As velhas encarniçadas são outras, são velhas em sonho vivo.--Mata!
mata! mata!--Aqui de rastros, anno atraz d'anno, para ser comida!--Aqui
a levar pontapés n'este sitio, aqui a crear rugas e fél!--Pois eu não
fui eu, e agora estou deante d'isto, d'este assombro e d'este
desespero!--Gritam porque se não podem vêr. Gritam porque a realidade e
o sonho tomaram proporções que lhes não cabem nas almas. Gritam porque
não lhe entrevêem o fundo. A D. Penaricia tirou a cuia postiça, e atirou
com a cuia ao chão. Depois fitou os olhos na cuia enrodilhada, e
absorveu-se na cuia de retroz, como se tivesse alli em frente o symbolo
do universo:--Não posso desfazer-me d'isto! não posso desfazer-me
d'isto! Toma! Eu não sou isto, e hei-de estar aqui sufocada a aturar-te
para não morrer á fome. Hei-de ver-me e ver-te e hei-de
dizer:--Jógo!--Hei-de fazer-te as vontades e ver-me tal qual sou, tal
qual era e tal qual hei-de ser?--Á espera de quê, se nem da morte
podemos esperar?--Então este esforço para ter uma alma não se conta?
Este esforço para não andar de rastros como a cobra? Para viver com isto
e com isto? Com esta amargura, o fél, o que é mesquinho e com Deus? Eu
não posso com o que não comprehendo, com o que está por traz de mim, com
o que está a meu lado e com o que tenho de fazer todos os
dias...--Falo!--Falo eu agora!--A tragedia é que eu iludia-me, mentia a
mim mesmo e agora não posso mentir. Não há gritos que te valham e a
ninharia desapareceu do universo. A insignificancia acabou.--O peor
drama--exclama outra--é que eu vejo o que fiz de mim propria.
--A inveja que eu te tenho! a inveja que eu te tive sempre! E tenho que
sorrir para ti, de dizer a tudo que sim!
--Jogue!
--Então eu passei a minha vida a ter paciencia, á espera, passei-a a
mentir e obedecer, e tu a mandares, e agora hei-de continuar a ser
abjecta quinhentos annos, seiscentos annos?
--E eu! o pão que me deste amarguei-o sempre. Cada dia que passava mais
me sabia a zinavre. Não te matei porque não pude!
--Corte!
--Tu não és mais do que eu!
--Ai! Tambem eu, tambem eu tenho a dizer uma coisa. É que eu sabia bem
tudo isto, há que tempos que o sabia!... Mas não sei que era que me
obrigava a fingir. Corto!
Avante! avante! Um cordão de velhas, como um cordão de sentinelas, não
desampara o quarto onde a magestosa Theodora agonisa. Chove. Entre estas
paredes forradas de papel doirado já não se moem as palavras de uso.
Alumia-as o candieiro a escorrer petroleo, e a luz fixa as arestas das
figuras de cerimonia, todas vestidas de preto, a calva d'um homem gordo,
a quem só se veem as mãos esponjosas, os bicos das velhas retesas, cujas
boccas remoem no escuro, a Adelia mais safada e mais sofrega, e o padre
no meio da sala dominando-os a todos. Onde vae o ridiculo da D.
Penaricia, as mesuras da D. Andreza, o riso idiota da D. Idalina, a
langonha da D. Herminia? Parecem forjadas de novo. Até as prégas dos
vestidos cahem como prégas de estatuas. Cada velha resolve que a colica
da Theodora seja a sua ultima colica; em cada velha cresce, augmenta,
trasborda, n'um tumulto, o inferno. Ao saque! ao saque!--É para mim. Eu
é que sou a prima mais chegada.--Eu é que lhe tenho aturado tudo, é a
mim que ella deixa os trezentos contos, os quatrocentos contos, ninguem
sabe o que ella tem.--Nenhuma admite que a magestosa Theodora escape.
Veem de muito longe estas figuras--veem das profundas... Nos olhos da D.
Penaricia há claridades do inferno. Ganharam todas em fixidez e audacia.
O sarcasmo não me chega á bocca, passou-me a vontade de rir.
Desapareceram seculos de paciencia e astucia, surgiram figuras novas.
