Agora não contenho a multidão que constitue a minha alma. Nunca estou só
e ouço-os que clamam cada vêz mais alto. Sinto phantasmas até á raiz da
vida. Minha alma é um tablado onde todos os mortos se degladiam.
Ouço-os! ouço-os! são impulsos, são sêres que actuam e falam como se eu
não existisse. N'esses momentos sou apenas um espectador que os vejo a
caminho sem me poder defender. Ouço-os! ouço-os!
Se Deus não existe e a outra vida não existe--se disponho só d'esta
vida, os deveres que tenho a cumprir são apenas os do instincto. Só
tenho deveres emquanto não me pezam. Não te deixes iludir.
Era sempre com secreta irritação que eu fazia o bem. O bem contraria.
Fugi sempre a este problema... Era sempre n'um impulso de paixão--e com
todo o meu sêr, que eu fazia o mal... O sacrificio, a piedade, a bondade
só teem logar no mundo como culturas artificiaes.
Repete isto: a bondade é um sentimento falso e o mais artificial de
todos os sentimentos.
Ah, a ironia... Há de te servir agora de muito a ironia!
O dever acabou, o estupido dever, o dever que me dominava, a vida com um
pezo de chumbo, o dever de fazer todos os dias as mesmas coisas inuteis.
Respiro.
Sim, a amizade... Falemos aqui baixinho um com o outro. Essa amizade era
o meu interesse ou o teu interesse. Dominavas-me ou dominava-te. Passei
annos sob esse jugo, e agora descubro com alegria que te detesto.
Detestei-te sempre.
Odeio-te porque vales mais do que eu; odeio-te porque podes mais do que
eu.
Assistir á ruina dos nossos amigos é talvez melhor do que assistir á
ruina dos nossos inimigos.
Eu sou a unica consciencia n'esta barafunda cega e sofrega.
Temos de fabricar novas leis. Façamos leis para as classes superiores, e
leis para as classes inferiores--leis para os pobres e leis para os
ricos. As leis modificam-se com as consciencias, e as consciencias
modificaram-se.
Formemos classes--as de cima e as de baixo. O problema da educação é um
problema capital.
O amor é um unico minuto. Um minuto esplendido. O resto é habito,
palavras, hesitações, trampolinice, livros de capa amarella...
E o peor é que isto não são phrases, o peor é que isto existiu sempre e
impôz-se-me sempre. O peor é que quando eu te falava e sorria, e tu me
sorrias extenuada e palida, o meu pensamento era sempre o mesmo, e só a
custo continha o tumulto dos mortos. O peor é que eu sei que desde que
este phantasma se pôz a caminho, não o posso deter. O peor é que eu li
hoje nos teus olhos ternura e espanto. O peor é o que os teus olhos
exprimem--e eu não o posso deter...