ambiciosas e pelas incompetencias audazes, a imprensa tornou-se um

tablado de saltimbancos de feira, convidando o publico a 10 réis por

cabeça, para assistir, entre assobios e arremessos de cenouras e de

batatas podres, á representação da desbocada comedia, declamada em giria

da matula por personagens sarapintados a vermelhão e a ocre, que mostram

o punho arregaçado e sapateiam as taboas, como em sarabanda de negros e

patifes, com os seus pés miseraveis.

A politica converteu-se em uma vasta associação de intriga, em que os

socios combinam dividir-se em diversos grupos, cuja missão é

impellirem-se e repellirem-se successivamente uns aos outros, até que a

cada um d'elles chegue o mais frequentemente que for possivel a vez

d'entrar e sair do governo. Nos pequenos periodos que decorrem entre a

chegada e a partida de cada ministerio o grupo respectivo renova-se,

depondo alguns dos seus membros nos cargos publicos que vagaram e

recrutando novos adeptos candidatos aos logares que vierem a vagar. É

este trabalho de assimilação e desassimilação dos partidos, que

constitue a vida organica do que se chama a politica portugueza.

A arte desnacionalisa-se e afasta-se cada vez mais do fio tradicional

que a devia prender estreitamente á grande alma popular.

A opinião publica, marasmada pela indifferença, deshabitua-se de pensar

e perde o justo criterio por que se julgam os homens e os factos.

Se um pensador da alta competencia e da grande auctoridade de Alexandre

Herculano tivesse persistido durante os ultimos vinte annos á frente do

movimento intellectual do seu tempo, essa influencia teria modificado

importantemente o nosso estado social.

Na politica ninguem como elle, com as suas opiniões extremas e radicaes,

poderia originar a creação dos dois grandes e fortes partidos--o

partido conservador e o partido revolucionario,--de cuja controversia

depende essencialmente não só o progresso politico da sociedade

portugueza, mas a propria conservação do seu regimen constitucional.

Na imprensa ninguem como elle poderia elevar a auctoridade da

instituição com a sua palavra tão scintillante, tão denodada, tão

propria para o debate, e com a sua experiencia tão esclarecida pela

convivencia e pela cultura da historia.

Na opinião e no espirito publico, ninguem teria uma acção tão segura e

tão decisiva, porque ninguem como elle gosou em Portugal d'um tão

inteiro prestigio e d'uma tão completa e absoluta auctoridade.

Na arte, ninguem ainda mais proprio para levar a creação esthetica á

fonte nativa da inspiração, á tradição historica, á raiz da paixão e do

sentimento nacional.

* * * * *

Exercer essa alta direcção dos espiritos é nas sociedades modernas a

missão dos grandes homens. Dos eminentes escriptores europeus d'este

seculo Herculano foi o unico que espontaneamente abandonou na força da

intelligencia e da vida o posto de honra a que chegára pelo esforço do

seu trabalho e pela posse dos mais felizes dons com que a natureza o

dotára.

Guizot, Michelet, Buckle, Proudhon, Stuart Mill, todos os modernos,

todos os que vieram depois de definido pela Revolução o dogma do dever

social, viveram combatendo até á ultima hora e morreram com a penna na

mão.

Ha poucos dias ainda a França viu cair Thiers na estacada, em pleno

combate. Era um velho pequenino, valetudinario, quasi rachitico. Desde

muito tempo que elle era sufficientemente rico para gosar a

tranquilidade egoista, imperturbavel, do mais poderoso principe. A sua

longa vida fôra uma serie nunca interrompida de combates, de derrotas,

de triumphos, das mais violentas commoções que podem opprimir e

dilacerar uma alma. Ha dez annos que poucos teriam como elle o direito

de solicitar um pouco de tranquilidade e um pouco de sombra. Elle

todavia permanece no ponto mais temeroso da peleja, e é a essa

pertinacia d'um só homem, tão debil e tão caduco que qualquer mulher

poderia pegal-o ao collo e adormecel-o como um baby, que a França deve a

sua reconstituição politica e social, e a democracia a affirmação mais

poderosa e mais energica d'uma republica no coração da Europa.

Na Inglaterra, não já um homem mas uma simples mulher, que teve um papel

decisivo no movimento das idéas modernas, Miss Martineau, ferida por uma

lesão do coração, desenganada pela medicina de que não pode ter mais

d'um anno de vida, concentra durante esse anno todas as suas faculdades

na conclusão da sua ultima obra, conta a uma por uma em beneficio do seu

similhante as suas derradeiras pulsações, e sob uma condemnação mais

peremptoria e mais tremenda que a de Condorcet, arranca da sua

invencivel vontade a energia precisa para escrever com a lucidez mais

profunda, com a firmeza mais viril, com a coragem mais heroica, o

admiravel livro em que depõe com a ultima palavra o ultimo suspiro.

Uma celebridade subalterna, um simples poeta, um romancista, um talento

d'especialidade, tem o direito de fazer um livro e de se calar para

todo o sempre; mas o cidadão em quem concorrem as multiplas aptidões

cerebraes que constituem os espiritos superiores, as capacidades

dirigentes, não tem esse direito.

A benevolencia devida aos vivos póde levar-nos a respeitar nos actos de

cada homem um producto indiscutivel da sua liberdade; a verdade porém

devida aos mortos, a incorruptivel verdade, tem diante dos tumulos o

dever de considerar, em nome da justiça e em nome da sociedade, todas as

condições que encaminharam ou desencaminharam uma existencia n'essa

linha ideal a que convergem as mais altas aspirações da humanidade.

