5 de abril

Segunda noite de luar, segunda noite de espanto. As arvores são

phantasmas--os homens são phantasmas. Á noite a velha cerejeira é uma

aparição. A mesma febre devora no quintal friorento as macieiras anãs. O

respeitavel Elias de Mello recusa reconhecer-se: assiste com uivos ao

desmoronar da propria respeitabilidade. Chegou a primavéra. Deita flôr a

D. Leocadia, a D. Herminia e a D. Penaricia. Todas as arvores do monte

se consomem de sonho.

Primavéra entontecida de gritos e rancôres, É a villa feita sonho; são

aspirações ridiculas, restos trôpegos que procuram adaptar-se. Para

resistir forjaram a mentira, forjaram a mania, forjaram a abjecção, e

essas pequenas coisas sem existencia chegaram a ter um logar mais

importante que muitas outras a que chamamos reaes.

Phisionomias de dôr, phisionomias concentradas, phisionomias de

desespero e paixão, vão aparecendo sob cada phisionomia, e todos deparam

com sentimentos e palavras que nunca tinham encontrado.--Dez annos,

vinte annos de galeras, deixa-me, vae-te, some-te!--O homem roe dentro

do homem: criam-se olhos que veem na obscuridade. Começam a distinguir

na massa confusa, no cahos, nas duvidas, e descem a profundidades que

não lhe estavam destinadas. Não é só o homem d'um momento, é uma série

de figuras ainda por crear: é o homem do futuro.

Mais braços na monstruosa arvore de sonho, mais braços que atingem o

céo, mais tinta forjada de desespero. A propria noite escorre pus

doirado...

Na pequena villa já havia, como em todas as almas, um Robespierre, um

cadafalso, um Shylock interior, odios, ganancia e uma serigaita a

cantar. O quinhão é igual para todos--o que pode é estar sepultado. A

questão era de proporções: os valores já não estão na mesma escala.

Desapareceu o ridiculo. Pensem n'isto: desapareceu o ridiculo. Num

minuto acordou toda a peste, sobresaltou-se toda a peste, todo o ferro

velho, toda a mania resignada á força, comprimida á força, levada á

força para a velhice e para a morte. Todas as velhas se ergueram,

impelidas pela mesma mola. Todo o scenario era scenario, toda a regra

regra, todas as cerimonias que nos ensinam, se conservavam ainda de pé,

quando o mesmo furacão revolveu, arrastou tudo e levou tudo adiante de

si. Tudo se varreu no mesmo instante, todos largamos a scena no mesmo

instante. Todos, com velha baba a escorrer, com velhos tumores abertos,

com velhas dentaduras postiças, o mistiforio e a obscuridade, o pó

inutil que largaste pelo caminho até chegar á velhice, a vida consciente

e a velha Eulalia, cuja existencia é um subterraneo e que mal sabe

falar, todos ficámos estonteados...

A villa entrou em plena primavéra. Eis a D. Procopia, eis a mulher da

esfrega. Aqui estão alimentadas a mentira, tendo passado a vida no

testamento, na cortezia e na colica; aqui está o topete, a filha para

casar e as faltas de dinheiro--aqui estão todas enrodilhadas de pavor,

mas cheias de decisão deante do céo e do inferno. Já abrem aquellas

ventas. Aquillo cheira-lhes a coisas prohibidas, que passaram a vida a

desejar e a temer. Aquillo cheira-lhe ao suspeito e ao reles. Aquillo

cheira-lhes bem. De pupilas dilatadas embebem-se no sonho. Até as pennas

velhas se encrespam, até nos restos de chales sem pello, o pello se põe

de pé.

Todos nós somos arvores. Há que tempos que deitamos flôr pelo lado de

dentro. Fomos sempre construcções vivas, arvores estranhas que

bracejavam para o interior do tronco, ramos e tinta, mais ramos

desmedidos e tinta, revestidos de casca pelo lado de fóra. Foi por

dentro que crescemos, e só por dentro nos era licito crescer, cada vêz

mais alto até a morte intervir.