Para as comprehender pergunto a mim mesmo o que é isto embrulhado n'um
chale, e não me atrevo a contemplal-o. Ridiculo e ferocidade? Uma coisa
sem nome, producto do acaso, ou uma coisa abjecta? Uma alma ou um
resultado de formulas? Está aqui a D. Penaricia e a D. Eulalia ou Deus e
o Diabo? Um mundo novo e um mundo atroz? Estão aqui perguntas vivas e
respostas vivas:--Abra lá essa porta para traz!--Essa porta deita para a
parte prohibida da vida. O mal, suspeitam-no, talvez seja a melhor parte
da vida.--Abram lá essa porta para traz!--Não lhes parece que esperam há
annos, parece-lhes que esperam há seculos, e tem alli deante de si
estateladas, as cortezias que fizeram á velha,--o pois sim que disseram
á velha--os sorrisos com que sorriram á velha--as vontades que fizeram á
velha. São tragedias. Veem de muito longe, d'uma vida sem limites. Em
cada uma se representa um drama atroz, o drama do interesse e do
calculo, o drama da vida. Nuas, as velhas que estão na minha frente, são
infinitas de grotesco e dôr. Duram há seculos. Há seculos que teem
paciencia para viver e para sofrer. A D. Penaricia mente desde os
confins do mundo: representa gritos, mais gritos represados. É um poço
donde só saem ais e mais ais. O dificil é a gente habituar-se a viver
esta vida e a outra vida: carregar com este pezo desde o infinito e
lidar e falar e viver.--Oh morte que tão bem cheiras!...--Bem sei, os
seculos imprimiram-lhes dedadas, os seculos deformaram-nas... Mas agora
estão aqui desesperos em frente de desesperos, e desatam a berrar umas
ás outras:
--Tem paciencia, tem sempre paciencia. Doe-te? tem paciencia; amargas?
tem paciencia...
--Todos os dias da vida, todos os dias da minha vida á espera da morte.
Estou farta! estou farta de despejar bacios, de dizer que sim, de dizer
a tudo que sim, de ser a sombra de mim mesma. Agora está aqui a vida.
Esta vida e todas as vidas. É preciso que ella morra, e se não morre é
preciso matal-a. Ouve senhor padre Ananias, senhor padre unguento,
senhor padre e as suas _comidelas_, senhor padre e o seu inferno?...
Mentira! mentira! Eu propria era uma mentira. E só me aterra a ideia de
acordar tarde, de acordar na morte, com a certeza de que era tudo
mentira e só mentira...
Abrem as boccas desmedidas, fecham logo as boccas desmedidas.
--Bem vê que não posso mais. Eu que mentia não posso mais mentir. Como
hei-de viver?
--Tem paciencia, tem mais paciencia, tem paciencia por todos os seculos
a vir...
Estão alli dispostas a morrer e a matar. Está alli um cordão de velhas
como um cordão de sentinelas á porta do quarto da magestosa Theodora.
Duas, ambas de quico, ambas de mitenes, ambas impenetraveis, trazem na
algibeira o lenço com que hão-de amarrar-lhe os queixos. Todas esperam
que ella se decida a _expedir_. Nenhuma abre o bico, mas apalpam os
vestidos como se trouxessem um punhal escondido. D'um lado as gulas
exasperadas, a hora extrema--chamem o tabelião! chamem o tabelião!--o
testamento, a sorte grande--emfim! emfim!--os chapeus de plumas, o oiro
mexido e remexido, as gavetas arrombadas, as salas do tapete, o vicio e
o goso--do outro a vida nova, o todas as abjecções inutilizadas.
Ó morte que tão bem cheiras, aqui me tens para te servir. Como esta casa
cheira bem! como cheira bem aqui dentro!--Ó morte que tão bem cheiras,
tu dilues o travor de fél e acalmas a acidez da inveja. Resolves tudo,
realisas tudo, os mais ignobeis pensamentos, as mais secretas
aspirações, que nem a Deus se confiam, ó morte que tão bem cheiras!--E
calcando a alma que se atreve, dizem compungidas, por habito
secular:--Coitadinha já tem panella!...
Agora aguenta-te, magestosa Theodora! N'alguns minutos esse craneo
obtuso com uma cuia em cima, tem de luctar com o crêr ou não crêr, com a
vida antiga e a vida que antevê; tem de desfazer a unhadas um edificio
mais vasto que o Colyseu e de deitar abaixo pedra a pedra todas as
pedras que cimentou durante a existencia; tem de se entregar ao sonho
sem capacidade para o sonho; e tem, ainda por cima, de esquecer as
inscripções e as decimas. Para escapar com vida, arrosta com a vida
passada e com a vida futura. Tudo n'ella era imperativo. Decidia por uma
vez: um passo, e é o inferno pela eternidade, o inferno com o sitio
imovel, com o tormento da vista, com o tormento dos ouvidos. Escapar á
morte é fugir á lei de Deus.--E d'um dado puxa por ella a vida, do outro
puxa por ella o inferno--e as velhas lá fóra esperam e desesperam. Sente
as labaredas do sitio imovel por a eternidade das eternidades;
envolve-a, toca-a, engrandece-a tambem o sonho, e o inferno não cessa de
reclamal-a, o inferno que foi o unico deus que temeu n'este valle de
lagrimas. E esse debate esplendido n'uma alma estupida, deixa vestigios
profundos: aquellas raizes não se arrancam sem produzirem buracos. E as
velhas lá fóra esperam, emquanto a magestosa Theodora desata aos gritos,
balouçada--e com a cuia a desfazer-se-lhe--entre a realidade e o sonho,
entre o inferno e a vida nova que começa. Mas como a estupida vida de
caldo e pão que levou antes de enriquecer, lhe deu fibra e caracter e
não sei que de solido e amargo, a velha póde salvar-se, com um resto de
chale e a cuia amolgada. A velha resiste, e ao abrir a porta exclama
para o cordão das outras estupefactas:
--Atravessei viva o inferno. Agora nem do diabo tenho medo!