O tempo era limitado, a paciencia pegajosa, o gesto lento. Agora que a
vida dura seculos ninguem espera um minuto.
Tenho aqui a villa sufocada de espanto, e, n'este momento de silencio e
mudez, todos encaram com desespero os proprios phantasmas. Está aqui o
fel--e o fel está vivo. Está aqui a mentira--e a mentira está viva. Está
aqui a D. Leocadia e o dever, a D. Bibliotheca e o postiço, o Anacleto e
as conveniencias. Estão todos. Não falta ninguem á chamada. Está aqui
tambem o espanto e a mania, e a mania tem os cabellos em pé. Custa-me a
admitir-te na minha companhia, custa-me a arrancar-te de profundidades
ignotas... Tudo o que fiz era um simulacro, reconheço-o. Passei a vida a
arremedar a vida. Passei a vida com uma voz a prégar-me:--Não metas ahi
o nariz.--E a minha vontade era meter alli o nariz.--Passei a vida a
cumprir o meu dever e a amargar o meu dever. Passei a vida a arredar-te
e agora tenho por força de viver comtigo. E tu?--e tu?--e
tu?...--Gastei-me, gastei-a...--exclama a D. Leocadia. Cumpri sempre o
meu dever. Cumpri-o com fel. Para cumprir o meu dever lhe repeti a toda
a hora que os pobres teem um logar marcado na vida. Fil-o por dever. Não
transijo nunca com o meu dever. Assim como devia tiral-a do asilo por
ser do meu sangue, assim o meu dever era educal-a para pobre e reduzil-a
a um sêr passivo e inerte. Vesti-a com um sacco e gastei-me um dia,
gastei-a outro dia, a ponto de usarmos as feições e de não nos
reconhecermos. Espiamo-nos ambas, uma em frente da outra, no silencio
gelido da villa, onde se ouvia o trabalho lento das aranhas no fundo dos
saguões.--Dei-te o sustento, tens de ser agradecida. Tirei-te do nada,
livrei-te da fome, é preciso seres agradecida. Cumpre o teu dever. Eu
cumpri sempre o meu dever. Cumpri-o contrariada, n'um perpetuo dize tu
direi eu, n'uma eterna contradição, mas cumpri-o. Cheguei a tiral-o á
bocca para a poder manter. Cumpri o meu dever e amarguei o meu dever.
Usei assim a vida a arremedar a vida. E tenho-a aqui na minha frente,
com a barriga á bocca, á espera que eu cumpra o meu dever até final.
Qual é o meu dever? Reconheço que a odeio--odiei-a sempre. Mas qual é o
meu dever? pergunto. Qual era afinal o meu dever? Se fazia o bem,
amargava o bem; e tu não me largavas se tentava o mal. A minha vida tem
sido um perpetuo inferno, contrariada e impelida, e sempre a cumprir o
meu dever amargo, o meu dever estupido.--E os olhos não se lhe despegam
do phantasma coçado e verde, de ferro e verde. Grita-lhe:--Cumpri sempre
o meu dever! Se não cumprisse o meu dever ia parar a uma
viella.--Queda-se estrangulada e surpreza, mais estrangulada e surpreza
ainda, diante da voz que lhe diz não sei o quê de temeroso...--E
tu?--pergunto--tiveste inveja?--Tive e recalquei-a. Arranquei tudo,
destrui tudo, por ti que não existias.--Mas isto é infame, isto não sou
eu!--És, és, mais do que nunca o foste.--Eu mesmo reconheço que sou
outra casta de intrujão. Tenho outros preconceitos, falo outra lingua e
julgo-me superior. Na realidade sou outra casta de intrujão. O que me
falta é desplante. Prendo-me a inutilidades, e, para me engrandecer,
admiro os meus escrupulos e dou importancia ás minhas teias de aranha. A
minha vida é uma serie de transigencias secretas--e por cima
medo...--Fala mais alto! fala mais alto!--A minha vida tão bem
construida é uma aparencia, a minha serenidade, aparencia. Talvez um
pouco de logica, um pouco de acaso e mais nada. No fundo de mim mesmo
tudo isto me parece um sonho monstruoso e sem nexo, e ás vezes
surprehendo-me a pensar:--Sou um doido? sou um doido?--É que me vem não
sei d'onde, não sei de que confins ou de que recanto d'alma que tenho
