Da terrivel aventura não disse a ciganinha palavra a ninguem.
Tornou-se, porém, apprehensiva, muito mais prudente e não era assim com
duas razões que ia espairecer e dar um bocadinho de tréla aos rapazes, lá
debaixo das laranjeiras.
Preferia longos passeios sósinha, por caminhos e atalhos só della
conhecidos, mas, apenas começavam, lá pelas 5 da tarde, a desfilar nos
ares os bandos de pombos torquazes, buscando sempre inquietos e como
que irresolutos até no vôo, o pouso para a noite, tambem se encafuava
acautelada em casa, na _capuába_ da boa mamãe.
Ficára retrahida, inquieta, menos confiante nos seus meios physicos de
repulsa a tentativas de desacato.
Se se mostrava mais attenta aos requebros e protestos de dous ou tres,
era para tel-os á mão, como especie de guardas vigilantes, o que
desapontava não pouco os namorados de mais fresca data, obrigados a
gaguejar as suas declarações de paixão, quasi á vista de uns estafermos,
sorumbaticos, estatelados de tanto amor e estorvadores de profissão.
Do filho do Manéca Fructuoso, o tal do olho meio varado por uma laranja
verde, fizera Gêgéca gato sapato. A tudo se prestava o pobre do trangola,
macilento apalermado, comtanto que lhe fosse permittido respirar perto de
quem lhe comera a alma, na energica expressão sertaneja.
—O Malaquias da boiada chegada hontem, e o Fortunato da tropa do Chico
_ricasso_, dizia-lhe a ciganinha, querem por força falar commigo, cousa
de segredo. Quando o sol se metter na matta, venha me buscar, ouviu,
Nhonhô?
—Pois não, Gêgéca, _vancé_ manda...
E o Malaquias da boiada e o Fortunato da tropa ficavam, cada qual por seu
turno, todo embabocados e desageitosos, ao verem surgir ao lado da gentil
apparição, anciosamente esperada, o typo escaniçado, muito comprido e
ridiculo d’aquelle _patito_ do sertão, o nosso Nhonhô Fructuoso.
—É excusado; com a Gêgéca ninguem póde, era voz corrente em todo o
povoado de Santa Rita.
E tal ou qual prestigio mystico a rodeava, pois accrescentavam a meia
voz:
—Tem partes com o _anhanega_ e o _sacisé réré_; anda de pandega com
_currupiras_ e _boitatás_. Não poucos podem jural-o aos Santos Evangelhos.
Talvez por isso, mas muito mais pelos seus olhos a luzirem como
brilhantes negros, entre orlas de cabelludas pestanas, pelo seu narizinho
espirituoso, um nadinha arrebitado na ponta, pelas faces pennujadinhas
como _pecego do cerrado_, tão bonito no avelludado aspecto como feio
no nome (chamam-n’o _cagaiteira_), pelo seu corpo esbelto, cheio,
promettedor de mil thesouros, andava positivamente tonta, de miolo
virado, toda a rapaziada d’aquelles centros.
Não havia quem não parasse diante da chóça de D. Cula e, puxando logo
conversa, deixasse de comprar sem vontade mesmo, nem olhar a preço, todas
as _brevidades_ e ingenuas golosinas do interior, alli expostas á venda.
Florescia então por tal modo o negocio, que as duas mulheres já podiam
vestir com certa casquilhice umas saias de babados grandes de bom crivo,
e traziam sobre os hombros lenços finos de seda, barreados de azul, e aos
pés uns chinellinhos de couro de veado, enfeitados de debrum vermelho.
Não havia cocada, mãe benta, _manaoé_ ou _pé de moleque_ que parasse.
Além do que comiam, levavam os tropeiros lenços cheios—um nunca acabar—e
voltavam logo a pedir mais, só por causa do dedosinho de gostosa prosa e
contemplação.
E a ciganinha a vender tudo á porta da choupana materna, com muito
bons modos, risonha, escorreita, prompta á replica e rebatendo, habil
esgrimista, os cumprimentos demasiado ardentes á sua formosura—legitima
e bem instinctiva loureira, na sua Santa Rita do Paranahyba, como a
mais sabida a calculista americana do Norte n’esse incessante duello de
faceirice e esquivanças dos brilhantes salões de Washington e Nova-York.
Nem tardou a suprema e estrondosa consagração, dada pelas trovas do João
Valentim, o _sabiá gogano_, n’uma festa, quasi _cururú_, que chamara á
localidade muito povo de umas 30 leguas em torno.
Esse Valentim, que pachola ao violão! Quantos cahidos de braços e
revirados de olhos! Já meio velho, calvo, assim com uns restos de homem
bonito, atirado a _seductor_ de mulheres com as suas quadrinhas, que ia
desfiando á medida da inspiração todo choroso e derretido!
Vadio como tudo, só queria trabalhar nas cordas da guitarra ou no
machete, em que devéras pintava o sete, com umas unhas immensas,
attestado da sua preguiça e que zelava como inestimavel preciosidade,
sempre limpas de cairel e todas lustrosas.
E como sapateava ao fado, o pernostico bailante, apezar das juntas já
bastante perras! Como puxava fieira, ao convidar, em elegante derrengado
de corpo, o par ainda sentado! Não queria outra dama senão a Gêgéca, que,
n’essas occasiões pulava agil, airosa, provocadora, as faces rubras que
nem pimenta malagueta, os olhos faiscantes com uma pontinha de lascivia,
exuberante de seiva e mocidade, cousa mesmo de botar de pernas para o ar
moços até da capital federal!
—Olhe o diacho do velhão todo mettido a gallo do terreiro, murmuravam os
rapazes enciumados, quasi ameaçadores.