10 de janeiro

O tabique cahiu, e contemplo a vida. Mas entre mim e mim interpõe-se um

muro. O drama não tem personagens nem gestos, nem regras, nem leis. Não

tem acção. Passa-se no silencio, despercebido, entre mim e mim. É um

debate perpetuo.

Que duvidas? Pois se a minha vida é esta e não há outra vida; se o

minuto é este e não há outro minuto, que força me póde deter para que eu

não realise o meu destino contra ti e contra todos?

Há um sêr que ocupa o meu sêr e me domina quer eu queira ou não queira.

Quem há ahi capaz de dizer que a mesma ideia o não persegue?--Se ella

morresse...--Arreda-a. Tambem eu. Mas saio d'isto aos gritos.

Esfacelado. Tenho por força de o admitir na minha companhia. Subjuga-me.

Peor: faz-me falta quando o não tenho ao pé de mim.

Talvez eu seja um sêr complexo, talvez os outros sejam tão complexos

como eu. Tudo me faz sofrer--mas metade do meu sofrimento é

representado. Tenho é certo duvidas--mas metade das minhas duvidas são

postiças. Hei de acabar por não crer em mim como não creio nos outros.

Eterna contradição de todo o teu sêr. Não sabes o que queres nem como o

queres. Não sabes no que crês nem no que não crês. És um impulso. Vaes

até á cóva levado por todos os ventos, sempre a barafustar sem sentido.

Explicas tudo, ignoras tudo, adivinhas tudo. És um mar d'inverno n'um

dia de verão.

Está tudo decidido--dizes--está tudo prompto. Só uma coisa me falta: pôr

isto em acção. E essa coisa, que é um nada, tem o infinito de comprido.

Desde que este phantasma se pôz a caminho nunca mais consegui detel-o.

Começa por uma idéa que afugento. Começa por um pensamento tenue, por

uma simples palavra que afasto.

Insiste. Há ainda dias em que discuto. E por fim domina-me, tem mais

vida que a minha vida, tem mais realidade, mais sonho e dôr, do que eu.

Assisto á sua acção e não o posso conter. Acaba por acampar entre os

destroços do meu sêr como um dominador.

Mas eu não o criei! não fui eu que o criei! Não só o não tolero como lhe

tenho horror. Mas para ser sincero devo dizer que há occasiões em que me

submeto com alegria. Para ser sincero até ao amago, devo dizer que

n'esta dôr, n'este desespero, é que me sinto inteiramente viver. Com

elle é que eu grito. Decerto eu não sou isto--não quero ser isto.

Tenho-te medo e pertenço-te. És a melhor e a peor parte do meu sêr.

Felizmente não vemos senão detalhes. Se alguem podesse encarar uma alma

até ás maiores profundidades, e vêr ao mesmo tempo de que ternura, de

que ancia, de que desespero e de que tempestades essa alma é capaz,

nunca mais podia desviar os olhos d'esse espectaculo. Fosse ella a minha

alma ou a tua alma. Era o mundo todo, era o universo. Era Deus.

Que posso eu contra a vida? E se me recuso, se lucto, que me espera? A

renuncia? A estupida renuncia, e cada minuto que passa me aproxima do

nada, me leva, queira ou não queira, para o nada? Na cóva, na podridão,

desfeito em pó, arrastado por todos os ventos, d'aqui a um seculo,

d'aqui a milhares de seculos, ainda todas as particulas do teu sêr, que

não soubeste impregnar de vida e alimentaste de simulacros, te hão de

prégar:--Estupido! estupido!

Remorsos? Eu não tenho remorsos. Duvidas? Eu não tenho duvidas. Desde

que te vi--vi o universo. Comprehendi tudo. Comprehendi que não tinha

vivido, e que toda a minha existencia tinha sido ficticia--que mais

valia um minuto na vida, que cem annos de vida. Que só há uma hora na

existencia e que é preciso aproveital-a. Que tudo é simulacro e só tu és

a verdade. E apercebi o universo como força e destino a tal

profundidade, que n'esse rapido segundo passou por mim n'uma rajada todo

o turbilhão da vida, com as suas vozes, os seus misterios e toda a sua

grandeza feroz. Vi tudo. Senti tudo. Bastou vêr-te. Portanto não tenho

duvidas nem remorsos. Ao contrario estou calmo, ao contrario estou

decidido.

Mas há uma coisa temerosa, uma coisa inexplicavel e immensa--um fio que

não posso cortar. Tenho a sensação de que, cortando-o, aniquilaria a

vida. Não a minha vida, que não importa--mas o que há de mais

extraordinario e de mais tenue na vida. Se houvesse Deus, diria que

aniquilaria Deus.

Há uma atmosphera de mentira que ninguem deve ultrapassar--há uma

atmosphera viva que todos nós respeitamos.

Mergulho. Mergulho mais fundo ainda e não encontro nada. E no entanto tu

existes. És muda e existes. Quando me imagino livre de ti, é que tu tens

mais força. Procuro explicar-te por palavras, por convenções, por regras

aprendidas, por habilidades... És muito maior do que eu.

Ponho o ouvido á escuta d'encontro ao mundo, ouço-me para dentro, para

surprehender as coisas fundamentaes que elle me ordena e são duas ou

tres simples, d'instincto e ferocidade. E além d'isso outra coisa

immensa--que não existe.

Como te chamas tu? E tu, dôr, como te chamas?

Humus · 第 27 / 83 题