Donde emerge esta figura encharcada de lama, menos a sombrinha, que,
apezar da dôr, conseguiu atravessar incolume todos os solavancos? A que
se atreve depois de ver o filho? Cheguei a ter a visão nitida da
montanha de pó acumulada sobre ella, e do desespero immenso para a
romper.
Sabe tudo, vae dizer tudo. Tem alli as cautellas do prego e a malinha de
mão onde levava escondidos, a enterrar, os fetos da D. Engracia; só ella
pode desvendar os vicios occultos e o sitio onde a D. Bibliotheca tinha
a sua fistula. Conhece as miserias e os segredos das familias correctas.
Vae emfim dizer tudo, quando lhe surge o filho que não via há annos.
Eil-o creado de orgulho e de codeas. Submete-se logo, mais coçada e mais
gasta, diante d'aquella obra prima real e tangivel.--Pois sim, pois
sim...--Ahi tens tu o teu sonho alimentado de codeas e transformado em
realidade. Ahi está patente o sonho que sonhaste com inveja, o sonho que
sonhaste com fél, aos ais, com a bocca tapada, o sonho feito de
farrapos, que ocultaste de toda a gente para poder viver. Ahi está
patente, á luz do sol, como os sonhos dos outros, de ambição e de
imperio, o sonho que ninguem viu sonhar, e que sustentaste á custa da
tua propria alma--ó Restituta da Piedade Sardinha!
...--Sejamos logicos mãe--diz elle--na vida é preciso ser logico. A mãe
creou-me escondido, eu, por meu lado, disse sempre que não tinha mãe.
Não hei-de agora que vou casar apresental-a:--«Aqui está a minha mãe que
me creou de esmolas, que me creou escondido».
--Tens razão, filho.
--O que é preciso é que a mãe desapareça. O que é preciso é que a mãe,
que tem sido logica deixando-me fazer carreira, não estrague agora tudo.
Quem soube sacrificar-se para me engrandecer, deve continuar a
sacrificar-se. Não lhe peço mais nada: desapareça.
--Desapareço.
Ella propria tem por aquella obra monumental de egoismo, o respeito que
teve sempre por as pessoas consideraveis. Está alli na sua frente de
chapeu lustroso e luvas esticadas. Acrescentem a isto amor. Levou annos
a creal-o escondido, e revê-se embevecida nos cartões em que elle
assigna Monfalcão dos Monfalcões (Sardinha). De resto não lhe custa nada
desaparecer. Não lhe custa mesmo nada. É mais uma ordem a cumprir.
Obedece. Obedece, como obedeceu sempre a D. Hermengarda, á D. Theodora,
á D. Herminia, como obedeceu a todas as pessoas ricas e de consideração,
como obedeceu á vida que fez d'ella um trapo. Apenas um minuto e esse
minuto chega. Um minuto e mais nada. Nesse minuto a figura contrahida
reconhece a figura de trapos e de restos. Nesse unico minuto de duvida a
D. Restituta vive mil annos e um dia e concentra-se em horror e
desespero. É o minuto supremo em que a velha Pois Sim se sente arrastada
ao céo e ao inferno, ouve vozes que falam ao mesmo tempo, e ella mesmo
pronuncia palavras que nunca ousou pronunciar, nem no recanto mais
obscuro da sua alma.--Vi-o! vi-o! vi-o! Que é isto? que é isto que se me
péga e se me entranhou na obediencia e na mentira? O que é isto que não
comprehendo e que me doe? Desespero e pois sim, sofreguidão e pois sim,
doirado e pois sim! Eu não posso com isto amargo e doirado! Eu só posso
mentir, só posso obedecer, só posso com restos, com os restos dos
restos. Tenho vivido desde o principio do mundo a escorrer fél e pois
sim. Tenho sido sempre Pois Sim, só Pois Sim, e agora sou Pois Sim e
desespero!
Desespero, e n'este desespero uma primavéra de restos, uma primavéra
abortada, que só chega a deitar uma flôr miudinha como a flôr do
escalheiro.--Mente! mente! mentir não custa nada!--Mas a D. Restituta já
não pode mentir ainda que queira. Quer dizer que não, e com ella todos
os mortos, todos os mortos que não se atreveram a sonhar, que não
abranjeram o sonho, dizem á uma que sim, dizem com desespero que sim.
Sonho e pois sim não cabem no mesmo sacco. Não cabem no mesmo sacco
primavéra e pois sim. A sofreguidão atingiu o auge e tu viste-o!
viste-o!...
Salta laré, perirone perirote!... A sacudidela de revolta extingue-se,
sae da lucta exhausta, com todo o pezo da montanha em cima, diminuida,
reduzida outra vez a pois sim... Esses minutos que passou só e
contemplando a ruina de toda a sua vida foram amargos como fél.--Mete o
diabo no sacco!--Tão cansada e tão gasta que nem as feições lhe
reconheço; tão amarga e tão ridicula, tão pois sim, que da D. Restituta
só resta uma expressão de dôr, de dôr mutilada a dizer que sim, sempre
que sim--a dizer a tudo que sim.
--Mete tudo no sacco, mete-o com lagrimas requentadas e o fél da
submissão. Mete a tua alma e a minha alma, gastas de dizerem a tudo que
sim. Mete o diabo no sacco! mete tudo p'ra o sacco, desespero e doirado,
sofreguidão e pois sim!
Balouça ao vento, a uma restea de luar, pendurado n'uma corda, o cadaver
da D. Restituta, que parece dizer pela ultima vez que sim--para que o
filho possa casar com a filha do conselheiro Barata. Balouça ao vento
n'um sexto andar--esquerdo. Morre ignorada e desconhecida quem toda a
vida viveu de codeas, para lhe assegurar o futuro e a assignatura com
brazão e elmo, Monfalcão dos Monfalcões (Sardinha). Da mão crispada
ninguem lhe arranca a photographia de quando elle era pequeno, com o
fardamento da _Escola Academica_, como um guarda-portão em miniatura. A
sombrinha lá está aberta ao lado da cama, por causa da humidade, e pela
janela, aberta sobre o luar, veem-se os montes onde o Santo colerico não
cessa de latir injurias sobre a villa agachada de terror.