Ponho-me a olhar para ti consciencia, e exijo que me fites nos olhos e
que me fales claro. Não entarameles a lingua. Em primeiro logar diz-me o
que és e o que significas: medo, receio, uma vóz que se cala se a
miseria aperta ou a luxuria levanta a cabeça. Um nada, uma voz tão
timida e tão prompta a sumir-se... Incommodas-me é certo, mas não
impedes nada. Falas quando devias estar calada, não sabes o teu papel e
nunca entras a tempo. Herdei-te: és convenção e egoismo alheio
entranhado no meu egoismo, synthetisado em duas ou tres regras para
commodidade dos outros. Fazes de mim uma prêsa facil para quem a não
tem. És escrupulo, e o escrupulo é, pelo menos, inutil.
Estás em perpetua contradição. Inutilisas-me metade da vida e nunca me
pude desfazer de ti. N'esta lucta de todos os dias, quando me julgo
livre, é quando te sinto todo o pezo.
Isto é decerto a vida. Mas a vida é tambem o instincto que me
diz:--Aproveita, não deixes fugir o unico minuto. Se a vida é um momento
entre o nada e o nada, o que vale a pena é aproveital-o.
A questão suprema é esta e só esta: Deus existe ou Deus não existe. Se
não há Deus, a vida, producto do acaso, é uma mistificação.
Aproveitemol-a para satisfazer instinctos e paixões. Se Deus não existe,
não há força que me detenha. Não há palavras, nem regras, nem leis. Tudo
é permitido. Questão logica: pois eu hei-de ir para a cóva, para todo o
sempre, para toda a eternidade, sem ter extrahido da vida tudo que ella
me possa dar, preso a palavras ou a meras questões de forma? Oh!
ponhamos a questão, consciencia: se Deus não existe tu não és senão um
estôrvo, meia duzia de regras aprendidas ou herdadas. Ponhamos emfim a
questão com toda a clareza, porque este é o unico problema que me
importa e que te importa resolver.
Escusas de encher a bocca com o dever. O dever não me interessa nada. A
questão fundamental, a questão que eu debato com todo o meu sêr, e de
que me não consigo desligar, é a da morte eterna e a da vida eterna.
Se Deus existe eu sou um homem,--se Deus não existe eu sou outro homem
completamente diferente.
Não existindo tu consciencia, o que tu te intrometes na minha vida! E
tanto faz analisar-te, discutir-te, negar-te, incomodas-me sempre. Estás
morta--estás viva. Na cóva hei-de chorar inutilmente por te ter
obedecido. Hei-de revolver-me com desespero, por teres conseguido
amolgar-me e amesquinhar-me. Por mais que queira desfazer-me de ti, tu
impões-te-me. Quando te julgo aniquilada, ahi começas a falar outra vez.
Vens de muito fundo!
Ás vezes protesto e imponho-me. Decido passar sem ti: humilhas-te.
Humilhas-te para logo levantares a cabeça e revolveres o punhal na
ferida. Pesas-me como chumbo. És de ferro. Bem tento explicar-te: são os
escrupulos que me não deixam trahir, mentir, subir. O que é eficaz não é
ter escrupulos, é fingir tel-os. É tudo o que os outros nos pedem.--Mas
tu não transiges. Se te abaixas, é para te ergueres de novo, para de
novo me atormentares. Não me largas. Acompanhas-me por toda a parte.
Se me livrasse de ti! se me livrasse de ti!