Ao Santo só lhe resta orgulho. O sonho descarna-o e deixa-lhe o orgulho
intacto. Debalde préga, debalde lucta comsigo mesmo.--Eu já não creio no
inferno.--E detem-se com espanto deante dos destroços, das formulas, da
insignificancia, dos simulacros que foram a razão da sua vida. Tudo que
lhe enchia o mundo não existe, tudo que não existia lhe parece
maior:--Eu quero crêr! eu quero crêr e não posso crêr!--Debalde insiste
comsigo mesmo:--Nossa vida aqui é nada, nossa vida eterna é tudo. Nosso
destino é a morte. Só assim posso explicar o universo, só assim posso
comprehender o universo.--Tudo o que se tinha apoderado do seu sêr até
ás mais intimas raizes, tudo o despedaça até ás mais reconditas raizes.
Dilacera-o.--Não me atrevo sequer a olhar a vida, a olhar para mim, a
olhar o pelago desordenado. Eu quero vêr e não ouso! Eu quero crêr e
sinto-me pequeno e grotesco ao lado d'isto! D'esta coisa monstruosa que
não posso arredar. Não posso arredal-a.--Para ti tambem o problema é
insoluvel, D. Leocadia, que resurges com o vestido coçado, mais secca e
mais verde. Estaes ambos encalacrados.--Tu viveste sempre para Deus e
para o inferno e nem sequer o inferno existe. E tu procedeste sempre
segundo a tua consciencia, regulaste tudo conforme a tua consciencia--e
tu e tu--e ahi estaes ambos atonitos e verdes, resequidos e verdes,
desesperados e verdes, sós a sós em frente d'uma figura que vos não
larga.
--Trouxe-a para casa, sustentei-a, mas nunca a pude vêr, diz
ella--Deste-lhe codeas mas não podeste amal-a. Sustentaste-a por
caridade, sustentaste-a de restos para calares uma voz tremenda. Ella
foi peor que uma creada, foi uma creada que se não pode despedir, presa
pela gratidão--observa a outra D. Leocadia--Fala claro, fala alto.
Atreve-te.--Atrevo-me. Toda a minha vida fiz o sacrificio de a manter,
toda a minha vida por caridade a tive junto de mim, calada e subalterna,
amachucada e sem vontade, para cumprir perante Deus o meu dever. E agora
a consciencia exige de mim?...--Exige.--Exige de mim, porque o meu filho
lhe fez um filho, que o case com a orphã, sustentada de esmolas, calada
e viscosa?--Exige.--Por quem eu só sinto repulsão?--Exige, e o peor de
tudo é que lhe deste restos, mas não podeste amal-a.
Torce-te, torce-te mais ainda. A cada camada de verde pega-se-te logo
outra camada de sonho. A D. Leocadia coçada e secca sacode em vão e
arreda outra D. Leocadia inteiriça e coçada. Tambem o Santo está aqui,
só e o pecado, só e Deus, só e o desespero: «Deus existe--ou Deus não
existe. Se Deus existe, se tenho a certeza que Deus existe e se
interessa pela minha dôr, esta vida transitoria é um unico minuto com a
eternidade á minha espera. Tudo me parece facil. Que exige o meu Deus?
Que me reduza a pó e despreze a aparencia? Tudo é vão deante da
eternidade que me espera. O meu Deus enche o mundo. Só o meu Deus
exista, e todo o resto no universo é tão pequeno e tão futil, que
reclamo mais dôr, mais sofrimento, mais fome. Que a desgraça caia sobre
mim com todo o peso da desgraça; que a dôr me descarne até á medula.
Despreso a dôr. Exijo-a deante da eternidade. Sou capaz do andar de
rastro com a bocca no pó, sou capaz de sofrer todos os tormentos, com a
certeza de que me livro d'uma eternidade d'angustias para vêr Deus.
Venham todos os escarneos, todos os gritos, todos os suores da
agonia--venha meu Deus a cruz! Até á morte hei-de crêr no que creio. Sem
crêr não sou nada--sem crêr não existo--sem crêr não comprehendo a vida.
Preciso de caminhar para um destino. Crêr é uma necessidade absoluta, um
sentimento primario, a propria vida, sua razão e seu fim. Tenho
necessidade de Deus, como do ar que respiro. Sem elle a vida é desconexa
e atroz; peor, é monstruosa. Creio porque creio. Se a vida se reduzisse
só a isto, a vida seria abjecta. Dentro em mim tudo me fala n'uma lei,
n'uma logica, n'uma razão de ser, n'um sentido. Eu vejo Deus, eu sinto
Deus.
Mas se Deus não existe--se Deus não existe que me fica no mundo? Sou
nada no infinito. Fui tudo--e sou nada. Leva-me a força bruta. Sou o
acaso na mistificação. Sou menos que nada no monstruoso impulso. Se Deus
não existe tanto faz gritar como não gritar. Não tenho destino a
cumprir: saio do nada para o nada. Nas mãos da força bruta que sou eu no
mundo que grito, que discuto, que clamo?... Atraz deste infinito vivo,
há outro infinito vivo. Atraz d'esta impenetrabilidade, há outra camada
de impenetrabilidade, outra vida ainda, outro desespero sofrego. Não
encontro aqui logar para Deus que me ouça, que me atenda, ou que saiba
sequer que existo.
Os gritos são inuteis, tu não me ouves. Estou só n'este absurdo que me
impele e esmaga... Que não houvesse o céo, que existisse o inferno só o
inferno! E nem o inferno existe!...
