30 de abril

Donde emerge esta figura encharcada de lama, menos a sombrinha, que,

apezar da dôr, conseguiu atravessar incolume todos os solavancos? A que

se atreve depois de ver o filho? Cheguei a ter a visão nitida da

montanha de pó acumulada sobre ella, e do desespero immenso para a

romper.

Sabe tudo, vae dizer tudo. Tem alli as cautellas do prego e a malinha de

mão onde levava escondidos, a enterrar, os fetos da D. Engracia; só ella

pode desvendar os vicios occultos e o sitio onde a D. Bibliotheca tinha

a sua fistula. Conhece as miserias e os segredos das familias correctas.

Vae emfim dizer tudo, quando lhe surge o filho que não via há annos.

Eil-o creado de orgulho e de codeas. Submete-se logo, mais coçada e mais

gasta, diante d'aquella obra prima real e tangivel.--Pois sim, pois

sim...--Ahi tens tu o teu sonho alimentado de codeas e transformado em

realidade. Ahi está patente o sonho que sonhaste com inveja, o sonho que

sonhaste com fél, aos ais, com a bocca tapada, o sonho feito de

farrapos, que ocultaste de toda a gente para poder viver. Ahi está

patente, á luz do sol, como os sonhos dos outros, de ambição e de

imperio, o sonho que ninguem viu sonhar, e que sustentaste á custa da

tua propria alma--ó Restituta da Piedade Sardinha!

...--Sejamos logicos mãe--diz elle--na vida é preciso ser logico. A mãe

creou-me escondido, eu, por meu lado, disse sempre que não tinha mãe.

Não hei-de agora que vou casar apresental-a:--«Aqui está a minha mãe que

me creou de esmolas, que me creou escondido».

--Tens razão, filho.

--O que é preciso é que a mãe desapareça. O que é preciso é que a mãe,

que tem sido logica deixando-me fazer carreira, não estrague agora tudo.

Quem soube sacrificar-se para me engrandecer, deve continuar a

sacrificar-se. Não lhe peço mais nada: desapareça.

--Desapareço.

Ella propria tem por aquella obra monumental de egoismo, o respeito que

teve sempre por as pessoas consideraveis. Está alli na sua frente de

chapeu lustroso e luvas esticadas. Acrescentem a isto amor. Levou annos

a creal-o escondido, e revê-se embevecida nos cartões em que elle

assigna Monfalcão dos Monfalcões (Sardinha). De resto não lhe custa nada

desaparecer. Não lhe custa mesmo nada. É mais uma ordem a cumprir.

Obedece. Obedece, como obedeceu sempre a D. Hermengarda, á D. Theodora,

á D. Herminia, como obedeceu a todas as pessoas ricas e de consideração,

como obedeceu á vida que fez d'ella um trapo. Apenas um minuto e esse

minuto chega. Um minuto e mais nada. Nesse minuto a figura contrahida

reconhece a figura de trapos e de restos. Nesse unico minuto de duvida a

D. Restituta vive mil annos e um dia e concentra-se em horror e

desespero. É o minuto supremo em que a velha Pois Sim se sente arrastada

ao céo e ao inferno, ouve vozes que falam ao mesmo tempo, e ella mesmo

pronuncia palavras que nunca ousou pronunciar, nem no recanto mais

obscuro da sua alma.--Vi-o! vi-o! vi-o! Que é isto? que é isto que se me

péga e se me entranhou na obediencia e na mentira? O que é isto que não

comprehendo e que me doe? Desespero e pois sim, sofreguidão e pois sim,

doirado e pois sim! Eu não posso com isto amargo e doirado! Eu só posso

mentir, só posso obedecer, só posso com restos, com os restos dos

restos. Tenho vivido desde o principio do mundo a escorrer fél e pois

sim. Tenho sido sempre Pois Sim, só Pois Sim, e agora sou Pois Sim e

desespero!

Desespero, e n'este desespero uma primavéra de restos, uma primavéra

abortada, que só chega a deitar uma flôr miudinha como a flôr do

escalheiro.--Mente! mente! mentir não custa nada!--Mas a D. Restituta já

não pode mentir ainda que queira. Quer dizer que não, e com ella todos

os mortos, todos os mortos que não se atreveram a sonhar, que não

abranjeram o sonho, dizem á uma que sim, dizem com desespero que sim.

Sonho e pois sim não cabem no mesmo sacco. Não cabem no mesmo sacco

primavéra e pois sim. A sofreguidão atingiu o auge e tu viste-o!

viste-o!...

Salta laré, perirone perirote!... A sacudidela de revolta extingue-se,

sae da lucta exhausta, com todo o pezo da montanha em cima, diminuida,

reduzida outra vez a pois sim... Esses minutos que passou só e

contemplando a ruina de toda a sua vida foram amargos como fél.--Mete o

diabo no sacco!--Tão cansada e tão gasta que nem as feições lhe

reconheço; tão amarga e tão ridicula, tão pois sim, que da D. Restituta

só resta uma expressão de dôr, de dôr mutilada a dizer que sim, sempre

que sim--a dizer a tudo que sim.

--Mete tudo no sacco, mete-o com lagrimas requentadas e o fél da

submissão. Mete a tua alma e a minha alma, gastas de dizerem a tudo que

sim. Mete o diabo no sacco! mete tudo p'ra o sacco, desespero e doirado,

sofreguidão e pois sim!

Balouça ao vento, a uma restea de luar, pendurado n'uma corda, o cadaver

da D. Restituta, que parece dizer pela ultima vez que sim--para que o

filho possa casar com a filha do conselheiro Barata. Balouça ao vento

n'um sexto andar--esquerdo. Morre ignorada e desconhecida quem toda a

vida viveu de codeas, para lhe assegurar o futuro e a assignatura com

brazão e elmo, Monfalcão dos Monfalcões (Sardinha). Da mão crispada

ninguem lhe arranca a photographia de quando elle era pequeno, com o

fardamento da _Escola Academica_, como um guarda-portão em miniatura. A

sombrinha lá está aberta ao lado da cama, por causa da humidade, e pela

janela, aberta sobre o luar, veem-se os montes onde o Santo colerico não

cessa de latir injurias sobre a villa agachada de terror.

Humus · 第 61 / 83 题