21 de janeiro

A mesma interrogação se formula em todas as almas: quer então dizer que

só vivi uma vida ficticia ao lado da vida e que perdi o melhor da

existencia com aparencias? Quer então dizer que tudo para que vivi não

existe? Ponhamos a questão! ponhamos a questão! A maior conquista do

homem, Deus, desapareceu para sempre--desapareceu tambem a morte.

Ponhamos a questão: façamos taboa raza. Está tudo em terra, o dever, a

honra, as formulas e as regras. Ponhamos a questão por uma vêz, nitida,

clara e sem subterfugios. Ponhamos a questão e todas as questões...

Avançam e recuam logo. Do sonho grotesco ou explendido, ridiculo ou

feroz, á realidade vae um passo desmedido. Interpõe-se um muro... Todos

passamos os dias a resignarmo-nos. Muitos nem dão pela vida. Há sêres

que tanto faz estarem vivos como mortos. Outros nunca repararam sequer

na sua verdadeira phisionomia (porque até a nossa phisionomia é mais

verdadeira que real). Em alguns o murmurio das vozes é tão afastado que

não chegam a interpretal-o... Há-os que sahem da lucta esfarrapados,

há-os cheios de reticencias e que mal visionam o mar morto

indiscriptivel. O que os farrapos custam a largar! o que o muro custa a

deitar abaixo! Pesa-lhas a vida anterior, o habito reclama-os.

Adhere-lhes o infinito e as colicas, a usura e o fél. E sobre tudo isto

há a contar tambem com a imbecilidade e a apagada, inepcia. Há a contar

com a langonha que tambem tem o seu sonho. Há a contar com o que se

arrasta no escuro, com olhos brancos, com olhos vagos para a lua e para

o sonho. Há a contar com as velhas encardidas de habitos e de fistulas.

Em sêres amorphos e aguados, quasi inertes, no fundo remexe ainda um

resquicio de sonho, que se traduz no mesmo gesto pautado, na mesma

mimica, e no olhar, onde, até na imbecilidade cerrada, se distingue não

sei que de temeroso. Por isso a questão não é facil de resolver. Por

isso o Anacleto ainda não a matou. Ainda não conseguiu deitar o muro

abaixo. Não é o que se pode dizer na praça, porque a praça venera-o. Não

é tambem que a ideia de a matar o assuste. A villa conhece o seu

escrupulo e honra-o. Nunca deixou de pagar uma lettra. Mas há não sei

quê que o contraria e se opõe. Tambem as velhas se deteem, tambem o

Santo se detem. Mas a maré que ahi vem sobe sempre. Ao mesmo tempo

entontece-os e ao mesmo tempo perturba-os.--Eu não quero vêr! eu não

posso vêr!--e tenho de me olhar cara a cara, tenho por força de te

admitir, tu que és o meu verdadeiro sêr, immenso e profundo, com raizes

em toda a lama e braços que chegam ao céo.--Eu não sei d'onde vem isto,

e isto aturde-me. Olha como sorrio para ti, como finjo que sorrio de mim

e de ti que te pões a falar. O gesto que eu faço, não me pertence,

perturba-me o som da minha voz. E a noite é cada vez mais

cerrada...--Ninguem quer achar-se frente a frente com o seu proprio

phantasma. Nem tu, nem eu. Fugimos-lhe sempre. E, se succede

encontrarmo-nos, quedamo-nos com um sabor que nunca mais se esquece. Um

passo está dado, falta dar outro passo. Custa...--Ao que quasi todos se

apegam não é a grandes acções, é a simples peripecias. As existencias

que se nos afiguram dramaticas são cheias de ninharias, de ideias fixas

e de paciencia. O Torres engrandece a mania de copiar inutilidades:

