Uma vez, com as suas facilidades, que tanto a desacreditavam, correu
Gêgéca sério perigo, bem sério.
Como era natural, não tardou o José Bispo, da venda, a querer engraçar-se
com ella e desejal-a com a impetuosidade do seu genio atabalhoado,
despotico, irascivel, mettendo medo a todo o mundo e cheio de grandezas e
valentias no meio d’aquella arraia miuda.
Por cima, inspector do quarteirão, embora não se tivesse naturalisado
cidadão brasileiro.
De cada vez que a _Ciganinha_ lá ia comprar alguma cousa, um cobre
de vinagre, meio tostão de azeite, um salamim de arroz, contava-lhe
historias, fazia-lhe mil promessas.
—Deixe-se de partes, Sr. _Portuga_, repellia-o Gêgéca; não se faça de
tolo, estou com pressa...
—Mas, _Ciganinha_...
—Limpe os beiços, Sr. pé de chumbo. Ande; que não vim cá para atural-o...
E assim era sempre.
Ora, como tudo isso occorria á vista de todos, apinhada a venda de
ociosos, tropeiros, creanças, _fadistas_, não raro havia troça á custa do
tal José Bispo.
—Assim, rapariga, applaudiam. Dê-lhe para baixo até mais não poder.
E se derretiam em caquinadas de chufa.
O homem bufava; procurava com esforço conter-se, mostrar frieza e desdem,
mas qual!
De cada vez que a Gêgéca reapparecia na immunda tasca, afigurava-se-lhe
que aquillo tudo se mudava em palacio encantado, n’um esplendor de cegar.
E a fadasinha, cada vez mais formosa, galhofeira e petulante, a
ludibrial-o sem dó nem receio algum.
V
Repellido sempre, poz-se José Bispo, descuidando até os negocios da
venda, a armar esperas á ciganinha, umas especies de tocaia, em que
perdia muito tempo e consumia a paciencia, reduzido a roer frenetico as
unhas ou antes o sabugo, conforme cacoethe velho.
Presentiu Gêgéca o imminente risco e, embora um tanto descuidosa e
zombadora, de continuo lhe furtava as voltas.
Uma tardesinha, porém, em que, scismando, fóra do costume, com certa
melancolia, se arredára mais do que convinha, foi de repente empolgada.
Quando deu accordo de si, o portuguez lhe mettera a mão em cima, e mão
bem pesada, adunca e violenta garra.
—Apanhei-te, pombinha de cascavel, exclamou com triumpho; vamos agora
ajustar nossas contas: basta de debiques e caçoadas.
Era o logar deserto, gritar de todo inutil. Só se ouviam, no silencio dos
ares, ciciar perto os flexiveis _sarandys_, cujos finos caules encurvados
pela correnteza do Paranahyba, a cada instante se erguem para logo se
dobrarem, produzindo brandos zunidos de plangente harpa eolia.
Sentiu na testa a nossa heroina camarinhas de algido suor; mas, fazendo
valente esforço sobre si, buscou não dar mostra do menor receio.
—Me largue, Sr. José Bispo, observou com serena gravidade; não são modos
de homem sério com uma moça como eu...
O tal appello á sua seriedade e ás maneiras pausadas da Gêgéca
desapontaram um tanto o vendeiro; uns simples minutos, comtudo.
—Que historias, replicou brutalmente. Vejam, só a santinha de páo ôco...
olhem, que partista!... Você cahiu no alçapão, e não solto o passarinho,
que custei tanto a agarrar...
—Mas, que é que o senhor quer de mim? perguntou ella com calma e
sobranceria, envolvendo-o n’um olhar de supremo desprezo.
—Que é que eu quero?... Cousa muito simples... que _seje_ minha... e
ha de sel-o, olaré!... á força, se não houver outro remedio... É de
tantos... Para que se fazer de pimpona só commigo?
Intenso rubor subiu ás faces de Gêgéca; os olhos faiscaram de raiva.
—Me largue, _siô_ gallego, exclamou impetuosa.
E com ameaça:
—Depois não se arrependa...
Sorriu-se zombeteiro o José Bispo.
—Ora, quero ver isto... ha de ser gaiato... Eu me arrepender? Nunca,
nunca!
E riu-se devéras, quando a ciganinha, reforçada como era, lhe imprimiu
forte empuxão para libertar o braço preso. Nem se mexeu do logar,
emquanto ella reconhecia, com intimo terror, que os dedos do portuguez a
atanazavam como guante de ferro.
—Não se faça de tola, Gégéca, eu bem sei que você esteve agora mesmo com
o Nhôr Grande da esquina...
—Mentira, protestou a rapariga.
—Pois se os vi passeiando juntos até se sumirem debaixo das arvores...
—É verdade, passeei com elle... mais nada... Nhôr Grande não é tão
ordinario que abuse de seu _talento_.
(Entre parenthesis.)
Sabem os possiveis e complascentes leitores, que cousa seja _talento_, em
todo o sertão d’este nosso Brasil?
Força physica, nada mais.
