Devia, com effeito, a peste do cigano ter sido das arabias, ou sel-o
ainda, caso houvesse escapado das unhas dos temidos indios Affonsos.
Fizera da natureza apathica, dorminhoca, congochosa da Cula surdir, para
pasmo constante de todos, lepida, escorreita, andarilha, em continua
mexonada, a Gêgéca, a _Ciganinha_, cousa totalmente diversa, opposta,
antinomica, um azougue, uma agua viva, legitimo producto do tinhoso.
Não podia estar quieta e parada dous minutos, com uns modos azoinados,
bruscos, espontaneos, selvagens.
Tinha, positivamente, bicho carpinteiro em certa parte do corpo, que a
gente de lá designava com a maior sem cerimonia.
E bem falante, muito explicada, respondona como a maior das malcreadas,
sempre com a palavra do Cambronne na boca, prompta para desferil-a, como
se estivesse no quadrado da guarda imperial, em Waterloo, replicando á
intimação dos inglezes.
Uma occasião em que a mãi toda lacrimosa a reprehendia, accusada, como
fôra, de ter furtado um pombinho nuélo á Maria Rabolona, lavadeira no
porto, umas casas abaixo:
—Não fui eu, defendia-se, nunca minto... se o tivesse surripiado,
confessava... Já lhe disse... não fui eu.
E como D. Cula insistisse, amaldiçoando as escapadas e traquinices já
bastante graves, atirou-lhe ás bochechas:
—Ora, mamãi, de que serviu tambem _mêcé_ ter sido sempre boa, socegada,
mettida comsigo, uma santinha? O malvado do cigano não lhe fez mal, não a
surrou como boi corneta, e não a deixou de vez com a pança cheia?
—Menina! bradou D. Cula aterrada levando as mãos á cabeça, quem te
ensinou tudo isso? Olha, diabinho, Deus te ha de castigar! Santo Christo,
que será de nós?
—Deixe-se d’isso, replicou philosophicamente a _Ciganinha_ correndo já
para a porta, Deus tem muito em que cuidar. Quando se lembrar de mim, já
a raiva terá passado... A Maria Rebolona, que não se faça de engraçada
commigo... Sujo-lhe, num dia de chuva, toda a roupa estendida no
gramado... Hei de avisal-a uma vez por todas...
Esse furto do pombo nuélo... Para que insistirmos?... Por acaso, D. Cula
não teve sempre bons caldos, quando esteve tão doente? Quasi esticára
a canella, coitadinha, sem cirurgião ou curandeiro, que a visse por
caridade, nem remedio nenhum, nenhum para tomar!—E melhorsinha, não
comera pratazios de arroz bem cozido, em que se poderiam vêr ossadas
bastante suspeitas, até de gordas gallinhas?
Chegou a beber seus calicesinhos de vinho do Porto, comprado a 2$ o
martello na venda do José Bispo, o que serviu, semanas e semanas,
de thema a muita historia gaiata, longos commentarios e malevolas
conjecturas.
Pois, senhores, tudo falso e inventado, quanto ao vinho, pelo menos.
Querem saber a verdade? Por Deus Nosso Senhor Jesus Christo, que está nos
vendo e nos ouvindo.
Disséra um tropeiro para D. Cula:
—_Vancê_, dona, do que precisa é tomar todos os dias uns dous bons dedos
de vinho do Porto, da venda... Sem isto, não sára... não póde arribar tão
cedo.
—Mãi de misericordia! retrucara a agorentada martyr, que é da _cobreira_
para comprar a tal mézinha?...
—Ha de se arranjar, declarou Gêgéca, que se impressionara com o conselho.
E como costumava a miudo sopesar curiosa o cofresinho esquecido pelo
trastalhão do cigano, n’esse dia o levou ás escondidas para fóra de casa
e o arrombou no _cerrado_, sem a menor hesitação.
—Vamos ver, disséra para si, o que nos deixou o sem vergonha do meu pae.
Achou umas bugigangas, galhosinhos de arruda seccos, umas pedras
redondinhas pretas e verdes, tres figas de madeira poida e dous collares
compridos de ouro ou prata dourada, além de muitos papeis com signaes
esdruxulos, triangulos, meias luas, crescentes e estrellas rabudas.