Até as arvores estranhas, até as arvores só tronco, que metiam os ramos

e a tinta para o interior, bracejam á custa de gritos ramos e tinta,

ramos desmedidos e tinta para o lado de fóra.

Este é nosso sonho, esta é nossa vida oculta, nossa vida de desespero,

nosso sonho desgrenhado e immenso, doirado e immenso, amargo e immenso.

Bem sei que isto doe. Bem sei que isto me custa a encontrar e a

reconhecer n'esta noite de luar e espanto. Bem sei que isto de sêr homem

é d'uma grande responsabilidade. Tem prós e contras terriveis. Tambem

sei que o que nos separa dos bichos não é a inteligencia: a inteligencia

é o menos. O que nos separa dos bichos é o esforço dos vivos e dos

mortos, o compromisso de aceitarmos a mentira como se fôsse verdade. O

que nos mantem n'este inferno é a architectura artificial, é o facto de

não nos vermos tal qual somos, baseados n'uma convenção que julgamos

indestructivel. De não nos vermos a nós e de não os vermos a elles.

Porque o homem por dentro é desconforme. É elle e todos os mortos. É uma

sombra desmedida. Encerra em si a vastidão do universo. Agora somos

phantasmas, somos afinal só phantasmas, e o que construimos não cabe

entre as quatro paredes de materia.

Ouvel-os? ouvel-os? Passaram seculos e seculos no fundo da terra.

Levaram seculos a comprehender que foram iludidos. Redobraram seculos de

desespero no interior das cóvas, até se compenetrarem de que todo o

sacrificio foi inutil, de que toda a dôr foi inutil. Ouvel-os com dôr e

desespero?...

Queira ou não queira tenho de dar o passo, tenho de me desentranhar em

amargura e sonho. Bem vês, a insignificancia vae durar mil annos, a

vulgaridade e a ternura teem seculos deante de si, de forma que tanto me

peza uma como a outra. Abafo. Tenho de durar mil annos, tenho de durar

dois mil annos, com estas coisas deante de mim, hoje, amanhã, sempre. É

escusado luctar. Emquanto era a razão que me guiava, andava ás

apalpadelas: agora é o inconsciente e cessaram de todo as duvidas. Tudo

se ilumina a outra claridade. Tudo me é permitido. Respiro d'outra

maneira, olho d'outra maneira o que me atravanca o caminho. Toda a

pergunta obtem logo resposta imediata. Todos os sonhos estão de pé para

mil annos e um dia.--Ouvel-os? ouves o grito dos mortos?...--A outra

coisa não nos dá treguas. Vira-nos e revira-nos. Mete-se como piolho em

costura. Põe-nos a contas com a questão das questões, com a questão

insoluvel. Tudo que estava n'um plano secundario passou para um plano

principal. O meu interesse, o teu interesse, ó D. Penaricia, é matal-a

sem que se venha a saber. Escusas de arreganhar os dentes descarnados

pela gengivite expulsiva, esse passo tens de o dar contra o que se chama

a tua consciencia. Ergue a cabeça D. Lambisgoia e recorda-te que já

foste féra. Podêmos suprimil-a sem remorsos. Matar é uma palavra e mais

nada. Por causa d'uma palavra nos arriscamos, é certo, a ir para a cóva

inuteis e grotescos, com sonhos remoidos durante noites e noites

gelatinosas como velhas mestras de piano que tocam sempre as mesmas

escalas. Mas hoje tudo se reduz a metêl-a n'um jazigo selado e chumbado,

com a chave entregue ao juiz de direito. Põe em mim teus olhos turvos, ó

D. Desideria e reconhece-te e reconhece-me. O que estava por baixo está

agora por cima. Á roda da meza do jogo nunca pensamos senão em anulal-a.

O remorso não existe, o crime não existe, a formula não existe. O passo

nem tu o deste nem eu o dei presos a algumas palavras convencionaes.