d'aqui a dois dias ou d'aqui a dois seculos, ainda o encontras curvado

sobre o mesmo manuscripto, onde traslada o folhetim do _Seculo_. Á

Araujo que dá lições de piano é desespero inteiriço. O honrado Elias de

Mello vê o tratante Elias de Mello pôr-se a caminho e não o pode

deter.--Ahi começas tu tambem a perceber que a tua vida foi um mero

simulacro, que, a tua bondade for sempre um simulacro, que a tua

felicidade não passou d'um simulacro...--A D. Fufia, que há muitos annos

está morta por dizer mal, que nunca se atreveu a dizer mal, e que,

quando ia a dizer mal, dizia logo bem de toda a gente, rompe agora a

abocanhar todos os ridiculos, todos os orgulhos, todas as vaidades:--O

que isto consola!...--Divagam, falam queiram ou não queiram com os

proprios phantasmas, monologam, discutem, gritam. A cada passo uma

interrogação exige resposta, a cada passo um abysmo aberto...--D.

Leocadia, o meticuloso dever foi a tua vida e agora descobres que o

dever não existe, descobres que tudo aquillo para que viveste não

existe, e que existe outro dever maior e mais vivo. Descobres que as

palavras não te servem de nada. Descobres que tens d'ir de encontro ás

questões e não as podes desviar do caminho. Descobres que por tuas

proprias mãos criaste uma creatura disforme, que alimentaste de mentira.

E, a esta luz que te dá de chapa, descobres que a tua caridade e os teus

escrupulos eram uma lucta de vaidade e de medo, de palavras e de

instincto, onde não entrava uma unica verdade. Descobres que criaste um

sêr falso que abominas e te abomina, e que não te podes separar d'esse

horrôr. Descubro tambem que errei a vida, e não sei recomeçar a a vida,

e que tudo que fiz não fui eu quem o fiz, mas o outro que me mete medo,

e que tanto vale a minha vida que perdi a arcar com Deus, como a da

Telles de Meirelles que a gastou com um trapo. Com um trapo e palavras,

ambos subvertemos o mundo--um dia, uma semana, um seculo.--Examinando

bem a questão, meticuloso Anacleto, uma palavra bastou para te deter...

Examinando bem a questão reconheces que foram as conveniencias... Has-de

arrepender-te até a consumação dos seculos. O mundo vesgo que em mim

descubro no outro compartimento, é o mesmo que em ti descobres. Faz

esgares como certos rictos indecisos que se formam á tona dos pantanos.

Todos sentimos atraz de nós um mundo, outro mundo, outro mundo de

ninharias, de palavras sem nexo, de coisas que perderam a expressão, de

apetites que nunca se realisaram--todos cobrimos isto de aparencias.

Passamos a vida a conter outro sêr--outra coisa--outro espanto. Há um

fio invisivel que ninguem se atrevia a ultrapassar. Uma ordem que

ninguem rompia. Até a colera e o desespero mantinham certo verniz. E

agora descobrimos todos ao mesmo tempo, ó meticuloso Elias, ó impoluto

Melias--com risca e vinco, com vinco e risca--que resolver matal-a é

facil, mas para a matar temos de deitar abaixo legoas de espessura.

Deixamol-a morrer ou não a deixamos morrer? E nem sequer podemos iludir

a resposta. A mesma coisa desconforme entra pelo nariz e pela bocca do

Santo. Entupe-o. Esvasia-o e endireita-o depois de amolgado. Outro sêr,

n'um estonteamento, bate com a cabeça pelas paredes.--Mas então?...

pergunta atonito.--Mas então posso, atrevo-me?... Tudo isto era uma

mistificação? Mas então tudo é possivel e posso realisal-o ámanhã, hoje,

logo? E estas teias de ferro eram teias d'aranha?... Mas então o medo, a

morte, o inferno...--Aqui estou eu com esta mulher a meu lado, e sem

querer pergunto a mim mesmo...--Mas então?...--Sim, resta-me certa pena

e saudade, mas o interesse levanta a cabeça e deita as suas contas tão

baixinho que mal lhe ouço fazel-as...--Teçamos, teçamos todos a nossa

teia esplendida, vulgar ou grotesca..:--Mas então...--E encaro com um

mundo novo, a que por ora nem eu, nem tu, nem nenhum de nós se afoita.