Se Deus não existe... O peor de tudo é que eu digo e afirmo,--Deus não
existe!--mas na realidade não sei se Deus existe ou não. Não há nada que
o prove--ou que prove o contrario. O peor de tudo é que eu sinto uma
sombra por traz de mim e não sei por que nome lhe hei-de chamar. O peor
que podia acontecer no mundo foi alguem pôr esta idéa a caminho. Mas
mesmo que Deus não exista, tenho medo de mim mesmo, tenho medo da minha
alma, tenho medo de me encontrar sós a sós com a minha alma, que é nada,
o fim e o principio da vida e a razão do meu sêr. Mesmo que Deus não
exista e a consciencia seja uma palavra, há ainda outra coisa indefinida
e immensa diante de mim, ao pé de mim, dentro de mim. Vem a noite e com
a noite interrogo-me:--Existe?--O que existe é monstruoso. Não ouve os
nossos gritos. O que existe é o espanto. O que existe reclama dôr.
Sustenta-se de dôr e não dá por ella.
O que existe então é isto--é um ulular de dôr na noite--no turbilhão, no
escuro. O que existe são gritos, e eu sou levado, arrastado n'esta
mistificação. Por traz de mim há uma coisa que me apavora, por traz de
mim há uma coisa cada vêz mais sofrega, cada vêz mais phrenetica--e que
de cada vêz exige mais dôr. Espera: a harmonia não existe--existe a dôr;
a belleza não existe--existe a dôr; Deus não existe--existe a dôr. E há
um momento apenas para realisar a vida. Nesse momento de paixão todas as
forças se concentram e ponho o pé no mysterio. Tenho de aproveital-o.
Tudo o que exista na noite immensa, na noite ignobil, é peor que Deus.
Tudo o que existe me faz horrôr, tudo o que existe entre as forças
desordenadas me causa espanto... E por mais que grite, por mais que
proteste, estou aqui diante do incomprehensivel, vivo no nada, de pé na
voragem. E para lá há uma coisa infinita, um negrume infinito, uma vida
infinita. É immenso--é inutil. Sou menos que nada. Só deparo na minha
frente com infinito sobre infinito, com o negrume sufocado, com o
negrume impassivel, com o negrume vivo e immenso, desesperado e immenso.
Só contei comtigo meu Deus--e agora quero crêr e não posso crêr. Estou
aqui defronte do espanto e sinto-me perdido na vastidão infinita. Tudo o
que disse--disse-o deante do vacuo, tudo o que sofri--sofri-o deante do
vacuo. Todo o meu desespero, a minha dôr, a renuncia, os esforços, o
calvario deante do vacuo!»
O maior drama é o das consciencias. O maior drama é arredar todos os
trapos da vida, para poder olhar a vida cara a cara. O maior drama é
ficar só com o vacuo e em frente do espanto, É dizer: nada disto existe.
Só dou no meio d'este assombro com uma coisa desconexa e abjecta, a
discutir comigo mesmo, levada por impulsos. O maior drama é não
encontrar razão para isto que vive de gritos e se sustenta de gritos--e
ter de arcar com isto. Perceber a inutilidade de todos os esforços e
fazer todos os dias o mesmo esforço. E isto não nos larga. Sacode-nos e
abala-nos até á raiz, n'uma discussão que nunca cessa. Nem em mim, nem
em ti, D. Leocadia. Essa figura tremenda insiste cada vez mais alto,
cada vez mais sofrega, cada vez mais desesperada. Ouvel-a diante de ti,
ao pé de ti, dentro de ti, mais coçada e mais verde, com outra camada de
sonho e outra camada de verde?
--O dever? que dever? Antes a deixasses morrer de fome.
--Mantive-a para cumprir o meu dever.
Aqui tens tu a minha consciencia, aqui tens tu a tua consciencia, e aqui
está a consciencia da D. Penaricia. E tanto vale para o caso o genio em
frente da consciencia, como o ridiculo em frente da consciencia.--Valeu
a pena não matar?--pergunto--perguntas--perguntam. Aqui estou em frente
d'isto, com um segundo e todo o seu esplendôr e todo o seu espanto e
todo o seu desespero, e pergunto, perguntas, perguntam, se o que se
chama a honra e o que se chama a consciencia e o que se chama o dever,
teem forças para se me impôr. Oh palavras não! A pergunta não é como as
outras para ser iludida com subterfugios. É a unica que carece de
resposta imediata como um punhal que vae direito ao coração. Vê tu que,
apezar de tremulo, estou calmo... O problema é capital. Pergunto se toda
a lucta foi inutil, se todo o fogo do inferno que recalquei, foi inutil?
Pergunto, perguntas, perguntam se as horas para nos contermos foram uma
estupida mistificação. E as boccas remoem em secco no escuro, e as mãos
sofregas palpam os vestidos de ceremonia. Estão decididas a tudo.
Vem-lhes á supuração o antigo fél e vinagre, os pequenos desesperos, e
os grandes desesperos. Tudo está vivo. Cada sêr formula uma
interrogação. Segue-se que se os paes teimam em viver, transtornam todos
os planos, todas as regras e todos os preconceitos estabelecidos.
Segue-se que acima de teu direito está o meu direito. Segue-se que a
construcção antiga desabou, e a um mundo novo correspondem creaturas
novas. Segue-se que todos os problemas se reduzem a um só problema--o
dos mortos. Segue-se que o muro é uma insignificancia. Tapa o céo e a
terra, não existe montanha de tanta espessura--é uma teia d'aranha. Sôa
a hora da outra coisa disforme o aluir para sempre. Por traz do muro é
que está a paixão, o crime, o desespero e a vida esplendida e feroz.
É preciso deital-o abaixo. Os tumulos estão gastos d'um lado pelos
passos dos vivos e do outro pelo esforço dos mortos.