25 de abril

E o doirado não cessa. Doira o luar e a inepcia, doira a tragedia e o

ridiculo... Teçamos, teçamos todos a nossa teia... A minha prendo-a ás

arvores, ao céo e ás coisas eternas. Todos os sonhos se põem a caminho.

É uma coisa equivoca. É uma coisa desgrenhada e fétida. É o sonho

lastimoso das velhas, o sonho que não chega a ser sonho, onde boiam

mortos informes, com laivos verdes, com tentaculos esbranquiçados que se

prolongam no escuro. Toda a gente fala só. E o luar intoleravel, o luar

indiferente, derrete-se sobre as ameias, sobre a cathedral, sobre os

santos imoveis nos seus nichos. Dão horas, mas as horas acabaram. Coisa

singular: esta gente só fala comsigo mesma, em monologos roucos,

desesperados, infindaveis. Os olhos da D. Fufia ganham em fixidez e

concentração; a D. Herminia começa uma tragedia, que dura uma noite

inteira com a mesma palavra obscena.

A alma sordida, o fluido que envolvia a villa, a atmosphera parda, feita

de pequenos odios, de pequenos interesses e d'habitos concentrados,

encrespa-se e cresce em vagalhões magneticos. Modifica todos os sêres e

abala as paredes mestras. Embebe-se no salitre e roe os santos nos seus

nichos: até na imobilidade entranha desespero. Quedam-se estonteados e

transidos, como se a vida fosse uma mera creação do luar e da loucura...

A alma da villa é sacudida por uma tempestade de espanto. A botica está

deserta, com o bocal, o passaro empalhado, as moscas mortas.

Um momento angustioso não se ouve rumor, depois um tumulto, um clamor,

um ah! A villa toda grita:--Eil-o! aqui está o meu sonho, aqui está como

o trouxe toda a vida, escondido, dorido, fruste, immenso ou humilde;

aqui está a minha verdadeira figura--a figura do Melias e a figura do

Melambes; a velha n'um debate perpetuo, a velha e as suas manias, o

desespero e a Ursula, o grotesco e o pó doirado que não sei d'onde se me

pegou; aquillo de que te rias e eu me ria, e que todos nós escondiamos,

cada vez mais oculto, cada vez mais para dentro, como somiticos... Lá

vae a Adelia, com o chapeu ás tres pancadas, lá vae um logista que

parece Napoleão Bonaparte, e as Souzas armadas de ponto em branco--lá

vae o inferno de luxuria e de egoismo. O muro não existe--derrubaram o

muro.

Nesse momento pezado de angustia todas as mãos se agitam no ar diante da

outra coisa que no silencio e na noite estende os farrapos das azas cada

vez mais disformes. Está sofrega. Cresce, grita, avança direita para

nós. O que se pôz em marcha não vem de fóra, mas de dentro de ti mesmo,

da mais cerrada das noites. Há muitas camadas de mortos. Há-as a legoas

de profundidade e até de lá sobem os gritos. O homem é o mais profundo,

o mais vasto de todos os sepulchros.

Põe este homem vestido em frente d'este homem nu, a fama o credito, a

praça, ao pé desta coisa desordenada que se encarniça e não nos larga, ó

Elias, ó Melias, ó Melambes! A consideração não existe! a praça não

existe! aqui estamos todos bichos em frente de bichos, os que pagam as

lettras e os que teem as lettras protestadas, nós e nós, nós e os

ladrões das estradas, nós vestidos e grotescos, nós nus e tragicos--nós

e o universo monstruoso! Nós correctos e nós disformes, nós e o céo

profundo na sua temerosa realidade. Salta laré, perirone, perirote! Mas

salta com desespero, salta com as tuas eternas explicações, o

subterfugio e o grotesco. Agora não nos servem de nada os relatorios,

nem as razões dispostas como formulas algebricas--agora estamos aqui nós

e o problema desalinhado e feroz, que nos impõe uma solução imediata.

Salta laré, perirone, perirote! Se ella vive mais quinhentos annos lá se

vae o dinheiro por agua abaixo. Peor: se ella remoça lá se vae o nosso

credito na praça. Mas--pergunto--posso porventura deixal-a morrer quando

está nas minhas mãos salval-a? Não sou eu por acaso um homem de bem? Tu

és um homem de bem, eu sou um homem de bem, nós somos todos homens de

bem--depende das circunstancias. Os paes são paes, mas deixam de ser

paes se nos dão cabo de tudo--e da firma. Por outro lado há a contar com

o credito. Pensem n'isto, no credito. O credito pode perder-se de um dia

para o outro, e sem credito um homem não vale nada na praça. Meditem e

atendam. Acima de tudo está o credito. Está talvez acima de Deus, ainda

que a minha consciencia seja religiosa. Sem Deus ainda posso viver, sem

credito não dou um passo na vida.

--Além da firma que nos resta na vida? Fóra da praça não existimos.

Pense que logo, amanhã, hoje mesmo, a nossa mãe remoçada deixa de sêr a

nossa mãe. Que quer o mano fazer? que pode o mano fazer? Destruir por

suas proprias mãos o nosso credito na praça?

