23 de janeiro

Ao Santo só lhe resta orgulho. O sonho descarna-o e deixa-lhe o orgulho

intacto. Debalde préga, debalde lucta comsigo mesmo.--Eu já não creio no

inferno.--E detem-se com espanto deante dos destroços, das formulas, da

insignificancia, dos simulacros que foram a razão da sua vida. Tudo que

lhe enchia o mundo não existe, tudo que não existia lhe parece

maior:--Eu quero crêr! eu quero crêr e não posso crêr!--Debalde insiste

comsigo mesmo:--Nossa vida aqui é nada, nossa vida eterna é tudo. Nosso

destino é a morte. Só assim posso explicar o universo, só assim posso

comprehender o universo.--Tudo o que se tinha apoderado do seu sêr até

ás mais intimas raizes, tudo o despedaça até ás mais reconditas raizes.

Dilacera-o.--Não me atrevo sequer a olhar a vida, a olhar para mim, a

olhar o pelago desordenado. Eu quero vêr e não ouso! Eu quero crêr e

sinto-me pequeno e grotesco ao lado d'isto! D'esta coisa monstruosa que

não posso arredar. Não posso arredal-a.--Para ti tambem o problema é

insoluvel, D. Leocadia, que resurges com o vestido coçado, mais secca e

mais verde. Estaes ambos encalacrados.--Tu viveste sempre para Deus e

para o inferno e nem sequer o inferno existe. E tu procedeste sempre

segundo a tua consciencia, regulaste tudo conforme a tua consciencia--e

tu e tu--e ahi estaes ambos atonitos e verdes, resequidos e verdes,

desesperados e verdes, sós a sós em frente d'uma figura que vos não

larga.

--Trouxe-a para casa, sustentei-a, mas nunca a pude vêr, diz

ella--Deste-lhe codeas mas não podeste amal-a. Sustentaste-a por

caridade, sustentaste-a de restos para calares uma voz tremenda. Ella

foi peor que uma creada, foi uma creada que se não pode despedir, presa

pela gratidão--observa a outra D. Leocadia--Fala claro, fala alto.

Atreve-te.--Atrevo-me. Toda a minha vida fiz o sacrificio de a manter,

toda a minha vida por caridade a tive junto de mim, calada e subalterna,

amachucada e sem vontade, para cumprir perante Deus o meu dever. E agora

a consciencia exige de mim?...--Exige.--Exige de mim, porque o meu filho

lhe fez um filho, que o case com a orphã, sustentada de esmolas, calada

e viscosa?--Exige.--Por quem eu só sinto repulsão?--Exige, e o peor de

tudo é que lhe deste restos, mas não podeste amal-a.

Torce-te, torce-te mais ainda. A cada camada de verde pega-se-te logo

outra camada de sonho. A D. Leocadia coçada e secca sacode em vão e

arreda outra D. Leocadia inteiriça e coçada. Tambem o Santo está aqui,

só e o pecado, só e Deus, só e o desespero: «Deus existe--ou Deus não

existe. Se Deus existe, se tenho a certeza que Deus existe e se

interessa pela minha dôr, esta vida transitoria é um unico minuto com a

eternidade á minha espera. Tudo me parece facil. Que exige o meu Deus?

Que me reduza a pó e despreze a aparencia? Tudo é vão deante da

eternidade que me espera. O meu Deus enche o mundo. Só o meu Deus

exista, e todo o resto no universo é tão pequeno e tão futil, que

reclamo mais dôr, mais sofrimento, mais fome. Que a desgraça caia sobre

mim com todo o peso da desgraça; que a dôr me descarne até á medula.

Despreso a dôr. Exijo-a deante da eternidade. Sou capaz do andar de

rastro com a bocca no pó, sou capaz de sofrer todos os tormentos, com a

certeza de que me livro d'uma eternidade d'angustias para vêr Deus.

Venham todos os escarneos, todos os gritos, todos os suores da

agonia--venha meu Deus a cruz! Até á morte hei-de crêr no que creio. Sem

crêr não sou nada--sem crêr não existo--sem crêr não comprehendo a vida.

Preciso de caminhar para um destino. Crêr é uma necessidade absoluta, um

sentimento primario, a propria vida, sua razão e seu fim. Tenho

necessidade de Deus, como do ar que respiro. Sem elle a vida é desconexa

e atroz; peor, é monstruosa. Creio porque creio. Se a vida se reduzisse

só a isto, a vida seria abjecta. Dentro em mim tudo me fala n'uma lei,

n'uma logica, n'uma razão de ser, n'um sentido. Eu vejo Deus, eu sinto

Deus.

Mas se Deus não existe--se Deus não existe que me fica no mundo? Sou

nada no infinito. Fui tudo--e sou nada. Leva-me a força bruta. Sou o

acaso na mistificação. Sou menos que nada no monstruoso impulso. Se Deus

não existe tanto faz gritar como não gritar. Não tenho destino a

cumprir: saio do nada para o nada. Nas mãos da força bruta que sou eu no

mundo que grito, que discuto, que clamo?... Atraz deste infinito vivo,

há outro infinito vivo. Atraz d'esta impenetrabilidade, há outra camada

de impenetrabilidade, outra vida ainda, outro desespero sofrego. Não

encontro aqui logar para Deus que me ouça, que me atenda, ou que saiba

sequer que existo.

Os gritos são inuteis, tu não me ouves. Estou só n'este absurdo que me

impele e esmaga... Que não houvesse o céo, que existisse o inferno só o

inferno! E nem o inferno existe!...