Só as interrogações são cada vez maiores em todas as almas. Todos os

bonecos arreganham os dentes e a Porphiria sua inveja. Efectivamente não

se comprehende para que vivem certos sêres inuteis, que atravancam a

nossa existencia e um pequeno incidente podia suprimir. Efectivamente

não se explica que bastem alguns fios imateriaes para nos conterem, e

que um vidro de vidraça seja suficiente para nos separar da vida.

Até a D. Restituta que era um poço sem fundo, desata a repetir os

segredos de toda a gente, fazendo gestos na obscuridade com o guardasol

de panninho.

--Acuso! acuso! acuso!

Tocou-lhe tambem a vez. Usou-se a obedecer, a dizer a toda a gente que

sim. Hoje uma gota de fél, ámanhã outro resto amargo. Já não sabe dizer

senão que sim, já não consegue apagar as dedadas que lhe imprimiram.

Coçada, coçada, coçada. Fez as vontades á D. Procopia, á D. Felizarda, á

D. Herminia. Sujeitou-se ás vontades do conselheiro Pimenta, quando por

desfastio lhe fez um filho. Orgulho? Ninguem tolera, ninguem concebe,

que a Restituta tenha orgulho; ninguem tolera, ninguem concebe que a

Restituta tenha vontade. Habituou-se, apelintrou-se. A Restituta é um

reflexo. Diz-se tudo deante d'ella. Há familias separadas por odios

seculares: só ella entra e sae n'essas casas quando precisam communicar.

Naquella alma incutiu-se até profundidades desconhecidas o respeito ás

pessoas ricas, a consideração ás pessoas importantes. Que tem a

Restituta que desata aos gritos:

--Acuso! acuso! acuso!

Debalde lhe tapam a bocca. É um vomito, um chorrilho de palavras

precipitadas--a vida de toda a gente--são os despejos entornados. Em vão

dez, vinte mãos anciosas se lhe agarram ás guellas abertas: aquillo sae

n'um jôrro impetuoso--tudo quanto estava recalcado, todos os segredos

que ouviu, todas as miserias que lhe deitaram para dentro, e, se pára um

momento, é para tresvariar n'um riso feito de todos os risos postiços,

n'um esgare feito de todos os mil e um esgares que acumulou durante a

vida:--Eu tambem tenho um filho! eu tambem tenho um filho como

voces!--Impurram-na, escorraçam-na, e ella agarrada ao guarda-chuva

ainda brada:

--Acuso!

A vida irrompe, o sonho irrompe como hastes de cactus, nascidas d'um dia

para o outro, com escorrencias nas extremidades ridiculas e pueris.

Arredei sempre isto--isto que estava ao lado da vida. Nunca quiz vêr

isto, fingi sempre que isto não existia. Tambem tu o arredaste... E isto

existe. E isto é enorme. O que ahi está fede. Tresanda. Sua

viscosidades. Apega-se. É uma marcha furiosa e desordenada. É a Vida.

São todas as ancias soterradas que se não chegaram a exprimir. É um

inferno de gritos e de impulsos, sonhos impossiveis de sonhar, aquecidos

a bafo e ternura, sem forma nem côr, ou admiraveis sonhos de tragedia.

Mais um passo e tudo que estava recalcado, tudo que estava morto e

sepultado, toda a podridão, todo o desejo encarniçado e oculto, toda a

mistella que lucta ás cegas na escuridão para vir á superficie, desata a

falar á tôa. Mais um passo e o sonho é realidade. Fala a infamia e o

grotesco, fala a candura ao mesmo tempo.

Humus · 第 32 / 83 题