E é só assim que as gerações aprendem o que têem de agradecer e o que

têem de perdoar aos obreiros do passado, tirando d'esse juizo austero

sobre a missão dos que morreram, a regra moral a que têem de

submetter-se aquelles que estão vivos.

A elaboração psychologica das causas que levaram o espirito de Herculano

a quebrar as suas relações mentaes com a sociedade, é um importante

estudo a que se acham obrigados aquelles que viveram na intimidade e na

confidencia do grande escriptor. A sociedade precisa de saber que grau

de responsabilidade lhe cabe no emudecimento d'essa voz. Porque a

isolação d'Herculano não é um simples episodio biographico, é um facto

social, é um dos mais tristes phenomenos da decadencia portugueza.

O exemplo do _solitario de Valle de Lobos_ será profundamente nocivo, se

não for cabalmente explicado como uma fatalidade sociologica.

Todos aquelles que trabalham com dedicação e com honra, que se

consideram responsaveis diante dos seus similhantes pela conclusão do

trabalho que a si mesmos se impuzeram, que se dedicam á sua missão, que

vêem n'ella uma parte integrante da grande obra collectiva da

humanidade, todos aquelles que teem na vida um fito superior e

desinteressado, estão sujeitos em cada dia, em cada hora, em cada

instante, á grande lucta da consciencia com as suggestões do egoismo,

com a ingratidão dos homens, com a calumnia, com a traição, com o

desdem. É perigoso para os que teem ainda, no meio da dissolução geral

dos caracteres, esse vivo sentimento da solidariedade, essa corajosa

dedicação do martyrio, essa persistencia no lento suicidio que é a vida

de todos os que pensam e de todos os que luctam, o ver de repente

sossobrar e afundir-se na fria impassibilidade e na tenebrosa

indifferença o alto luminar destinado a indicar a uma geração inteira o

arduo e penoso rumo do dever.

* * * * *

Lemos em um jornal que a imprensa de Lisboa, reunida em assembléa para o

fim de pagar á memoria de Alexandre Herculano o tributo da sua

admiração, resolvera abrir uma subscripção destinada a elevar um

monumento ao insigne escriptor. Parece, segundo o mesmo boato, que não

está ainda resolvido de que natureza será o monumento em projecto.

Se tivessemos a immerecida honra de sermos considerados pela imprensa

como um de seus membros, eis o que proporiamos.

* * * * *

A obra monumental, posto que ainda incompleta do finado escriptor, a sua

_Historia de Portugal_, é possivel que houvesse já sido lida, mas, com

quanto escripta ha muitos annos, não foi por emquanto estudada.

Em todo o longo trabalho de investigação, de critica, d'analyse, de

deducção, que constitue a materia d'esses quatro volumes, o publico

portuguez não viu senão dois factos extremamente subalternos na obra do

philosopho e na obra do artista:--a negação do milagre d'Ourique e das

côrtes de Lamego.

O historiador da nossa nacionalidade não foi olhado se não debaixo d'um

aspecto,--o aspecto das nossas superstições.

As origens do direito, da arte, da propriedade, da religião, da familia,

da patria interessaram-nos d'um modo tão mediocre que nunca nos

suggeriram uma idéa clara sobre qualquer d'esses phenomenos.

De tão multiplos problemas suscitados ou resolvidos pelo historiador da

nossa vida civil, um unico nos commoveu até as mais intimas

profundidades do nosso organismo social: Se Jesus Christo tinha ou não

tinha vindo cavaquear com D. Affonso Henriques na vespera d'uma batalha,

e se a derrota dos mouros fora ou não o resultado d'uma operação

estrategica combinada de commum accordo entre os dois poderosos inimigos

do kalifado de Cordova, o filho do conde D. Henrique e o filho de Deus.

Todas as demais questões debatidas nos quatro volumes da _Historia de

Portugal_ passaram inteiramente despercebidas do jornalismo portuguez, o

qual não teve ainda, até hoje, occasião de publicar um artigo

scientificamente fundamentado ácerca do papel do nosso primeiro

historiador na direcção dos estudos historicos e na comprehensão das

leis fundamentaes da nossa evolução social.

A homenagem que a imprensa deve prestar a Alexandre Herculano é a

publicação d'esse estudo, porque o primeiro dever dos jornalistas

perante um grande escriptor é mostrar que o leram. Com relação a

Herculano essa divida está por saldar, e a imprensa tem que

desempenhar-se d'ella com tanta mais promptidão, quanto é certo que o

seu longo silencio podia ter sido uma das causas que levaram o iniciador

dos trabalhos historicos portuguezes a talhar para si mesmo a triste

mortalha em que desceu envolto para o tumulo--a mortalha do desprezo.

Não conseguiu merecer-lhe mais o espirito dos contemporaneos.

* * * * *

Annaes da viagem de suas magestades e altezas pelos seus reinos segundo

os telagrammas publicados por toda a imprensa e da acção civilisadora da

mesma viagem sobre o espirito dos povos segundo os alludidos documentos.

CAPITULO I

Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo da Caridade acaba, de chegar esta

secular floresta acompanhada suas altezas Preciosos Penhores. Anjo

passeou matta. Jantou 6 horas. Preciosos Penhores foram Cruz Alta

companhia um dos seus preceptores. Jubilo povo inexcedivel.

CAPITULO II

Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo encontrou interessante menino na

serra e afagou. Commoção todos visitantes que presencearam acto Anjo

afagar menino chegou lagrimas. Preciosos Penhores foram pé Fonte Fria.