Se Deus não existe... O peor de tudo é que eu digo e afirmo,--Deus não

existe!--mas na realidade não sei se Deus existe ou não. Não há nada que

o prove--ou que prove o contrario. O peor de tudo é que eu sinto uma

sombra por traz de mim e não sei por que nome lhe hei-de chamar. O peor

que podia acontecer no mundo foi alguem pôr esta idéa a caminho. Mas

mesmo que Deus não exista, tenho medo de mim mesmo, tenho medo da minha

alma, tenho medo de me encontrar sós a sós com a minha alma, que é nada,

o fim e o principio da vida e a razão do meu sêr. Mesmo que Deus não

exista e a consciencia seja uma palavra, há ainda outra coisa indefinida

e immensa diante de mim, ao pé de mim, dentro de mim. Vem a noite e com

a noite interrogo-me:--Existe?--O que existe é monstruoso. Não ouve os

nossos gritos. O que existe é o espanto. O que existe reclama dôr.

Sustenta-se de dôr e não dá por ella.

O que existe então é isto--é um ulular de dôr na noite--no turbilhão, no

escuro. O que existe são gritos, e eu sou levado, arrastado n'esta

mistificação. Por traz de mim há uma coisa que me apavora, por traz de

mim há uma coisa cada vêz mais sofrega, cada vêz mais phrenetica--e que

de cada vêz exige mais dôr. Espera: a harmonia não existe--existe a dôr;

a belleza não existe--existe a dôr; Deus não existe--existe a dôr. E há

um momento apenas para realisar a vida. Nesse momento de paixão todas as

forças se concentram e ponho o pé no mysterio. Tenho de aproveital-o.

Tudo o que exista na noite immensa, na noite ignobil, é peor que Deus.

Tudo o que existe me faz horrôr, tudo o que existe entre as forças

desordenadas me causa espanto... E por mais que grite, por mais que

proteste, estou aqui diante do incomprehensivel, vivo no nada, de pé na

voragem. E para lá há uma coisa infinita, um negrume infinito, uma vida

infinita. É immenso--é inutil. Sou menos que nada. Só deparo na minha

frente com infinito sobre infinito, com o negrume sufocado, com o

negrume impassivel, com o negrume vivo e immenso, desesperado e immenso.

Só contei comtigo meu Deus--e agora quero crêr e não posso crêr. Estou

aqui defronte do espanto e sinto-me perdido na vastidão infinita. Tudo o

que disse--disse-o deante do vacuo, tudo o que sofri--sofri-o deante do

vacuo. Todo o meu desespero, a minha dôr, a renuncia, os esforços, o

calvario deante do vacuo!»

O maior drama é o das consciencias. O maior drama é arredar todos os

trapos da vida, para poder olhar a vida cara a cara. O maior drama é

ficar só com o vacuo e em frente do espanto, É dizer: nada disto existe.

Só dou no meio d'este assombro com uma coisa desconexa e abjecta, a

discutir comigo mesmo, levada por impulsos. O maior drama é não

encontrar razão para isto que vive de gritos e se sustenta de gritos--e

ter de arcar com isto. Perceber a inutilidade de todos os esforços e

fazer todos os dias o mesmo esforço. E isto não nos larga. Sacode-nos e

abala-nos até á raiz, n'uma discussão que nunca cessa. Nem em mim, nem

em ti, D. Leocadia. Essa figura tremenda insiste cada vez mais alto,

cada vez mais sofrega, cada vez mais desesperada. Ouvel-a diante de ti,

ao pé de ti, dentro de ti, mais coçada e mais verde, com outra camada de

sonho e outra camada de verde?

--O dever? que dever? Antes a deixasses morrer de fome.

--Mantive-a para cumprir o meu dever.

Aqui tens tu a minha consciencia, aqui tens tu a tua consciencia, e aqui

está a consciencia da D. Penaricia. E tanto vale para o caso o genio em

frente da consciencia, como o ridiculo em frente da consciencia.--Valeu

a pena não matar?--pergunto--perguntas--perguntam. Aqui estou em frente

d'isto, com um segundo e todo o seu esplendôr e todo o seu espanto e

todo o seu desespero, e pergunto, perguntas, perguntam, se o que se

chama a honra e o que se chama a consciencia e o que se chama o dever,

teem forças para se me impôr. Oh palavras não! A pergunta não é como as

outras para ser iludida com subterfugios. É a unica que carece de

resposta imediata como um punhal que vae direito ao coração. Vê tu que,

apezar de tremulo, estou calmo... O problema é capital. Pergunto se toda

a lucta foi inutil, se todo o fogo do inferno que recalquei, foi inutil?

Pergunto, perguntas, perguntam se as horas para nos contermos foram uma

estupida mistificação. E as boccas remoem em secco no escuro, e as mãos

sofregas palpam os vestidos de ceremonia. Estão decididas a tudo.

Vem-lhes á supuração o antigo fél e vinagre, os pequenos desesperos, e

os grandes desesperos. Tudo está vivo. Cada sêr formula uma

interrogação. Segue-se que se os paes teimam em viver, transtornam todos

os planos, todas as regras e todos os preconceitos estabelecidos.

Segue-se que acima de teu direito está o meu direito. Segue-se que a

construcção antiga desabou, e a um mundo novo correspondem creaturas

novas. Segue-se que todos os problemas se reduzem a um só problema--o

dos mortos. Segue-se que o muro é uma insignificancia. Tapa o céo e a

terra, não existe montanha de tanta espessura--é uma teia d'aranha. Sôa

a hora da outra coisa disforme o aluir para sempre. Por traz do muro é

que está a paixão, o crime, o desespero e a vida esplendida e feroz.

É preciso deital-o abaixo. Os tumulos estão gastos d'um lado pelos

passos dos vivos e do outro pelo esforço dos mortos.

Humus · 第 33 / 83 题