Com que saudades me aparto da mentira! Dos nadas, das pequenas coisas
que dão sabôr á vida. Já reparaste que são as pequenas coisas da vida
que nos fazem chegar as melhores lagrimas aos olhos? Na natureza os
ultimos dias d'outomno que se despedem de nós com saudade, o oiro
humido, o ultimo sol nas fôlhas molhadas; as noites cheias de estrellas,
em que se adivinham outras estrellas ainda; a ternura que não tem
existencia real, a sensação que passou por nós n'um segundo, sem deixar
vestigios; e as horas que creamos, esquecidos e penetrados um do outro,
ao pé do lume, já sumidas tambem na voragem. Nada--tudo. A tua expressão
em certos momentos, em que uma figura transparece sob outra figura, como
se me fôsse dado contemplar, n'um rapido instante, a tua alma
limpida--todos os sentimentos que geramos de ilusão, de sonho e de
tristeza. Tudo e nada.
Agora a vida é amarga. Acabou a saudade e este sabôr amargo é o sabôr da
vida nova que começa.
Até hoje bastava uma palavra tua para me prender, ou a ternura que os
teus olhos exprimiam. Um fio detinha o meu horrivel pensamento. Tu
sorrias... Um sorriso e mais nada, ternura e mais nada. Uma forma
transitoria, sonho e mais nada.
Das estrellas a luz phosphorescente envolvia o mundo. A noite tinha é
certo negrumes profundos e espaços tão negros, que n'elles só morava o
vacuo, mas no silencio a vida das estrellas estava mais perto do meu
coração. A impressão que me sufoca deante da eternidade sem limites e da
duração da vida astral, misturava-se a ternura de teus olhos, que me
faziam ascender do subterraneo para a luz, que me ensinavam a soletrar o
_abc_ do céo, que antes de mim, na vida ephemera, outros tentaram
decifrar, levando-o impresso na alma para o tumulo.
Ilusoria irrisão. Tudo isto não existe, ou só existe como agitação e
desespero frenetico. Tudo isto desaba há milhares d'annos n'uma queda
infinita, n'um grito que nunca cessa nem echôa. Que desapareças amanhã e
as mesmas estrellas indiferentes luzirão no céo, o mesmo impeto de vida
galopará no espaço. Só os teus olhos não procurarão os meus cheios de
sofreguidão e espanto... Arredo a tua figura, a figura palida que teima
em me acompanhar sem palavra, a figura transida e palida de que desvio o
olhar. Encontrei-te n'outra luz, n'outra vida, n'outro mundo talvez, e
os teus olhos tristes enchem-me de inquietação e terrôr. Tu não existes!
tu não existes! Escusas de soluçar. Não te tolero. Não sei quem és e
conheço-te. Tens vivido na minha companhia, e és uma fórma transitoria e
mais nada, um sorriso de ternura e mais nada.
Espera... Quantas vezes me tens confessado, sufocada de lagrimas, que te
vem, não sabes d'onde, uma vontade do fugir pelo mundo fóra para onde
ninguem te conheça, deixando tudo, e abandonando tudo--fugindo a ti
propria?... Para isso bastou aquella folha doirada, que o primeiro
arripio de vento léva sem destino. É essa mesma sensação que todos
experimentamos a certas horas em que o universo se nos afigura
monstruoso e inutil, com uma unica certeza--a de caminharmos todos,
atravez da incoherencia, para a morte. Felizmente essa impressão dura um
segundo. Num segundo todos ouvimos os passos da morte.