Jantar Anjo, Preciosos Penhores e Damas, 6 horas, 14 minutos, tempo

medio. Jubilo povo augmenta progressivamente.

CAPITULO III

Bussaco... agosto. Anjo apreciou mediocremente rouxinoes gorgeando

secular floresta. Chamados á pressa para gorgear na balseira bauda de

infanteria 14 e cysne Mondego D. Amelia Jenny. Jubilo povo excitado por

Quatorze e por Cysne innarravel.

CAPITULO IV

Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo recusa licença a _touristes_

comerem saborosos peixes ria d'Aveiro em secular floresta. Preciosos

Penhores pequeno passeio durante 1 hora, 28 minutos, 14 segundos.

Jubilo povo augmenta.

CAPITULO V

Bussaco... d'agosto. Desmente-se noticia Anjo prohibir _touristes_

petisqueira saborosos peixes ria Aveiro secular floresta. N'este mesmo

momento secular floresta saborosos peixes estão sendo comidos

_touristes_ com approvação d'Anjo. Preciosos Penhores pequeno passeio

meia hora e 16 1/2 segundos. Jubilo povo toca raias.

CAPITULO VI

Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo e suas altezas Preciosos

Penhores acabam de partir Porto, comboyo expresso. Anjo e Preciosos

Penhores não mais a secular floresta. Raias ultrapassadas por jubilo

povo.

CAPITULO VII

Vidago... d'agosto. Sua magestade Excelso Soberano, acompanhado duas

phylarmonicas e quarenta maiores contribuintes montados quarenta

maiores eguas, chegou sem novidade real saude. Indiscriptivel jubilo

povo.

CAPITULO VIII

Vidago... d'Agosto. Excelso Soberano foi tomar aguas 10 horas. Voltou

tomar aguas 4 horas. Jantou 6 horas. Centenares de pessoas presencearam

acto Excelso Soberano tomar aguas. Grande ardor geral pelas instituições

monarchicas e pela dynastia. Jubilo povo tende a augmentar, se possivel

fôr.

CAPITULO IX

Vidago... d'agosto. Excelso Soberano encontrou real passagem dois

rapazes de joelhos. Excelso Soberano afagou. Lagrimas punhos faces

pessoas viram Excelso Soberano afagar rapazes joelhos. Jubilo povo toca

zenith.

CAPITULO X

Vidago... d'agosto. Excelso soberano partiu tarde acompanhado

phylarmonicas, contribuintes e maiores egoas. Estes logares, ausencia

excelso soberano e real sequito, convertidos triste ermo. Jubilo povo

impossivel descrever palavras humanas.

CAPITULO XI

Porto... d'agosto. Hoje, fim da tarde, entrada triumphal n'este Baluarte

liberdade sua magestade Anjo da Caridade acompanhada de suas altezas

Louras Creanças. Jubilo povo de Baluarte e concelhos ruraes adjacentes

delirante.

CAPITULO XII

Porto... d'agosto. Presidente camara municipal disse a Anjo da Caridade

que Baluarte se gloriava ter Anjo no seio. Jubilo povo frenetico.

CAPITULO XIII

Porto... d'agosto. Louras creanças passear Palacio Crystal. Anjo não

passeiar Palacio Crystal. Jubilo povo febril.

CAPITULO XIV

Porto... d'agosto. Anjo e Louras Creanças foram photographar-se ao

atelier Fritz. Duas innocentes meninas entregaram ramos de flores a Anjo

da Caridade. Anjo afagou. Circumstantes lagrimas em fio pelas faces.

Anjo e Louras Creanças retrataram-se em cinco posições differentes, que

são todas as posições de que é susceptivel o corpo humano, a saber: em

pé, sentados, ajoelhados, acocorados e deitados. Jubilo povo

vertiginoso.

CAPITULO XV

Porto... d'agosto. A este Baluarte liberdades patrias acaba chegar

augusto Neto heroico Pedro IV. Presidente camara municipal disse

Baluarte se gloriava ter Neto heroico Pedro no seio. Colxas dos

defensores Baluarte ás janellas. Jubilo povo epileptico.

CAPITULO XVI

Porto... d'agosto (urgente) Rapazes achados Vidago por Neto heroico

Pedro IV entraram Baluarte liberdade em exposição triumphal. Rapazes

precediam coche real de joelhos em carruagem descoberta. Jubilo povo,

vendo rapazes exposição joelhos carruagem descoberta, inultrapassavel.

CAPITULO XVII

Porto... d'agosto. Neto heroico Pedro IV, Anjo Caridade e Louras

Creanças regressam hoje comboyo expresso a Lisboa. Governador civil,

bispo, senhoras, beijar mão Neto, Anjo, Louras Creanças. Derradeiro

adeus estação. Baluarte liberdade sem Louras Creanças, Anjo e Neto,

medonho ermo. Jubilo povo intradusivel linguagem humana.

NOTAS

AOS ANNAES DA VIAGEM DE SUAS MAGESTADES E ALTEZAS

A

_Desmente-se noticia Anjo prohibir touristes petisqueira etc._

Informações subsequentes ministradas aos jornaes pelo _Banhista de Luso_

explicam a materia do capitulo que principia pelas palavras acima

reproduzidas.

Os _touristes_ a quem foi denegada licença para celebrarem um _pic-nic_

dentro da floresta do Bussaco, requereram respeitosamente a sua

magestade que se dignasse conferir-lhes a permissão de comerem os peixes

que tinham pescado para o _pic-nic_, não já dentro, mas sim fóra da

matta.

