Estamos á superficie d'esse oceano embravecido, e o impulso vem das
camadas mais profundas, das camadas informes. São todos. São até os que
nunca tiveram olhos para vêr, os sêres esboçados, com mãos rudimentares,
aparencias d'arvores e de figuras mutiladas. É a terra viva.
É só sonho, é sonho estreme e dôr estreme. Cada um assiste á projecção
da sua propria figura monstruosa no passado e no futuro, cada figura tem
emfim as dimensões de dôr, que as palavras, as regras e os habitos lhe
não deixavam ter. Cada alma é desmedida e tragica e vem desde os confins
da vida até ao infinito da vida. Cada um na floresta entontecida
representa o maximo de sonho e o maximo de ternura. Cada sêr é emfim um
sêr completo e doirado, atinge a belleza e Deus.
As florestas já mortas, a luz das estrellas desaparecidas no cahos--tudo
aqui está presente. O esforço dos mortos, o sonho dos mortos, o
desespero dos mortos sobre mortos, o reflexo de ternura, a mão que
amparou, a bocca que sorriu, levadas pelo vento que soprou há dez mil
annos, aqui estão vivos. Aqui está vivo o sonho que sonhamos todos, o
primitivo sonho humilde e o sonho repercutido de seculo em seculo, assim
como a tua voz compadecida. O sonho sepultado nas profundidades da
terra, o primeiro resquicido, o nada e o sonho phrenetico, tudo aqui
está na floresta embravecida. E, com ou sem bocca, com ou sem
consciencia, nunca mais deixarei de andar n'isto, disperso, amalgamado,
confundido, de fazer parte d'este drama, queira ou não queira, proteste
ou não proteste. Tudo é inutil, todo o esforço inutil, todas as palavras
inuteis. Reconheço-o. Mas não me canso de prégar, não posso deixar de
prégar, até cahir vencido e exhausto dominado e deslumbrado. Na floresta
embravecida, em que todos participam do mesmo sêr, até a mulher da
esfrega encontra emfim Jesus:
--Será vocemecê o José do Telhado que o tira aos pobres para o dar aos
ricos?
--Sou um pobre de pedir.
--Será vocemecê Nosso Senhor Jesus Christo que veio ao mundo para nos
salvar?