Cheia de travessuras no jaez das esboçadas foi, até quasi fazer-se moça,
a existencia toda da Angelica, além de uma ou outra façanha de mais
vulto, por exemplo, ir vagabundear, dias seguidos, da banda de lá do rio.
—Nossa Senhora da Abbadia, bradava D. Cula angustiada, sahindo da
habitual pasmaceira, não é que a menina se passou para as _Geraes_?!
Do outro lado, com effeito, de Paranahyba, fica o triangulo mineiro,
habitado por povos sérios, de certo, e pacificos, mas muito retrahidos e
com cara de poucos amigos.
Afinal, reapparecia a _Ciganinha_.
—Onde andaste, ménina dos meus peccados? indagava a desconsolada mãi.
—Ora, respondia a damnadinha, estive correndo mundo, assumptando, vendo...
—Mas, rapariga dos seiscentos, com quem, minha Santa Maria?
—Com o José Bexiguento, o filho da portugueza. Quiz, certo dia, fazer-se
de engraçado commigo; mas dei-lhe logo tal safanão, que d’ahi por diante
andou direitinho que nem um fuso.
Embora aos 16 annos, tinha ella, ainda que mais assentada de juizo,
pessima reputação; gozava de pessima reputação, dizem até bons classicos.
E bonita como mil peccados em penca, buliçosa, suggestiva, a pôr faulhas
de ardente cobiça nos olhos dos mais indifferentes e quietos.
Cabellos negros, bastos, então mais cuidados e lustrosos, mas sempre com
a sua florsinha, de preferencia vermelha, cabellos ondeados, com uns
crespinhos rebeldes na testa e na nuca roliça; rosto para o comprido,
n’um oval regular e como que fechado por encantadora covinha no queixo;
tez não muito morena, tanto assim que bem largas sardas lembravam as
grandes soalheiras de outr’ora, apanhadas em criança; sobrancelhas de
japoneza; olhos enormes, negros, rutilantes, avelludados, com uns cilios
que punham sombra ás atrigueiradas faces em que florescia suave rubidez;
labios humidos, polposos, com o brilho de romã entre aberta, n’um arco
deliciosamente desenhado, orelhas pequeninas, como conchinhas nacaradas.
E que elegancia nativa e senhoril no porte; que collo soberbo, cintura
fina, estatura mais que meiã—emfim, um todo, um conjuncto de fazer peccar
Santo Antão, na sua gruta da Thebaida.
Namoradeira como tudo, a Gêgéca; muito ufana da sua belleza, dos seus
encantos, mas acceitando a côrte e as homenagens de qualquer pé rapado.
A rapaziada de Santa Rita de Cassia e dos arredores umas 20 leguas andava
tonta, n’um rodopio.
Ao lusco-fusco, um corisco a diabinha, sempre á cata de aventuras banaes,
que sabia, porém, conter nos justos limites, avisada, aliás, a cada
instante pela voz arrastada, plangente da mãe, como agoureiro pregão:
—_Ménina_, _vancé_ se perde... Tanto vai o pote ao rio...
_Proteja-nos_... Santo Christo dos Milagres.
—Conheço o caminho, respondia a _Ciganinha_ e não me hei de perder assim
com duas razões... Estou traquejada na estrada e no atalho...
—«Lá vai a pestesinha», dizia-se ao lobrigar sobre tarde uma sombrinha
airosa, esbelta, esgueirando-se, sem grandes mysterios, aliás, por baixo
dos laranjaes. Ia até ás vezes cantarolando, com andar leve, mas seguro
e firme. E ouviam-se as gargalhadas de escarneo, que dava lá debaixo das
suas laranjeiras.
Com impudencia sem par contava as _bobagens_ que lhe haviam dito fulano e
sicrano, o tropeiro Vargas, o arrieiro Thomé do Valle, o mascate José de
Italia e mais este e mais aquelle, um povaréo grosso, emfim.
E imitava, com muita graça e valente debique, os protestos de amor
eterno, as declarações ardentes e claras ou timidas e ridiculas, o
gaguejado de quasi todos os pretendentes, os seus ademanes desengonçados.
E concluia:
—Que pagode!
Todos lhe apontavam mil amantes; mas ninguem podia gabar-se de o haver
sido. O filho do Manéca Fructuoso fôra já á cama doente de paixão.
Debalde fizera valer o caso do olho quasi vasado pela laranja verde. A
_Ciganinha_, sem compaixão, motejava do seu triste estado, no passado e
no presente.
—Um palerma, dizia desfazendo-se em crystalina e adoravel gargalhada,
que a tornava ainda mais irresistivel. Já me falou em casamento, como
se fosse um _favorão_, algum bicho de sete cabeças... Tão bom, como tão
bom... Que é elle, afinal? Filho de um empalamado...
E continuava a dar escandalosa corda a quantos lhe arrastavam a aza, quer
moço do povoado, quer adventicio e de passagem por Santa Rita.
—Essa rapariga é uma perdição, affirmava com pausa e todo convicto o José
Bispo, da venda.
Perdição ou não, estava sempre a Gêgéca prompta para as entrevistas
vespertinas, a que ia sem susto, sósinha, com a galhardia de se sahir
sempre bem, incolume e a contento da altiva consciencia.
E uma vez ou outra pescava uns presentesinhos, córtes de vestidos de
chita franceza e até de cassinha, lençosinhos bordados ou de seda,
garrafinhas e frascos de oleo fino para o cabello, ou perfumes em
moda entre as _senhoras donas_ do Rio de Janeiro, da côrte, o que
tudo aceitava, não por interesse, mas para obsequiar, muito instada
e rogada—uma lembrançasinha sem valor daquella tarde... E accentuava
a lembrança da tal tarde com um aperto de mão mais forte, que nada
significava, mas que a fazia desprender-se e fugir ás carreiras pelo
laranjal afóra.
Puzera-se tambem a trabalhar, e, ligeira como era, ajudava com muito
geito e bom resultado a pachorrenta da mãe. Ninguem resistia ao seu
sorriso, quando offerecia, convidativa e meiga, um docesinho de seu
taboleiro.
Um viajante, que por alli pousou com grande estado, da familia até dos
Jardins, salvo engano, chegou a pagar uma cocadasinha puxapuxa com
uns brincos de pedrinhas verdadeiras, amarellas, muito vistosas; tudo
desinteressadamente e por achal-a bonita devéras, como não vira igual nem
em S. Paulo, nem na Capital Federal. Tambem essa fama de formosura enchia
o sertão todo.
—Rapariga como a _Ciganinha_ de Santa Rita de Cassia, apregoava-se, não
ha duas nestas trezentas leguas á roda!... Cousa de pôr tonto o homem
mais valente!... E levada da carepa, um foguete, um buscapé... cruzes!