Foi a este segundo requerimento, attendendo ás supplicas dos _touristes_

e ao estado em que começavam a achar-se os peixes, que sua magestade se

dignou de deferir de um modo inteiramente amavel e munificente.

O precedente estabelecido pelos touristes do Bussaco deixa-nos porém

immersos na mais acerba incerteza ácerca dos pontos da superficie solida

do reino em que nos é licito comermos peixe sem invadirmos as

residencias de suas magestades.

Porque, desde o momento em que não só as grandes serras mas tambem as

bacias dos valles adjacentes se consideram, pela jurisprudencia invocada

no Bussaco, como dependencias dos aposentos da real familia, ficamos

perplexos sobre se o safio que pescámos esta manhã no logar do Bico na

praia da Cruz Quebrada o poderemos comer em nossa casa sem por este

facto invadirmos, posto que inconscientemente, a sala de jantar dos

nossos reis. E pedimos ardentemente para sermos esclarecidos sobre a

solução d'este problema:

Dado um safio pescado á linha na ponta do Bico na praia da Cruz

Quebrada; achando-se a Cruz Quebrada na dependencia geologica do Paço de

Queluz pelo valle da ribeira do Jamor, e do Paço da Ajuda pelas

quebradas e pelas vertentes da serra de Monsanto; achando-se por outro

lado o safio ao lume dentro do seu respectivo tacho, entre duas camadas

de cebola e tomate, com o competente fio d'azeite e o devido pimentão;

tendo tido cinco minutos de fervura e havendo sido sacudido por duas

vezes sem se destapar o tacho;

Pergunta-se:

Se podemos passar a comer o safio, collocados na dita latitude da Cruz

Quebrada, entre os reaes paços de Queluz e da Ajuda, sem por esse acto

faltarmos ao respeito devido á inviolabilidade das montanhas, dos valles

e das ribeiras que suas magestades se dignaram eleger para residir.

Esperamos, com o safio ao lume e com o acatamento mais profundo pelas

reaes ordens, que o sr. Barros e Cunha, encarregado juntamente com o sr.

Alcobia de transformar as matas do reino em aposentos de sua magestade,

queira dizer-nos se o monte em que habitamos pertence ou não ao numero

d'aquelles que s. ex.ª se acha mobilando para recreio de suas magestades

em collaboração com o seu socio nas reformas do ministerio das obras

publicas o sr. estofador Alcobia.

O melhor talvez--permittam-nos os srs. Barros e Alcobia suggerirmos esta

ideia--seria, para não estafar muito o ministerio de suas excellencias

com o despacho de repetidas petições do caracter da nossa, que suas

excellencias assignalem com marcos geodesicos as regiões que vão ser

forradas de papel para aposentos reaes, e que n'esses postes se

especifique com os devidos letreiros: _Aqui se pode comer o saboroso

peixe_ ou _Aqui o saboroso peixe se não pode comer_.

E o paiz todo beijará reconhecido a mão energica dos srs. conselheiros

da coroa Alcobia e Barros e Cunha!

B

_Rapazes achados Vidago por Neto heroico Pedro IV entraram Baluarte

liberdade em exposição triumphal._ Correspondencias minuciosas explicam

detidamente o episodio narrado n'este capitulo.

El-rei encontrava todos os dias, em determinado ponto dos seus passeios,

dois rapazes que se ajoelhavam por occasião da passagem de sua

magestade. El-rei commovido com a precocidade de uma bajulação tão

vigorosa manifestada em annos tão verdes, indagou-se uma tal affirmação

de subserviencia procedia de preleções previas dadas por algum aulico

ou se representava um movimento instinctivo no caracter dos dois

adolescentes. Descobriu-se que os meninos ajoelhavam por effeito da mais

pura pusilanimidade organica. Sua magestade resolveu, em vista de tão

honrosas informações, levar comsigo os dois esperançosos jovens e

encarregar-se da sua educação. Foram esses dois rapazes os que entraram

em trinmpho na cidade do Porto, indo em carruagem descoberta e

precorrendo as ruas adiante da carruagem de sua magestade. Não sabemos

se durante todo o precurso do cortejo os rapazes se conservaram, como

deviam, sempre de joelhos. O que é certo é que o quadro a que nos

referimos commoveu muito as pessoas que o presencearam, segundo

asseveram todas as noticias do Porto e de Vidago.

Folgamos de poder completar as informações colhidas por el-rei ácerca

dos seus pupillos com o fructo das nossas proprias indagações, porque é

de saber que os rapazes de joelhos não apparecem unicamente a sua

magestade, apparecem a todos aquelles que viajam nas estradas do Minho e

de Traz-os-Montes. O que escreve estas linhas por mais de uma vez se

encontrou com o commovente quadro, não deixando nunca de o saudar com

um expressivo meneio do seu bordão, perante o qual os rapazes em joelhos

se punham em pé com uma velocidade cheia de convicção e de enthusiasmo.

