Segunda noite de luar, segunda noite de espanto. As arvores são
phantasmas--os homens são phantasmas. Á noite a velha cerejeira é uma
aparição. A mesma febre devora no quintal friorento as macieiras anãs. O
respeitavel Elias de Mello recusa reconhecer-se: assiste com uivos ao
desmoronar da propria respeitabilidade. Chegou a primavéra. Deita flôr a
D. Leocadia, a D. Herminia e a D. Penaricia. Todas as arvores do monte
se consomem de sonho.
Primavéra entontecida de gritos e rancôres, É a villa feita sonho; são
aspirações ridiculas, restos trôpegos que procuram adaptar-se. Para
resistir forjaram a mentira, forjaram a mania, forjaram a abjecção, e
essas pequenas coisas sem existencia chegaram a ter um logar mais
importante que muitas outras a que chamamos reaes.
Phisionomias de dôr, phisionomias concentradas, phisionomias de
desespero e paixão, vão aparecendo sob cada phisionomia, e todos deparam
com sentimentos e palavras que nunca tinham encontrado.--Dez annos,
vinte annos de galeras, deixa-me, vae-te, some-te!--O homem roe dentro
do homem: criam-se olhos que veem na obscuridade. Começam a distinguir
na massa confusa, no cahos, nas duvidas, e descem a profundidades que
não lhe estavam destinadas. Não é só o homem d'um momento, é uma série
de figuras ainda por crear: é o homem do futuro.
Mais braços na monstruosa arvore de sonho, mais braços que atingem o
céo, mais tinta forjada de desespero. A propria noite escorre pus
doirado...
Na pequena villa já havia, como em todas as almas, um Robespierre, um
cadafalso, um Shylock interior, odios, ganancia e uma serigaita a
cantar. O quinhão é igual para todos--o que pode é estar sepultado. A
questão era de proporções: os valores já não estão na mesma escala.
Desapareceu o ridiculo. Pensem n'isto: desapareceu o ridiculo. Num
minuto acordou toda a peste, sobresaltou-se toda a peste, todo o ferro
velho, toda a mania resignada á força, comprimida á força, levada á
força para a velhice e para a morte. Todas as velhas se ergueram,
impelidas pela mesma mola. Todo o scenario era scenario, toda a regra
regra, todas as cerimonias que nos ensinam, se conservavam ainda de pé,
quando o mesmo furacão revolveu, arrastou tudo e levou tudo adiante de
si. Tudo se varreu no mesmo instante, todos largamos a scena no mesmo
instante. Todos, com velha baba a escorrer, com velhos tumores abertos,
com velhas dentaduras postiças, o mistiforio e a obscuridade, o pó
inutil que largaste pelo caminho até chegar á velhice, a vida consciente
e a velha Eulalia, cuja existencia é um subterraneo e que mal sabe
falar, todos ficámos estonteados...
A villa entrou em plena primavéra. Eis a D. Procopia, eis a mulher da
esfrega. Aqui estão alimentadas a mentira, tendo passado a vida no
testamento, na cortezia e na colica; aqui está o topete, a filha para
casar e as faltas de dinheiro--aqui estão todas enrodilhadas de pavor,
mas cheias de decisão deante do céo e do inferno. Já abrem aquellas
ventas. Aquillo cheira-lhes a coisas prohibidas, que passaram a vida a
desejar e a temer. Aquillo cheira-lhe ao suspeito e ao reles. Aquillo
cheira-lhes bem. De pupilas dilatadas embebem-se no sonho. Até as pennas
velhas se encrespam, até nos restos de chales sem pello, o pello se põe
de pé.
Todos nós somos arvores. Há que tempos que deitamos flôr pelo lado de
dentro. Fomos sempre construcções vivas, arvores estranhas que
bracejavam para o interior do tronco, ramos e tinta, mais ramos
desmedidos e tinta, revestidos de casca pelo lado de fóra. Foi por
dentro que crescemos, e só por dentro nos era licito crescer, cada vêz
mais alto até a morte intervir.
