(A AFFONSO CELSO, PRIMOROSO ESCRIPTOR)
I
Chamavam-lhe _Ciganinha_, e a principio tambem _Magriça_.
Exasperava-a, porém, este appellido. Quando o ouvia «ó, magriça!»
voltava-se rapida, furiosa, com os olhos a chammejar, e torcia a
cara toda nuns esgares muito feios de bruxa velha, botando para fóra
uma lingua de palmo, fina, comprida, serpentina. Soltava até grossas
palavradas.
Com a outra alcunha não se importava. Erguia os hombros num gesto de
expressivo pouco caso e concordava resmungando:
—Se sou mesma!
Por lei fatidica dos contrastes, havia recebido na pia baptismal o nome,
que nunca devêra confirmar, de Angelica—d’ahi Gêgéca ou Gégéca, como
costumava dizer a mãe, abrindo os _ee_ de modo especial e descançado, e
accrescentando sempre com languido suspiro de pezar:
—Um _diabréte_, esta _ménina_.
Desde bem pequena, mostrára, com effeito, indole muito independente,
genio violento, amigo de fazer as suas quatro vontades, audaz, altivo e
arrebatado, de par com muitos cahidos e engraçadas momices e caricias com
quem lhe cahia no gôto, ou permanentemente ou em horas de caprichoso bom
humor.
Positivamente endiabrada, só gostava de andar á volta com rapazes e
molequinhos, garotos da sua idade mais ou menos, furando matagaes,
correndo pelas varzeas, espojando-se na relva, deixando-se rolar
pelo barranco de areia até quasi dentro do rio, largo, magestoso,
esfrangalhada sempre, com as saias em molambos, o corpete a lhe cahir
pelos hombrinhos magros, descarnados, as pernas á vista, núas, nervosas,
esgalgadas, pés no chão, um tanto grandes e maltratados, mas não
espalmados e chatos.
Até perto dos 14 annos, ninguem como ella, a _Ciganinha_, para trepar nas
arvores a apanhar fructas ou excogitar e descobrir ninhos de passarinho
na ramagem mais folhuda e entrançada e pôr-lhes o gadanho em cima.
Agil como um sagui, leve que nem miudo e gracioso caxinguelê, eram de
ver-se o geito e a firmeza com que sabia agarrar-se ao tronco liso e
escorregadio das jaboticabeiras do matto e descascadas goiabeiras, indo
sem vacillar pelos galhos abertos até aos ramos mais finos, que sacudia
com vigor, para fazer tombar alguma goiaba teimosa e longe da mão avida,
impaciente.
E lá ia tambem pelas larangeiras acima, uma perna aqui, outra acolá,
escarrapachadas, sem se lhe dar com os espinhos agudos, minazes,
alcançando n’um apice as franças mais flexiveis e perigosas.
—Não quero que olhem para cima, bradava lá do alto, imperiosa, aos
companheiros agrupados em baixo, á espera dos pomos que ia colhendo e
arremessando.
Obedeciam-lhe de prompto, porquanto o rosto de algum mais curioso
e petulante ficava logo sujeito a moralisador e temido castigo e
bombardeio. Para prova, o filho do Manéca Fructuoso, que se vira em risco
de perder o olho esquerdo, quasi vasado por uma laranja verde, atirada
com pulso vigoroso e afeito a acertar no alvo.
Muitos dias ficára como exemplo aquella face inchada e rubra, á maneira
de uma bóla vermelha; e a todos explicava o ludibriado dono:
—Artes do demonio da _Ciganinha_; mas ha de pagar-me, tão certo como
dous e dous são quatro.
Quédas a valer levára ella das continuas e atrevidas ascensões, mas com
tão pouco não se occupava. Passado o atordoamento do baque em sólo duro,
e compondo-se depressa, pulava de contente ao verificar que ainda d’essa
vez não ficára com membro algum partido ou deslocado, tendo em nenhuma
conta arranhaduras fundas e dolorosas contusões.
No meio de todos esses desmandos e reparaveis extravagancias, singular
recato, instinctivo e selvatico pudor. Assim, jamais acceitara tomar, de
dia, banho no rio, em sucia e duvidosa promiscuidade com os camaradas de
travessuras. Banhava-se diariamente, sim, mas sósinha, á hora em que a
tarde se ia fechando noute, e sempre protegida por frondoso salgueiro,
que ainda mais ensombrava a bacia natural, onde immergia o gracil e
delgado corpinho.
Uma feita, já bem crescidinha, voltara á casa coberta de sangue vivo, uma
grande brecha aberta na cabeça.
—Não é nada, mamãi, affirmava toda exultante, com feição de legitimo
triumpho: uma batalha de pedras, bonita como tudo, com os filhos da
Narcisa _Mofina_. Del-lhes que foi um regalo. O Juca anda sempre me
chamando para as bibócas, a fazer-se de cebo commigo, pois bem, levou
até ao céo da bocca. Eu... contra quatro, hein? Não arredei pé emquanto
não os debandei. Só agora é que senti que me tinham tirado mel da
cachola... Canalhas!
E ainda se esgrimia exaltada, a pôr em fuga os numerosos adversarios.
Não cabia em si de ufana.
—Quatro, mamãi, quatro contra a filhinha de seu coração!
—Mas, menina, observava com tom plangente e arrastado a pobre da mãe,
isto lá são modos de rapariga? Onde vai _vance_ parar? Que _désgostos_
me esperam mais n’esta vida de _sópplicios_? Não basta o que já tenho
soffrido?
E desatava a chorar.