E nós, então, diziamos-lhes com a mais pesada voz:

--Ah! poltrões! Ah! covardes! Ah! sapos! Que se torno a encontrar algum

de joelhos deante de mim, applico-lhe uma carga de pau, que lhe ponho o

lombo mais negro que o de um melro! Teem o atrevimento de pedir esmola,

seus sicarios?... E ainda por cima se me desculpam com o exemplo de

Jesus Christo?! _Nosso Senhor tambem pediu_!!... Em que escola

aprendeste tu a cartilha, meu grande camello?... O que tu merecias é que

eu te metesse uma zaragatoa de pimenta n'essa bocca para te ensinar a

blasphemar! Jesus pediu esmola, mas não foi para que tu a pedisses

tambem, grande vadio! Jesus pediu esmola para te honrar com a sua

confraternidade, para te mostrar que apesar de teres lendeas, de

trazeres as orelhas sujas e de andares descalço, tens, pelo facto de ser

homem, uma origem divina e que te deves respeitar tanto a ti proprio

como se fosses um imperador ou um rei. Para te tornares digno do grande

obsequio que te fez Jesus andando pelo mundo a pregar a igualdade e a

fraternidade de todos os homens, feitos, segundo o mesmo Jesus, á imagem

e similhança de Deus, a tua obrigação é lavar a cara e as orelhas,

conquistar pelo trabalho uns sapatos para esses pés e trazer-me essa

cabeça levantada e firme como quem tem a convicção de ser tanto como

qualquer outro. Foi para isso que te ensinaram que Deus andou pelo mundo

a pedir, percebeste, grande mariola? Deus pediu para se parecer comtigo,

dando-te por esse modo a aspiração de te pareceres egualmente com elle

fazendo-te uma pessoa limpa e honesta. Deus consentiu em pedir pela

mesma razão que consentiu em ser crucificado, não para dar o exemplo da

mendicidade e do homicidio, mas sim ao contrario para que a sociedade se

reconstituisse no sentido de não tornar a haver quem enforcasse nem quem

pedisse. O pão nosso de cada dia ganha-se com essas duas pernas que Deus

te deu para trabalhares e não para te pôres de joelhos nos caminhos a

pedir esmola a quem passa. Jesus nunca se ajoelhou senão debaixo do

trabalho representado pela sua cruz ou diante do amor representado por

sua mãe. De joelhos perante a minha força ou perante o meu dinheiro tu

és indigno da tua gerarchia d'homem e não passas de uma besta sordida e

immunda.

Depois de praticas da natureza d'esta, que nunca deixamos de fazer aos

rapazes que nos appareceram ajoelhados pelos caminhos, e as quaes

praticas sempre acompanhamos de temerosos gestos mostrando o punho

cerrado e os bicos dos nossos sapatos--de tres solas repregados de

terriveis tachas vingadoras, de duas azas, do tamanho de

moscardos--concluiamos por uma eloquente peroração perguntando aos

rapazes onde era a escola.

Temos a honra de informar sua magestade el-rei que os rapazes que

apparecem de joelhos pelas estradas não sabem nunca onde fica a escola.

Os paes não os ensinam a ler. Creados na abjecção da mendicidade,

habituados a fingir, a choramigar, a carpir, costumados desde pequenos a

serem maltratados, repellidos, injuriados, tornam-se homens servis,

rasteiros, malevolos, vingativos, mandriões e covardes.

São elles os que em maior numero contribuem para o consumo das facas de

ponta, para o exercicio das policias correccionaes, para o repovoamento

successivo das cadeias e dos hospitaes.

Sua magestade esqueceu que, em quanto esses rebentos da preguiça, esses

embriões do vicio e da miseria se ajoelhavam aos seus pés, outros

pequenos cidadãos uteis estavam na escola ou nos casaes circumvisinhos,

uns aprendendo a ler, outros ajudando as suas mães a metter o pão ao

forno, a deitar o feno ás vacas, a acarretar a lenha, a enfeichar as

medas ou a debulhar o milho.

Sua magestade, agasalhando os vadios e expondo-os em triumpho aos olhos

dos laboriosos, deu um exemplo que influirá nos costumes e a que podémos

chamar:--o premio Monthyon da malandrice.

* * * * *

Um attentado unico sem precedentes nos fastos do arbitrio executivo

acaba de ser impunemente perpetrado contra a ordem moral por um ministro

da corôa, o sr. Barros e Cunha.

Quando os erros dos ministros versam sobre os negocios das suas

respectivas secretarias a critica pode consideral-os sem protesto, como

phenomenos normaes em um regimen em dissolução destinado a acabar um

pouco mais tarde ou um pouco mais cedo.

Quando porém a acção do poder exorbita da mancommunação ministerial, da

intriga parlamentar e da ficção administrativa, para invadir a esphera

do trabalho individual e para violar accintosamente os direitos

inalienaveis dos cidadãos, a critica deixa então de proceder pelo

desdem, e embora continue a sorrir, tem o dever de pegar no mesmo tição

com que Renaldo de Montauban chamusca no poema gaulez as barbas de

Carlos Magno, e de barbear s. ex.ª o alto funccionario delinquente.

* * * * *

Precisamos de esboçar um pouco de mais alto a physionomia do personagem

antes de nos occuparmos da natureza dos seus ultimos actos.

Antigo poeta lyrico de inspiração canalisada pelos jornaes poeticos e

pelos albuns das meninas provincianas, o sr. Barros e Cunha, abandonando

a carreira poetica, foi enviado na idade madura á camara dos deputados

na qualidade de leitor do _Times_ por um circulo do reino em que se não

sabia inglez.

Classificado desde logo na familia zoologica dos mediocraceos, foi

declarado inoffensivo pela unanimidade dos votos de ambos os lados da

camara. O uso quotidiano de uma palavra irresponsavel, que elle debalde

tentava sublinhar malignamente sem conseguir que ninguem se occupasse em

a controverter, deu-lhe a facilidade de emittir intermitentemente um

determinado numero de sons articulados sem connexão logica, sem forma

litteraria, sem criterio philosophico, sem intuito politico, os quaes

sons reunidos constituem a collecção dos discursos parlamentares de s.

ex.ª.

