25 de novembro

Ha no mundo uma falha. Os poentes são labaredas rôxas com resquicios de

escarlate e dois, tres grandes jactos violetas que se estendem pelo

céo--uma maravilha chimerica. A outra primavéra prolonga-se:

superabundancia de flôres nas arvores, espiritualidade na materia, como

se as arvores antes de morrer se exgotassem em sonho. Mais flôres, mais

poentes onde o oiro e o rôxo predominam, mais gritos no mundo, mais

vulcões de côres, que presagiam catastrophes, e um ruido apagado,

esquisito, insuportavel dentro de nós proprios, que comparo ao som d'uma

borboleta esvoaçando contra as paredes d'um vaso.

É a morte que faz falta á vida.

Paira sobre o mundo uma alma monstruosa, um fluido magnetico, onde se

misturam todas as coleras, todos os interesses e todas as paixões, e

essa alma envolve, penetra e reclama dôr. Formam-se tempestades e

terrores electricos. Anda ávida, desencadeia catastrophes, desaba

desgrenhada, com uivos nocturnos de desespero. Cala-se--é peor: ninguem

lhe suporta o peso. Produz jactos d'oiro, auroras boreaes, grandes

incendios no céo, como se o globo ardesse. Despenha-se em montanhas de

côr, em abismos rôxos, paira em campos ethereos de uma serenidade

elysea. São talvez os mortos que reclamam mortos. É talvez a vida

universal perturbada. São outras gerações esquecidas, camadas informes

de que ninguem suspeita o nome, legiões sobro legiões incognitas--é a

vida embrionaria que reclama a sua entrada na vida.

E, no fundo, sob este subterraneo, ha outro subterraneo: ouço passos e

vozes de mais outros ainda que sobem para a superficie. Todos os mortos

se misturam aos vivos. Arrombaram de vez os sepulchros. Tu que não

viveste queres agora por força viver; tu que não mataste queres agora

por força matar. Mais mortos desde o inicio--maior mixordia. Todo o

esforço era para virem á supuração. Atraz d'uma camada havia outra

camada. Ha seculos que carregamos nas tampas dos sepulchros para os não

deixarmos sahir. Na realidade nunca se jogou o gamão, nem se disseram

palavras vulgares. Atraz d'essa aparencia estava intacta uma coisa

desconforme, e ás vezes por uma fresta irrompia a claridade do

inferno... Agora a terra desfaz-se em mortos, como uma acha se desfaz em

fumo.

O que era vida irreal, é agora realidade, o que era vergonha, ninharia e

ridiculo, é a vida agora. O que toma pé são os sonhos, o que se agita

são as paixões desregradas. Não ha limites nem peias. Vêem-nos como eu

te vejo a ti. Tenho deante de mim este espectaculo, como se fosse

possivel aos homens desdobrarem-se, e tomarem corpo ideias e paixões.

Elles são aquillo que ocultamente desejavam ser, são o que não se

atreviam a ser. Sob um mundo de verdade ha outro mundo de verdade. É

esse mundo invisivel e profundo que passa a ser o mundo visivel. É esse.

Todo o homem é uma serie de phantasmas e passa a vida a arredal-os.

Chegou a vez dos phantasmas. As nossas ideias e paixões é que formam as

figuras que actuam na vida.

Terceira noite de luar. O perfume estonteia. Terceira noite de luar

branco, indiferente, coalhado, terceira noite de espanto. Redemoinhos de

figuras e d'acção até aos confins dos seculos. Outr'ora, n'uma vida

monotona e incerta, só se realisavam duas ou tres horas de exaltação. A

vida agora é uma exaltação perpetua.

Tudo mudou: a arvore não existe como a pedra não existe. O unico mundo

real é o mundo irreal. Todos nós andamos a crear um mundo que é o unico

verdadeiro--os vivos e os mortos. Todos trabalhamos com o mesmo afan

para o mesmo fim. Já a materia se adelgaçava... O mundo ideal é o mundo

da dôr, do sonho, e o universo reconstruido, é o maior dos dramas--com a

vida oculta ao lado--e cada dia tem o peso d'um seculo.

As creanças e os passaros emudeceram, o que produz na terra um silencio

atroz. Os olhos encheram-se-lhes d'uma tristeza irreflectida, inocencia

e extracto de vida, sentimentos que se não coadunam. Tenho vontade de

fugir para onde não ouça o silencio... Avança direita a mim a floresta

apodrecida. Mais perto! mais perto!

Ri-te agora se podes da D. Leocadia, que rumina como lady Machebeth as

peores ruinas. Esta vida é feita de todos os nossos esforços e dos

esforços do fundo. Somos apenas um reflexo dos mortos, e agora que tu

queres falar com a tua voz, é que as ordens são mais cathegoricas e o

conflicto monstruoso. Terceira noite de luar, branco, estranho,

inefavel. Toda a noite o rouxinol cantou. Duas, tres horas, e canta

ainda apaixonado e phrenetico... Debalde quero libertar-me dos

phantasmas, debalde quero viver da minha propria vida!...

É que a vida não és tu nem eu, a vida é uma massa confusa e heterogenea,

um pesadelo, uma nuvem negra ou uma nuvem d'oiro, uma tempestade

electrica, com boccas abertas para risos e boccas abertas para gritos.

Não é um detalhe--é um panorama. É um immenso farrapo dorido. Anda aqui

a alma de Joanna e a seccura das velhas mesquinhas. É tão necessaria a

este fluido a dôr muda do cavador como o sonho desconexo do Gabiru. Anda

aqui a primavéra, as lagrimas que tenho chorado e as que tenho ainda

para chorar. Anda aqui a tragedia, a pedra, a arvore, a tua inocencia e

a minha desventura. Tudo isto se congrega, e esta alma não vive sem a

tua alma, este grotesco sem o teu genio, esta vida sem a tua morte.

Andam aqui os mortos e os vivos, a arvore que há-de ser arvore e o

tronco que se desfez em luz. É um sêr immenso a que não vejo senão

partes. Anda aqui a luz e a sombra, e a luz não se distingue da sombra

nem a vida da morte. A vida está tão feita adeante de nós como atraz de

nós. Está tão feita no passado como no futuro. Se o futuro ainda não

existe, o passado já não existe. E tudo isto se congrega. A vida

absorve-me e ponho-a em acção. Impregna-me e faço-a caminhar.

Pertence-me e pertenço-lhe. É o passado e o futuro--Jesus Christo vivo,

Jesus Christo morto, e Jesus Christo resuscitado.

Humus · 第 77 / 83 题