15 de março

Com que saudades me aparto da mentira! Dos nadas, das pequenas coisas

que dão sabôr á vida. Já reparaste que são as pequenas coisas da vida

que nos fazem chegar as melhores lagrimas aos olhos? Na natureza os

ultimos dias d'outomno que se despedem de nós com saudade, o oiro

humido, o ultimo sol nas fôlhas molhadas; as noites cheias de estrellas,

em que se adivinham outras estrellas ainda; a ternura que não tem

existencia real, a sensação que passou por nós n'um segundo, sem deixar

vestigios; e as horas que creamos, esquecidos e penetrados um do outro,

ao pé do lume, já sumidas tambem na voragem. Nada--tudo. A tua expressão

em certos momentos, em que uma figura transparece sob outra figura, como

se me fôsse dado contemplar, n'um rapido instante, a tua alma

limpida--todos os sentimentos que geramos de ilusão, de sonho e de

tristeza. Tudo e nada.

Agora a vida é amarga. Acabou a saudade e este sabôr amargo é o sabôr da

vida nova que começa.

Até hoje bastava uma palavra tua para me prender, ou a ternura que os

teus olhos exprimiam. Um fio detinha o meu horrivel pensamento. Tu

sorrias... Um sorriso e mais nada, ternura e mais nada. Uma forma

transitoria, sonho e mais nada.

Das estrellas a luz phosphorescente envolvia o mundo. A noite tinha é

certo negrumes profundos e espaços tão negros, que n'elles só morava o

vacuo, mas no silencio a vida das estrellas estava mais perto do meu

coração. A impressão que me sufoca deante da eternidade sem limites e da

duração da vida astral, misturava-se a ternura de teus olhos, que me

faziam ascender do subterraneo para a luz, que me ensinavam a soletrar o

_abc_ do céo, que antes de mim, na vida ephemera, outros tentaram

decifrar, levando-o impresso na alma para o tumulo.

Ilusoria irrisão. Tudo isto não existe, ou só existe como agitação e

desespero frenetico. Tudo isto desaba há milhares d'annos n'uma queda

infinita, n'um grito que nunca cessa nem echôa. Que desapareças amanhã e

as mesmas estrellas indiferentes luzirão no céo, o mesmo impeto de vida

galopará no espaço. Só os teus olhos não procurarão os meus cheios de

sofreguidão e espanto... Arredo a tua figura, a figura palida que teima

em me acompanhar sem palavra, a figura transida e palida de que desvio o

olhar. Encontrei-te n'outra luz, n'outra vida, n'outro mundo talvez, e

os teus olhos tristes enchem-me de inquietação e terrôr. Tu não existes!

tu não existes! Escusas de soluçar. Não te tolero. Não sei quem és e

conheço-te. Tens vivido na minha companhia, e és uma fórma transitoria e

mais nada, um sorriso de ternura e mais nada.

Espera... Quantas vezes me tens confessado, sufocada de lagrimas, que te

vem, não sabes d'onde, uma vontade do fugir pelo mundo fóra para onde

ninguem te conheça, deixando tudo, e abandonando tudo--fugindo a ti

propria?... Para isso bastou aquella folha doirada, que o primeiro

arripio de vento léva sem destino. É essa mesma sensação que todos

experimentamos a certas horas em que o universo se nos afigura

monstruoso e inutil, com uma unica certeza--a de caminharmos todos,

atravez da incoherencia, para a morte. Felizmente essa impressão dura um

segundo. Num segundo todos ouvimos os passos da morte.

Humus · 第 55 / 83 题