Todos se lembram de o ter visto em cada uma das sessões das ultimas

legislaturas levantar-se do seu logar no meio da indifferença bocejante

da camara e da galeria, folhear os numeros do _Times_ collocados sobre a

sua carteira, e abrir o dique da incontinencia oratoria, despejando as

palavras n'um tom de melopêa com a sua voz ao mesmo tempo doce e nazal,

como a de quem falla por um nariz de assucar.

No discurso proferido viam-se desfilar processionalmente as diversas

partes da oração, cadenceadas, graves, acertando o passo, olhando para

acenar, esperando umas, correndo outras para alinhar o prestito, fazendo

roda entre parentheses para entoar um moteto, detendo-se para fazer

signaes orthograficos a um adjectivo retardatario, continuando em

seguida, para tornarem a parar d'ahi a pouco em torno de um verbo

irregular, e proseguirem outra vez atraz de uma interjeição de duvida ou

incerteza. Até que, sentindo-se cahir a tarde, principiando a esfalfar

os membros do discurso, começando os adjectivos a sentarem-se pelos

passeios, os substantivos a tirarem as botas a os adverbios a pedirem de

beber, via-se finalmente, ao longe, por entre as tochas, envolto no pó

do caminho, apontar o andôr com um simulacro de uma idéa velha,

carcomida, safada, sacudida á rua de todas as casas, impellida adeante

das vassouras por todos os varredores, apanhada successivamente por

todas as carroças, e por ultimo arrancada do monturo ou do esgoto,

lavada, grudada, repintada, retingida, posta em pé, especada entre duas

ripes e produzida em publico por s. ex.ª, n'uma exposição solemne, ao

fundo de seis columnas de prosa alambicada e caturra.

Estas fallas eram acompanhadas por s. ex.ª com variados gestos

carinhosos e piegas: já de quem amamenta as methaphoras que tem ao

colo, já de quem acaricia e afaga buliçosos tropos adjacentes, já de

quem com o bico do lapis seguro nas pontas dos dedos se compraz em picar

no ambiente argumentos hypotheticos voejantes entre o orador e a mesa

adormecida.

Elle no entanto sorria de quando em quando, ironico e triumphal,

circumgirando pela sala no fim de cada periodo um olhar destinado a

indicar ao auditorio que dentro do seu pequenino craneo a malicia de

Bertholdinho se achava alliada á finura de Polycarpo Banana.

Uma vez pelo menos em cada um d'esses discursos, quando o orador

parando, tirava da algibeira da sobrecasaca o seu lenço branco e batia

com os nós dos dedos na carteira para que lhe renovassem o copo d'agua,

vozes de deputados repentinamente extremunhados applaudiam-o. O que não

consta é que ninguem se lembrasse nunca de o contrariar.

* * * * *

Cahido o dente do sr. Fontes e chamado o sr. marquez d'Avila para formar

novo ministerio, o sr. Barros e Cunha entrou no gabinete a titulo de

«caracter conciliador.» Deputado ás cortes em successivas legislaturas,

tendo a palavra em quasi todas as sessões, tão vigorosamente havia

servido a causa ecletica da banalidade que não conseguira crear um unico

adversario. Taes foram os titulos que levaram s. ex. aos conselhos da

corôa.

Repentinamente investido no cargo de ministro das obras publicas, do

commercio e da industria, s. ex.ª para quem a industria, o commercio, as

obras, eram outros tantos porticos inaccessiveis, envoltos nas trevas

mais augustas, resolveu seguir uma linha de proceder que o levasse á

popularidade sem o intrometter na gerencia e na direcção dos negocios.

Para esse fim s. ex.ª começou a passear as ruas de Lisboa montado na

imagem rhetorica em que Napoleão nos apparece nos discursos do sr.

Manuel da Assumpção. Aos sabbados s. ex.ª tomava o caminho de ferro e

dirigia-se em carruagem salão a todos os pontos da provincia em que

houvesse uma fabrica, uma officina, um monumento publico para que olhar,

e uma phylarmonica para o ir esperar á _gare_.

No desempenho d'esta primeira parte do seu programma s. ex.ª foi de uma

actividade e de uma energia sem exemplo. Amanhecia a cavallo, anoitecia

a cavallo, e deitava-se na cama, altas horas, para dormir um

momento--tambem a cavallo. Estes exercicios de gineta amestraram o

cavallo de s. ex.ª até o ponto de poder elle proprio ser ministro--em

liberdade.

Nas suas digressões pelos centros fabris das redondezas da Extremadura o

zelo de s. ex.ª pelos principios do seu programma administrativo não

conhecia limites. Eis uma amostra do caracter d'essas viagens

hebdomadarias:

S. ex.ª chega a Thomar pelo trem do correio ás 12 horas 45 m. da tarde.

Uma phylarmonica espera-o na estação de Payalvo e acompanha-o ao som do

hymno da carta até casa do sr. conde de Thomar. Ás duas horas da

madrugada s. ex.ª ceia e levanta tres brindes a Thomar, á real familia e

á carta. A' 4 horas 25 minutos encerramento de s. ex.ª nos aposentos que

lhe estavam reservados e leitura do _Times_ até ás 5 horas 30 minutos.

A's 5 horas 31 minutos s. ex.ª descalça metade das botas e repousa um

momento deitando-se sobre uma orelha e escutando com a outra os eccos do

hymno da carta. A's 6 horas, convergencia das forças musculares de s.

ex.ª sobre os puchadores das suas botas e pedido d'agua morna para a

barba de s. ex.ª A's 7 horas, sabida de s. ex.ª dos aposentos que lhe

estavam reservados, presença de s. ex.ª no terraço da casa e aspersão

dos raios visuaes de s. ex.ª sobre a paisagem circumjacente. A's 8 horas

recepção da camara municipal e dos tres ou quatro maiores contribuintes.