—Diabo o leve, o bruxo, ou o guarde por lá! exclamou persignando-se, um
tanto assustada. E, recolhendo só o que para ella tinha valor, jogou o
mais dentro do rio, em logar bem fundo.
Tratou logo de reduzir a dinheiro um dos collares, guardando o outro para
si ou para maior de espadas, e foi propôr a venda a um boiadeiro pachola,
que se gabarolava de apatacado.
—Onde _campeou vancê_ isto? perguntou o homem olhando-a de esguelha, todo
desconfiado. Passou a unha?
—Não é da sua conta, _siô_ besta, foi a resposta. Quanto quer dar pelo
_lavrado_?
Propoz quantia visivelmente ridicula. Acordado, porém, o instincto do
negocio no sangue cigano, conseguiu a menina o dobro do primeiro preço.
E assim póde a chlorotica mãi, a quem tudo logo contou, saborear os seus
dedosinhos do apregoado e luxuoso vinho do Porto.
—Mas, filha dos meus pecados, observou assombrada, quem nos diz que no
cofre não havia _mandinga_? As desgraças vão chover em cima de nós duas...
—Qual! Foi muito bom; acabou-se agora a cai póra... Mecê verá!...
—Santa Rita nos proteja!... Se aquelle homem por cá apparecer, dá cabo de
nós, não ha que duvidar... a poder de tanta bordoada.
Fez a _Ciganinha_ significativo gesto de mófa e incredulidade:
—O diabo não é tão feio como se pinta... Elle que venha!... Ha de ouvir
boas... da minha boca!
E partiu á disparada, chilrando como um pintasilgo.
Atirava Gêgéca bodoque como poucos e lá ia com uma sacóla de bolas de
barro pelas mattas, de onde voltava sempre com alguma caça, papagaios,
tucanos, grallias e um ou outro mutum, que vendia por dous cruzados, ou
até vinte e cinco cobres a algum dono de tropa.
Preferia mil vezes essas correrias com meninotes da sua idade, já então
taludinha, a ficar estatelada á porta da casinha de sapê, resguardando
das moscas e vigiando o taboleiro de sequilhos e _brevidades_, á
espera dos possiveis freguezes. E, genuina herdeira do espirito guloso
e petiscador do pai, não vendia um bolinho, que logo não roesse um
bocadinho, dous ou tres na parte inferior, menos visivel.
Admittia sem pieguice muita graçola, até pesada, e ria-se com gosto,
mostrando os dentes bonitos, alvos, iguaes—cousa rara no interior—quando
á sua vista contavam historias e anecdotas bem crespas; não lhe tocassem,
porém, no corpo, lá isto não. Tinha a mão leve como tudo e dava bofetadas
de estalar aos que lhe beliscassem os quadris e as pernas, ainda bem
finas. Musculosa e ligeira, passava então taes rasteiras, que os gaiatos
e pelintrotes iam ao chão com grandes batecús e lá ficavam chiando de
dôr, no meio das estrepitosas vaias do rapazio.
Não falassem mal da mãe, não se atrevessem a agarral-a de certo modo, ou
não lhe fizessem propostas equivocas, era incontinenti uma surriada de
nomes feios e cabelludos, capaz de pôr tonto qualquer soldado tarimbeiro.
E por cima, muitas caretas e ademanes violentos de desafio e ameaça, com
energicos bamboleios de capoeiragem.
Sempre mal ajorcada, esfarrapada, as faces meio sujas, as unhas
caireladas, cabellos desgrenhados, rebeldes, todos em caracóes e
calamistrados, verdadeira gaforina, fincava n’elles uma flôr vermelha,
algum mimo de Venus, e passeava serena o orgulho da sua raça, quando
não dava cabriolas caprinas ou fazia mil maluquices, na expansão dos
inesperados impetos.