Até as arvores estranhas, até as arvores só tronco, que metiam os ramos
e a tinta para o interior, bracejam á custa de gritos ramos e tinta,
ramos desmedidos e tinta para o lado de fóra.
Este é nosso sonho, esta é nossa vida oculta, nossa vida de desespero,
nosso sonho desgrenhado e immenso, doirado e immenso, amargo e immenso.
Bem sei que isto doe. Bem sei que isto me custa a encontrar e a
reconhecer n'esta noite de luar e espanto. Bem sei que isto de sêr homem
é d'uma grande responsabilidade. Tem prós e contras terriveis. Tambem
sei que o que nos separa dos bichos não é a inteligencia: a inteligencia
é o menos. O que nos separa dos bichos é o esforço dos vivos e dos
mortos, o compromisso de aceitarmos a mentira como se fôsse verdade. O
que nos mantem n'este inferno é a architectura artificial, é o facto de
não nos vermos tal qual somos, baseados n'uma convenção que julgamos
indestructivel. De não nos vermos a nós e de não os vermos a elles.
Porque o homem por dentro é desconforme. É elle e todos os mortos. É uma
sombra desmedida. Encerra em si a vastidão do universo. Agora somos
phantasmas, somos afinal só phantasmas, e o que construimos não cabe
entre as quatro paredes de materia.
Ouvel-os? ouvel-os? Passaram seculos e seculos no fundo da terra.
Levaram seculos a comprehender que foram iludidos. Redobraram seculos de
desespero no interior das cóvas, até se compenetrarem de que todo o
sacrificio foi inutil, de que toda a dôr foi inutil. Ouvel-os com dôr e
desespero?...
Queira ou não queira tenho de dar o passo, tenho de me desentranhar em
amargura e sonho. Bem vês, a insignificancia vae durar mil annos, a
vulgaridade e a ternura teem seculos deante de si, de forma que tanto me
peza uma como a outra. Abafo. Tenho de durar mil annos, tenho de durar
dois mil annos, com estas coisas deante de mim, hoje, amanhã, sempre. É
escusado luctar. Emquanto era a razão que me guiava, andava ás
apalpadelas: agora é o inconsciente e cessaram de todo as duvidas. Tudo
se ilumina a outra claridade. Tudo me é permitido. Respiro d'outra
maneira, olho d'outra maneira o que me atravanca o caminho. Toda a
pergunta obtem logo resposta imediata. Todos os sonhos estão de pé para
mil annos e um dia.--Ouvel-os? ouves o grito dos mortos?...--A outra
coisa não nos dá treguas. Vira-nos e revira-nos. Mete-se como piolho em
costura. Põe-nos a contas com a questão das questões, com a questão
insoluvel. Tudo que estava n'um plano secundario passou para um plano
principal. O meu interesse, o teu interesse, ó D. Penaricia, é matal-a
sem que se venha a saber. Escusas de arreganhar os dentes descarnados
pela gengivite expulsiva, esse passo tens de o dar contra o que se chama
a tua consciencia. Ergue a cabeça D. Lambisgoia e recorda-te que já
foste féra. Podêmos suprimil-a sem remorsos. Matar é uma palavra e mais
nada. Por causa d'uma palavra nos arriscamos, é certo, a ir para a cóva
inuteis e grotescos, com sonhos remoidos durante noites e noites
gelatinosas como velhas mestras de piano que tocam sempre as mesmas
escalas. Mas hoje tudo se reduz a metêl-a n'um jazigo selado e chumbado,
com a chave entregue ao juiz de direito. Põe em mim teus olhos turvos, ó
D. Desideria e reconhece-te e reconhece-me. O que estava por baixo está
agora por cima. Á roda da meza do jogo nunca pensamos senão em anulal-a.
O remorso não existe, o crime não existe, a formula não existe. O passo
nem tu o deste nem eu o dei presos a algumas palavras convencionaes.
