Até agora a mentira fez-me suportar a vida, a insignificancia e as
palavras tornaram-me a vida possivel, a vida onde á custa de palavras
cheguei a ser Eleutheria da Fonseca, Balsamão, Elias de Mello ou Melias
de Mello. Só á custa d'isto pude aturar a vida e o horrôr da vida. Só
por não a vêr, pude encaral-a. Só emquanto fui feito de pequenas
miserias e de palavras inuteis a pude suportar. Mas agora que me resta
se tudo é vazio de significação?
Custa muito a construir uma vida ficticia, a ser Telles ou a ser Santo,
a crear um Deus ou uma mania. Custa a melhor parte do nosso sêr. É certo
que metade d'isto--metade pelo menos--é representado. Se te confessasses
dirias:--Eu sou um actor, eu sou um actor de mim mesmo: represento
sempre até quando sou sincero; até quando digo o que sinto, é outro, e
noutro tom de voz, que diz o que sinto... Cá estou a vel-o
representar... Mais de metade, muito mais de metade dos meus
sentimentos, são postiços. Todos estamos ligados por compromissos,
aceitamos certas leis e vivemos de aparencias. Existe entre nós e dentro
de nós um acordo tacito. No fundo bem sei que o que me dizes é mentira,
mas sei tambem que tenho obrigação de ajudar a mantel-a. Respeitamos um
compromisso vital. Mais alto! mais alto!... Para podermos viver só
lidamos com uma parte convencional da vida. A outra não existe: se
existisse seriamos bichos. Esta vida é uma mentira--a outra vida é
monstruosa. Desabada a architectura aparente, ficamos ignobeis. Isto que
ahi está por terra custou muito desespero, primeiro na inconsciencia e
na obscuridade, atravez da inconsciencia e da obscuridade, e depois
atravez de terrores e de indescriptiveis esforços. Custou aos vivos e
aos mortos a dôr das dôres, poderem discernir dois ou tres factos
essenciaes na treva condensada, na treva compacta d'uma noite que durou
seculos. Esforço inconsciente de larva, com um destino a cumprir e
legoas de granito a romper. Tiramos o mundo do nada. Levou seculos e
seculos--mas tiramol-o do nada. No principio só fomos almas, creamos
depois a casca. Tambem as arvores só a poder de tempo se revestiram d'um
envolucro. Eramos todos phantasmas. Creamos tudo--e a mentira. Tudo--e o
habito. Tudo--e a paciencia. O sonho não é senão uma reminiscencia.
Todas as inutilidades não passam de adaptações á vida. Essas pequenas
coisas são ao mesmo tempo temerosas e ridiculas. Bem encarada a ninharia
é uma tragedia. D'estes sêres saem outros sêres grotescos e
terriveis--terriveis e grotescos. No silencio a mania toma proporções
chimericas, e não sei como hei-de juntar estas duas coisas--mania e
desespero.
Dentro de cada sêr resurgem os mortos. Crescem dentes ás velhas,
afiam-se-lhes as unhas debaixo dos chales. Adquiriram outra expressão.
Quasi toda a gente emagreceu. Aguçam-se ferros no escuro. Procuram-se.
Qual é o teu verdadeiro ser? Eu mesmo não sei. Dá-me um trabalhão
encontral-o e acho-me sempre em frente de cacos, a que não consigo dar
unidade. Uma ninharia--um impulso--um habito. É isto que constitue o meu
ser, ou é esta serie de imagens, já desaparecidas, que formam a minha e
a tua vida? Não, o meu verdadeiro sêr sacode a poeira na colera, na
paixão, no amor ou no odio,--porque aos sentimentos tambem é preciso
desenterral-os--e actua n'um phrenesi. Acabaram as hesitações e as
duvidas, porque já não sou eu quem mando, a minha razão ou a minha
vontade: são os mortos. E é quando me sinto viver.
E a insignificancia? Até a insignificancia. A insignificancia com
orgulho, a insignificancia com desespero.