A mesma interrogação se formula em todas as almas: quer então dizer que
só vivi uma vida ficticia ao lado da vida e que perdi o melhor da
existencia com aparencias? Quer então dizer que tudo para que vivi não
existe? Ponhamos a questão! ponhamos a questão! A maior conquista do
homem, Deus, desapareceu para sempre--desapareceu tambem a morte.
Ponhamos a questão: façamos taboa raza. Está tudo em terra, o dever, a
honra, as formulas e as regras. Ponhamos a questão por uma vêz, nitida,
clara e sem subterfugios. Ponhamos a questão e todas as questões...
Avançam e recuam logo. Do sonho grotesco ou explendido, ridiculo ou
feroz, á realidade vae um passo desmedido. Interpõe-se um muro... Todos
passamos os dias a resignarmo-nos. Muitos nem dão pela vida. Há sêres
que tanto faz estarem vivos como mortos. Outros nunca repararam sequer
na sua verdadeira phisionomia (porque até a nossa phisionomia é mais
verdadeira que real). Em alguns o murmurio das vozes é tão afastado que
não chegam a interpretal-o... Há-os que sahem da lucta esfarrapados,
há-os cheios de reticencias e que mal visionam o mar morto
indiscriptivel. O que os farrapos custam a largar! o que o muro custa a
deitar abaixo! Pesa-lhas a vida anterior, o habito reclama-os.
Adhere-lhes o infinito e as colicas, a usura e o fél. E sobre tudo isto
há a contar tambem com a imbecilidade e a apagada, inepcia. Há a contar
com a langonha que tambem tem o seu sonho. Há a contar com o que se
arrasta no escuro, com olhos brancos, com olhos vagos para a lua e para
o sonho. Há a contar com as velhas encardidas de habitos e de fistulas.
Em sêres amorphos e aguados, quasi inertes, no fundo remexe ainda um
resquicio de sonho, que se traduz no mesmo gesto pautado, na mesma
mimica, e no olhar, onde, até na imbecilidade cerrada, se distingue não
sei que de temeroso. Por isso a questão não é facil de resolver. Por
isso o Anacleto ainda não a matou. Ainda não conseguiu deitar o muro
abaixo. Não é o que se pode dizer na praça, porque a praça venera-o. Não
é tambem que a ideia de a matar o assuste. A villa conhece o seu
escrupulo e honra-o. Nunca deixou de pagar uma lettra. Mas há não sei
quê que o contraria e se opõe. Tambem as velhas se deteem, tambem o
Santo se detem. Mas a maré que ahi vem sobe sempre. Ao mesmo tempo
entontece-os e ao mesmo tempo perturba-os.--Eu não quero vêr! eu não
posso vêr!--e tenho de me olhar cara a cara, tenho por força de te
admitir, tu que és o meu verdadeiro sêr, immenso e profundo, com raizes
em toda a lama e braços que chegam ao céo.--Eu não sei d'onde vem isto,
e isto aturde-me. Olha como sorrio para ti, como finjo que sorrio de mim
e de ti que te pões a falar. O gesto que eu faço, não me pertence,
perturba-me o som da minha voz. E a noite é cada vez mais
cerrada...--Ninguem quer achar-se frente a frente com o seu proprio
phantasma. Nem tu, nem eu. Fugimos-lhe sempre. E, se succede
encontrarmo-nos, quedamo-nos com um sabor que nunca mais se esquece. Um
passo está dado, falta dar outro passo. Custa...--Ao que quasi todos se
apegam não é a grandes acções, é a simples peripecias. As existencias
que se nos afiguram dramaticas são cheias de ninharias, de ideias fixas
e de paciencia. O Torres engrandece a mania de copiar inutilidades:
d'aqui a dois dias ou d'aqui a dois seculos, ainda o encontras curvado
sobre o mesmo manuscripto, onde traslada o folhetim do _Seculo_. Á
Araujo que dá lições de piano é desespero inteiriço. O honrado Elias de
Mello vê o tratante Elias de Mello pôr-se a caminho e não o pode
deter.--Ahi começas tu tambem a perceber que a tua vida foi um mero
simulacro, que, a tua bondade for sempre um simulacro, que a tua
felicidade não passou d'um simulacro...--A D. Fufia, que há muitos annos
está morta por dizer mal, que nunca se atreveu a dizer mal, e que,
quando ia a dizer mal, dizia logo bem de toda a gente, rompe agora a
abocanhar todos os ridiculos, todos os orgulhos, todas as vaidades:--O
que isto consola!...--Divagam, falam queiram ou não queiram com os
proprios phantasmas, monologam, discutem, gritam. A cada passo uma
interrogação exige resposta, a cada passo um abysmo aberto...--D.
Leocadia, o meticuloso dever foi a tua vida e agora descobres que o
dever não existe, descobres que tudo aquillo para que viveste não
existe, e que existe outro dever maior e mais vivo. Descobres que as
palavras não te servem de nada. Descobres que tens d'ir de encontro ás
questões e não as podes desviar do caminho. Descobres que por tuas
proprias mãos criaste uma creatura disforme, que alimentaste de mentira.
E, a esta luz que te dá de chapa, descobres que a tua caridade e os teus
escrupulos eram uma lucta de vaidade e de medo, de palavras e de
instincto, onde não entrava uma unica verdade. Descobres que criaste um
sêr falso que abominas e te abomina, e que não te podes separar d'esse
horrôr. Descubro tambem que errei a vida, e não sei recomeçar a a vida,
e que tudo que fiz não fui eu quem o fiz, mas o outro que me mete medo,
e que tanto vale a minha vida que perdi a arcar com Deus, como a da
Telles de Meirelles que a gastou com um trapo. Com um trapo e palavras,
ambos subvertemos o mundo--um dia, uma semana, um seculo.--Examinando
bem a questão, meticuloso Anacleto, uma palavra bastou para te deter...