Agora estamos fartos. Sim, sim, podes matal-a á tua vontade. És um
producto fetido do acaso. Não duvides. Se Elle existe, nem suspeita
sequer que existimos. Com que direito a esta luz que nos ilumina de
chapa, queres que eu me subordine e submeta? Ou não existindo ainda
exiges que proceda como se existisses?... Não duvides. Nada. Só algumas
palavras formaram a tua consciencia. Duas palavras e o habito, duas
palavras e a regra. Posso tudo o que quero. Pezo tudo, calculo tudo
sobre esta base: o que me convem e o que não me convem. Eu sou eu. O
egoismo é a suprema lei da vida. A honra não é essencial. Ao contrario o
meu interesse é mentir, o meu interesse é trahir-te. É indiscutivel que
tenho devêres para comigo, mas não é indiscutivel que tenha devêres para
comtigo. Primeiro eu, depois eu. Todos os crimes me são permitidos com
tanto que se não venham a saber. Serves-me ou não me serves? És meu
escravo ou meu senhor? Serás tu meu inimigo?...
Que riso que nunca vi (é a cóva que se ri)! que bocca que nunca vi e que
me cheira a defunto! Um passo ainda, outro passo, velhas lambisgoias, D.
Insolencia e D. Ninharia. Chegou a primavéra. Vamos entrar n'outra vida
sem Deus e sem regras, n'outro mistiforio que o instincto nos impõe, ó
D. Telles das Reles de Meireles, e talvez seja essa a tranquibernia
suprema porque suspiramos sempre. Vamos vêr que proporções atinge a
langonha e a D. Herminia, o fél e a D. Penaricia. Acabaram os escrupulos
e a lucta constante que nos deixava esfarrapados. Tenho-vos aqui na
minha frente com as boccas murchas de mentir, a suar grotesco e a gritar
de desespero; tenho-vos aqui só bichos em frente da necessidade fatal,
da verdade iniludivel, nus uns ao lado dos outros, nus e reles, com o
esplendor cada vez maior, cada vez mais sôfrego deante de nós. Estamos
promptos. Estamos fartos. O que resta é o sonho de pé, só sonho e
doirado, fétido e doirado, cahotico e doirado. Está rôto o contracto.
A primavéra atingiu o auge nos vivos e nos mortos. Tinta sobre tinta,
dôr sobre dôr. Resuscitam todas as primavéras, as primavéras
successivas, as primeiras primavéras em que a ternura se confunde com a
fealdade e a fealdade é já ternura, outras primavéras, e outras oiro e
verde, em que a tinta escorre do negrume. O que custou á arvore a
transformar-se em sonho, á arvore dorida com a flôr recalcada, até se
desentranhar em emoção!... Mais outras primavéras phreneticas, mais
outras timidas e delicadas, mais outras que não chegaram a abrir cobrem
os vivos e os mortos...
Mais braços na monstruosa arvore do sonho, mais braços que atingem o
céo. E ahi estão todas as flôres e todos os gritos, a tentativa ridicula
da flôr e a flôr esbraseada das noites sobre noites de concentração.
Todos anciamos por este dia. Nós e os outros do fundo da sepultura
contamos sempre com a primavéra eterna--nós e a cohorte muda cujo
esforço senti sempre, muda e desesperada, cega e desesperada. Gritos que
vem de longe, expressões mutiladas que tentam impor-se. Este sonho não
era só meu. Arredei-o e pegou-me fuligem. Trouxe-o n'um cantinho do meu
sêr como uma coisa prohibida. Nunca me atrevi a olhal-o frente a frente,
até que surgiu das profundas, cahotico e doirado, de dôr e de restos,
coçado e doirado. Pertence-me e pertence-te. Vem do céo e do inferno. É
nosso e dos mortos. É o patrimonio da vida, e do tumulo.
E os mortos estão arrependidos! os mortos estão arrependidos!