Muito dada a lagrimas essa D. Cula, diminutivo de Clotilde, usual em
todo o interior do Brasil; muito choramingadora, a boa da mulher.
Tambem, havia sido tão desventurosa na sua existencia penosa, solitaria,
predestinada aos abandonos!
Sempre feia, desenxabida, esgaivotada, pallida como cêra, n’um
emaciamento desconsolado de penuria constante e aniquiladora, era filha
de casal pauperrimo, que a deixára orphã bem cêdo, sem um cobre[1] no
fundo de velha bruáca.
Vivera ao Deus dará, muito quietinha, retrahida e medrosa a curtir negra
miseria de contorcer estomago e intestinos, e aguentando-se como podia
com umas costurazinhas e bordados de crivo, que lhe pagavam uma ninharia.
Viéra, depois, um cigano de arribação, muito pernostico e bulhento,
atirado a conquistador, e, sem mais nem menos, se mettera com ella,
procurando sobretudo explorar-lhe o trabalho e obrigando-a a fazer
doce de _fruta de lobo_, vendido aos tropeiros como marmelada, e mais
sequilhos e bolos de arroz e milho.
Quasi nada rendia o tal negocio, porque, além de tudo, o malandrino,
guloso e glutão por natureza, comia o melhor do que pretendia expor á
venda. Então, com grande dó e escandalo da vizinhança, começou a infeliz
a ser, dia e noite, quasi sem intervallo, malhada pelo patife do amigo.
Quanta bordoada! Que sovas de moerem os ossos!
De repente, após muita barganha aladroada, falcatruas vergonhosas e
innumeras dividas contrahidas a torto e a direito, desappareceu o
desbriado cigano—e para todo sempre. Foi-se embora, sem dizer adeus a
ninguem, internando-se pelo sertão fundo. Corria depois que acabara ás
mãos dos indios Affonsos, o que de certo bem merecera.
Signal da sua passagem, além do volumoso abdomen da Cula, só um
cofresinho de bom peso e fechado com cadeado de segredo cabalistico,
que a abandonada conservava com mysterioso cuidado e sério terror de
feitiçarias.
Em todo o caso, ficara a coitada gravida e só tinha de seu a casinha de
esburacadas paredes de adôbo e cobertura de sapê na barranca do rio,
casinha em que de pancada lhe haviam morrido pae e mãe, e testemunha
indifferente das colossaes e repetidas tundas. Ella ignorava até se lhe
pertencia ou não.
Do terreirosinho, de costume muito varrido e limpo, se via bem de fronte
o Paranahyba, todo espraiado, solemne, raramente ludroso, quasi sempre
puro e de aguas claras, a reflectir, como que em espelho animado e
corredio, tudo quanto se passava lá em cima, no Céo de Nosso Senhor Jesus
Christo e da Santissima Virgem Maria. No alto e embaixo, que combinações
de côres, ao esplendido arrebol da manhã e da tarde e nas multiplas
mutações e phantasmagorias das nuvens leves e doudejantes ou pesadas e
immoveis, illuminadas pelo descambar do sol!...
Ao brilho sereno do luar, então, que encantos, que quadros formosos,
diversos, cambiantes, ora meigos e risonhos, ora melancolicos, quasi
sombrios, de deixarem a gente cheia de scismas tristes e presagas!...
Da calmorreada e soffredora Cula se apiedaram, porém, os vizinhos; e
cada qual a ajudou como poude—uma gallinha idosa, meia duzia de ovos,
ou uma cadeira furada, um catre de couro já inservivel, chicaras e pote
esborcinados, miudezas e trastes de refugo, em extremo usados, quasi de
todo imprestaveis.
Todos eram tão pobres!
A pouco e pouco, nascida a Gêgéca, foi se tornando D. Cula estimada,
credora até de certa consideração, sempre muito séria e digna nos seus
extremos apuros e necessidades, activa ao seu modo e fazendo quanto podia
pela vida.
Entretinha relações de amisade com familias boas do logar, que lhe
pagavam as visitas; e, quando o vigario do Curralinho vinha até ao
povoado, parava sempre lá para apreciar o seu cafésinho gostoso e quente,
embora em chicara de folha de Flandres, que esfria depressa a bebida,
queimando os beiços de quem a toma, cafésinho acompanhado de umas brôas
e _brevidades_ muito bem feitas, pois ninguem as preparava melhor do que
ella, após as severas e tão accentuadas lições do perfido e brutal amante.
E assim se iam os dias escoando.
Segredavam as más linguas, e á frente de todos mexericava com sorrisos
ironicos e ares de desprezo o José Bispo, dono da venda mais bem sortida
e afreguezada, que, alta noute, não havendo luar, costumavam rondar a
porta da sisuda D. Cula certos vultos suspeitos, talvez o vigario ou
gente mais limpa e apatacada das tropas e boiadas, por alli de pouso,
antes de transporem o grande rio.
Quem está, porém, livre de calumnias e denigrações?
Depois da sua primeira e sabida desgraça, tinha a mulher tanta compostura
e tão resignada dignidade, que só mesmo a bisbilhotice de aldeia podia
esmerilhar duvidosas hypotheses, levando a mal as taes visitas, ainda que
a deshoras. E a miseria e a fome... bem más conselheiras!
Demais, já dissemos, não era nada appetecivel, descorada e pamonha como
tudo, nos modos e no fallar.
Com sotaque molle e cantado fazia justiça a si mesma, em invencivel
desalento e abandono:
—Eu sou tão _enjóada_! Quem ha de me _quérér_?