Chega o momento em que me perco, em que tenho medo de mim mesmo, em que
me atemorisa o som da minha propria voz. Quem sou eu? Os outros? Sou os
outros? São elles que falam, que ordenam, que me impelem? Eu sou os
mortos! eu sou os mortos! Eu sou uma serie de phantasmas, que se açulam
entre mim e mim. Reconheço-os. O gesto esboçado há milhares d'annos, e
perdido, consumido, consegue hoje realisar-se, o grito que a morte calou
n'uma bocca ignorada, faz écho no mundo. Todos os sonhos são realidades,
os mais altos, os mais humildes, os mais bellos e os mais grotescos. Só
os sonhos são realidade n'esta noite quieta e caiada, com uma mancha
vermelha de polo a polo.
Aqui está agora isto a que se chama noite de luar, branca, inerte,
passiva, com a lua espargindo luz sobre o doirado. Aqui está a arvore, e
era a isto que se chamava a arvore! Aqui está a pedra e era a isto que
se chamava a pedra! Aqui está o céo e era a isto que se chamava o céo!
Reconheço-vos.
A morte encontra-se só--cortaram a arvore pelo meio. Anda pelo céo como
um cometa que desatasse aos tombos e aos gritos--de desvario em
desvario. A cada grito empallidece, esbrazeia, muda de côr, abre a cauda
de oiro, de trambulhão em trambulhão...
A morte faz estremecer o mundo até á raiz. A morte já não tem a mesma
significação. A morte é agora inutil e anda á solta no infinito,
desgrenhada, dorida e doirada. Desespera-se. Tenho medo de lhe tocar. O
drama que se passa em cima é maior que o que se passa em baixo. É peor
este tumulto de inferno, este clamor de que me não chegam as vozes, esta
força incoherente de pé--todas as forças de pé--posta a caminho para o
desconhecido. É peor. E a cada grito em baixo corresponde um grito em
cima.
Reconheço o grito que sae da noite. São os vivos e os mortos... Mas
então que significação tem isto no universo, a dizer palavras inuteis no
meio d'esta balburdia, d'esta escuridão cerrada, d'este doirado feroz,
d'este redemoinho sem nome? Para que é que eu existo e tu existes? Para
que é que eu grito e tu gritas? Isto não és tu! isto não sou eu! Isto é
a vida temerosa, de que não representas senão uma insignificante
particula. Tu não és nada, a vida é tudo. O combate é incessante entre
os vivos e os mortos, entre os mortos e os vivos. Todos gritam ao mesmo
tempo, todos caminham ao mesmo tempo para o mesmo fim esplendido.--Oh eu
quero crêr!--Porque é que gritas?--Fecha os olhos! fecha os
olhos!--Agora sou eu quem falo! Agora são elles que falam!...
Oh minha alma pois eras tu! Agora te reconheço! Capaz de tudo, capaz de
baixezas e capaz de sacrificios. Tão pequena! tão tranzida! Não vales
nada e pudeste tanto! Oh minha alma, pois eras tu, eras tu! Pudeste
arcar com o universo, olhar Deus, construir Deus. Devo-te tudo: a
ilusão, a tinta do céo, o sonho erratico das vastas florestas. Eras tu!
eras tu!... Tem-me custado a dar comtigo, tão mesquinha e capaz de
povoares o céo de estrellas e o mundo de sonho. Atreveste-te a tudo.
Afirmaste. Negaste. Eras tu, sempre dorida, sempre anciosa, nunca
satisfeita, e coubeste dentro de quatro paredes. Tornaste-me a vida
amarga. Encheste-me de ridiculo. Atiraste-me aos encontrões contra a
massa cega e compacta, levaste-me como restos de folhas n'esta procella
de sonho. Fôste a melhor e a peor parte do meu sêr.
Eras tu! E pude com esta enxurrada de côres, de tintas, de impulsos, a
instigar-me e a deslumbrar-me! E pude ao mesmo tempo com a dôr! Fiz
parte da dôr. A desgraça viveu comigo e o sonho viveu comigo. E pude com
a vida! Atravessei este mar monstruoso, servindo-me de meia duzia de
palavras. Que importa ser ridiculo? Que importa ser a D. Idalina ou a D.
Ingracia? Suportei a vida--suportei tudo. Que importa a tua mentira, se
atravessaste a labareda e ainda conservas o chale tisnado?
Para onde vamos aos gritos? para onde vamos aos gritos?
E cada grito em baixo corresponde um grito em cima, a cada grito um
estremeção no mundo, que se repercute de universo em universo. Um grito
que acorda mais sonho e gera novo desespero.
Outro grito, outro mundo doirado, outra forma dorida que se deita a
caminho.
O pezo da vida e o pezo dos mortos sente-se cada vez mais. Todos clamam
ao mesmo tempo de pé para essa coisa immensa e doirada, n'um
deslumbramento. Os mortos que nos pareciam mortos, camada sobre camada,
estão aqui de pé ao nosso lado.
E o pezo é cada vez maior. Até agora viviamos com elles, respiravamos
com elles, mas não sentiamos o pezo d'essa poeira viva que é a sombra e
a luz. Agora não podemos com elles...
E o lamento, o uivo sobe cada vez mais alto. Debalde tapamos os ouvidos:
o uivo penetra nas almas. E a um grito em baixo corresponde logo um
grito em cima.
E as mulheres das viellas põem-se a chorar, os ladrões das estradas
desatam a chorar...
O uivo não cessa. Irrita. Enche o mundo todo. Quem grita? Nós proprios?
O homem que range por não poder suportar a vida? O grito domina tudo,
trespassa o globo e echôa no mundo.
E outra coisa monstruosa tomou o lugar da morte, outra sombra se
entranhou de salto na vida, outro turbilhão arrasta os homens.
Modificaram-se as estrellas com os sentimentos. A outra coisa no
infinito reflecte-se na vida dos astros que mudam de côr, na dôr que
tomba desgrenhada de quéda em quéda. Todo o mundo se transforma a nossos
olhos. Cada sêr augmenta como se encerrasse em si a vida até aos confins
dos seculos. O passado não existe, o futuro redobra de proporções.
Perdeu-se a noção da desgraça e a noção do tempo, e a nodoa de sangue da
Via-Lactea, onde se concentra toda a sensibilidade do mundo, alastra
entre os astros, de lez a lez, na profundidade do céo.
Ouves o grito? ouvel-o mais alto, sempre mais alto e cada vez mais
fundo?...--É preciso matar segunda vez os mortos.