Agora estamos fartos. Sim, sim, podes matal-a á tua vontade. És um

producto fetido do acaso. Não duvides. Se Elle existe, nem suspeita

sequer que existimos. Com que direito a esta luz que nos ilumina de

chapa, queres que eu me subordine e submeta? Ou não existindo ainda

exiges que proceda como se existisses?... Não duvides. Nada. Só algumas

palavras formaram a tua consciencia. Duas palavras e o habito, duas

palavras e a regra. Posso tudo o que quero. Pezo tudo, calculo tudo

sobre esta base: o que me convem e o que não me convem. Eu sou eu. O

egoismo é a suprema lei da vida. A honra não é essencial. Ao contrario o

meu interesse é mentir, o meu interesse é trahir-te. É indiscutivel que

tenho devêres para comigo, mas não é indiscutivel que tenha devêres para

comtigo. Primeiro eu, depois eu. Todos os crimes me são permitidos com

tanto que se não venham a saber. Serves-me ou não me serves? És meu

escravo ou meu senhor? Serás tu meu inimigo?...

Que riso que nunca vi (é a cóva que se ri)! que bocca que nunca vi e que

me cheira a defunto! Um passo ainda, outro passo, velhas lambisgoias, D.

Insolencia e D. Ninharia. Chegou a primavéra. Vamos entrar n'outra vida

sem Deus e sem regras, n'outro mistiforio que o instincto nos impõe, ó

D. Telles das Reles de Meireles, e talvez seja essa a tranquibernia

suprema porque suspiramos sempre. Vamos vêr que proporções atinge a

langonha e a D. Herminia, o fél e a D. Penaricia. Acabaram os escrupulos

e a lucta constante que nos deixava esfarrapados. Tenho-vos aqui na

minha frente com as boccas murchas de mentir, a suar grotesco e a gritar

de desespero; tenho-vos aqui só bichos em frente da necessidade fatal,

da verdade iniludivel, nus uns ao lado dos outros, nus e reles, com o

esplendor cada vez maior, cada vez mais sôfrego deante de nós. Estamos

promptos. Estamos fartos. O que resta é o sonho de pé, só sonho e

doirado, fétido e doirado, cahotico e doirado. Está rôto o contracto.

A primavéra atingiu o auge nos vivos e nos mortos. Tinta sobre tinta,

dôr sobre dôr. Resuscitam todas as primavéras, as primavéras

successivas, as primeiras primavéras em que a ternura se confunde com a

fealdade e a fealdade é já ternura, outras primavéras, e outras oiro e

verde, em que a tinta escorre do negrume. O que custou á arvore a

transformar-se em sonho, á arvore dorida com a flôr recalcada, até se

desentranhar em emoção!... Mais outras primavéras phreneticas, mais

outras timidas e delicadas, mais outras que não chegaram a abrir cobrem

os vivos e os mortos...

Mais braços na monstruosa arvore do sonho, mais braços que atingem o

céo. E ahi estão todas as flôres e todos os gritos, a tentativa ridicula

da flôr e a flôr esbraseada das noites sobre noites de concentração.

Todos anciamos por este dia. Nós e os outros do fundo da sepultura

contamos sempre com a primavéra eterna--nós e a cohorte muda cujo

esforço senti sempre, muda e desesperada, cega e desesperada. Gritos que

vem de longe, expressões mutiladas que tentam impor-se. Este sonho não

era só meu. Arredei-o e pegou-me fuligem. Trouxe-o n'um cantinho do meu

sêr como uma coisa prohibida. Nunca me atrevi a olhal-o frente a frente,

até que surgiu das profundas, cahotico e doirado, de dôr e de restos,

coçado e doirado. Pertence-me e pertence-te. Vem do céo e do inferno. É

nosso e dos mortos. É o patrimonio da vida, e do tumulo.

E os mortos estão arrependidos! os mortos estão arrependidos!

Humus · 第 58 / 83 题