21 de fevereiro

Aqui está a villa toda--mas as figuras mudaram. São disformes. O proprio

Santo cheirou as velhas, sacudiu as velhas e atirou com as velhas á rua.

Do alto dos montes vomita coleras sobre a villa passada de terrôr. O

silencio redobra, a dôr redobra. E com isto uma alegria a que falta o

resaibo de tristeza que se misturava a todos os nossos sentimentos.

Falta-lhe equilibrio e harmonia. Tem a maior ferocidade. E produz o

mesmo efeito que este scenario d'assombro, que o vento e a chuva

esfarelam, e onde sobrenadam restos. E com isto a voz que não nos dá

tregoas e que atinge o desespero:--Não grites, D. Leocadia, não grites.

Reconheço que és feita d'uma peça só. Foste sempre inteiriça.--Tirei-o á

bocca para a manter...--Tiraste-o. Tomaste a vida a serio. Entendeste

sempre que pobres se educam como pobre, passaste a vida a azedar a vida,

e o dever, que fizeste amargar aos outros, começou por te amargar a ti.

E a esta luz intoleravel as coisas tomam a teus olhos aspectos

ignorados...--Mas então não há dever nenhum e eu não sou a D. Leocadia,

29-3.^o-D.?--Outro passo, D. Leocadia, mais outro passo ainda...--Que

exiges tu de mim então, que não comprehendo? Que exiges tu de mim contra

a minha vontade? Que me aniquile? Que me dispa para te vestir?--Não

grites...--Que exiges tu de mim de absurdo com que não posso arcar? Um

esforço sobrehumano? Ou exiges apenas que eu faça o bem que posso, uma

parte do bem? Ou é o mal que tu exiges de mim e o bem é um pecado?

Melhor será deixar a cada um a sua parte de desgraça e de colera?... Eu

posso talvez despir-me, posso cumprir o meu dever, mas que mais exiges

tu de mim com que, ainda que queira, não posso! Que exiges tu de

mim?!--Mas, D. Leocadia, eu não exijo nada de ti, cada um se aguenta

conforme pode n'este balanço...

--Mas então não há dever nenhum? não há bem nenhum? Que fiz eu d'este

sêr apagado e inerte com um filho do meu filho na barriga?--Oh D.

Leocadia como tu educada sempre com as mesmas palavras e no mesmo dever,

um dia de dever, outro dia de dever, e erguendo, no silencio e no tedio,

uma construcção de trapos e de palavras que chegou ao céo e substituiu o

céo--como tu tapas os olhos com desespero para não vêr! Hás-de aguentar

com este pezo, que não podemos suportar... Talvez fiquemos cegos, talvez

saiamos d'aqui aos gritos, os maniacos sem a sua mania, os bons sem a

sua bondade, e os pobres só fél e vinagre, mas temos de ver o que não

nos estava destinado. Para largar a pelle, D. Leocadia, até a cobra

adoece. Tanto importa que resolvas como que não resolvas o

problema--todos temos de dar o passo. A villa é a mesma villa, as pedras

as mesmas pedras. Nós mesmos não mudamos. A nova vida obriga-nos apenas

a discutir o que estava ao nosso lado. Tudo existia no mundo, até este

desespero; tudo estava vivo, até este grotesco. Nós é que estavamos

mortos.

Passou no mundo a extranha ventania, e a morte de tal maneira se

entranhou na vida que custa a separal-as. Mas já lá vão as formulas, os

alicerces e os usos... No alto, sobre este absurdo, entre o borralho

remexido, com a cinza e as faulhas atiradas indiferentemente para a

escuridão, só a Via Lactea mudou de côr e alastra de lez a lez na

aboboda recurva uma nodoa viva de sangue.

Humus · 第 46 / 83 题