Um defronte do outro abanam as respeitaveis cabeças, com calva e risca,

com risca e calva, aquella distinção de porte e de vinco, aquella

ponderação de estilo, aquella correcção de maneiras, aquella seriedade

das seriedades, que a praça honra, que as firmas honram, que a Egreja

honra, e de que até o proprio Deus do céo já está á espera com o palio

meio aberto. A firma Elias & Melias tão correcta, com livros, ripolin

nos caixilhos e nas almas, vê-se descascada até á medula e treme nos

seus fundamentos. Está encalacrada. E o peor é que não são só elles que

estão encalacrados, estamos todos encalacrados. Na verdade o que importa

não é o que tu me dizes: é o que eu digo a mim mesmo... Ó Rinhe como tu

rinhes com dôr, com desespero, n'uma forma pastosa, a que se misturam já

palavras vivas, em logar das phrases dos relatorios e dos bancos!

Decerto te sentes bem no pegajoso, mas por traz não te dá tregoas o

impulso. Neste conflicto delicado só tu vinhas a tempo, ó morte que tão

bem cheiras, e, cumpridas as formalidades do estilo, entregavas-me, com

o testamento, a chave do cofre. Agora esta coisa encarniçada e feroz,

sofrega e imunda, leva-nos a mim e a ti, com desespero e gritos, com as

formulas e o vinco, com a praça e o credito!...

Agora não, D. Bibliotheca das Bibliothecas, já preparada com todos os

requesitos e unguentos para o horror do nada! Agora não! Já tentaram

desligar-te da vida com as palavras unctuosas do ritho e promessas de

outra vida melhor. Que te resta? A vida eterna. Pôço p'ra a vida eterna!

O que tu queres é esta vida, esta insignificancia e estes restos--e está

aqui a morte inexhoravel. Tanta saudade! tanto apêgo! Tudo te doe e do

fundo d'essa miseria e d'essa pelle engelhada vem um gemido baixinho

diante da figura tremenda que não sae de ao pé de ti... Ó carne

putrefacta, como tu te apegas a um resquicio d'esperança, a um só que

seja! O que te custa a largar o brazão na fralda da camisa, o postiço de

toda a tua existencia inutil, o alto da lista de subscriptores--tres

tostões, seis tostões, um quartinho! ó carne fedorenta, ó carne já

preparada para o mausoléo, com a gaveta aberta, latim e agua benta, dois

involucros, um de mogno, outro de chumbo, e o picheleiro á espera!

E ahi os tens sem piedade, inexhoraveis como o destino. Agora não Elias

& Melias, agora não D. Bibliotheca das Bibliothecas, estaes frente a

frente com a realidade e a morte. Salta laré, perirone, perirote!

--Não quero morrer! não me deixem morrer! Chamem os meus filhos, chamem

toda a gente. Não me deixem morrer!

Todos os apetites, todas as sensações que pareciam extinctas, assobiam

como viboras. Horas antes de morrer ainda essa mulher está tão intacta

por dentro como aos vinte annos. Ninguem a pode conter. Quer saltar pela

cama fóra.

--Chamem os meus filhos! chamem os meus filhos!

--Chamem o procurador!

Mas o que ella exprime por palavras, pelo olhar, pelos gestos, é a ancia

de viver.

-- Não, não. Tirem-me para lá esse homem. O que eu quero é viver.

Vê no ultimo desespero a face estupida do procurador dizer-lhe coisas

grotescas:

--Ó minha senhora cheguemo-nos á razão. Seja razoavel.

--Quero viver.

--Temos em primeiro logar a Egreja. Apelo para os seus sentimentos

religiosos, que os teve sempre, e deante dos quaes me curvo

respeitosamente. Apelo...

--Dêm-me o remedio! Quero viver!

--Segundo lembro a V. Ex. que tem sido até agora mãe extremosa dos seus

filhos. Se volta aos vinte annos, pergunto respeitosamente a V. Ex.^a,

Ex.^{ma} senhora, que é que V. Ex.^a é aos seus filhos?

--Quero viver!

--Perdão minha senhora! Esta fortuna tão bem administrada pelo casal de

que tenho sido bastante procurador a que mãos irá emfim parar? Peço-lhe

que reflicta. Peço-lhe que se submeta. Lembro-lhe que estão alli fóra

seus respeitaveis filhos subjugados pela dôr, lembro-lhe a sociedade, e

atrevo-me a lembrar-lhe que não tarda ahi o D. Prior.

Um fio, falta só um fio, e ainda aquella figura grotesca se debruça para

lhe dezer:--V. Ex.^a...

--Fechem as portas! fechem as janelas! fechem tudo!--exclama o honrado

Elias de Mello, com a calva arripiada.

--Não quero morrer!

Tem forças para saltar da cama, para se arrastar até á porta, e toda a

noite no casarão echoam gritos.

Não quero morrer! Um minuto e mais nada. Um minuto e, contido n'esse

minuto, o universo desabalado, a morte, o desespero e o procurador com o

sêlo da lei e a saliva da lei. Tu d'um lado decrepita--e do outro a

sofreguidão cahotica para mastigares com o unico dente que te resta na

bocca. Um minuto e contido n'esse minuto os vivos e os mortos, o teu

phantasma e todos os phantasmas, a realidade e o sonho,--tu ungida e

tingida, nós e nós--nós correctos e grotescos--nós Melias e doirado, nós

Melambes e phrenetico!

Humus · 第 60 / 83 题