O que eu tinha era medo. Medo da morte, medo da sombra. Só isto existia?
Quando tudo em mim me prégava que aproveitasse este momento, que deste
unico momento extrahisse tudo que elle me podia dar--alguma coisa me
detinha. Eras tu consciencia. E tu não existias! Fale a logica, fale a
razão, fale tambem o instincto... A consciencia é sempre religiosa. Mal
posso dar um passo no mundo sem tremer. O mundo é Deus, Deus rodeia-me.
Tudo para mim é uma causa de espanto--e atravez d'este espanto presinto
ainda um espanto maior. Sinto-me como balouçado n'um sonho immenso. Ando
nas pontas dos pés. Mal ouso respirar no cantinho onde contemplo. E a
minha consciencia era um reflexo deste universo. Mas se tudo isto se
converte em forças, se arredo de vez a sombra temerosa, se tudo é acaso
no acaso, se nada existe, se é indiferente o que eu penso e o que tu
pensas, se só eu sou ao mesmo tempo o bem e o mal, a consciencia já não
é a mesma consciencia e a sentimentos novos corresponde uma consciencia
nova. Bem te procuro encontrar no fundo do meu sêr. Rebusco-te. Ás
vezes, nos momentos tragicos, já não é comtigo que eu deparo--é com
outro sêr que assiste sempre, como um espectador, a todos os meus
exageros. Deitavas-te comigo, levantavas-te comigo, ferrada como um
punhal--e não existias. Neguei-te. Expliquei-te. Reduzi-te ás tuas
verdadeiras proporções--e tu não existias! Atormentaste-me e fizeste-me
sofrer mesmo quando já comprehendera que não existias. E agora mesmo,
quando o universo é outro universo, ainda te encarniças sobre mim como
um phantasma.
Escusas de te rir--tu não existes. Dependias da morte, e o que eu tinha
na realidade era medo. Talvez medo para depois da morte--medo da minha
alma em frente da minha alma, medo de aparecer nu e com pustulas diante
do que é eterno. Carreguei-te como um fardo inutil. Põe-me a questão,
põe-me todas as questões que quizeres. Tenho diante de mim este mundo e
a voragem, este mundo e o nada. Não te metas de permeio, que já não tens
razão de ser. Seria mistificação sobre mistificação. Não me atrever
agora é absurdo. Porque, consciencia, o que importa é a parte
interior--é a verdade sós a sós comigo, fechado a sete chaves, e essa é
temerosa. Não tentes iludir-me. Não podes mentir a ti mesmo. Vê que
passaste a vida a conter o mal--e o mal fez parte, queiras ou não
queiras, da tua vida. O mal é pelo menos metade do teu sêr. Agora
sim--agora estou livre e atrevo-me. Para sempre livre da morte e livre
do tempo, calco-te aos pés. Nenhuma sujeição. Nenhum temor, nenhum
phantasma. Sem escrupulos! sem escrupulos! Uma força entre forças e mais
nada. O mundo pertence-me. Pertence-me e olho-o cara a cara sem desviar
o olhar. Sou a unica força consciente, sem palavras que me diminuam, nem
escrupulos que me contenham...
Agora fala! Aproveita o minuto unico, a infamia, o enxurro, o sabor a
fél e a lagrimas da vida, ou enfileira-te, se podes, no estupido
rebanho, e reentra na vida quotidiana, feita de pequeninas regras e
interesses. Vem-me um vomito: tenho vontade do fugir de mim e dos
outros: só o que é selvatico me interessa e acorda em mim sonho, perfume
e ferocidade... Quero saber o que me impede agora de matar, quero saber
o que me impede de olhar nos olhos o inferno, de seguir o instincto e de
obedecer ao impulso...