18 de janeiro

O que eu tinha era medo. Medo da morte, medo da sombra. Só isto existia?

Quando tudo em mim me prégava que aproveitasse este momento, que deste

unico momento extrahisse tudo que elle me podia dar--alguma coisa me

detinha. Eras tu consciencia. E tu não existias! Fale a logica, fale a

razão, fale tambem o instincto... A consciencia é sempre religiosa. Mal

posso dar um passo no mundo sem tremer. O mundo é Deus, Deus rodeia-me.

Tudo para mim é uma causa de espanto--e atravez d'este espanto presinto

ainda um espanto maior. Sinto-me como balouçado n'um sonho immenso. Ando

nas pontas dos pés. Mal ouso respirar no cantinho onde contemplo. E a

minha consciencia era um reflexo deste universo. Mas se tudo isto se

converte em forças, se arredo de vez a sombra temerosa, se tudo é acaso

no acaso, se nada existe, se é indiferente o que eu penso e o que tu

pensas, se só eu sou ao mesmo tempo o bem e o mal, a consciencia já não

é a mesma consciencia e a sentimentos novos corresponde uma consciencia

nova. Bem te procuro encontrar no fundo do meu sêr. Rebusco-te. Ás

vezes, nos momentos tragicos, já não é comtigo que eu deparo--é com

outro sêr que assiste sempre, como um espectador, a todos os meus

exageros. Deitavas-te comigo, levantavas-te comigo, ferrada como um

punhal--e não existias. Neguei-te. Expliquei-te. Reduzi-te ás tuas

verdadeiras proporções--e tu não existias! Atormentaste-me e fizeste-me

sofrer mesmo quando já comprehendera que não existias. E agora mesmo,

quando o universo é outro universo, ainda te encarniças sobre mim como

um phantasma.

Escusas de te rir--tu não existes. Dependias da morte, e o que eu tinha

na realidade era medo. Talvez medo para depois da morte--medo da minha

alma em frente da minha alma, medo de aparecer nu e com pustulas diante

do que é eterno. Carreguei-te como um fardo inutil. Põe-me a questão,

põe-me todas as questões que quizeres. Tenho diante de mim este mundo e

a voragem, este mundo e o nada. Não te metas de permeio, que já não tens

razão de ser. Seria mistificação sobre mistificação. Não me atrever

agora é absurdo. Porque, consciencia, o que importa é a parte

interior--é a verdade sós a sós comigo, fechado a sete chaves, e essa é

temerosa. Não tentes iludir-me. Não podes mentir a ti mesmo. Vê que

passaste a vida a conter o mal--e o mal fez parte, queiras ou não

queiras, da tua vida. O mal é pelo menos metade do teu sêr. Agora

sim--agora estou livre e atrevo-me. Para sempre livre da morte e livre

do tempo, calco-te aos pés. Nenhuma sujeição. Nenhum temor, nenhum

phantasma. Sem escrupulos! sem escrupulos! Uma força entre forças e mais

nada. O mundo pertence-me. Pertence-me e olho-o cara a cara sem desviar

o olhar. Sou a unica força consciente, sem palavras que me diminuam, nem

escrupulos que me contenham...

Agora fala! Aproveita o minuto unico, a infamia, o enxurro, o sabor a

fél e a lagrimas da vida, ou enfileira-te, se podes, no estupido

rebanho, e reentra na vida quotidiana, feita de pequeninas regras e

interesses. Vem-me um vomito: tenho vontade do fugir de mim e dos

outros: só o que é selvatico me interessa e acorda em mim sonho, perfume

e ferocidade... Quero saber o que me impede agora de matar, quero saber

o que me impede de olhar nos olhos o inferno, de seguir o instincto e de

obedecer ao impulso...

Humus · 第 29 / 83 题