Continuemos agora, caso valha a pena estarem aturando esta massada, mas
disso não sou juiz. Como conheci, de passagem, a tal ciganinha levada da
breca e lhe admirei, ha uns pares de annos, a notavel belleza, tomei a
peito contar as suas façanhas e _capetagens_.
—Pois eu cá, replicou o brichote do José Bispo, entendo que _talento_
para muito serve... Olhe, quero ser bom; escute um pouco...
—Solte então o meu braço...
—_Iche_, lá isso não. Você disparava que nem veado matteiro.
_Assumpte_... entregue-se por gosto a mim e de amanhã em diante a bóto
de portas a dentro como minha caseira... D. Cula, sua mãi, virá morar
commigo... Nada lhes hadefaltar...
Arfava de indignação, odio e pavor o peito da pobresinha.
Vinha a tarde descendo depressa e, distante, á beira do rio, avisava uma
_anhuma póca_, com intervallado cantar á maneira do bater de dous páos
seccos, que a noite não tardava. A luz que ainda havia, tenue, esbatida,
descia de umas nuvens grandes, de intenso vermelho, a purpurejarem todo o
lado do poente.
Deu então Gêgéca novo arranco para traz com tal impeto, desta vez, que o
seu aggressor teve que avançar dous passos. Quasi de todo lhe quebrou o
animo esse esforço improficuo.
—Juro-lhe, bradou ella com a respiração offegante e immenso accento de
verdade e angustia, que nenhum homem ainda me tocou no corpo. Tenha
pena de mim, José Bispo. Se ha virgem n’este mundo, sou eu... Não me
desgrace... prefiro morrer...
—Qual, não se morre por isto, zombeteou o tendeiro.
—Tão certo como Deus estar no céo, affirmou Gêgéca arrebatada e ardendo
em febre, saia eu d’aqui suja, desgraçada e me vou logo e logo _pinchar_
ao rio. Ninguem mais me ha de ver.
Minha pobre mãi que se agarre com a Virgem Santissima... não terá mais
filha.
Viu José Bispo, no fundo, não de todo máo e perverso, que essa jura lhe
subia direitinha do coração—havia de executar o que promettia.
Vacillou pois.
—Mas se eu a amo como um perdido? Se a quero noite e dia?
—Razão de mais para me tratar com respeito... Não sou nenhuma _fadista_
para o capricho dos homens por qualquer meia pataca...
—Onde fica o mundo dos amigos e rufiões? Que querem dizer todas essas
conversas, á noitinha?... Santa Rita está cheia das suas passadas
tranquibernias...
—Brinco, gracejo, ouço as tolices que me dizem... deixo prégar á vontade,
mas ninguem toca no pulpito...
E concordou quasi com humildade:
—O senhor tem razão... Não é nada bonito o que tenho feito. Prometto
emendar-me. Ficarei-lhe querendo tanto, tanto bem!... A lição foi muito
séria.
Com a volubilidade de seu genio, Gêgéca, ao dizer conceitos tão sensatos,
já era outra, serenada a physionomia e, por isso mesmo, mais formosa e
seductora. Parecia-lhe que aquelle homem, cujas intenções a aterraram, de
subito se transformara em bom e leal censor.
Pouco durou a illusão.
—Não me levo por cantigas... Você falla em morrer, quando agora é que a
vida vai devéras principiar.
Recomeçava a dolorosa e indigna lucta.
—Não nasci para os teus beiços, gallego, porco, ladrão, tinhoso!
E as palavras sibilavam, ardentes, cuspidas com nausea, o corpo derreado
para traz em disposição de resistencia a todo o transe, e até ao ultimo
alento, lucta de morte.
Procurava José Bispo, vermelho, apoplectico de furor e volupia, enlaçal-a
pela cintura com o braço livre. Ia a dar-lhe o fatal cambapé.
Foi quando a ciganinha, com inopinado movimento de mergulho, agachou-se
rapida. Ao erguer-se, trazia na mão direita uma grande pedra
providencialmente achada aos seus pés e, sem perder um segundo, com ella
bateu por modo tão brusco e contundente nos peitos de José Bispo, que
este a largou, soltando um grito de surpreza e dor.
Era quanto bastava.
Fuzilou a Gêgéca pelo _cerrado_ afóra; mas á distancia parou e, pondo
os dedos nos cantos da bocca, atirou aos ares calmos e amornados uns
assovios tão finos, agudos e penetrantes, que a mataria já adormecida
pareceu sobresaltar-se. Respondeu-lhes, á margem do Paranahyba, a
assustada grita dos bulhentos e mettidiços _queroqueros_, de subito
alvoroçados.
Ao chegar á casa, toda fóra de si, arquejando de susto e de cansaço,
abraçou a ciganinha a mãi com angustiada vehemencia e, deixando-se cahir
de joelhos, prorompeu em longo e nervoso pranto.
Debalde tentou D. Cula saber o motivo. Afinal, suspeitando o que não era
real, triste e resignada, chorou ao lado da filha até alta noite.
Meu Deus, meu Deus, que será de nós? exclamava a cada instante.