O tabique cahiu, e contemplo a vida. Mas entre mim e mim interpõe-se um
muro. O drama não tem personagens nem gestos, nem regras, nem leis. Não
tem acção. Passa-se no silencio, despercebido, entre mim e mim. É um
debate perpetuo.
Que duvidas? Pois se a minha vida é esta e não há outra vida; se o
minuto é este e não há outro minuto, que força me póde deter para que eu
não realise o meu destino contra ti e contra todos?
Há um sêr que ocupa o meu sêr e me domina quer eu queira ou não queira.
Quem há ahi capaz de dizer que a mesma ideia o não persegue?--Se ella
morresse...--Arreda-a. Tambem eu. Mas saio d'isto aos gritos.
Esfacelado. Tenho por força de o admitir na minha companhia. Subjuga-me.
Peor: faz-me falta quando o não tenho ao pé de mim.
Talvez eu seja um sêr complexo, talvez os outros sejam tão complexos
como eu. Tudo me faz sofrer--mas metade do meu sofrimento é
representado. Tenho é certo duvidas--mas metade das minhas duvidas são
postiças. Hei de acabar por não crer em mim como não creio nos outros.
Eterna contradição de todo o teu sêr. Não sabes o que queres nem como o
queres. Não sabes no que crês nem no que não crês. És um impulso. Vaes
até á cóva levado por todos os ventos, sempre a barafustar sem sentido.
Explicas tudo, ignoras tudo, adivinhas tudo. És um mar d'inverno n'um
dia de verão.
Está tudo decidido--dizes--está tudo prompto. Só uma coisa me falta: pôr
isto em acção. E essa coisa, que é um nada, tem o infinito de comprido.
Desde que este phantasma se pôz a caminho nunca mais consegui detel-o.
Começa por uma idéa que afugento. Começa por um pensamento tenue, por
uma simples palavra que afasto.
Insiste. Há ainda dias em que discuto. E por fim domina-me, tem mais
vida que a minha vida, tem mais realidade, mais sonho e dôr, do que eu.
Assisto á sua acção e não o posso conter. Acaba por acampar entre os
destroços do meu sêr como um dominador.
Mas eu não o criei! não fui eu que o criei! Não só o não tolero como lhe
tenho horror. Mas para ser sincero devo dizer que há occasiões em que me
submeto com alegria. Para ser sincero até ao amago, devo dizer que
n'esta dôr, n'este desespero, é que me sinto inteiramente viver. Com
elle é que eu grito. Decerto eu não sou isto--não quero ser isto.
Tenho-te medo e pertenço-te. És a melhor e a peor parte do meu sêr.
Felizmente não vemos senão detalhes. Se alguem podesse encarar uma alma
até ás maiores profundidades, e vêr ao mesmo tempo de que ternura, de
que ancia, de que desespero e de que tempestades essa alma é capaz,
nunca mais podia desviar os olhos d'esse espectaculo. Fosse ella a minha
alma ou a tua alma. Era o mundo todo, era o universo. Era Deus.
Que posso eu contra a vida? E se me recuso, se lucto, que me espera? A
renuncia? A estupida renuncia, e cada minuto que passa me aproxima do
nada, me leva, queira ou não queira, para o nada? Na cóva, na podridão,
desfeito em pó, arrastado por todos os ventos, d'aqui a um seculo,
d'aqui a milhares de seculos, ainda todas as particulas do teu sêr, que
não soubeste impregnar de vida e alimentaste de simulacros, te hão de
prégar:--Estupido! estupido!
Remorsos? Eu não tenho remorsos. Duvidas? Eu não tenho duvidas. Desde
que te vi--vi o universo. Comprehendi tudo. Comprehendi que não tinha
vivido, e que toda a minha existencia tinha sido ficticia--que mais
valia um minuto na vida, que cem annos de vida. Que só há uma hora na
existencia e que é preciso aproveital-a. Que tudo é simulacro e só tu és
a verdade. E apercebi o universo como força e destino a tal
profundidade, que n'esse rapido segundo passou por mim n'uma rajada todo
o turbilhão da vida, com as suas vozes, os seus misterios e toda a sua
grandeza feroz. Vi tudo. Senti tudo. Bastou vêr-te. Portanto não tenho
duvidas nem remorsos. Ao contrario estou calmo, ao contrario estou
decidido.
Mas há uma coisa temerosa, uma coisa inexplicavel e immensa--um fio que
não posso cortar. Tenho a sensação de que, cortando-o, aniquilaria a
vida. Não a minha vida, que não importa--mas o que há de mais
extraordinario e de mais tenue na vida. Se houvesse Deus, diria que
aniquilaria Deus.
Há uma atmosphera de mentira que ninguem deve ultrapassar--há uma
atmosphera viva que todos nós respeitamos.
Mergulho. Mergulho mais fundo ainda e não encontro nada. E no entanto tu
existes. És muda e existes. Quando me imagino livre de ti, é que tu tens
mais força. Procuro explicar-te por palavras, por convenções, por regras
aprendidas, por habilidades... És muito maior do que eu.
Ponho o ouvido á escuta d'encontro ao mundo, ouço-me para dentro, para
surprehender as coisas fundamentaes que elle me ordena e são duas ou
tres simples, d'instincto e ferocidade. E além d'isso outra coisa
immensa--que não existe.
Como te chamas tu? E tu, dôr, como te chamas?