A's 9 horas almoço com brindes de s. ex.ª á carta, a Thomar e á real

familia. A's 10 horas ida para a fabrica de fiação. As' 12 horas lunch

na fabrica e brindes de s. ex.ª á real familia, a Thomar e á carta. A' 1

hora da tarde volta para Thomar, jantar e brindes de s. ex.ª á carta, á

real familia e a Thomar. A's 3 horas 36 minutos partida, cortejo, hymno

pela phylarmonica na estação de Payalvo e regresso de s. ex.ª á capital.

* * * * *

Uma vez por semana, ás quintas feiras, s. ex.ª acompanhava os seus

collegas ao Paço. Tendo mostrado sobre o chouto da allegoria do sr.

Manuel da Assumpção que possuia uns rins de bronze; tendo provado nas

digestões accumuladas das mayonaises do sr. conde de Thomar e dos

pudings da fabrica de fiação que era dotado de um estomago d'aço, s.

ex.ª aproveita os seus encontros com o soberano para convencer a côrte,

de que reune a esses dotes anathomicos a feliz particularidade de uma

espinha de cebo.

Submettido ao olhar de suas magestades constatou-se que a posição

vertical de s. ex.ª dobrava como uma vela ao sol, sob a temperatura de

35 graus Reaumur. Contemplado pela rainha s. ex.ª deprimia-se

progressivamente, acachapando-se. O seu uniforme fazia as pregas de uma

concertina que se fecha. A rainha, caridosa, olhava então para outra

parte a fim de que os tecidos democraticos do seu secretario de estado

não acabassem de derreter, deixando nos degraus do throno, como despojo

de quanto representara no Paço o departamento das obras publicas, um

fardamento, uma calva e uma nodoa.

Impedido de fundir, s. ex.ª procura manifestar por outros actos o ardor

do seu zelo como novo aulico.

Para esse fim atropela as disposições legislativas que regulavam o

arrendamento das casas do Bussaco entregues á administração geral das

mattas, rescinde os contractos legalmente feitos com os arrendatarios,

expulsa as familias que habitavam o convento, e offerece este a sua

magestade a rainha para ella passar a estação calmosa--nas casas dos

outros.

Desde o tempo dos antigos aposentadores móres, que precediam os reis

absolutos nas suas viagens e faziam despejar as casas occupadas por seus

donos para n'ellas se instalar a corte, nunca o servilismo ousara fazer

reviver para lisongear os reis um dos mais oppressivos privilegios

monarchicos, o privilegio das aposentadorias, abolido desde 1820. Os

mais atrevidos e insolentes mandões não ousaram jámais ultrajar por tal

modo o direito e a liberdade. Era preciso para isso ter como o sr.

Barros e Cunha a natureza chineza de um mandarim; pousar no paço tão

passivamente e tão irresponsavelmente como pousa um boneco de porcelana,

acocorado a um canto n'uma prostração burlesca, bolindo automaticamente

com a cabeça e deitando a lingua de fora ou mettendo-a para dentro,

segundo leva ou não leva da real mão um piparote na nuca.

Para bajular el-rei como bajulára a rainha o mandarim sr. João Gualberto

determina que obras extraordinarias se façam na estrada de Vidago e

manda abonar por conta do ministerio das obras publicas salarios na

importancia exorbitante de 1$200 réis por dia aos operarios empregados

em um dos lanços da estrada alludida.

* * * * *

Estes factos porém, definindo cabalmente o mandarim pela sua face de

cortezão, não o definiam sufficientemente pelo seu lado de ministro. Os

conselheiros de s. ex.ª tangeram-o na nuca para o fazer deitar de fora

algumas portarias. Aproveitou-se o pretexto das obras da Penitenciaria,

e s. ex.ª principiou a verter portarias sobre essas obras. Foi então que

no _Diario do Governo_ appareceu o documento que nos propomos analysar e

começamos por transcrever:

«Sua magestade el-rei, a quem foi presente o processo relativo ao

contrato celebrado em 18 e 19 de setembro de 1876 pelo director das

obras da penitenciaria central de Lisboa com João Burnay, para

fornecimento de ferros para as obras d'aquelle estabelecimento,

considerando:

«1.° Que esse contrato se encontra viciado;

«2.° Que n'elle se não observou o que dispõe o artigo 10.° do

regulamento de 14 de abril de 1856 e circular de 15 de maio de 1862;

«3.° Que não se abriu praça nem se fez deposito algum, conforme dispõe

a circular de 15 de maio de 1857, e as clausulas e condições geraes de

empreitadas das obras publicas de 8 de março de 1861;

«4.° Que ao contrato, por conta do qual o empreiteiro recebeu

adiantadamente na importancia de 88.889$312 réis, falta a approvação do

governo, segundo o disposto no artigo 2.° das mesmas clausulas e

condições geraes e da circular de 15 de maio de 1862:

«Ha por bem ordenar que se dê por findo e terminado o dito contrato,

procedendo-se á liquidação dos artigos já fornecidos ou em deposito,

observando-se de futuro todas as prescripções em vigor n'este ministerio

para quaesquer contratos em que elle tenha de interferir.

«O que, pela secretaria de estado dos negocios das obras publicas,

commercio e industria, se communica ao director das obras publicas do

districto de Lisboa, para os devidos effeitos, em referencia ao seu

officio datado de 26 de junho ultimo.

