Chegou. Abriu a mais bella, a mais fecunda, a mais doirada de todas as
primavéras--a primavéra eterna. Revolveu a terra e cobriu os sêres e as
coisas de flôres, por camadas ininterruptas e successivas, com todas as
côres e todos os entontecimentos, todas as infamias e todas as
tintas--com todos os desesperos. Está aqui tambem presente a floresta
apodrecida... As arvores não se veem, mas estão tambem aqui... Está aqui
a floresta apodrecida, e com ella as fórmas de sonho e as fórmas de dôr
mutilada que vagueiam na profundidade das profundidades, os contactos
viscosos, as mãos geladas ainda em esboço, os sêres cegos e com gritos,
porque não sabem ainda viver, as fórmas hesitantes do pezadelo...
É aqui que corre e escorre o verde, o roxo e o lilaz--os tons violentos
e os tons apagados. Até as arvores são sonhos. Atravessaram o inverno
com sonho contido, com o sonho humilde com que carregam há seculos. E
até esses sonhos se transformaram em realidade. Realisou-se emfim o
milagre: as arvores chegam ao céo.