medo de explorar, um bafo que me entontece. Serei eu doido?--Cada velha
se põe a recuar deante de si mesma; cada sêr procura afastar-se; cada um
a si proprio se repele. Mas todos são enrodilhados no pé de vento, que
os leva sufocados e atonitos, balouçados entre a vida e a morte, entre o
assombro e o inferno. E é grotesco este encarar com o sonho, pé atraz pé
adeante, esta hipocrisia que teima em ser hipocrisia, esta mentira que
quer ser mentira até á ultima extremidade.--Tu não deste um passo na
vida sem obedeceres ás conveniencias e sem consultar o teu codigo de
meticulosidade. Tens um _Deve_ e _Haver_ do tamanho d'um predio. A praça
considera-te, Deus considera-te. E tu torturaste-a segundo as
conveniencias, habituaste-a a conter as lagrimas e a ser correcta com o
mesmo grito recalcado ao fundo do coração. E esse drama correcto,
torna-se mais correcto ainda, e, seculo atraz de seculo, há-de acabar
por atingir a correcção suprema.--Não tenhas medo, avança um passo,
outro passo ainda...--Que é isto? que é isto que se me pega, diz a
Telles, diz a Reles--e que me não deixa pensar na mania?--E nos olhos de
idiotia, a vida, camada atraz de camada, chega a vir á superficie.--Ah,
a mania D. Telles, das Telles das Reles, a mania! Pensar n'este trapo um
dia, e só pensar n'este trapo! Fazer de ti e de mim mania e só
mania!--Dois castiçaes de prata foram a minha vida. Pensei n'elles com
minucia. Um nada--ou Deus--bastou para me encher a vida. Acordei com
elles, dormi com elles. Taparam-me o mundo. Isto foi o meu sonho e a
razão do meu sêr. Criei-o. Dei-lhe o meu leite. Vivemos juntos; ia
morrer com esta mania, levava-a para a cóva, sem ter pensado no resto, e
agora encontro-me sós a sós comtigo, desprevenida e sósinha. Foste para
mim um filho. Alimentei-te e alimentaste-me. Reservei-te sempre o melhor
cantinho do meu sêr. Salvaste-me do desprezo de mim propria, peor que o
desprezo alheio. Quando me sentia mais humilhada e mais pobre, recorria
a ti, e encontrei-te nas horas em que a gente até de si duvida, quanto
mais dos outros. Trouxe-te sempre comigo. Sorrias-me. Foste a carne da
minha carne e o osso do meu osso. Um filho podia-me morrer; tu não me
deste um desgosto. Escondeste-me a vida e a morte--e eras um trapo, uma
corôa de lata, dois castiçaes de prata! Agora mesmo procuro
agarrar-me--mas isto pega-se-me, deslumbra-me e ofusca-me... Há só uma
coisa que eu queria ainda dizer, e não a sei dizer diante de isto que
tenho ao pé de mim, dentro de mim e me não larga...--Ai! ai! ai!--Tambem
tu, tambem tu, prima Angelica, que passaste a vida debruçada sobre a
meia, tambem tu te ergues n'um arrebatamento, passa-te não sei que dôr
na escuridão cerrada, e procuras, com a agulha afiada como um punhal,
furar os olhos de todas as pessoas que te fizeram bem!... Mas tanta
inveja ruminaste que sorris e te curvas submissa sobre a mesma meia
eterna, a que mãos caridosas já não desfazem as malhas, e que tem tres
metros de comprido...--A meza da bisca lambida cahiu por terra, e de tal
maneira se olharam nos olhos, que não foi possivel tornar a juntal-as.
Só a mesma voz persiste dentro de nós mesmos, no silencio e na mudez da
noite infinita, tal qual a D. Leocadia:--Mas eu não posso! eu não posso!
Tu obrigas-me a fazer o que não devo! Tenho aqui fel e hei-de, para
cumprir o meu dever, fazer o contrario do que sinto: dominar-me todos os
dias, moer-me todos os dias, prégar-me todos os dias:--A gente só vem a
este mundo para cumprir o seu dever!...--O que há de peor no mundo é
arrancar os desgraçados á desgraça! O que há de peor no mundo é não
haver outra vida e passar esta vida a arremedal-a!