30 de novembro

Chega o momento em que me perco, em que tenho medo de mim mesmo, em que

me atemorisa o som da minha propria voz. Quem sou eu? Os outros? Sou os

outros? São elles que falam, que ordenam, que me impelem? Eu sou os

mortos! eu sou os mortos! Eu sou uma serie de phantasmas, que se açulam

entre mim e mim. Reconheço-os. O gesto esboçado há milhares d'annos, e

perdido, consumido, consegue hoje realisar-se, o grito que a morte calou

n'uma bocca ignorada, faz écho no mundo. Todos os sonhos são realidades,

os mais altos, os mais humildes, os mais bellos e os mais grotescos. Só

os sonhos são realidade n'esta noite quieta e caiada, com uma mancha

vermelha de polo a polo.

Aqui está agora isto a que se chama noite de luar, branca, inerte,

passiva, com a lua espargindo luz sobre o doirado. Aqui está a arvore, e

era a isto que se chamava a arvore! Aqui está a pedra e era a isto que

se chamava a pedra! Aqui está o céo e era a isto que se chamava o céo!

Reconheço-vos.

A morte encontra-se só--cortaram a arvore pelo meio. Anda pelo céo como

um cometa que desatasse aos tombos e aos gritos--de desvario em

desvario. A cada grito empallidece, esbrazeia, muda de côr, abre a cauda

de oiro, de trambulhão em trambulhão...

A morte faz estremecer o mundo até á raiz. A morte já não tem a mesma

significação. A morte é agora inutil e anda á solta no infinito,

desgrenhada, dorida e doirada. Desespera-se. Tenho medo de lhe tocar. O

drama que se passa em cima é maior que o que se passa em baixo. É peor

este tumulto de inferno, este clamor de que me não chegam as vozes, esta

força incoherente de pé--todas as forças de pé--posta a caminho para o

desconhecido. É peor. E a cada grito em baixo corresponde um grito em

cima.

Reconheço o grito que sae da noite. São os vivos e os mortos... Mas

então que significação tem isto no universo, a dizer palavras inuteis no

meio d'esta balburdia, d'esta escuridão cerrada, d'este doirado feroz,

d'este redemoinho sem nome? Para que é que eu existo e tu existes? Para

que é que eu grito e tu gritas? Isto não és tu! isto não sou eu! Isto é

a vida temerosa, de que não representas senão uma insignificante

particula. Tu não és nada, a vida é tudo. O combate é incessante entre

os vivos e os mortos, entre os mortos e os vivos. Todos gritam ao mesmo

tempo, todos caminham ao mesmo tempo para o mesmo fim esplendido.--Oh eu

quero crêr!--Porque é que gritas?--Fecha os olhos! fecha os

olhos!--Agora sou eu quem falo! Agora são elles que falam!...

Oh minha alma pois eras tu! Agora te reconheço! Capaz de tudo, capaz de

baixezas e capaz de sacrificios. Tão pequena! tão tranzida! Não vales

nada e pudeste tanto! Oh minha alma, pois eras tu, eras tu! Pudeste

arcar com o universo, olhar Deus, construir Deus. Devo-te tudo: a

ilusão, a tinta do céo, o sonho erratico das vastas florestas. Eras tu!

eras tu!... Tem-me custado a dar comtigo, tão mesquinha e capaz de

povoares o céo de estrellas e o mundo de sonho. Atreveste-te a tudo.

Afirmaste. Negaste. Eras tu, sempre dorida, sempre anciosa, nunca

satisfeita, e coubeste dentro de quatro paredes. Tornaste-me a vida

amarga. Encheste-me de ridiculo. Atiraste-me aos encontrões contra a

massa cega e compacta, levaste-me como restos de folhas n'esta procella

de sonho. Fôste a melhor e a peor parte do meu sêr.

Eras tu! E pude com esta enxurrada de côres, de tintas, de impulsos, a

instigar-me e a deslumbrar-me! E pude ao mesmo tempo com a dôr! Fiz

parte da dôr. A desgraça viveu comigo e o sonho viveu comigo. E pude com

a vida! Atravessei este mar monstruoso, servindo-me de meia duzia de

palavras. Que importa ser ridiculo? Que importa ser a D. Idalina ou a D.

Ingracia? Suportei a vida--suportei tudo. Que importa a tua mentira, se

atravessaste a labareda e ainda conservas o chale tisnado?

Para onde vamos aos gritos? para onde vamos aos gritos?

E cada grito em baixo corresponde um grito em cima, a cada grito um

estremeção no mundo, que se repercute de universo em universo. Um grito

que acorda mais sonho e gera novo desespero.

Outro grito, outro mundo doirado, outra forma dorida que se deita a

caminho.

O pezo da vida e o pezo dos mortos sente-se cada vez mais. Todos clamam

ao mesmo tempo de pé para essa coisa immensa e doirada, n'um

deslumbramento. Os mortos que nos pareciam mortos, camada sobre camada,

estão aqui de pé ao nosso lado.

E o pezo é cada vez maior. Até agora viviamos com elles, respiravamos

com elles, mas não sentiamos o pezo d'essa poeira viva que é a sombra e

a luz. Agora não podemos com elles...

E o lamento, o uivo sobe cada vez mais alto. Debalde tapamos os ouvidos:

o uivo penetra nas almas. E a um grito em baixo corresponde logo um

grito em cima.

E as mulheres das viellas põem-se a chorar, os ladrões das estradas

desatam a chorar...

O uivo não cessa. Irrita. Enche o mundo todo. Quem grita? Nós proprios?

O homem que range por não poder suportar a vida? O grito domina tudo,

trespassa o globo e echôa no mundo.

E outra coisa monstruosa tomou o lugar da morte, outra sombra se

entranhou de salto na vida, outro turbilhão arrasta os homens.

Modificaram-se as estrellas com os sentimentos. A outra coisa no

infinito reflecte-se na vida dos astros que mudam de côr, na dôr que

tomba desgrenhada de quéda em quéda. Todo o mundo se transforma a nossos

olhos. Cada sêr augmenta como se encerrasse em si a vida até aos confins

dos seculos. O passado não existe, o futuro redobra de proporções.

Perdeu-se a noção da desgraça e a noção do tempo, e a nodoa de sangue da

Via-Lactea, onde se concentra toda a sensibilidade do mundo, alastra

entre os astros, de lez a lez, na profundidade do céo.

Ouves o grito? ouvel-o mais alto, sempre mais alto e cada vez mais

fundo?...--É preciso matar segunda vez os mortos.

Humus · 第 79 / 83 题