Examinando bem a questão reconheces que foram as conveniencias... Has-de
arrepender-te até a consumação dos seculos. O mundo vesgo que em mim
descubro no outro compartimento, é o mesmo que em ti descobres. Faz
esgares como certos rictos indecisos que se formam á tona dos pantanos.
Todos sentimos atraz de nós um mundo, outro mundo, outro mundo de
ninharias, de palavras sem nexo, de coisas que perderam a expressão, de
apetites que nunca se realisaram--todos cobrimos isto de aparencias.
Passamos a vida a conter outro sêr--outra coisa--outro espanto. Há um
fio invisivel que ninguem se atrevia a ultrapassar. Uma ordem que
ninguem rompia. Até a colera e o desespero mantinham certo verniz. E
agora descobrimos todos ao mesmo tempo, ó meticuloso Elias, ó impoluto
Melias--com risca e vinco, com vinco e risca--que resolver matal-a é
facil, mas para a matar temos de deitar abaixo legoas de espessura.
Deixamol-a morrer ou não a deixamos morrer? E nem sequer podemos iludir
a resposta. A mesma coisa desconforme entra pelo nariz e pela bocca do
Santo. Entupe-o. Esvasia-o e endireita-o depois de amolgado. Outro sêr,
n'um estonteamento, bate com a cabeça pelas paredes.--Mas então?...
pergunta atonito.--Mas então posso, atrevo-me?... Tudo isto era uma
mistificação? Mas então tudo é possivel e posso realisal-o ámanhã, hoje,
logo? E estas teias de ferro eram teias d'aranha?... Mas então o medo, a
morte, o inferno...--Aqui estou eu com esta mulher a meu lado, e sem
querer pergunto a mim mesmo...--Mas então?...--Sim, resta-me certa pena
e saudade, mas o interesse levanta a cabeça e deita as suas contas tão
baixinho que mal lhe ouço fazel-as...--Teçamos, teçamos todos a nossa
teia esplendida, vulgar ou grotesca..:--Mas então...--E encaro com um
mundo novo, a que por ora nem eu, nem tu, nem nenhum de nós se afoita.
Só as interrogações são cada vez maiores em todas as almas. Todos os
bonecos arreganham os dentes e a Porphiria sua inveja. Efectivamente não
se comprehende para que vivem certos sêres inuteis, que atravancam a
nossa existencia e um pequeno incidente podia suprimir. Efectivamente
não se explica que bastem alguns fios imateriaes para nos conterem, e
que um vidro de vidraça seja suficiente para nos separar da vida.
Até a D. Restituta que era um poço sem fundo, desata a repetir os
segredos de toda a gente, fazendo gestos na obscuridade com o guardasol
de panninho.
--Acuso! acuso! acuso!
Tocou-lhe tambem a vez. Usou-se a obedecer, a dizer a toda a gente que
sim. Hoje uma gota de fél, ámanhã outro resto amargo. Já não sabe dizer
senão que sim, já não consegue apagar as dedadas que lhe imprimiram.
Coçada, coçada, coçada. Fez as vontades á D. Procopia, á D. Felizarda, á
D. Herminia. Sujeitou-se ás vontades do conselheiro Pimenta, quando por
desfastio lhe fez um filho. Orgulho? Ninguem tolera, ninguem concebe,
que a Restituta tenha orgulho; ninguem tolera, ninguem concebe que a
Restituta tenha vontade. Habituou-se, apelintrou-se. A Restituta é um
reflexo. Diz-se tudo deante d'ella. Há familias separadas por odios
seculares: só ella entra e sae n'essas casas quando precisam communicar.
Naquella alma incutiu-se até profundidades desconhecidas o respeito ás
pessoas ricas, a consideração ás pessoas importantes. Que tem a
Restituta que desata aos gritos:
--Acuso! acuso! acuso!
Debalde lhe tapam a bocca. É um vomito, um chorrilho de palavras
precipitadas--a vida de toda a gente--são os despejos entornados. Em vão
dez, vinte mãos anciosas se lhe agarram ás guellas abertas: aquillo sae
n'um jôrro impetuoso--tudo quanto estava recalcado, todos os segredos
que ouviu, todas as miserias que lhe deitaram para dentro, e, se pára um
momento, é para tresvariar n'um riso feito de todos os risos postiços,
n'um esgare feito de todos os mil e um esgares que acumulou durante a
vida:--Eu tambem tenho um filho! eu tambem tenho um filho como
voces!--Impurram-na, escorraçam-na, e ella agarrada ao guarda-chuva
ainda brada:
--Acuso!
A vida irrompe, o sonho irrompe como hastes de cactus, nascidas d'um dia
para o outro, com escorrencias nas extremidades ridiculas e pueris.
Arredei sempre isto--isto que estava ao lado da vida. Nunca quiz vêr
isto, fingi sempre que isto não existia. Tambem tu o arredaste... E isto
existe. E isto é enorme. O que ahi está fede. Tresanda. Sua
viscosidades. Apega-se. É uma marcha furiosa e desordenada. É a Vida.
São todas as ancias soterradas que se não chegaram a exprimir. É um
inferno de gritos e de impulsos, sonhos impossiveis de sonhar, aquecidos
a bafo e ternura, sem forma nem côr, ou admiraveis sonhos de tragedia.
Mais um passo e tudo que estava recalcado, tudo que estava morto e
sepultado, toda a podridão, todo o desejo encarniçado e oculto, toda a
mistella que lucta ás cegas na escuridão para vir á superficie, desata a
falar á tôa. Mais um passo e o sonho é realidade. Fala a infamia e o
grotesco, fala a candura ao mesmo tempo.