Há em mim varias figuras. Quando uma fala a outra está calada. Era
suportavel. Mas agora não: agora põem-se a falar ao mesmo tempo.
Sintiste-o avançar, pouco e pouco, no silencio? Sentiste o teu
pensamento disforme avançar mais um passo no silencio? É porventura
possivel que o que se passa no mais recondito do teu sêr, alguem o
presinta e o ouça avançar no silencio?
Perpetuo combate a que bem quero pôr termo e que só tem um termo--a
cóva. Eu e o outro--eu e o outro... E o outro arrasta-me, leva-me,
aturde-me. Perpetuo debate a que não consigo fugir, e de que sahimos
ambos esfarrapados, á espera que recomece--agora, logo, d'aqui a
bocado--porque só essa lucta me interessa até ao amago... Estou prompto!
Todos nós pelo pensamento somos capazes de hecatombes. Detinha-nos a
vida artificial, uma architectura mais temerosa que todas as cathedraes
do globo postas umas em cima das outras.
Se me esqueço o meu pensamento disforme deita-se logo a caminho...
Vejo-o caminhar e não o posso deter. Por mais esforços que faça não o
posso deter. É como se eu creasse figuras, que se puzessem logo a
caminho. Todos os phantasmas se dissolviam á luz da madrugada. Agora
estas figuras teem de cumprir um destino. E pergunto a mim mesmo
baixinho se na verdade eu não desejo que avancem um passo--e outro passo
ainda...
Tinha medo de aparecer no outro mundo deformado e grotesco, e agora
tanto faz entrar na morte repulsivo, como transfigurado e só dôr.
Olhava este momento que ia desaparecer, com saudade--porque nunca mais
se repetiria no mundo. Nunca mais outro segundo igual nem na luz, nem
vibração, nem na ternura... O momento em que me sorriste, balouçado
entre o nada e o nada, nunca mais se tornaria a repetir, identico e
completo, em todos os seculos a vir! Estava alli a morte--está aqui a
vida. Agora pergunto a mim mesmo se te deixo morrer; e a pergunta
obsidia-me e exige resposta imediata. Sei tudo, tudo o que me podes
dizer--já eu o disse a mim proprio. Até hoje falava a alguma coisa que
me ouvia, hoje só interrogo a mudez, a mim mesmo me interrogo.
Tu luctas contra esta figura que dentro de ti te impele;--tu queres
fugir de ti proprio, queres separar-te de ti mesmo, e não podes. Só
consegues, á custa de esforços desesperados, manteres-te dentro da
formula ou da mascara que escolheste, e arredar o crime e a loucura, e
fingir e sorrir; tu podeste iludir o phantasma, seguindo pelo caminho
trilhado. Iludiste os outros e a ti proprio te iludiste. Agora não.
Agora sentes-te capaz de tudo. As grandes sombras que te entravaram a
vida, eil-as reduzidas a dois punhados de cinza. Valia a pena a lucta? O
homem é sempre a mesma lama, os mesmos despeitos e os mesmos rancôres,
com resquicios d'oiro á mistura. O que pode fazer é dominal-os. Mas sae
sempre da lucta esfarrapado e perguntando a si mesmo baixinho:--Valeu a
pena? valeu a pena?--Depois que se venceu que lhe resta? Elle e o vacuo,
elle e a saudade da lama que fazia parte integrante do seu sêr. Ficou
diminuido. A escuma tambem tem os seus direitos.
Há entre as figuras que compõem o meu sêr, duas encarniçadas uma contra
a outra. Há uma que crê, outra que não crê. Há uma capaz de todas as
cobardias, outra capaz de todas as audacias. Há uma prompta para todos
os rasgos e outra que a observa e comenta.
Mas há entre as figuras que compõem o meu sêr, uma que está calada. É a
peor. Olha para mim e basta olhar para mim para que eu estremeça.--Por
muito que me accuses, já eu me tenho accusado muito mais!
Olhas-me e eu estremeço. A sofreguidão dos teus olhos, a sofreguidão
verde dos teus olhos, que me reclamam como um abysmo de dôr e de espanto
onde encontro emfim a vida!
Se te quizesse descrever, não te podia descrever. Sei que me pertences e
que te pertenço.
Talvez as almas fossem mal conduzidas, talvez já adivinhassemos o
universo e depois o esquecessemos. Creio que se não complicassemos a
vida e a dirigissemos n'outro sentido, presentiriamos tudo e
resolveriamos tudo. Há em todas as existencias alguns segundos em que
sentimos o contacto do mysterio--de que nos separam logo leguas de
impenetrabilidade.
Alguma coisa porem se interessa pela minha dôr. Todas as noites grito,
todas as noites sufoco os gritos. Todas as noites me debato com o mesmo
problema e a mesma angustia. E há uma coisa que assiste a este
espectaculo e se interessa, que cada vez me mergulha mais fundo para que
eu me despedace--e se interessa...