«Paço, em 3 de julho de 1877.--_João Gualberto de Barros e Cunha._

«Para o director das obras publicas do districto de Lisboa».

* * * * *

Por esta portaria rescinde-se sem mais appellação nem aggravo um

contrato bilateral feito entre um industrial, o sr. J. Burnay, e o

governo. Ora o governo não é um poder pessoal, de caracter intermitente

ou caduco, que acabe com o sr. Avelino e que recomece com o sr. Barros e

Cunha. O governo é uma entidade impessoal e constante.

O sr. Barros e Cunha é obrigado como ministro a manter todos os

contractos feitos pelo seu ministerio, porque em quanto ministro o sr.

Barros e Cunha não é um individuo, é o governo. O governo fez um

contracto com o sr. Burnay, esse contracto acha-se em execução, o

governo porem resolve por sua propria auctoridade rescindir o mesmo

contracto, e manda passear o sr. Burnay. Vejamos com que fundamentos

juridicos se annulla, sem mais formalidade que a publicação de uma

portaria, um contracto de similhante natureza:

O sr. Barros e Cunha allega em primeiro logar:

_Que o contracto se acha viciado_. A isto responde o engenheiro

constructor da Penitenciaria e signatario do contracto por parte do

governo que a viciação allegada consiste em se haver alterado a data em

que o sr. Burnay se compromette a concluir os seus trabalhos, mudando-se

os numeros 1877 em 1876. O resultado d'esta viciação era collocar o sr.

Burnay sob a acção de uma multa por não ter concluido a sua obra no

praso prefixo. É evidente que não podia ser o sr. Burnay que viciasse o

contracto raspando um algarismo que o interessa e substituindo-o por

outro que o prejudica.

A viciação do contracto é por tanto um facto necessariamente alheio á

intervenção do sr. Burnay.

A legislação invocada nos considerandos 2.° e 3.°, não tem cabimento,

porque todos os regulamentos das empreitadas das obras publicas previnem

os casos em que _a concorrencia possa prejudicar a rapidez ou a

perfeição do trabalho_ e em que o _deposito póde ser substituido por

fiança ou por outras garantias prestadas pelo empreiteiro_. E ambos

estes principios são reconhecidos pelo sr. Barros e Cunha, o qual

contractou elle mesmo novas obras com o sr. Burnay depois da publicação

d'esta portaria, sem abrir concurso e sem fazer deposito.

As affirmações contidas no considerando n.° 4, são puramente falsas,

como já declararam publicamente os engenheiros Ferraz e Burnay. A falta

da approvação do governo é uma mentira e o adiantamento de 88:886$312

réis é uma calumnia.

Suppondo porem que as obras devessem ser feitas por concurso e mediante

deposito, perguntamos: que responsabilidade pelo facto de não haverem

sido satisfeitas essas clausulas póde caber ao fabricante, ao fornecedor

ou ao empreiteiro com quem o governo contractou? Queriam por acaso que

fosse o sr. Burnay quem abrisse o concurso? que fosse elle quem a si

mesmo se obrigasse ao deposito? Se não se cumpriram as formalidades a

que a portaria se refere, a culpa é unicamente do governo. Como é pois

que o governo rescinde um contracto por um facto cuja culpa é d'elle e

não do individuo com quem elle contractou?

Podem aquelles que tem negocios com o governo ficar sujeitos a

similhante arbitrio?

Póde o governo annullar assim um contracto em que se acham envolvidos

interesses avultados d'aquelle com quem é feito unicamente porque o

governo diz reconhecer que não contractou nos termos em que devia ter

contractado?

Foi approximadamente isso mesmo o que fez a camara municipal com relação

ao contracto do Passeio Publico. A camara rescindiu o contracto, mas o

governo dissolveu a camara. Quem é que ha de dissolver o governo reu de

delicto egual ao da camara?

Em vista de um tão flagrante attentado contra os seus interesses

industriaes, contra o seu credito e contra a sua honra, porque a

portaria alludida é cheia de vagas insinuações insultantes e injuriosas

apesar de cobardemente rebuçadas, o sr. João Burnay representou ao

governo requerendo que se lhe dê vista do processo em que é ao mesmo

tempo accusado e punido, e que sobre o mesmo processo sejam ouvidos os

fiscaes da corôa e da fazenda. O sr. Barros e Cunha não despachou esta

petição e manteve os effeitos da sua portaria absurda, falsa,

calumniosa, e infamante.

É a isto que nós chamamos o mais violento dos attentados perpetrado pelo

arbitrio executivo contra a ordem moral e contra os direitos dos

cidadãos.

* * * * *

O sr. Barros e Cunha é um criminoso diante do codigo e diante da carta.

A carta torna-o responsavel no artigo 103 por tres delictos que

commetteu publicando a portaria de 3 de julho de 1877: por abuso do

poder, por falta de observancia da lei, e pelo que obrou contra a

liberdade e contra a propriedade de um cidadão.

Perante o codigo attentou contra dois dos direitos que a lei civil

reconhece e protege como fonte e origem de todos os outros,--contra o

direito de apropriação e contra o direito de defesa (artigo 359).

A insinuação feita ao sr. Burnay de ter viciado um contracto que elle

não viciou e de haver recebido a titulo de adiantamento uma quantia que

elle não recebeu, colloca o signatario da portaria que encerra essa

calumnia sob a acção do artigo 2364 do codigo civil, que diz o seguinte:

As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes, (1877-08/09) · 第 1 / 4 段