Ha no mundo uma falha. Os poentes são labaredas rôxas com resquicios de
escarlate e dois, tres grandes jactos violetas que se estendem pelo
céo--uma maravilha chimerica. A outra primavéra prolonga-se:
superabundancia de flôres nas arvores, espiritualidade na materia, como
se as arvores antes de morrer se exgotassem em sonho. Mais flôres, mais
poentes onde o oiro e o rôxo predominam, mais gritos no mundo, mais
vulcões de côres, que presagiam catastrophes, e um ruido apagado,
esquisito, insuportavel dentro de nós proprios, que comparo ao som d'uma
borboleta esvoaçando contra as paredes d'um vaso.
É a morte que faz falta á vida.
Paira sobre o mundo uma alma monstruosa, um fluido magnetico, onde se
misturam todas as coleras, todos os interesses e todas as paixões, e
essa alma envolve, penetra e reclama dôr. Formam-se tempestades e
terrores electricos. Anda ávida, desencadeia catastrophes, desaba
desgrenhada, com uivos nocturnos de desespero. Cala-se--é peor: ninguem
lhe suporta o peso. Produz jactos d'oiro, auroras boreaes, grandes
incendios no céo, como se o globo ardesse. Despenha-se em montanhas de
côr, em abismos rôxos, paira em campos ethereos de uma serenidade
elysea. São talvez os mortos que reclamam mortos. É talvez a vida
universal perturbada. São outras gerações esquecidas, camadas informes
de que ninguem suspeita o nome, legiões sobro legiões incognitas--é a
vida embrionaria que reclama a sua entrada na vida.
E, no fundo, sob este subterraneo, ha outro subterraneo: ouço passos e
vozes de mais outros ainda que sobem para a superficie. Todos os mortos
se misturam aos vivos. Arrombaram de vez os sepulchros. Tu que não
viveste queres agora por força viver; tu que não mataste queres agora
por força matar. Mais mortos desde o inicio--maior mixordia. Todo o
esforço era para virem á supuração. Atraz d'uma camada havia outra
camada. Ha seculos que carregamos nas tampas dos sepulchros para os não
deixarmos sahir. Na realidade nunca se jogou o gamão, nem se disseram
palavras vulgares. Atraz d'essa aparencia estava intacta uma coisa
desconforme, e ás vezes por uma fresta irrompia a claridade do
inferno... Agora a terra desfaz-se em mortos, como uma acha se desfaz em
fumo.
O que era vida irreal, é agora realidade, o que era vergonha, ninharia e
ridiculo, é a vida agora. O que toma pé são os sonhos, o que se agita
são as paixões desregradas. Não ha limites nem peias. Vêem-nos como eu
te vejo a ti. Tenho deante de mim este espectaculo, como se fosse
possivel aos homens desdobrarem-se, e tomarem corpo ideias e paixões.
Elles são aquillo que ocultamente desejavam ser, são o que não se
atreviam a ser. Sob um mundo de verdade ha outro mundo de verdade. É
esse mundo invisivel e profundo que passa a ser o mundo visivel. É esse.
Todo o homem é uma serie de phantasmas e passa a vida a arredal-os.
Chegou a vez dos phantasmas. As nossas ideias e paixões é que formam as
figuras que actuam na vida.
Terceira noite de luar. O perfume estonteia. Terceira noite de luar
branco, indiferente, coalhado, terceira noite de espanto. Redemoinhos de
figuras e d'acção até aos confins dos seculos. Outr'ora, n'uma vida
monotona e incerta, só se realisavam duas ou tres horas de exaltação. A
vida agora é uma exaltação perpetua.
Tudo mudou: a arvore não existe como a pedra não existe. O unico mundo
real é o mundo irreal. Todos nós andamos a crear um mundo que é o unico
verdadeiro--os vivos e os mortos. Todos trabalhamos com o mesmo afan
para o mesmo fim. Já a materia se adelgaçava... O mundo ideal é o mundo
da dôr, do sonho, e o universo reconstruido, é o maior dos dramas--com a
vida oculta ao lado--e cada dia tem o peso d'um seculo.
As creanças e os passaros emudeceram, o que produz na terra um silencio
atroz. Os olhos encheram-se-lhes d'uma tristeza irreflectida, inocencia
e extracto de vida, sentimentos que se não coadunam. Tenho vontade de
fugir para onde não ouça o silencio... Avança direita a mim a floresta
apodrecida. Mais perto! mais perto!
Ri-te agora se podes da D. Leocadia, que rumina como lady Machebeth as
peores ruinas. Esta vida é feita de todos os nossos esforços e dos
esforços do fundo. Somos apenas um reflexo dos mortos, e agora que tu
queres falar com a tua voz, é que as ordens são mais cathegoricas e o
conflicto monstruoso. Terceira noite de luar, branco, estranho,
inefavel. Toda a noite o rouxinol cantou. Duas, tres horas, e canta
ainda apaixonado e phrenetico... Debalde quero libertar-me dos
phantasmas, debalde quero viver da minha propria vida!...
É que a vida não és tu nem eu, a vida é uma massa confusa e heterogenea,
um pesadelo, uma nuvem negra ou uma nuvem d'oiro, uma tempestade
electrica, com boccas abertas para risos e boccas abertas para gritos.
Não é um detalhe--é um panorama. É um immenso farrapo dorido. Anda aqui
a alma de Joanna e a seccura das velhas mesquinhas. É tão necessaria a
este fluido a dôr muda do cavador como o sonho desconexo do Gabiru. Anda
aqui a primavéra, as lagrimas que tenho chorado e as que tenho ainda
para chorar. Anda aqui a tragedia, a pedra, a arvore, a tua inocencia e
a minha desventura. Tudo isto se congrega, e esta alma não vive sem a
tua alma, este grotesco sem o teu genio, esta vida sem a tua morte.
Andam aqui os mortos e os vivos, a arvore que há-de ser arvore e o
tronco que se desfez em luz. É um sêr immenso a que não vejo senão
partes. Anda aqui a luz e a sombra, e a luz não se distingue da sombra
nem a vida da morte. A vida está tão feita adeante de nós como atraz de
nós. Está tão feita no passado como no futuro. Se o futuro ainda não
existe, o passado já não existe. E tudo isto se congrega. A vida
absorve-me e ponho-a em acção. Impregna-me e faço-a caminhar.
Pertence-me e pertenço-lhe. É o passado e o futuro--Jesus Christo vivo,
Jesus Christo morto, e Jesus Christo resuscitado.