Voz geral no povoado:
—Esta rapariguinha leva a bréca de repente; acaba muito mal. Pobre da
D. Cula, que filha lhe pôz nos quartos o maldito do cigano! Cruzes!
Devéras, caipora assim é tambem demais... Talvez, o cujo fosse o diabo em
pessoa... Te arrenego, _abernuncio_! Só mesmo o demonio é que podia ter
a coragem de esbordor todos os dias a desgraçada amiga... era a ração...
Milagre, que a deixasse com braços e pernas... não lhe tivesse aberto a
cova com tanta porretada!...
Pelo que se vê, as surras de outr’ora haviam entrado nas tradições
populares. Tambem não poucas mulheres de má vida, as _fadistas_, nas
brigas com os tropeiros e scenas de ciumes, avisavam provocadoras e
afoutadas:
—Olhe, _siô_ moço, não sou nenhuma D. Cula. Para cá vem de carrinho. Tire
o seu cavallo da chuva, ouviu? Commigo nada de farófa... Depois queixe-se
ao bispo!
Tudo isto, tão longe, tão longe d’aqui, na villa de Santa Rita de Cassia,
á margem direita do bello rio Paranahyba, na minha pobre e formosa terra
natal—Estado de Goyaz!...
Transporta a larga corrente n’uma balsa de duas compridas canôas
encambulhadas por pranchões atravessados e um soalho por cima, chega-se a
uma praiasinha de areia fina—o porto de onde se empina elevado barranco.
Alguns bonitos salgueiros por perto.
E n’aquella balsa viajam, de um lado para outro do rio, homens e cavallos
de sella ou bestas de carga, então desarreadas e só com as cangalhas de
páos de forquilha assentes em chumaço grosso de macéga secca.
A boiada, muito chifruda, com os cornos compridos e bem abertos, ás vezes
elegantes lyras nas graciosas curvas, boiada goyana, forte, grande,
passa a nado; e os boiadeiros e camaradas a vão tangendo, na diagonal da
travessia, com uma grita immensa, que rebôa pela matta.
Refuga a principio o gado, mas, apertado pela gente a cavallo que montada
em pello o toca e estimúla, o pica e com elle se atira dentro d’agua,
afinal se decide agoniado e lá vai em denso cordão com cabeça bem
levantada, olhos aterrados e bocca offegante a deitar ruidosa respiração.
A extremidade opposta do pesado ruminante não mergulha tambem, surde
e como que se agita inquieta, presentindo perigos. É que, segundo voz
geral, se aquella parte do corpo, em que a _Ciganinha_ tinha bicho
carpinteiro, se molha, está irremissivelmente perdido o pobre do animal.
Singular destino! Caso digno do estudo dos entendidos e sábios!
De vez em quando, lá se destaca um boi e busca voltar á margem segura e
protectora, ou então roda de uma vez, embrulhado pela violenta corrente
do Paranahyba.
Levanta-se então brado de interesseira angustia e gananciado desespero,
não de piedade pela triste victima:—Lá vai um; lá vão dous!—E os
camaradas azafamados apressam, com gestos e clamores a mais e mais, a
passagem, até que o guia tome pé na borda de lá.
Em cima logo do porto de Santa Rita de Cassia, uma esplanadasinha de
grama verde e folhuda, largo fechado nos tres lados por linhas de pobres
casinhas terreas, algumas de telha, quasi todas de sapê.
No fundo, frente para o rio, a matriz, uma igrejasinha baixa, rebocada de
annos a annos, com um sino rachado á esquerda, suspenso a uma especie de
telheiro acaçapado, a cahir de podre.
E, ao redor da praça, assim pomposamente chrismada, estendendo-se para
aqui e acolá caprichosamente, umas moradasinhas, quasi sempre de porta
e duas janellas desguarnecidas de vidraças, moradasinhas bem caiadas e
alvas, encravadas em copado laranjal. Entre si, communicam por tortuosas
trilhas, que no tempo da florescencia ficam embalsamadas a pôr tonto um
christão.
Nessas larangeiras canta pela manhã e á tarde um mundo de maviosos
sabiás, a que respondem os bandos de afinados e sibilantes caraúnas
pousados nas palmeiras indaiás, que alli ficaram da primitiva floresta
virgem.