20 de janeiro

Eu sou um desconhecido para mim mesmo. Ia para a cóva sem me têr

encontrado um momento sós a sós comigo. E é com dôr, é com espanto e

dôr, que me reconheço; é com olhos de pasmo e dôr...

Tudo mudou. A sofreguidão que todos os dias da vida--sempre!

sempre!--nos empurra e leva; o sentimento da vida ephemera e o horrôr da

morte--mais perto! cada vez mais perto!--; esta coisa imponderavel que

debalde tento deter--sem nome e a que se chama o tempo--que nos usa, a

que não ouço os passos e que caminha inalteravel--tudo desapareceu de

vêz. Respiro. E, modificada a ideia do tempo, todas as outras se

alteraram profundamente. Os sentimentos não são os mesmos. A vida

assenta n'outras bases, a vida fica amarga.

Resta-nos a logica e a consciencia. Mas a consciencia admito-a, comtanto

que não me embarace. A consciencia que quizeres, comtanto que não me

amesquinhe, ou não me iluda. O unico juiz sou eu. O fim da minha vida

não é dominar-me, é dominar-te.

Todos temos de matar, todos temos de destruir, todos temos de deitar

abaixo.

A paciencia acabou, a resignação acabou--e acabou a morte. Suprimida

esta ideia, suprimido tambem o tempo e o espaço, as velhas não existem;

o que está vivo é a ferocidade, a paciencia e a mentira--e tudo espera a

ocasião. Espera e desespera. A parte de dentro é que está viva e reclama

de pé e de ferro a sua vêz. Notem: nenhuma arriscou um gesto mais

brusco. Por mais fél que lhes venha á bocca estão habituadas a

engulil-o. Nem com a cabeça tapada se atreveram a olhar a verdade. P'ra

dentro! sempre p'ra dentro! E assim succede que não se construiu nunca

cathedral com alicerces mais fundos. Está viva. Uma sustentou-se de

côdeas, outra sustentou-se de fome. A inveja tambem sustenta, o fél

tambem sustenta. Á Araujo só a paciencia e o calculo lhe permitiram

viver. Ás vezes tem fome--nunca disse a ninguem que tinha fome. Sabe

logo quando entra n'uma casa as palavras que agradam á velha rancorosa e

á filha cheia de pretenções a quem ensina as escalas; de quem há-de

dizer mal esta semana e bem para a que entra. Esperou como a aranha

espera com o estomago vasio. Nunca pediu esmola. Melhor: conseguiu

dar-se ao respeito. E calcula, calcula, cheia de fome, o tempo que a

magestosa Theodora pode durar. A D. Penaricia é abjecta, mas só a

abjecção lhe tem permitido viver. A mentira tem razão de ser--sem

abjecção a sociedade repele-nos. Admitimos alguma abjecção, não completa

e total, que repugna, mas a precisa para servir de realce e moldura ao

nosso quadro. Acresce a isto que teve de viver com despreocupação, de

sorrir com despreocupação, de mentir com despreocupação--com a miseria

atraz de si.

Com fél constróe-se uma vida--o fél dá certa solidez. O peor é meter

logo para dentro toda a inveja que lhe vem á bocca. Peor ainda: na

velhice misturou-se tristeza ao fél. Não só a D. Penaricia tem inveja,

não só a D. Penaricia odeia, mas a D. Penaricia chega ao ponto em que

percebe a inutilidade do fél. A Theodora pode aniquilal-a de um gesto.

Fél e vinagre--mais fél e tristeza. É um vasto campo de destroços de que

desvia o olhar. Foi-lhe então inutil o fél? Se não fosse o fél já tinha

morrido. Quando passou fome, quando deu dinheiro ao homem para o jogo,

quando perdeu na bisca para a Theodora ganhar e sorrir, o que a

sustentou foi o fél. Quando vestiu a filha e a passeou no jardim, com

trapos como os outros trapos, o que a sustentou foi o fél. Juntem a isto

coisas inverosimeis que se lhes pegam e as reclamam, velhas coisas

esquecidas, velhos sapatos d'ourelo, desaparecidos para sempre nas

profundidades do nada; velhos habitos, costumes aferrados, miserias

chronicas, adquiridas pela vida fóra e que erguem a voz, cabelos

postiços, sentimentos postiços, gritos, e o exaspero de quem não pode

berrar:--O que eu quero é gosar! o que eu quero é encher-me!--o que

representa ainda mais fél e tristeza, mais fél e vinagre. Alli estão

frente a frente, e pergunto se estas velhas que passaram a vida á espera

d'uma herança não teem direitos. Pergunto se é possivel que a magestosa

Theodora continue a viver mil annos e a impôr-se, a mandar, de quico na

cabeça e com o cofre atraz de si, e as outras agarradas á meza do jogo e

á espera da morte. Pergunto se ter inveja não é sofrer, se ter paciencia

não é sofrer. Há que tempos que cada uma d'ellas só pensa em matal-a e

arreda a ideia com medo ao inferno. A teia aperta-se. Mais um momento e

a teia torna-se visivel. A magestosa Theodora não pode escapar. Todos os

dias se tecem fios que a envolvem, todos os dias aquellas vontades

actuam, todos os dias o sonho constróe. Sufoca. Formou-se um sêr que tem

vida propria, uma atmosphera, uma alma commum, de que fazem parte todas

aquellas almas. A magestosa Theodora pertence-lhes. Hoje a Adelia cravou

de repente a agulha sobre a meza, e a magestosa Theodora desatou de

subito, aos ais, aos ais, como se visse alli lavrada a sua sentença de

morte. Todas as phisionomias mudaram alteradas e profundas, subindo á

tona das profundidades do universo ou de poços mais profundos ainda.

Agora o sonho não é um segundo, o sonho vae ser a vida.

--Está certo o senhor? Está certo o senhor padre Ananias, que depois

d'esta vida há ainda outra vida de que nos têem falado? Ou há só esta

vida? só esta?! E isto é uma _comidela_?

O que ellas estavam era sepultadas n'um vasto cemiterio do tamanho da

villa. Sobre cada velha havia pó, sobre cada interesse pó, sobre cada

phisionomia outra phisionomia. Efectivamente a Theodora é uma

insignificancia. Só dá leis. O melhor é matal-a. E todos os olhos se

cravam nos olhos do padre, todas as velhas mastigam em secco, todas as

velhas dão de repente um salto brusco no vacuo.

Ó paciencia que já não és paciencia e trazes veneno na algibeira, com

que despeito olhas para traz, para o Hymalaia de inutilidades. Debalde a

paciencia tenta dizer ao sonho:--Amanhã--; tenta iludil-o:--Espera...--e

a mentira propor-lhe uma transação. O sonho toca na paciencia como quem

toca n'um nervo, e quando a Restituta vae mais uma vez dizer-lhe á

pressa:--Pois sim...--aperta-lhe o gasganete e pela primeira vez na vida

a deixa desorientada... Comediante, vê se aproveitas o excesso da tua

dôr para praticares uma nova infamia!

Humus · 第 31 / 83 题